kafkianas #004

O modelo de cidade que os porto-alegrenses (ou, pelo menos, 65% deles) escolheram construir:

Relato do Diego Bregolin:

“Fui ali no Cais Maua fazer umas imagens… na entrada uma rapaz disse:
— aqui é proibido fotografar!
— por que?
— a área foi concedida!
— pra quem?
— para a Cais Maua do Brasil!
— empresa daqui?
— do Rio de Janeiro!
— o que vão fazer?
— a obra de revitalização! falta só uma licença pra poder começar! “nós” pretendemos entregar ao público dentro de um ano e meio!
— vc trabalha pra eles?
— sim… uma terceirizada!
— ok, vou ali no catamarã… posso?
— mas nada de fotos dos prédios!
— passarinho pode?
— pode…”

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pílulas de absurdol #009

Aí tu pensa: o bom de andar de ônibus quando a Protásio ta trancada é que ele vai pelo corredorNÃO, PERA, o ônibus disputa espaço com os carros porque a construtora contratada pelo Fortunati ta refazendo a obra mal feita do corredor pela oitava vez.

Valeu, prefeito!

O espaço dado aos ato anti e pró impeachment pelos jornais impressos de Porto Alegre

No dia 13/12/2015, grupos favoráveis ao impeachment da presidente Dilma realizaram manifestações em diversas cidades do país. Em 16/12, foi a vez de grupos contrários ao impeachment irem às ruas.

Veja o espaço dado aos atos nas edições de três jornais impressos de Porto Alegre no dia seguinte a cada ato.

14/12 – Cobertura dos atos pró-impeachment

Zero Hora

IMG_20151217_084008924Manchete + foto de capa. Mesmo que a manchete destaque a redução em relação a protestos anteriores, a foto dá ideia de grande público. E o simples fato de a pauta virar ao mesmo tempo manchete e foto de capa indica o quanto o jornal valorizou (ou “deu solenidade”, como dizem os editores desse veículo) o fato.

IMG_20151217_084027089Duas páginas inteiras (mais uma terceira com análise) na abertura (no “abre”) da editoria de Notícias, ou seja, no espaço mais nobre da editoria. Novamente, o título cita o encolhimento dos protestos mas as fotos, em enquadramentos que valorizam a multidão, contradizem o enunciado.

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Correio do Povo

correio antidilmaFoto de capa. Chamada neutra.

correio antidilma 2Matéria pequena, com foto, título neutro.

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Jornal do Comércio

jc antidilmaFoto de capa, secundária, com chamada destacando a perda de força do ato.

jc antidilma 2Matéria+retranca ocupam quase uma página. O título destaca a perda de força dos atos, e a foto concorda com o título.

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17/12 – Cobertura dos atos anti-impeachment

Zero Hora

zh pro dilma capa

Nenhuma chamada de capa.

zerohora pro dilma 2Matéria de duas colunas escondida nos confins da editoria de Notícias, ao lado de um anúncio de três colunas. Chamada neutra. Foto em enquadramento que dá a entender que o ato foi menor que o de domingo.

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Correio do Povo

correio pró-dilma

Foto de capa, com chamada neutra (equilíbrio em relação à cobertura dos atos de domingo).

correio pró-dilma 2

Matéria pequena, com equilíbrio em relação à cobertura de domingo.

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Jornal do Comércio

jcNenhuma chamada de capa.

JC pro dilmaMatéria pequena, com chamada neutra.

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Amigos jornalistas provavelmente justificariam as escolhas editoriais dizendo que a edição de segunda-feira tradicionalmente tem menos acontecimentos relevantes que a de quinta-feira, por ser feita no domingo, e que na quarta houve muitos fatos que se impuseram e tiraram espaço da cobertura das manifestações etc etc etc. Só uma pergunta: se fosse o inverso, se as manifestações anti-impeachment tivessem sido realizadas no domingo e as pró-impeachment na quarta, você acha que esses jornais cobririam os acontecimentos do mesmo jeito?  Deixariam de dar chamada/foto de capa para a manifestação pelo impeachment? 

viagem à porto alegre de 2114

[publicado originalmente em 17 de abril de 2014, num blogue que deixou de existir]

Num entardecer de por do sol particularmente lindo, dada a nuvem de poluição de milhares e milhares de carros e ônibus semiparados – como virou praxe no trânsito de Porto Alegre -, uma mistura acidental de gases de escapamento, vapores de churrasquinho de gato e fedor de mijo das calçadas me entra pelas narinas e leva-me ao transe místico. Abro os olhos e descubro que viajei ao futuro. E, como é próprio das epifanias induzidas pelo bodum da cidade, tenho total ciência dos acontecimentos a minha volta.

De repente, me vejo na Porto Alegre de 2114 – é, por coincidência, ano de Copa do Mundo, mas esta não será no Brasil. O torneio deste ano ocorre na Bélgica, e o próximo Mundial, esse sim, será aqui. Porto Alegre está na expectativa de se tornar uma das cidades-sede do certame de 2118, o que dá novo ânimo aos empreiteiros que ainda não concluíram as obras estruturais da Copa de 2014, realizada há exatos cem anos. Os canteiros tinham sido abandonados oficialmente em 2075, mas o anúncio do Mundial motivou novos contratos e a prefeitura promete uma revolução nas estruturas da cidade para meados de 2118.

Andam dizendo que o prefeito, Jotair Peçanha, do PQP, conseguirá a indicação à reeleição, mas isso dependerá, é claro, dos valores dos contratos para as obras da próxima Copa. Há pouco mais de 20 anos, os presidentes das grandes empreiteiras, empresas de transporte e associações comerciais de Porto Alegre cansaram da ineficácia do poder público, que já estava indiretamente em suas mãos, e decidiram apertar um pouco mais as rédeas. Concluíram que gastavam dinheiro demais financiando simultaneamente todas as campanhas e resolveram otimizar o processo. Agora, o candidato a prefeito, que sempre concorre em chapa única, é escolhido em reunião prévia dos empresários – e uma cláusula contratual prevê o seu impeachment caso descumpra o plano de governo costurado pelas empresas. O mesmo ocorre com a nominata da Câmara de Vereadores, embora neste caso seja permitido o registro de até duas candidaturas de partidos de esquerda, para manter as aparências.

Desço do ônibus e ando alguns passos até uma estação de aluguel de carros. Não quero correr o risco de caminhar e ser multado ou preso por um azulzinho. Desde 2062, é proibido se locomover pelas ruas de Porto Alegre a pé ou de bicicleta. E até andar de ônibus não é considerado de bom tom, embora não resulte em sanção. Com a nova lei, o planejamento urbano pôde enfim se libertar das amarras e focar-se exclusivamente nas necessidades dos motoristas. Isso levou a algumas mudanças drásticas na paisagem urbana.

Em 2088, foi concluída a grande obra de drenagem do Lago Guaíba, que precisou ser transformado em estacionamento. Como o trânsito está constantemente congestionado no resto da cidade, muitos motoristas usam o Guaíba também como avenida para ir do Centro Shopping à Zona Sul e vice-versa, uma prática tolerada apesar de proibida. Os azuizinhos fazem vista grossa e não multam os infratores, desde que a locomoção ocorra de carro e não a pé ou de bicicleta. Isso sim não é perdoado.

Chego, enfim, aos arredores do Centro Shopping e estaciono o carro alugado numa vaga do Guaíba. Maior obra da história da cidade, o grande distrito administrativo e comercial é o único lugar de Porto Alegre onde é permitido andar a pé – pelo menos até 2130, quando os empresários esperam concluir a adaptação de todas as lojas e escritórios ao sistema drive-thru. Sua construção foi uma exigência dos cidadãos de bem da Capital, que queriam uma revitalização mais efetiva da área central da cidade desde o Grande Massacre de Estudantes de 2045.

Confinado em uma redoma de vidro climatizada, o antigo Centro Histórico foi totalmente higienizado e restaurado e está registrado no Guinness Book como maior shopping center do mundo – abrangendo uma área que vai do Parque da Redenção à Usina do Gasômetro, das rebarbas do bairro Floresta à Cidade Baixa. Livre dos moradores de rua, vendedores ambulantes e rios de mijo que caracterizavam a área antes da Grande Revitalização, o Centro Shopping agora é frequentado por pessoas de bem nas 24 horas do dia – e a entrada de elementos fichados no Departamento Municipal de Combate à Contestação é estritamente proibida, para evitar depredações.

É por isso que não me deixam entrar. Ao mostrar minha identidade no guichê, ouço do atendente que o meu nome está no banco de dados de contestadores da prefeitura. Retruco que isso não é possível – mal sabe ele que eu sequer existo neste universo de 2114 -, mas ele garante que eu estou fichado no DMCC como “dono de blog com viés de esquerda”. E todos sabem que a entrada de blogueiros de esquerda no Centro Shopping é proibida desde 2100.

É nesse momento que acordo do transe e estou de novo em 2014, de novo preso no trânsito aleijado de uma Porto Alegre suja, paralisada e mal coordenada, com a tristeza de quem não sabe quando tudo isso vai ter fim.

em defesa do dedo no olho

[publicado originalmente em 28 de março de 2013, num blogue que deixou de existir]

E o debate sobre o protesto contra o aumento da passagem que acabou em pancadaria em frente à prefeitura de Porto Alegre enveredou para a discussão da legitimidade da violência física — com uma pitada de crítica à suposta partidarização da manifestação.

É o velho argumento do “não vale dedo no olho”. Para o senso comum, não importa a intenção do movimento: se partiu para as vias de fato, “perdeu a razão”. Se tem bandeira de partido no meio, “perdeu a razão”. Se disse palavrão, “perdeu a razão”. Se bloqueou a rua e me fez esperar uma hora a mais para chegar em casa, “perdeu a razão”. O importante é achar o atalho mais curto para desqualificar os manifestantes e jogá-los no lixo junto com a sua causa.

Resume-se todo o conceito de “violência” à violência física. Ignorando que existe violência simbólica, violência econômica, violência institucional, condena-se, nesse cenário de várias violências, apenas a única forma de violência com que os violentados pelo sistema podem revidar — e alguns leitores dirão que eu, aqui, “perdi a razão” ao usar a expressão “violentados pelo sistema”, um clássico chavão da esquerdalha.

Outro argumento muito repetido ontem foi: “isso não vai baixar o valor da passagem”. É bem provável que realmente não baixe. Mas ficar em silêncio também não baixa, erguer faixa de protesto também não baixa, reclamar nas redes sociais também não baixa. Ontem mesmo, passando de ônibus pela Avenida Protásio Alves, li a seguinte frase pichada em um prédio: “2,70 é roubo!”. Uma pichação contra o aumento de dois anos atrás! Todo ano tem protesto e os aumentos seguem sem justificativa, o Conselho Municipal de Transporte segue funcionando alegremente a despeito de sua representatividade não corresponder à real configuração social de Porto Alegre, o transporte público da cidade continua funcionando sem licitação, as empresas continuam prestando um serviço de qualidade inversamente proporcional ao aumento da tarifa. Então, o que fazer para reverter esse ciclo de VIOLÊNCIA contra o cidadão?

Ninguém em sã consciência espera que a saída seja indolor. Os manifestantes que bloqueiam uma avenida não querem que as pessoas gostem de ficar paradas no trânsito. O objetivo é justamente causar desconforto. Eu também não gosto de ficar trancado no trânsito. Mas, quando isso acontece, a minha raiva não se volta contra os manifestantes, e sim contra os responsáveis pela violência originária que motivou o protesto: seja uma negociação salarial desfavorável aos trabalhadores, seja um aumento de R$ 0,20 no valor de uma passagem que deveria BAIXAR em vez de subir, segundo os cálculos atualizados.

Mas vivemos uma era de individualismo e fatalismo. Um tempo em que quem interfere no meu direito de chegar cedo em casa “perde a razão”, qualquer que seja a sua reivindicação. Um tempo em que ninguém se importa com a privatização ou a degeneração dos espaços públicos, pois, afinal, pra que espaço público se ninguém quer encontrar o Outro na rua e conviver com ele?

Nessa era de individualismo e fatalismo, quem se levanta contra a violência simbólica e econômica “perde a razão”, torna-se o vilão. Esquecemos a História. Esquecemos que muitos dos hoje heróis foram considerados arruaceiros em seu próprio tempo. Não sei o que acontecerá quando a nossa própria era for colocada em perspectiva pelos pósteros. Espero que não entremos para a história como “aqueles bundões do século 21”.

P.S. 1: Ontem, durante as altercações, vi, no Twitter, várias manifestações dizendo que “quebraram tudo e a Brigada Militar não fez nada”. O que queriam que a Brigada fizesse? Entre ver quebrados vidros da prefeitura e cabeças de jovens manifestantes, prefiro que se quebrem os vidros.

P.S. 2: Não estou defendendo agressão física de pessoas. Sou, apesar de tudo, um pacifista e condeno que se espanque, se torture ou se assassine qualquer pessoa, independente do lado em que ela está. Li, via Twitter, que um repórter apanhou. Se isso deveras aconteceu, foi um erro que não consigo defender.

até quando contarei histórias assim?

[postado originalmente em 14 de agosto de 2012, num blogue que deixou de existir – antes de ir praquele falecido blogue, o texto foi censurado no jornal onde eu trabalhava]

Era quase 0h de uma fria noite de junho quando o nosso carro chegou ao maior hospital de Porto Alegre e do Estado. Na entrada da emergência pediátrica, dezenas de pessoas vibraram quando viram o logotipo do jornal na porta do automóvel.

Quando descemos do carro, eu e o fotógrafo Jean Schwarz fomos abordados por vários homens e mulheres, alguns com crianças pequenas no colo, que despejaram sobre nós uma torrente de queixas e protestos, todos gritando ao mesmo tempo.

— É um absurdo!

— Tô com a minha mulher grávida de oito meses ali!

— Uma menina engoliu uma moeda e ainda não foi atendida!

Alvoroçado com a presença da imprensa, um grupo começou a ensaiar palavras de ordem.

— Queremo atendimento! Queremo atendimento! — gritavam alguns, em uníssono.

Aquelas pessoas, algumas havia mais de oito horas na fila de espera, acreditavam que poderíamos ajudá-las a conseguir uma consulta médica. Acreditavam que a simples presença de repórteres destravaria as engrenagens enferrujadas de um sistema de saúde agonizante e permitiria que elas e seus filhos pudessem sentar diante de um médico. Estavam nos pedindo mais do que podíamos lhes dar.

Eu tinha nas mãos apenas um bloco de anotações e uma caneta e Jean, uma câmera fotográfica. Eram nossas únicas armas para combater o mal crônico que aflige o nosso sistema de saúde. Como poderíamos ajudar aquelas pessoas?

A nós, cabia cumprir o papel social da imprensa: tornar pública aquela triste situação. Contar a história daquelas pessoas.

Pessoas como a pequena alvoradense Isadora, de três meses, que, com febre e sintomas de gripe, aguardava uma consulta médica desde as 18h, sem entender o que se passava enquanto seu pai, o classificador de metais Carlos Alberto Araújo da Silva, pedia ajuda a um repórter que nada sabe de medicina.

Pessoas como o funcionário do hospital que não quis se identificar e que veio até mim apenas para dizer que não era autorizado a dar entrevistas e que eu deveria ligar para a assessoria de imprensa da instituição — e que depois voltou para o saguão sob uma saraivada de ofensas e palavrões.

Em meio à gritaria e aos impropérios dirigidos aos funcionários, procurei um lugar um pouco mais calmo, peguei um telefone celular e liguei para a assessoria de imprensa.

Da rua, contemplando o sofrimento de homens, mulheres e crianças, falei, por telefone, com um assessor daquele hospital que estava a poucos metros de mim. Ele me passou a posição oficial da instituição. Disse que todas as emergências de todos os hospitais estão enfrentando superlotação. Disse que a maioria daqueles pacientes não são casos de emergência e que, portanto, deveriam ser atendidos em postos de saúde. Disse, por fim, que o atendimento continuará, do jeito que for possível, na emergência pediátrica — mas fez uma ressalva: o atendimento continuará se os pais dos pacientes souberem se comportar.

Os funcionários do hospital estão com medo, me disse o assessor. Eu também estaria, no lugar deles. Desesperados com a demora e com a falta de perspectiva de atendimento para os seus filhos doentes, muitos pais e mães se exaltam, ofendem e ameaçam trabalhadores que não têm culpa pela falta de médicos e de leitos.

Momentos antes da nossa chegada à emergência pediátrica, uma viatura da Brigada Militar tinha saído de lá. Os policiais foram acionados por funcionários que temiam pela própria segurança, diante de pais e mães tão exaltados. Foi justamente uma dessas mães desesperadas que ligou para a redação do jornal, quando os policiais militares chegaram à emergência, para nos avisar do problema.

Aquela não tinha sido a primeira ligação da noite. Eu mesmo tinha atendido, horas antes, pelo menos outras duas pessoas que estavam em situações semelhantes: uma no mesmo hospital da Capital e outra, em Gravataí.

Dois dias antes, em Viamão, uma jovem de 18 anos havia sido presa depois de depredar o hospital da cidade e agredir dois seguranças.

A espera por um sistema de saúde mais eficiente e mais universal parece não ter fim. Eu, como repórter, espero o dia em que poderei contar um outro tipo de história, uma história em que menininhas de três meses não precisem passar horas e horas com febre em um saguão de hospital.

cestas básicas, asfalto, pé no barro e mudez

[postado originalmente em 3 de outubro de 2012, num blogue que deixou de existir]

E agora, a poucos dias das eleições, começam a pulular denúncias de compra de votos em diversas cidades gaúchas. Algumas a imprensa publica, outras a imprensa ignora e eu me sinto, cada vez mais, um náufrago afundando em um mar de pus.

Hoje, na Rádio Gaúcha, após a veiculação de uma notícia sobre crime eleitoral em São José do Ouro, o comentarista Cláudio Brito perguntou, retoricamente: “Será que é só em São José do Ouro que ocorre compra de votos?”

Sei que sua pergunta foi retórica, Cláudio, mas respondo: não, não é. A pilantragem está instaurada, é um esquema com muito mais cúmplices do que vítimas, praticamente todo mundo sabe disso e ninguém move um dedo para impedir que essa máfia continue elegendo os seus beleguins e comprando votos e perpetuando a sua escandalosa usurpação da coisa pública.

Há duas semanas, falei com meu tio Rogério, que trabalha como açougueiro na Vila São Martim, em São Sebastião do Caí, e ele disse: “Até um mês depois das eleições, nenhum mercado vende um quilo de arroz na São Martim, pois tá todo mundo com os armários cheios de comida dada pelos candidatos”.

Cresci em São Sebastião do Caí e sei que a compra de votos é algo comum e disseminado no município. Votar em troca de favores ou de produtos é uma prática entalhada no DNA político da minha cidade. E, pelo que vejo e ouço, no de todas as outras.

O mais absurdo é que todo mundo sabe disso. Haveria farto material para ilustrar dezenas de reportagens sobre crimes do tipo. Mas, como jornalista, acabo com as mãos atadas pelas rotinas jornalísticas (necessidade de fontes, comprovação palpável, contrapontos etc) e pelas salvaguardas jurídicas necessárias para impedir que os bandidos que pretendo denunciar acabem processando a mim e ao veículo que me emprega — e usando a Justiça que deveria colocá-los na cadeia para arrancar ainda mais dinheiro de outras pessoas.

E é por isso, entre outros motivos, que deixamos de publicar barbaridades que poderiam ajudar, nem que fosse um pouquinho, a diminuir as maiúsculas votações desses crápulas — se é que ainda existe algum (e)leitor que se importe com a moralidade dos representantes que elege.

E é assim que, mesmo com as pregas vocais intactas, acabo prisioneiro de uma mudez que me impede de gritar e denunciar absurdos e mais absurdos que leitores me relatam diariamente (eles recorrem a mim porque acham que a minha voz pode soar mais alto que a deles, veja só que ingênuos).

Mas a nossa mudez está longe de se restringir à compra de votos. Hoje, quando eu voltava do trabalho ouvindo a Rádio Gaúcha, uma reportagem mostrou que essa é uma situação bem mais complexa e com muito mais nuances.

Um repórter foi a uma vila de Porto Alegre — onde um beco teria sido asfaltado a mando de um candidato a vereador em troca de votos e da colocação de placas do referido candidato em frente às casas.

Lá, um dos moradores ameaçou esse jovem repórter. Tudo gravado e transmitido pela rádio. O homem disse ao jornalista para não fotografar a placa em frente a sua casa, ou haveria represálias.

Até aí, parecia a típica dicotomia brutamontes x mocinho, selvagem x civilizado; afinal, um bárbaro inculto prometia, diante de um gravador ligado, agredir um representante da imprensa que fazia uma denúncia de crime eleitoral. Era um cúmplice de compra de votos tentando intimidar um arauto da Verdade.

Foi então que aquele homem disse algo que me deixou assombrado: “Tem que entrar aqui quando estamos pisando no barro!”

Nocaute!

Aquele bárbaro inculto pisava, enquanto ameaçava o repórter, em uma via pavimentada. Precariamente pavimentada, mas ainda assim pavimentada. Aquele beco que antes obrigava os moradores a pisar na lama está agora com uma camada improvisada de asfalto.

E onde estávamos nós, jornalistas, quando aquela gente sujava os pés toda vez que saía de casa?

Há muitas barbaridades por aí, além da compra de votos, barbaridades que ocorrem em outras épocas além do período eleitoral.

Há pessoas que viajam espremidas em ônibus lotados, muitas vezes, como em finais de semana e feriados, depois de uma longa espera no ponto. Você já passou quarenta minutos esperando um ônibus e suportando a chuva e o frio do inverno gaúcho, leitor? Eu já, e sei que não é nada agradável. Muita gente passa por isso regularmente — e o que fazemos nós, jornalistas?

Há pessoas, como o porto-alegrense que ameaçou o repórter da Rádio Gaúcha, que moram em becos sem nome, onde sobra poeira nos dias secos e lama nos dias chuvosos. Mas isso raramente sai no jornal.

Há crianças que brincam ao lado de riachos de excremento e urina, há meninas que vendem o corpo por uma pedra de crack, há milhares de coisas que eu poderia continuar elencando para soar ainda mais piegas, e nós nos omitimos.

Em cinco anos de plantões na redação, já recebi dezenas e dezenas de ligações de pessoas que recorrem a nós em busca de ajuda para a falta de ônibus, de pavimentação, de atendimento médico, de professor na escola, de policiais na rua. E o que fiz para denunciar essas situações?

A compra de votos é crime eleitoral e deve ser denunciada, mas também devemos denunciar a negligência do poder público. Aquelas pessoas não precisariam trocar seus votos por asfalto se aquelas ruas já estivessem asfaltadas, regularizadas, iluminadas e integradas à rede de esgoto.

Se houvesse políticas públicas humanizantes, um sistema de saúde eficiente, um transporte público de qualidade, escolas que ensinassem de verdade em vez de dar certificados a analfabetos funcionais, talvez as pessoas soubessem o que é cidadania e escorraçassem essa corja da política para sempre.

Mas, como os detentores do poder não farão isso por conta própria, talvez seja hora de a imprensa fazer a sua parte.