o amor nos tempos do socialismo

Sobre a nostalgia de viver e se apaixonar no lado de lá da Cortina de Ferro

[Texto publicado originalmente em 2009, na revista Sextante, publicação temática do curso de Jornalismo da UFRGS. Naquela edição, o tema era Nostalgia]

Um casamento cubano
Um casamento cubano

Naquela tarde de domingo, o tramvaï percorria velozmente os trilhos que atravessavam a cidade de Volgogrado, importante centro industrial soviético. Viajando de pé no silencioso bonde elétrico, a estudante Ana Maliuk, que tinha aproveitado o dia de folga para visitar a irmã, não pôde deixar de notar os três rapazes que não conversavam em russo.

A julgar pelo espanhol que falavam, eles deviam ser cubanos, suspeita que Ana confirmou ao se aproximar do trio e puxar conversa. Ela não tinha dificuldades para se comunicar com os estrangeiros, não apenas por ser uma aluna avançada do curso de Línguas do Instituto Pedagógico de Volgogrado, mas também porque era, ela mesma, soviética por adoção, tendo nascido muito longe dali, mais precisamente em Santa Rosa, no sul do Brasil.

Além das raízes latino-americanas que tinha em comum com aqueles forasteiros, havia outros motivos para que Ana quisesse conversar com eles. Afinal, “os cubanos estavam na moda, por causa da Revolução”, ela me diria quase quarenta anos depois, sentada ao lado de um dos rapazes que chamaram a sua atenção naquele domingo de 1971. Para ele, entretanto, as razões de Ana foram outras: “éramos três bonitões”.

Ana Maliuk e seu marido, Mario Aquiles Algeciras Fernández, me receberam no Sierra Maestra, o bar que abriram em Porto Alegre, Brasil, depois de terem vivido por muitos anos em terras socialistas. Numa tarde chuvosa de inverno, o cubano e a gaúcha de ascendência ucraniana falaram, saudosos, sobre suas trajetórias de vida e sobre a empolgante experiência de ajudar a construir uma nação. Ou duas.

Endurecerse pero sin perder la ternura

Quando a Revolução Cubana triunfou, em 1959, Mario tinha quase 14 anos e vivia em Holguin, capital da província de mesmo nome. Seu pai, que também se chamava Mario, era um faz-tudo na companhia férrea (Mario, o filho, não lembra que nome a empresa tinha na época, mas frisa que hoje ela se chama Ferrocarriles Nacionales de Cuba) e, nos dias de folga, fazia vários biscates como pedreiro, carpinteiro, pintor, etc, ofícios em que era ajudado pelos filhos. Noelia, a matriarca que deu à luz seis meninos e quatro meninas, era dona-de-casa. Uma típica família pobre do interior de um país que era, segundo a definição imortalizada pelo senso-comum, “o quintal dos Estados Unidos”. O atípico era o fato de Mario-pai ser filiado ao Partido Comunista Cubano.

Enquanto os Algeciras Fernández viviam sua vida pacata em Holguin, as selvas de Cuba eram dominadas, palmo após palmo, pelo Movimento 26 de Julho, a célebre guerrilha organizada pelos irmãos Fidel e Raúl Castro, por Ernesto “Che” Guevara e por Camilo Cienfuegos, entre outros. O nome do M-26-J, como era conhecido o grupo que comandava a resistência ao regime de Fulgencio Batista, homenageava o famoso ataque ao quartel de Moncada, liderado pelo jovem Fidel em 26/7/1953. A ação, ainda que frustrada, deu notoriedade àquele advogado idealista e é considerada o marco inicial da Revolução.

Dos filhos de Mario e Noelia, apenas Milton Aldo participou da guerrilha. O jovem, que trabalhava na serraria de um tio comunista em Baracoa, entrou para o movimento por intermédio do patrão (se é que o tio podia ser chamado assim, pois, segundo Mario, a serraria era, desde sempre, uma empresa socialista administrada em conjunto pelos que nela trabalhavam).

Holguin não foi atingida pelos combates entre exército e M-26-J. Mario conta que as ações dos guerrilheiros, restritas ao meio rural na maior parte do tempo, chegavam à cidade apenas na forma de notícias veiculadas pela imprensa ou de boatos desencontrados espalhados a boca miúda pela população.

Mas ninguém conseguiria deixar de notar as transformações implantadas pelos revolucionários vitoriosos depois de 1959. Mario explica, empolgado, os principais pontos do projeto reformador do governo provisório: “reforma agrária, reforma urbana, reforma da saúde e da educação, reforma política.” Acabar com o analfabetismo, que atingia na época cerca de 45% dos cubanos, foi uma das primeiras ações. Formaram-se brigadas de alfabetizadores voluntários, que percorreram as cidades e as zonas rurais do país, onde se hospedavam nas casas dos camponeses. O pai e uma das irmãs de Mario participaram do movimento. “Quem aprendia já podia ensinar os outros. Em um ano, Cuba se viu livre do analfabetismo”, conta o cubano.

A reforma agrária, outro ponto crucial do programa do governo revolucionário, foi radical e imediata. A paisagem rural da ilha, dominada pelo latifúndio, passou por uma grande transformação. As terras foram repartidas entre os campesinos – a começar pelas fazendas do próprio pai de Fidel. Por ironia do destino, o líder máximo dos rebeldes que tomaram o poder em 1959 era filho de Ángel Castro, um imigrante espanhol que entrou para o ramo madeireiro (ele fornecia madeira para uma companhia ferroviária) e, na medida em que ia abrindo clareiras nas florestas, expandia suas cercas e se apropriava das terras. Quanto mais árvores os empregados do velho Ángel cortavam, maiores ficavam as suas propriedades. O fato de Fidel e Raúl serem os líderes do movimento que tomou o poder no país não bastou para fazer com que todos os Castro apoiassem o novo regime – uma das irmãs, inconformada com a perda do patrimônio, cortou relações com a ala revolucionária da família.

A vida de Mario também mudou radicalmente com a Revolução. Engajado na construção de uma nova Cuba, o jovem estudante ingressou nas milícias paramilitares encarregadas de deter a ação de grupos contra-revolucionários. Em seguida, foi incorporado ao exército regular, onde ficaria por quase oito anos, até dar baixa, em 1969, no posto de tenente.

Depois de deixar as forças armadas, Mario foi morar em Havana, com sua irmã Rosa. Fez um curso técnico no campo da metalurgia e passou a trabalhar em uma usina siderúrgica nas imediações da capital. A essa altura, Cuba já estava alinhada com a União Soviética. A aproximação com o bloco socialista foi tumultuada. Em 1962, a pequena ilha, que já tinha rechaçado uma tentativa de invasão por paramilitares apoiados e treinados pelos Estados Unidos, (a célebre “Invasão da Baía dos Porcos”) se viu no centro de uma crise que quase desencadeou uma guerra nuclear, quando os soviéticos decidiram instalar baterias de mísseis atômicos em solo cubano. Mas, afora esses problemas no campo das relações internacionais, a URSS teve uma forte influência positiva no desenvolvimento da economia cubana.

O internacionalismo era uma característica marcante nas economias do bloco socialista. Era comum ver, nas empresas de Cuba e de outros países-satélite da URSS, técnicos soviéticos, tchecos, alemães-orientais. As políticas de intercâmbio eram incentivadas e assim surgiu, para Mario, a oportunidade de fazer cursos de capacitação profissional na Rússia. Em 1971, depois de um cursinho básico de russo, ele partiu rumo a Moscou, em um voo da Aeroflot com escala no Marrocos. Passou um curto período hospedado em Donetsk e, em seguida, instalou-se em um albergue estudantil em Volgogrado, onde viria a conhecer, numa tarde de domingo, aquela que seria a companheira de toda a vida.

Um pouco da vida na pátria do socialismo

A família de Ana Maliuk emigrou do Brasil para a União Soviética em 1960, saindo de Santa Rosa, a mesma cidade para onde seus pais, Sérgio e Matilde, tinham se mudado poucas décadas antes, ainda crianças, junto com a torrente de ucranianos que se instalaram no Rio Grande do Sul no princípio do século passado.

Questionada sobre o porquê de duas mudanças de endereço (e de vida) de milhares de quilômetros em tão curto espaço de tempo, Ana dá de ombros e diz: “Eram correntes migratórias”. Sérgio, Matilde e os quatro filhos foram morar em Volgogrado, importante cidade às margens do grande rio que lhe empresta o nome: o Volga.

Dezoito anos antes de acolher os Maliuk, quando ainda era chamada de Stalingrado, Volgogrado foi palco da maior batalha da Segunda Guerra Mundial, que freou o avanço nazista e deu início à grande virada do Exército Vermelho. Ao longo dos anos, as marcas da destruição foram sendo apagadas, inclusive com o esforço de Sérgio Maliuk, que passou a trabalhar como carpinteiro quando chegou à URSS.

A União Soviética das lembranças de Ana é muito diferente daquela de que se falava no Ocidente. Eram tempos de Guerra Fria, a disputa pela hegemonia global entre americanos e soviéticos, em que a propaganda era a principal arma usada tanto por capitalistas quanto por socialistas para desqualificar o rival. Pergunto à ex-cidadã soviética sobre os estereótipos tão comuns no discurso ocidental sobre a URSS: a doutrinação política, a escassez de produtos de consumo, o bitolamento da juventude, a padronização dos trajes, a falta de liberdade. Ela sorri e fala, com gosto, dos seus anos de juventude.

Os jovens soviéticos, segundo Ana, eram mais sérios que os ocidentais, mas tinham intensa vida cultural. Muito teatro, cinema, concertos, balé, circo (“um circo ma-ra-vi-lho-so”, ela frisa), acampamentos, caminhadas, banhos nas praias do Volga. As festas eram animadas e se dançava twist, charleston e outras danças do Ocidente. A cultura estrangeira consumida pelos soviéticos era mormente europeia, ela conta. Nada americano. Amigos que viajavam ao exterior voltavam com discos dos Beatles, que animavam as noitadas nos centros comunitários. Pelo espírito de internacionalismo socialista, as cidades da URSS viviam cheias de estudantes e trabalhadores de vários países do bloco. Por isso, quando conheceu Mario e seus dois colegas cubanos naquela viagem de tramvaï, Ana passou a convidá-los para as festinhas e reuniões do seu grupo de amigos.

Ela rechaça a ideia de escassez. Produtos nas prateleiras dos supermercados e lojas, havia de todos os tipos, ainda que fossem todos de uma só marca. “Comprar, tu comprava de tudo. Comida não faltava. O que não se podia comprar era roupa de marca, roupa estrangeira. Isso não existia lá. Tu podias comprar móveis. Tinha casas que vendiam todo tipo de móveis. Geladeiras. Mas todas daquele tipo”, lembra.

Quando não se conseguia o que se queria nas lojas oficiais, sempre se dava um jeitinho: “Os jovens usavam jeans. Alguém que viajou e trouxe. Sempre tinha um mercadinho negro no meio da juventude. As gurias, sempre bem vestidas… Compravam tecidos nas lojas, faziam roupas. Tinha uns tecidos indianos ma-ra-vi-lho-sos!”

Os olhos de Ana brilham enquanto ela fala da profusão de doces, balas e bombons diferentes, da enorme variedade de laticínios, pães, carnes, frutas importadas da África e da Ásia. Mas ela explica que os soviéticos não eram educados para serem consumistas: “Eu era um pouco mais ambiciosa, como estava mais perto da América Latina. Mas eles se contentavam com o que tinham. Porque tinham comida, tinham um teto, estavam quentinhos, tinham estudo, tinham médico, se divertiam. Muito. Eu acho”.

A amizade com Mario aos poucos se transformou em amor. O namoro soviético, eles explicam, não diferia muito do namoro de qualquer outra parte do mundo. Ou melhor, diferia, pois os jovens da URSS, segundo Ana, eram muito mais livres que os de outros lugares, pelo menos naquela época: “A gente era mais independente. A gente se decidia pelas coisas. Claro, pedia conselhos. Mas a mãe e o pai não se intrometiam muito.” A liberação sexual e principalmente a liberação da mulher começaram muito antes na sociedade soviética, que não estava presa aos ditames da moral cristã.

Aliás, outro estereótipo sobre as nações do bloco socialista é o da censura religiosa. Ana conta que havia igrejas cristãs ortodoxas funcionando em Volgogrado. Eram freqüentadas principalmente pelos mais idosos e não havia qualquer restrição, segundo ela, que diz que foi a um templo uma vez, por curiosidade, mas não se entusiasmou com o que viu e nunca mais voltou.

Sobre a repressão, Ana relata que, já no seu tempo, isso era tido como “coisa do passado”, da época em que diziam que era necessário ser duro para consolidar a nação. Mario emenda: “Se Stalin não tivesse tido punho forte, a Rússia não teria chegado aonde chegou.” O ditador, Ana conta, era lembrado com saudosismo pelos mais velhos, por ter vencido a Grande Guerra e pelo hábito de gratificar a população de algum modo no final de cada ano, fosse com bens materiais ou com folgas no trabalho. Ela diz que os idosos viviam suspirando: “No tempo de Stalin é que era bom…”

Haveria agentes do KGB (o famigerado Comitê de Segurança do Estado) à espreita, prontos para prender qualquer subversivo que se traísse por um comentário crítico contra o governo? “Não”, diz Mario,“pelo menos, não que eu saiba”. Rimos e Ana acrescenta, mais séria: “Outra página da história. A nossa época já era mais moderna. A única coisa é que tu não podias ficar falando tanto contra. O governo lutava contra as forças exteriores que tramavam para introduzir no cérebro dos jovens outras ideias.” Fosse como fosse, ambos afirmam não saber de qualquer caso de prisão por motivos políticos nos seus círculos de convivência.

Cidadãos do mundo

Em 1972, Mario concluiu o seu período de intercâmbio e teve de voltar a Cuba. Ana ficou em Volgogrado até terminar a faculdade e se mudou para a ilha em 1975, quando se casaram.

Aos olhos de uma cidadã soviética, Cuba era uma festa. Festa todo dia, muita música, muita dança, muitos mojitos, muitas piadas. Acostumada ao estilo mais sisudo dos eslavos, Ana se encantou com a alegria e a disposição dos cubanos.

Mario continuou trabalhando na mesma siderúrgica e a esposa, que já tinha sido professora de francês em Volgogrado, passou a lecionar russo no Ensino Médio. Eles moravam no apartamento construído pela micro-brigada da empresa de Mario. Em Cuba, explica ele, a política de habitação é gerida por células chamadas micro-brigadas. Cada instituição ou fábrica tem a sua, que se responsabiliza por construir os conjuntos habitacionais e organizar a distribuição dos imóveis. Um dos apartamentos de cada condomínio é sempre destinado ao governo e geralmente serve de moradia para o médico de família encarregado de atender os vizinhos. “Por seus méritos”, Mario conquistou o seu próprio apartamento, pelo qual pagava seis pesos por mês até a quitação da dívida, que totalizou 400 pesos. O imóvel ainda pertence ao casal e atualmente é ocupado por Noelia, a mãe de Mario.

Para Ana, o mais impactante de viver em Cuba era o estado de alerta permanente. “Na União Soviética, havia a Guerra Fria, mas em Cuba a guerra era caliente”, ela brinca. A proximidade dos Estados Unidos e o histórico de ataques e tentativas de invasão mantinha o estado de vigilância. Os cubanos racionalizaram o temor e desenvolveram um esquema de emergência introjetado por todos. Cada mãe de família tinha, guardada em casa, uma bolsa especial contendo diversos itens que seriam úteis em caso de fuga. E, se o pior acontecesse, havia mulheres encarregadas de cuidar dos filhos das vizinhas que estivessem longe de casa durante um ataque americano. E até as “crianças milicianas” eram treinadas para orientar os colegas em situações de emergência.
Apesar deste clima de alerta constante, Ana frisa que os cubanos “não sabem ficar tristes” e estão sempre de bem com a vida, a despeito de todas as dificuldades.

Pergunto pelos cubanos que deixam o país e fogem para os Estados Unidos. Eles dão de ombros e dizem que são poucos casos – e insistem que o governo não proíbe ninguém de abandonar a ilha. Ana cita como exemplo sua amiga Blanquita, que emigrou para os EUA. “De barco?”, indago. “Não, de avião. Pela Cubana de Aviación”, ela responde.

Eles mesmos tiveram permissão do governo para deixar Cuba. Foi em 1993. Ana quis visitar os parentes gaúchos. Eles vieram e “foram ficando”. Conversaram com autoridades do Partido Comunista Cubano, com familiares e decidiram se instalar no Brasil. As duas filhas do casal, Amarys e Anelys, começaram a estudar e “arranjaram namoradinhos” aqui, o que também pesou na decisão.

Em Porto Alegre, Mario começou a trabalhar em uma metalúrgica e Ana passou a dar aulas de línguas. Em seguida, foram morar em Cachoeirinha. Em 2001, abriram na Cidade Baixa, tradicional reduto boêmio da capital gaúcha, o bar temático Sierra Maestra. Numa das paredes do estabelecimento, hoje situado no bairro Floresta, está uma autorização do consulado cubano para difundir a cultura do país.

Mario conta que estranhou alguns aspectos da cultura e da sociedade brasileiras. Ele diz que ainda não se acostumou aos mendigos nas ruas. “Em Cuba, ver um mendigo pedindo esmolas seria o fim do mundo”, afirma, pesaroso. Além disso, sente falta da qualidade dos serviços públicos do seu país. “No Brasil, ir ao médico é atravessar o deserto do Saara caminhando”, desabafa.

O caribenho também critica o sistema político do Brasil. Fala com gosto do exemplo de Cuba, onde, segundo ele, as pessoas não se candidatam, mas são indicadas por seus pares para as eleições distritais. Os representantes de cada distrito são eleitos periodicamente e cabe a eles eleger os representantes das instâncias superiores, que, por sua vez, elegem os representantes da Assembléia Nacional, que escolhem o presidente do país. Mario rechaça a crítica que sempre se fez à permanência de Fidel Castro no poder por tantas décadas: “Dizem que Fidel não era eleito pelo povo. Claro que era. Ele era reeleito vereador, a cada eleição, no seu distrito. Depois, ia sendo reeleito nas outras instâncias, até o topo”.

Como o casal encara a vida numa sociedade capitalista, depois de tantos anos de cultura socialista? Ana diz que as pessoas se acostumam com as mudanças. Que ela e Mario têm facilidade para se adaptar a novas situações e que não têm apego às coisas. Assim como hoje estão aqui, no futuro próximo podem estar em outro lugar. São cidadãos do mundo. E ainda comunistas.

até quando contarei histórias assim?

[postado originalmente em 14 de agosto de 2012, num blogue que deixou de existir – antes de ir praquele falecido blogue, o texto foi censurado no jornal onde eu trabalhava]

Era quase 0h de uma fria noite de junho quando o nosso carro chegou ao maior hospital de Porto Alegre e do Estado. Na entrada da emergência pediátrica, dezenas de pessoas vibraram quando viram o logotipo do jornal na porta do automóvel.

Quando descemos do carro, eu e o fotógrafo Jean Schwarz fomos abordados por vários homens e mulheres, alguns com crianças pequenas no colo, que despejaram sobre nós uma torrente de queixas e protestos, todos gritando ao mesmo tempo.

— É um absurdo!

— Tô com a minha mulher grávida de oito meses ali!

— Uma menina engoliu uma moeda e ainda não foi atendida!

Alvoroçado com a presença da imprensa, um grupo começou a ensaiar palavras de ordem.

— Queremo atendimento! Queremo atendimento! — gritavam alguns, em uníssono.

Aquelas pessoas, algumas havia mais de oito horas na fila de espera, acreditavam que poderíamos ajudá-las a conseguir uma consulta médica. Acreditavam que a simples presença de repórteres destravaria as engrenagens enferrujadas de um sistema de saúde agonizante e permitiria que elas e seus filhos pudessem sentar diante de um médico. Estavam nos pedindo mais do que podíamos lhes dar.

Eu tinha nas mãos apenas um bloco de anotações e uma caneta e Jean, uma câmera fotográfica. Eram nossas únicas armas para combater o mal crônico que aflige o nosso sistema de saúde. Como poderíamos ajudar aquelas pessoas?

A nós, cabia cumprir o papel social da imprensa: tornar pública aquela triste situação. Contar a história daquelas pessoas.

Pessoas como a pequena alvoradense Isadora, de três meses, que, com febre e sintomas de gripe, aguardava uma consulta médica desde as 18h, sem entender o que se passava enquanto seu pai, o classificador de metais Carlos Alberto Araújo da Silva, pedia ajuda a um repórter que nada sabe de medicina.

Pessoas como o funcionário do hospital que não quis se identificar e que veio até mim apenas para dizer que não era autorizado a dar entrevistas e que eu deveria ligar para a assessoria de imprensa da instituição — e que depois voltou para o saguão sob uma saraivada de ofensas e palavrões.

Em meio à gritaria e aos impropérios dirigidos aos funcionários, procurei um lugar um pouco mais calmo, peguei um telefone celular e liguei para a assessoria de imprensa.

Da rua, contemplando o sofrimento de homens, mulheres e crianças, falei, por telefone, com um assessor daquele hospital que estava a poucos metros de mim. Ele me passou a posição oficial da instituição. Disse que todas as emergências de todos os hospitais estão enfrentando superlotação. Disse que a maioria daqueles pacientes não são casos de emergência e que, portanto, deveriam ser atendidos em postos de saúde. Disse, por fim, que o atendimento continuará, do jeito que for possível, na emergência pediátrica — mas fez uma ressalva: o atendimento continuará se os pais dos pacientes souberem se comportar.

Os funcionários do hospital estão com medo, me disse o assessor. Eu também estaria, no lugar deles. Desesperados com a demora e com a falta de perspectiva de atendimento para os seus filhos doentes, muitos pais e mães se exaltam, ofendem e ameaçam trabalhadores que não têm culpa pela falta de médicos e de leitos.

Momentos antes da nossa chegada à emergência pediátrica, uma viatura da Brigada Militar tinha saído de lá. Os policiais foram acionados por funcionários que temiam pela própria segurança, diante de pais e mães tão exaltados. Foi justamente uma dessas mães desesperadas que ligou para a redação do jornal, quando os policiais militares chegaram à emergência, para nos avisar do problema.

Aquela não tinha sido a primeira ligação da noite. Eu mesmo tinha atendido, horas antes, pelo menos outras duas pessoas que estavam em situações semelhantes: uma no mesmo hospital da Capital e outra, em Gravataí.

Dois dias antes, em Viamão, uma jovem de 18 anos havia sido presa depois de depredar o hospital da cidade e agredir dois seguranças.

A espera por um sistema de saúde mais eficiente e mais universal parece não ter fim. Eu, como repórter, espero o dia em que poderei contar um outro tipo de história, uma história em que menininhas de três meses não precisem passar horas e horas com febre em um saguão de hospital.

cestas básicas, asfalto, pé no barro e mudez

[postado originalmente em 3 de outubro de 2012, num blogue que deixou de existir]

E agora, a poucos dias das eleições, começam a pulular denúncias de compra de votos em diversas cidades gaúchas. Algumas a imprensa publica, outras a imprensa ignora e eu me sinto, cada vez mais, um náufrago afundando em um mar de pus.

Hoje, na Rádio Gaúcha, após a veiculação de uma notícia sobre crime eleitoral em São José do Ouro, o comentarista Cláudio Brito perguntou, retoricamente: “Será que é só em São José do Ouro que ocorre compra de votos?”

Sei que sua pergunta foi retórica, Cláudio, mas respondo: não, não é. A pilantragem está instaurada, é um esquema com muito mais cúmplices do que vítimas, praticamente todo mundo sabe disso e ninguém move um dedo para impedir que essa máfia continue elegendo os seus beleguins e comprando votos e perpetuando a sua escandalosa usurpação da coisa pública.

Há duas semanas, falei com meu tio Rogério, que trabalha como açougueiro na Vila São Martim, em São Sebastião do Caí, e ele disse: “Até um mês depois das eleições, nenhum mercado vende um quilo de arroz na São Martim, pois tá todo mundo com os armários cheios de comida dada pelos candidatos”.

Cresci em São Sebastião do Caí e sei que a compra de votos é algo comum e disseminado no município. Votar em troca de favores ou de produtos é uma prática entalhada no DNA político da minha cidade. E, pelo que vejo e ouço, no de todas as outras.

O mais absurdo é que todo mundo sabe disso. Haveria farto material para ilustrar dezenas de reportagens sobre crimes do tipo. Mas, como jornalista, acabo com as mãos atadas pelas rotinas jornalísticas (necessidade de fontes, comprovação palpável, contrapontos etc) e pelas salvaguardas jurídicas necessárias para impedir que os bandidos que pretendo denunciar acabem processando a mim e ao veículo que me emprega — e usando a Justiça que deveria colocá-los na cadeia para arrancar ainda mais dinheiro de outras pessoas.

E é por isso, entre outros motivos, que deixamos de publicar barbaridades que poderiam ajudar, nem que fosse um pouquinho, a diminuir as maiúsculas votações desses crápulas — se é que ainda existe algum (e)leitor que se importe com a moralidade dos representantes que elege.

E é assim que, mesmo com as pregas vocais intactas, acabo prisioneiro de uma mudez que me impede de gritar e denunciar absurdos e mais absurdos que leitores me relatam diariamente (eles recorrem a mim porque acham que a minha voz pode soar mais alto que a deles, veja só que ingênuos).

Mas a nossa mudez está longe de se restringir à compra de votos. Hoje, quando eu voltava do trabalho ouvindo a Rádio Gaúcha, uma reportagem mostrou que essa é uma situação bem mais complexa e com muito mais nuances.

Um repórter foi a uma vila de Porto Alegre — onde um beco teria sido asfaltado a mando de um candidato a vereador em troca de votos e da colocação de placas do referido candidato em frente às casas.

Lá, um dos moradores ameaçou esse jovem repórter. Tudo gravado e transmitido pela rádio. O homem disse ao jornalista para não fotografar a placa em frente a sua casa, ou haveria represálias.

Até aí, parecia a típica dicotomia brutamontes x mocinho, selvagem x civilizado; afinal, um bárbaro inculto prometia, diante de um gravador ligado, agredir um representante da imprensa que fazia uma denúncia de crime eleitoral. Era um cúmplice de compra de votos tentando intimidar um arauto da Verdade.

Foi então que aquele homem disse algo que me deixou assombrado: “Tem que entrar aqui quando estamos pisando no barro!”

Nocaute!

Aquele bárbaro inculto pisava, enquanto ameaçava o repórter, em uma via pavimentada. Precariamente pavimentada, mas ainda assim pavimentada. Aquele beco que antes obrigava os moradores a pisar na lama está agora com uma camada improvisada de asfalto.

E onde estávamos nós, jornalistas, quando aquela gente sujava os pés toda vez que saía de casa?

Há muitas barbaridades por aí, além da compra de votos, barbaridades que ocorrem em outras épocas além do período eleitoral.

Há pessoas que viajam espremidas em ônibus lotados, muitas vezes, como em finais de semana e feriados, depois de uma longa espera no ponto. Você já passou quarenta minutos esperando um ônibus e suportando a chuva e o frio do inverno gaúcho, leitor? Eu já, e sei que não é nada agradável. Muita gente passa por isso regularmente — e o que fazemos nós, jornalistas?

Há pessoas, como o porto-alegrense que ameaçou o repórter da Rádio Gaúcha, que moram em becos sem nome, onde sobra poeira nos dias secos e lama nos dias chuvosos. Mas isso raramente sai no jornal.

Há crianças que brincam ao lado de riachos de excremento e urina, há meninas que vendem o corpo por uma pedra de crack, há milhares de coisas que eu poderia continuar elencando para soar ainda mais piegas, e nós nos omitimos.

Em cinco anos de plantões na redação, já recebi dezenas e dezenas de ligações de pessoas que recorrem a nós em busca de ajuda para a falta de ônibus, de pavimentação, de atendimento médico, de professor na escola, de policiais na rua. E o que fiz para denunciar essas situações?

A compra de votos é crime eleitoral e deve ser denunciada, mas também devemos denunciar a negligência do poder público. Aquelas pessoas não precisariam trocar seus votos por asfalto se aquelas ruas já estivessem asfaltadas, regularizadas, iluminadas e integradas à rede de esgoto.

Se houvesse políticas públicas humanizantes, um sistema de saúde eficiente, um transporte público de qualidade, escolas que ensinassem de verdade em vez de dar certificados a analfabetos funcionais, talvez as pessoas soubessem o que é cidadania e escorraçassem essa corja da política para sempre.

Mas, como os detentores do poder não farão isso por conta própria, talvez seja hora de a imprensa fazer a sua parte.