eu politico, tu politicas, ele politica

O baixo clero aclama o seu papa
O baixo clero aclama o seu papa

Eis que abro o site do Estadão nesta quarta-feira e a manchete é uma declaração do presidente da Câmara dos Deputados (apenas o cara que assume a Presidência da República na ausência da presidente e do vice), Eduardo Cunha (PMDB-RJ): “Espero que não sejam investigações de natureza política“.

Cunha manifestou essa esperança porque teria sido citado pelo procurador-geral da República como um dos parlamentares que levaram grana de empreiteiras investigadas na Operação Lava Jato. A pergunta que a repórter do Estadão Irany Tereza poderia ter feito ao parlamentar e não fez (ou fez e seus editores cortaram, o que é bem improvável) é: “Mas, deputado, o que não é de natureza política nessa história?” Afinal, trata-se de um político sendo acusado por políticos de ter sido financiado por grupos econômicos com interesses políticos para conquistar seu cargo político em uma instituição política por excelência.

Temos, na média, uma acepção bem limitada de política. Nas reuniões sociais e festas de família, existe meio que um acordo tácito, para evitar atritos: “Religião e política não se discutem”. Quando alguém, em algum grupo da sociedade civil, expõe sua eventual militância partidária, é imediatamente acusado de “ter interesse político”. A imprensa e o empresariado costumam usar o adjetivo “político”/”política” de forma pejorativa: “O anúncio é de cunho político“, “Fulano é uma indicação política para o secretariado” etc – dando a entender que é possível que algum secretário ou ministro não seja uma indicação política. Ao depreciativo “político”, esses grupos costumam contrapor o laudativo “técnico“. O sonho de muita gente é um “governo técnico” e não político – o que evidencia que há uma má compreensão (proposital, às vezes) da própria ideia de política.

Mas o que é política? Podemos dizer, com pouca chance de erro, que para a opinião pública não existe política fora do campo da militância partidária. A ideia disseminada e infinitamente repetida de que só os partidos fazem política é tão forte que atores importantíssimos do jogo político, como os grandes grupos econômicos e a imprensa, conseguiram se colocar à margem disso tudo aos olhos da sociedade. Assim, operadores político-partidários são demonizados pela opinião pública (e são bem pagos pelo Estado e pelos seus financiadores privados justamente para arcar com esse peso) e os grupos que efetivamente dão as cartas (os donos do dinheiro e da máquina de propaganda) continuam exercendo aquilo que sempre tiveram: o poder (econômico, político, simbólico etc).

Gosto bastante da definição de que a política é a disputa pelo poder em uma sociedade. É a tensão entre vontades e interesses de grupos específicos. Li, certa vez, que “se todos pudessem ter o que quisessem na hora em que quisessem, não haveria política”. A política, então, é a disputa pelo poder de definir quais interesses serão atendidos – e quando e como isso acontecerá. Assim, ninguém está fora da política.

Os partidos e candidatos que disputam o poder institucional fazem política. Os eleitores que votam neles ou que defendem suas propostas na fila do banco fazem política. Até quem decide não votar está fazendo política. Os empresários, fazendeiros, grupos financeiros e pessoas físicas que financiam as campanhas, colam um adesivo no peito ou compartilham uma notícia favorável a Fulano ou Beltrano nas redes sociais fazem política. Os jornais, ao definir o que será e o que não será publicado em TODAS as editorias, ao definir como será essa publicação e que espaço terá, fazem política, na medida em que essa publicação influenciará (e sempre influencia) o equilíbrio de forças na disputa pelo poder.

Por isso o Estadão e outros veículos de imprensa (bem como os grupos econômicos que atuam com tanta veemência nas coxias do teatro político e muito raramente são vistos ou ouvidos pela plateia) não se sentem nem um pouco desconfortáveis com a declaração de Cunha sobre a suposta “natureza política” (em oposição a outras naturezas mais nobres) da investigação da Operação Lava Jato. Os principais jogadores da disputa pelo poder (e justamente os que dominam o jogo) não têm sequer o nome na lista de jogadores. Eles fazem política sem dizê-lo e é esse um dos segredos do seu sucesso.

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Esse país precisa de valor agregado

Dia desses eu estava numa sala de espera qualquer, folheando uma revista Isto É do ano passado, e meus olhos se depararam com uma notinha sobre a possível compra de helicópteros russos pela FAB. Em troca dos aparelhos, segundo o texto, o Brasil venderia à Rússia carne de frango e de porco.

É aqui o ponto exato em que a gente aperta stop, volta a fita (lembram do tempo em que se voltava a fita?) e repete o período anterior, para ter certeza de que não houve nenhum engano: em troca dos aparelhos, o Brasil venderia à Rússia carne de frango e de porco.

Vamos usar uma figurinhas, para facilitar a compreensão da coisa toda.

Produto oferecido pela Rússia (uma ex-ditadura-comunista-atrasada-e-falida):

Helicópteros Mi-17 (foto encontrada neste fórum)

Produto oferecido pelo Brasil (se você for vegetariano, feche esta janel… ops, agora você já viu):

Animais mortos (foto tirada daqui)

Qual destes produtos tem mais valor agregado?

O valor agregado, como vocês bem sabem, é matéria-prima + trabalho + tecnologia/know-how. Pode-se vender porcos vivos por um preço X, ou então vender carne de porco in natura por 2X, espetinhos de carne de porco por 3X, pratos chiques à base de carne de porco por 10X, etc.

O trabalho e o conhecimento agregam valor, e quanto mais conhecimento (tecnologia) utilizamos para transformar as coisas, mais qualificado é o nosso trabalho e maior será a nossa recompensa. O que vale mais,  uma tonelada de aço puro ou uma tonelada de aço na forma de geladeiras, fogões e automóveis?

Há nações que se especializaram em agregar valor aos seus produtos. Israel, por exemplo. Eles têm um territoriozinho árido, cheio de pedregulhos e rodeado de vizinhos hostis, mas estão entre os três países que mais registram patentes no mundo. Tudo porque eles não têm mentalidade de jeca, como os nossos dirigentes. Que poderiam fazer lá? Plantar cana-de-açúcar? Criar cabras? Claro que não. Os judeus investiram em alta tecnologia e hoje exportam produtos e know-how para o mundo inteiro.

Dia desses, achei na internet um desses prognósticos de agências de classificação de risco, sobre o futuro da economia. O texto dizia que as maiores potências do mundo, em 2050, serão China, Índia e Brasil, e afirmava que os dois primeiros se destacarão pela indústria, e o Brasil pela produção de alimentos e combustíveis.

O quê? Então, estamos condenados a ser o celeiro do mundo? Enquanto chineses e indianos estiverem produzindo automóveis, aviões e computadores, nós seremos um gigantesco curral? Nosso território será uma descomunal lavoura de cana cultivada por milhões de bóias-frias alegremente engajados na produção de biocombustíveis em escala global?

Não creio em determinismos, mas creio na burrice humana. Nós temos nossas chances e desperdiçamos quase todas – por burrice de uns e má-fé de outros. Há pouco, tivemos a oportunidade de dar um passo à frente, com a questão da TV digital. Nossas universidades e técnicos formaram uma rede de pesquisa integrada, visando a desenvolver um padrão nacional.

O resultado foi um sistema tupiniquim que não chegou a ser concluído mas que seria, segundo os entendidos, o melhor. Na hora de tomar a decisão, entretanto, o governo da companheirada escolheu, por canetaço seu e por pressão das emissoras, o padrão japonês, que é bom para a única coisa que interessa às redes: inserir propaganda/venda direta na programação. Traduzindo: por submissão do governo às redes de TV, jogamos no lixo uma chance de ouro de nos tornarmos exportadores de tecnologia e um pólo de produção de microchips. Pra que produzir microchips, se criar porcos é mais fácil?

Somos mesmo uma República de Bananas. Ou, como disse o Cardoso, nem isso mais podemos ser, pois já fomos passados para trás até no setor primário.

[o post foi atualizado]