até quando contarei histórias assim?

[postado originalmente em 14 de agosto de 2012, num blogue que deixou de existir – antes de ir praquele falecido blogue, o texto foi censurado no jornal onde eu trabalhava]

Era quase 0h de uma fria noite de junho quando o nosso carro chegou ao maior hospital de Porto Alegre e do Estado. Na entrada da emergência pediátrica, dezenas de pessoas vibraram quando viram o logotipo do jornal na porta do automóvel.

Quando descemos do carro, eu e o fotógrafo Jean Schwarz fomos abordados por vários homens e mulheres, alguns com crianças pequenas no colo, que despejaram sobre nós uma torrente de queixas e protestos, todos gritando ao mesmo tempo.

— É um absurdo!

— Tô com a minha mulher grávida de oito meses ali!

— Uma menina engoliu uma moeda e ainda não foi atendida!

Alvoroçado com a presença da imprensa, um grupo começou a ensaiar palavras de ordem.

— Queremo atendimento! Queremo atendimento! — gritavam alguns, em uníssono.

Aquelas pessoas, algumas havia mais de oito horas na fila de espera, acreditavam que poderíamos ajudá-las a conseguir uma consulta médica. Acreditavam que a simples presença de repórteres destravaria as engrenagens enferrujadas de um sistema de saúde agonizante e permitiria que elas e seus filhos pudessem sentar diante de um médico. Estavam nos pedindo mais do que podíamos lhes dar.

Eu tinha nas mãos apenas um bloco de anotações e uma caneta e Jean, uma câmera fotográfica. Eram nossas únicas armas para combater o mal crônico que aflige o nosso sistema de saúde. Como poderíamos ajudar aquelas pessoas?

A nós, cabia cumprir o papel social da imprensa: tornar pública aquela triste situação. Contar a história daquelas pessoas.

Pessoas como a pequena alvoradense Isadora, de três meses, que, com febre e sintomas de gripe, aguardava uma consulta médica desde as 18h, sem entender o que se passava enquanto seu pai, o classificador de metais Carlos Alberto Araújo da Silva, pedia ajuda a um repórter que nada sabe de medicina.

Pessoas como o funcionário do hospital que não quis se identificar e que veio até mim apenas para dizer que não era autorizado a dar entrevistas e que eu deveria ligar para a assessoria de imprensa da instituição — e que depois voltou para o saguão sob uma saraivada de ofensas e palavrões.

Em meio à gritaria e aos impropérios dirigidos aos funcionários, procurei um lugar um pouco mais calmo, peguei um telefone celular e liguei para a assessoria de imprensa.

Da rua, contemplando o sofrimento de homens, mulheres e crianças, falei, por telefone, com um assessor daquele hospital que estava a poucos metros de mim. Ele me passou a posição oficial da instituição. Disse que todas as emergências de todos os hospitais estão enfrentando superlotação. Disse que a maioria daqueles pacientes não são casos de emergência e que, portanto, deveriam ser atendidos em postos de saúde. Disse, por fim, que o atendimento continuará, do jeito que for possível, na emergência pediátrica — mas fez uma ressalva: o atendimento continuará se os pais dos pacientes souberem se comportar.

Os funcionários do hospital estão com medo, me disse o assessor. Eu também estaria, no lugar deles. Desesperados com a demora e com a falta de perspectiva de atendimento para os seus filhos doentes, muitos pais e mães se exaltam, ofendem e ameaçam trabalhadores que não têm culpa pela falta de médicos e de leitos.

Momentos antes da nossa chegada à emergência pediátrica, uma viatura da Brigada Militar tinha saído de lá. Os policiais foram acionados por funcionários que temiam pela própria segurança, diante de pais e mães tão exaltados. Foi justamente uma dessas mães desesperadas que ligou para a redação do jornal, quando os policiais militares chegaram à emergência, para nos avisar do problema.

Aquela não tinha sido a primeira ligação da noite. Eu mesmo tinha atendido, horas antes, pelo menos outras duas pessoas que estavam em situações semelhantes: uma no mesmo hospital da Capital e outra, em Gravataí.

Dois dias antes, em Viamão, uma jovem de 18 anos havia sido presa depois de depredar o hospital da cidade e agredir dois seguranças.

A espera por um sistema de saúde mais eficiente e mais universal parece não ter fim. Eu, como repórter, espero o dia em que poderei contar um outro tipo de história, uma história em que menininhas de três meses não precisem passar horas e horas com febre em um saguão de hospital.

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