Esse país precisa de valor agregado

Dia desses eu estava numa sala de espera qualquer, folheando uma revista Isto É do ano passado, e meus olhos se depararam com uma notinha sobre a possível compra de helicópteros russos pela FAB. Em troca dos aparelhos, segundo o texto, o Brasil venderia à Rússia carne de frango e de porco.

É aqui o ponto exato em que a gente aperta stop, volta a fita (lembram do tempo em que se voltava a fita?) e repete o período anterior, para ter certeza de que não houve nenhum engano: em troca dos aparelhos, o Brasil venderia à Rússia carne de frango e de porco.

Vamos usar uma figurinhas, para facilitar a compreensão da coisa toda.

Produto oferecido pela Rússia (uma ex-ditadura-comunista-atrasada-e-falida):

Helicópteros Mi-17 (foto encontrada neste fórum)

Produto oferecido pelo Brasil (se você for vegetariano, feche esta janel… ops, agora você já viu):

Animais mortos (foto tirada daqui)

Qual destes produtos tem mais valor agregado?

O valor agregado, como vocês bem sabem, é matéria-prima + trabalho + tecnologia/know-how. Pode-se vender porcos vivos por um preço X, ou então vender carne de porco in natura por 2X, espetinhos de carne de porco por 3X, pratos chiques à base de carne de porco por 10X, etc.

O trabalho e o conhecimento agregam valor, e quanto mais conhecimento (tecnologia) utilizamos para transformar as coisas, mais qualificado é o nosso trabalho e maior será a nossa recompensa. O que vale mais,  uma tonelada de aço puro ou uma tonelada de aço na forma de geladeiras, fogões e automóveis?

Há nações que se especializaram em agregar valor aos seus produtos. Israel, por exemplo. Eles têm um territoriozinho árido, cheio de pedregulhos e rodeado de vizinhos hostis, mas estão entre os três países que mais registram patentes no mundo. Tudo porque eles não têm mentalidade de jeca, como os nossos dirigentes. Que poderiam fazer lá? Plantar cana-de-açúcar? Criar cabras? Claro que não. Os judeus investiram em alta tecnologia e hoje exportam produtos e know-how para o mundo inteiro.

Dia desses, achei na internet um desses prognósticos de agências de classificação de risco, sobre o futuro da economia. O texto dizia que as maiores potências do mundo, em 2050, serão China, Índia e Brasil, e afirmava que os dois primeiros se destacarão pela indústria, e o Brasil pela produção de alimentos e combustíveis.

O quê? Então, estamos condenados a ser o celeiro do mundo? Enquanto chineses e indianos estiverem produzindo automóveis, aviões e computadores, nós seremos um gigantesco curral? Nosso território será uma descomunal lavoura de cana cultivada por milhões de bóias-frias alegremente engajados na produção de biocombustíveis em escala global?

Não creio em determinismos, mas creio na burrice humana. Nós temos nossas chances e desperdiçamos quase todas – por burrice de uns e má-fé de outros. Há pouco, tivemos a oportunidade de dar um passo à frente, com a questão da TV digital. Nossas universidades e técnicos formaram uma rede de pesquisa integrada, visando a desenvolver um padrão nacional.

O resultado foi um sistema tupiniquim que não chegou a ser concluído mas que seria, segundo os entendidos, o melhor. Na hora de tomar a decisão, entretanto, o governo da companheirada escolheu, por canetaço seu e por pressão das emissoras, o padrão japonês, que é bom para a única coisa que interessa às redes: inserir propaganda/venda direta na programação. Traduzindo: por submissão do governo às redes de TV, jogamos no lixo uma chance de ouro de nos tornarmos exportadores de tecnologia e um pólo de produção de microchips. Pra que produzir microchips, se criar porcos é mais fácil?

Somos mesmo uma República de Bananas. Ou, como disse o Cardoso, nem isso mais podemos ser, pois já fomos passados para trás até no setor primário.

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