Large Hadron Collider: a Máquina do Juízo Final

Agora é oficial: os Quatro Cavaleiros do Apocalipse chamam-se Atlas, Alice, LHCb e CMS. Esses são os nomes dos artefatos que compõem o LHC (Large Hadron Collider, ou Grande Colisor de Hádrons), o maior acelerador de partículas do mundo, uma engenhoca de US$ 8 bilhões que uns cientistas malucos do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern, na sigla em francês) construíram no meio da Europa e pretendem ligar em breve.

Outros cientistas um pouco mais malucos afirmam que, se acionado, o LHC pode criar um pequeno buraco negro capaz de tragar a Terra inteira ou, na melhor das hipóteses, provocar uma explosão forte o bastante para nos mandar a todos pelos ares.

Os técnicos envolvidos no projeto redargüem que isso é tudo balela catastrofista e que as chances de a super-máquina gerar um cataclisma planetário são de 1 em 50 milhões — mais ou menos a mesma improbabilidade que é derrotada toda vez que alguém ganha na loteria.

Um acelerador como o LHC é basicamente um autorama para partículas subatômicas. Os cientistas vão usar o gigantesco brinquedo para fazer com que dois prótons percorram a “pista” em sentidos opostos, chegando muito perto da velocidade da luz, até se chocarem e gerarem muita, mas muita energia, além de se quebrarem em pedacinhos menores. Divertido, não?

Com a colisão, os milhares de pesquisadores empenhados na brincadeira pretendem verificar a possível existência do Bóson de Higgs (a partícula hipotética que seria a chave para entendermos a matéria), estudar algumas outras partículas e, mais que tudo, querem criar condições semelhantes àquelas geradas imediatamente após o Big Bang, para aprender um pouco mais sobre a origem do universo.

E é aqui que nós podemos começar a chamá-los de malucos.

Ora, o Big Bang teria sido a explosão de um ponto de tamanho infinitesimal, e essa detonação foi tão descomunal que seus ecos podem ser “ouvidos” mesmo depois de 15 bilhões de anos.

Qualquer um sabe que, se existisse “espaço” no momento exato do Big Bang original, nenhuma pessoa dotada de um mínimo de juízo gostaria de estar nas imediações do evento depois de apertado o botão. E falamos em “imediações” no sentido cósmico do termo, ou seja, alguns bilhões de quilômetros. E eles querem fazer algo parecido logo ali, na Europa.

Temos algum tempo antes que o LHC (que será ligado para testes nesta semana) seja acionado pra valer e provoque a colisão possivelmente fatídica. E, nesse ínterim, eu poderia dizer aos cientistas do Cern como surgiu o nosso universo, se eles viessem me perguntar (o que pouparia um bocado de dinheiro e preocupação):

Tudo começou há muito tempo, numa outra dimensão, onde vivia uma civilização pretensamente avançada cujos cientistas, por não terem nada muito útil para fazer, decidiram construir uma máquina que lhes revelasse as origens do universo. Quando o artefato foi ligado, ocorreu uma explosão tão poderosa que aniquilou aquele universo e deu origem a outro (o nosso). E essa é a história de tudo.

É claro que é bem mais provável (cerca de 50 milhões de vezes mais provável) que eu esteja enganado, que tudo transcorra bem e que os homens continuem vivendo e se matando alegremente depois do teste do LHC. Mas sempre é bom lembrar que, se as pessoas realmente levassem em conta a lei das probabilidades, ninguém apostaria na Mega Sena.

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