E o Velho Lobo se entregou

Fausto Wolff não vai para o céu, pois nunca acreditou nele. Tampouco irá para o inferno do esquecimento, pois soube em vida, como poucos, construir sua morada na Alameda Eternidade.

Sim, uma introdução pra lá de piegas, mas estamos falando de um dos meus heróis de cabeceira, pombas!

Faustino von Wolffenbüttel nasceu no Rio Grande do Sul, em 1940, mas era carioca por opção e merecimento. Entrou para uma redação de jornal ainda adolescente, numa época em que isso era possível e permitido. Sempre crítico e contundente, exilou-se no período do governo militar, indo viver na Itália e na Dinamarca, terra que sempre citou como exemplo de igualdade e liberdade. Voltou, com a Abertura, para um Brasil modificado por vinte anos de torniquete.

O Velho Lobo costumava descrever a si próprio como “comunista, jogador, bêbado e decadente”. Foi um dos maiores e mais notórios beberrões de que se tem notícia. Foi, também, comunista até o fim. Engajou-se no PDT de Brizola, que tanto admirou e criticou, e ousou pensar e pregar uma sociedade mais justa e mais humana.

Fausto orgulhava-se de nada possuir. Vivia do que escrevia, e gastava em prazeres simples o dinheiro que ganhava escrevendo. E como escrevia… Seus textos jornalísticos e literários eram sempre carregados de paixão e sempre calcados na vida real, mesmo quando a fantasia tomava conta do autor e da obra. Muitos dizem que ele era pessimista, por trazer à tona os males que o afligiam e angustiavam. Discordo. Ele foi, e sempre será, um otimista incorrigível, pois acreditava no ser humano. Assim como tantos outros heróis românticos, Wolff acreditava que a dor e a opressão desapareceriam quando fossem cortadas as amarras que aprisionam as pessoas, principalmente a propriedade privada e a miséria cultural. Para mim, era esse o principal defeito do Mestre: ele era otimista demais.

Descobri Fausto Wolff na finada Revista Bundas, e desde então o acompanhei no também finado O Pasquim 21, no quase finado Jornal do Brasil e nos seus livros.

É de um de seus livros (A Imprensa Livre de Fausto Wolff, p. 180) o artigo que cito, escolhido a esmo, para mostrar aos meus quatro leitores um pouco do que escreveu o Mestre:

BOM HUMOR & POESIA

E continuamos a plantar rosas sobre o pus, continuamos jogando basquete no pântano, continuamos tapando o sol com a peneira, continuamos matando quem deveria estar vivo e quem ainda não nasceu. Perdão, leitores, estou começando a ficar como esses bêbados que vemos pela rua praguejando contra deuses desconhecidos, perseguidos por cachorros e gozados pelas crianças. Nós – eu e vocês, leitores – continuamos tentando pagar nossos impostos, aluguéis e trabalhando; morrendo de medo de que nos demitam sem indenização ou que mandem nos queixarmos ao bispo Macedo ou ao juiz Lalau. São eles que continuam roubando e matando, esta máfia asquerosa e sem vergonha chamada Poder. Afinal, com raras exceções são todos Oliveiras, Silvas, Rodrigues, Santos e Joãos Antônios, e Josés Carlos, e Eduardos Jorges, e Luízes Maurícios e Paulos Augustos. Nem eu que sou jornalista há mais de 45 anos lembro os nomes de uma décima parte desses gatunos.

Aposto o que vocês quiserem que eles estão se lixando para os eventuais insultos. Afinal de contas, as pessoas que lhes interessam também são ladrões e assassinos e os amigos dos filhos e das filhas também são filhos de ladrões e assassinos prontos para seguirem a carreira paterna. Será que não há uma maldita lei nesta nossa colcha de fétidos retalhos chamada Constituição que proíba que filhos de ladrões se elejam com dinheiro roubado do povo? O roubo, o assassinato e o genocídio são crimes perante a lei mas a nossa justiça só é cega para os crimes cometidos pelos ricos.

Quando me candidatei a deputado federal para a Constituinte, meus amigos mandaram confeccionar uma única faixa com meu nome e número. Filhos de amigos carregariam essa faixa pelos locais movimentados do Rio. Disse carregariam, pois essa minha única faixa foi apreendida pela legislação eleitoral no primeiro dia. Para vocês terem uma idéia da farsa: duas famílias inteiras votaram em mim numa zona eleitoral de Icaraí, bairro de Niterói, onde nem fiz campanha com meu único carro emprestado que vivia enguiçado. Foram 33 votos e nas urnas apareceram apenas 3. Um mês antes das eleições, O Globo publicou que eu seria um dos candidatos a deputado federal mais votados do Rio de Janeiro. Tive menos de 10 mil votos e a pesquisa avaliava que minha votação seria superior a 50 mil votos. Mais tarde, uma velha raposa política me disse: “Eleição se ganha depois da eleição, junto aos apuradores”. Em matéria de pesquisa, nossa classe política seria uma verdadeira Disneyworld para Lombroso. Imaginem políticos que vêm se elegendo desde 1964 e têm o físico do papel sempre com votações esmagadoras embora jamais tenham praticado uma boa ação. Vocês nunca se perguntaram como essas caricaturas de seres humanos continuam se elegendo mesmo sem fazer campanha? Cada um deles tem currais ou chiqueiros e cada curral ou chiqueiro das regiões mais pobres do Brasil têm capatazes que vendem os votos dos seus pobres porquinhos a um, cinco ou dez reais cada um, dependendo da pobreza da região. O capataz garante mil votos e recebe cinco mil reais. Quatro vão para o bolso dele e o resto para os porquinhos. Troço nojento, não é? Pois os palhaços somos nós.

Nosso sistema previdenciário sempre foi dirigido por uma corja de ladrões e precisa ser mudado, precisa ser dedetizado. Deve haver um teto, sim, para o funcionalismo de colarinho branco que em geral acumula funções mas deve haver um mínimo digno para todos os trabalhadores, a começar pelos mais humildes e que menos ganham, a começar pelas pobres professoras primárias que não têm nem condições de estudar o que ensinam. A base de tudo o que aprendi na vida devo a cinco mulheres elegantes, inteligentes, bem vestidas e cujo salário permitia que vivessem com dignidade e sustentassem seus filhos: dona Candinha, dona Norma, dona Zuleika, dona Aracy e dona Marina, professoras do primeiro ao quinto ano primário do Grupo Escolar 1° de Maio, de Porto Alegre. Nós, garotos pobres, em nossos tapapós brancos, cantávamos orgulhosos todas as manhãs – entre os anos 45 e 50 – o Hino Nacional. Não sabíamos ainda dos planos de Dutra de trocar matéria-prima por matéria plástica. Felizmente, minhas professoras estão mortas e não precisam ver o pantanal em que se transformou o ensino no nosso país. Estou falando da educação, pois a cultura – a verdadeira arma de defesa pessoal de um povo, que garante sua integridade e individualidade -, esta lhe foi roubada há muito tempo pelo poder e pelos meios de comunicação.

Lula não tem culpa disso e sempre lutou contra isso. É vergonhoso, porém, que, por causa de uma minoria de safados, queira punir todo o serviço público. Concordo com ele quando pergunta: “Por que o cortador de cana se aposenta aos 60 e o professor aos 53?”. Minha pergunta para ele, porém, é a seguinte: qual é a justiça que existe em punir o professor e manter o cortador de cana na miséria? Antes que alguém suspeite de que tenho interesse pessoal na matéria, vou logo informando: nunca fui funcionário público. O que insulta a minha inteligência são os novos Torquemadas do PT não informarem o que querem fazer com a previdência e quererem que tenhamos fé. Que diabos? Voltamos à Idade Média? E se voltamos, deveríamos aproveitar, pelo menos, o que ela tinha de positivo. Parágrafo para explicar e botar as idéias no lugar.

Na Idade Média era considerado crime grave cobrar juros pelo uso do dinheiro. O empréstimo a juros era proibido pela maior potência do mundo, a Igreja. Para ela, emprestar a juros era usura e usura era pecado. Quem violasse essa lei da Igreja era ameaçado com danação eterna, o que não era pouco numa época em que acreditar em Deus era tão natural quanto o ar que se respirava. Mas não era apenas a Igreja que condenava a usura. Os governos municipais e mais tarde os estaduais baixaram leis contra ela. Uma lei contra a usura aplicada na Inglaterra dizia: “Sendo a usura, pela palavra de Deus, estritamente proibida, como vício dos mais odiáveis e detestáveis (…), fica determinado que ninguém pratique usura sob pena de confisco e prisão.” Depois a Igreja tornou-se sócia do mercado mas naquela época os banqueiros iam para o inferno. Falar nisso, Lula, faz alguma coisa para que eu, teu eleitor, possa te defender. Que tal aplicar a lei (está na Constituição) de autoria de Fernando Gasparian que limita os juros bancário a 12% ao ano, o que, ainda assim, nos países que fazem parte dos sete grandes, é considerado escorchante?

A verdade é que os pobres ajudam (ainda?) os pobres e ficam mais pobres e os ricos ajudam os ricos e ficam mais ricos. Eu nada teria contra a taxação de quase 27% se ela fosse aplicada apenas aos ricos mas que, ao mesmo tempo, a reforma tributária previsse o confisco do lucro excessivo, previsse a prisão do empresário que decreta falência e depois vai passar as férias nas Bahamas ou Cayman ou Jersey. Essa taxação, porém, é criminosa porque pune quem trabalha honestamente. O empresário ladrão internacional simplesmente fechará sua fábrica em Madureira para implantá-la na Malásia, onde o poder não tem escrúpulos e o empregado é escravo. Se não fechar suas portas e ocasionar desemprego (e olhem que segundo a Câmara de Comércio da ONU, o operário brasileiro é considerado o mais trabalhador, responsável e cortês do mundo), o empresário ladrão simplesmente repassará os preços para a população. Esta – a que ainda está acima da linha da miséria – desconta imposto na fonte. É o catch 22: se correr o bicho pega e se ficar o bicho come. Gostaria que os novos inquisidores do PT (se vocês disserem que eles são de direita, fazem caras e bocas) me informassem os itens da reforma que falam de trabalho infantil, de obrigatoriedade escolar, de prostituição infantil, de trabalho escravo, das punições para empregadores que não assinam carteira, das reformas hospitalares tão severas que deixariam os planos de saúde apenas para os muitos ricos como ocorre, por exemplo, nos países escandinavos. Vamos lá, Lula, faz alguma coisa aí para que a gente possa aplaudir como aplaudimos seus comícios, mesmo os mais palatáveis à burguesia, durante a campanha eleitoral. Não deixa um delinqüente como o FHC ficar te gozando.

Os jornalões continuam como sempre. Perderam a capacidade de se estarrecerem, se é que um dia a tiveram. Desde 64 que leio: “O governo promete”; “A Câmara vai instaurar CPI”; “Ministro prevê melhorias”; “Presidente anuncia queda do dólar para o ano que vem”; “Presidente do Banco Central pede paciência”. Eles apenas anunciam, prevêem, acham, pedem, prometem, criticam, apelam mas a única coisa que fazem é baixar as calças para o FMI e é disso que trata a Reforma da Previdência. De positivo somente o fato de o PT ser um partido de palavra; um partido que, como todos os outros, com raríssimas exceções, cumpre o que prometeu aos nossos exploradores. Às vezes, porém, algum editor descuidado de um jornalão dá espaço a vozes dissidentes e honestas. No mesmo jornal que anuncia que o Estado vai contratar mais dois mil PMs por ano e que militares vendem armas a traficantes, foi dado um espaço para Cristovam Buarque, o ministro da Educação, um homem corajoso que declarou na ONU: “Concordo que se faça da Amazônia uma reserva ecológica internacional desde que se internacionalize a ONU, os museus, o petróleo, o gás, etc”. Pois bem, ele agora alerta o governo, o governo do PT, para risco de fracasso na área social. Para ele a burocracia é uma fábrica de indiferença. Ele teme que após seis meses de governo (faltam menos de duas semanas) os petistas se tornem tolerantes (bom eufemismo, digo eu) com a tragédia social brasileira. Lembrou finalmente que Lula foi eleito para mudar o país. Cristovam não descobriu a América. Já sabíamos disso tudo. O que não sabíamos é que o PT seria conivente com isso.

Comecei este artigo falando em genocídio e depois mudei de assunto para deixar o item para o final do cardápio. Sou contra a pena de morte, menos para os genocidas. Na minha opinião ladrões como os do Banestado, do Propinoduto deveriam ser fuzilados em praça pública pois são genocidas. Quem rouba dinheiro do povo provoca morte, miséria, delinqüência, desemprego, divide famílias, coloca marido contra mulher, pais contra filhos. Gente que rouba centenas de milhões de dólares (como em alguns poucos casos isolados) condenam à morte e à miséria milhões de pessoas. Quero dedicar aos genocidas do Banestado e do Propinoduto um poeminha do meu livro O pacto de Wolffenbüttel:

“Se todos disséssemos “não”/ e agüentássemos as conseqüências / os ratos teriam de se devorar entre eles / teriam de roubar uns aos outros / sodomizar os próprios filhos, prostituir esposas e crianças. / Talvez, depois disso, pudéssemos todos cantar, orgulhosos, novamente, o Hino Nacional”

Farás falta, seu velho bagaceiro.