Os Mutantes – a melhor coisa que a Record já criou

mutantes

Devo ter sido a última pessoa do mundo a descobrir Os Mutantes – Caminhos do Coração, da Rede Record do Reino de Deus, e preciso confessar que estou viciado.

A novela já nasceu como clássico. Clássico trash. É daquelas produções que, de tão ruins, tornam-se excelentes (mas só se você souber apreciá-las com o estado de espírito adequado).

Faz poucos dias que assisto, religiosamente, e, mesmo adorando, ainda não entendi lhufas. Existem umas mil tramas paralelas, terrivelmente mal amarradas.

A sopa de letrinhas contém ingredientes de todo tipo de mito, fábula, série de TV, lenda e filme de ficção científica. É um cozido de intermináveis referências pop, selecionadas a esmo, sem qualquer critério aparente, o que só aumenta a graça.

A trama traz X-Men mutantes com super-poderes, vampiros, imbecis vestidos com roupas que misturam as indumentárias Hobbit e Jedi, mocinhas usando capas da invisibilidade, um robô copiado de “Eu, Robô”, cartomantes e magos, bebês sagrados, um John Connor viajante do tempo que volta ao passado para evitar que seus pais sejam mortos, uma mulher biônica, uma polícia especial chamada Depecom (que caça mutantes do mal), uma ilha de Lost, uma Liga do Bem, uma espada Excalibur, um cetro do poder, alienígenas reptilianos, uma sereia que canta (!!!) e até um paspalho permanentemente vestido de músico peruano.

Incrível. Não é à toa que eu nunca entendo o que está acontecendo.

O texto é um primor. O autor, Tiago Santiago, já é um dos meus ídolos. São tantos clichês, tantos chavões, tantas frases épicas, que a média de gargalhadas da audiência é de uma a cada 2,6 frases.

Pérolas como “Se forem reptilianos, vocês escolheram o homem errado. Eu sou o Pai da Humanidade”, “Devolva-me o cetro do poder”, “Cala a boca, sua Lata de Sardinha” e “Eu senti através dos meus poderes” são deliciosas de se ouvir, principalmente quando ditas por péssimos atores, que, aliás,  superpovoam a novela.

O elenco é algo digno de menção honrosa. São dezenas de fracassados globais, ex-iniciantes-com-futuros-promissores e desconhecidos igualmente desprovidos de talento. Muitos são canastrões, outros são apenas ruins, mesmo. A pior de todas, com larga vantagem, é a magnífica, a fantástica, a fabulosa Bianca Rinaldi, uma atriz (sic) que consegue proezas como dizer “Eu te amo” com cara de “Tô com uma coceira na bochecha…” e “Vou te matar” com cara de “Putz, onde esqueci o meu haxixe?” O mais divertido é que há duas dela – irmãs gêmeas, uma boa e outra má, igualmente canastras, o que não poderia faltar em qualquer obra-prima do gênero.

bianquinhaLa Rinaldi em uma de suas primorosas atuações

Há ainda saudosos sobreviventes dos últimos expurgos  da Globo: Raul Gazola, Cláudio Heinrich, Felipe Folgosi, Taumaturgo Ferreira, André Di Biase (pô, o cara era o Lula do Juba & Lula e agora tá sempre vestido de Tom Jobim), Patrícia Travassos e outros de nível semelhante, para deleite dos espectadores.

teofilo
Teófilo (Zé Dumont): Pai da Humanidade e Rei dos Canastrões

Porra, até o Nino do Castelo Rá-Tim-Bum tá nos Mutantes! Tem como não assistir a um programa desses? Espero que a Record tenha tino comercial suficiente para continuar por vários anos e, depois, vender os boxes das temporadas. Se fizerem isso, vocês já sabem o que me dar no Natal.

[O post foi atualizado]

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