pílulas de absurdol #002

UM CONTO BEM BRASILEIRO – ou POR QUE FALTA DINHEIRO PARA ÁREAS ESSENCIAIS

Reproduzo trecho de post do Cadu de Castro**. Infelizmente, casos como este são praticamente a regra em todas as esferas do poder público brasileiro:

“Eduardo Cunha fez uma ‘palestra’ – entre aspas, pois durou 4 minutos – ontem em NYC. Seu tema foi a necessidade de corte de gastos nas contas públicas.
Contudo, o deputado, que deu a palestra na segunda, voou para a cidade na quinta-feira anterior, em classe executiva. Levou consigo mais de uma dezena de deputados e senadores, alguns dos quais foram acompanhados das esposas.
A viagem, para uma fala de 4 minutos na Quarta Conferência de Presidentes de parlamentos, custou em torno de 199 mil reais para nós, contribuintes.”

** Segundo matéria do G1 (http://g1.globo.com/…/cunha-viaja-com-comitiva-ny-para-part…), eram apenas quatro os parlamentares da comitiva, mas parece ter mais gente participando desse trenzinho da alegria: “A assessoria de imprensa não informou quantos assessores e acompanhantes viajaram com a comitiva”

Anúncios

a arte do possível – e do inacreditável

[publicado originalmente em 8 de outubro de 2012, num blogue que deixou de existir]

As eleições municipais deste domingo foram marcadas, em quase todas as cidades, por vitórias de candidatos que dividiram o palaque com apoiadores de um mosaico de bandeiras e ideologias diferentes. O fenômeno é um retrato do momento atual da política no país.

A pluralidade partidária absurda (já temos pelo menos 30 partidos registrados) obriga os governantes a se cercarem de apoiadores para garantir a tal governabilidade, aquela palavra que já virou eufemismo para tantas barbaridades.

As agremiações políticas já nem disfarçam:

— Nobre colega, eu quero me candidatar e preciso do apoio do seu partido, que me dará direito a 50 segundos a mais na TV.

— O que ganharemos se apoiarmos a candidatura de Vossa Excelência?

— Olha, pensei em dar a vocês uma secretaria…

— Qual?

— Que tal a Secretaria de Reintegração dos Sabiás com a Asa Quebrada?

— Nem pensar! O outro candidato já me ofereceu a Secretaria de Obras.

— A Secretaria de Obras por CINQUENTA SEGUNDOS DE TV? Cê tá brincando, né?

— É, tô. Mas não podia ser pelo menos uma secretaria com orçamento maior?

— Que tal a de Educação?

— Hum, é pouco. Não temos só os cinquenta segundos de TV. Certamente vamos reeleger pelo menos dois dos nossos vereadores. Esse apoio na Câmara pode ser fundamental para você. Se você me der a Educação, também vou querer cinquenta cargos de confiança para o meu partido em alguma empresa pública.

— Cinquenta??! Nem pensar. Dou vinte cargos na empresa de coleta de lixo e é pegar ou largar.

— Aceito vinte, mas só se for na empresa de emplacamento de veículos…

— Fechado!

— Me dá um abraço, meu candidato!

(Mais tarde, na foto oficial e na entrevista coletiva, ambos farão caras e bocas para dizer que coligar-se era uma opção natural, dada a comunhão ideológica e programática que os dois partidos sempre demonstraram em sua história conjunta de lutas pela democracia e blá blá blá)

Obviamente, a negociação não acaba aí. Depois que o candidato é eleito, os partidos da sua base nunca esquecerão de sussurrar no seu ouvido o preço do apoio. Às vezes, esse preço é renegociado. Votações polêmicas no Legislativo, por exemplo, podem necessitar de um adicional em dinheiro ou em cargos.

A proximidade das novas eleições sempre indica uma necessidade de rever a estrutura de alianças, já que outros candidatos também podem querer contar com os tais cinquenta segundos a mais na TV — e podem estar dispostos a pagar um preço ainda mais alto pelo apoio.

— Olha, Fulano, não sei se vamos manter a coligação na próxima eleição…

— Mas, Beltrano, eu já te dei mais uma secretaria e dezoito cargos de confiança além daqueles vinte! Já não basta?

— É que o Sicrano me ofereceu o cargo de vice na chapa dele…

— Desculpa, mas não posso dar a vaga de vice pra vocês e deixar o pessoal do PQP, que tem cinco vereadores e uma militância muito maior, sem o cargo.

— Olha, talvez a gente possa resolver isso como resolvemos aquela votação na Câmara mês passado.

— Vai querer em notas de vinte ou de cinquenta?

cestas básicas, asfalto, pé no barro e mudez

[postado originalmente em 3 de outubro de 2012, num blogue que deixou de existir]

E agora, a poucos dias das eleições, começam a pulular denúncias de compra de votos em diversas cidades gaúchas. Algumas a imprensa publica, outras a imprensa ignora e eu me sinto, cada vez mais, um náufrago afundando em um mar de pus.

Hoje, na Rádio Gaúcha, após a veiculação de uma notícia sobre crime eleitoral em São José do Ouro, o comentarista Cláudio Brito perguntou, retoricamente: “Será que é só em São José do Ouro que ocorre compra de votos?”

Sei que sua pergunta foi retórica, Cláudio, mas respondo: não, não é. A pilantragem está instaurada, é um esquema com muito mais cúmplices do que vítimas, praticamente todo mundo sabe disso e ninguém move um dedo para impedir que essa máfia continue elegendo os seus beleguins e comprando votos e perpetuando a sua escandalosa usurpação da coisa pública.

Há duas semanas, falei com meu tio Rogério, que trabalha como açougueiro na Vila São Martim, em São Sebastião do Caí, e ele disse: “Até um mês depois das eleições, nenhum mercado vende um quilo de arroz na São Martim, pois tá todo mundo com os armários cheios de comida dada pelos candidatos”.

Cresci em São Sebastião do Caí e sei que a compra de votos é algo comum e disseminado no município. Votar em troca de favores ou de produtos é uma prática entalhada no DNA político da minha cidade. E, pelo que vejo e ouço, no de todas as outras.

O mais absurdo é que todo mundo sabe disso. Haveria farto material para ilustrar dezenas de reportagens sobre crimes do tipo. Mas, como jornalista, acabo com as mãos atadas pelas rotinas jornalísticas (necessidade de fontes, comprovação palpável, contrapontos etc) e pelas salvaguardas jurídicas necessárias para impedir que os bandidos que pretendo denunciar acabem processando a mim e ao veículo que me emprega — e usando a Justiça que deveria colocá-los na cadeia para arrancar ainda mais dinheiro de outras pessoas.

E é por isso, entre outros motivos, que deixamos de publicar barbaridades que poderiam ajudar, nem que fosse um pouquinho, a diminuir as maiúsculas votações desses crápulas — se é que ainda existe algum (e)leitor que se importe com a moralidade dos representantes que elege.

E é assim que, mesmo com as pregas vocais intactas, acabo prisioneiro de uma mudez que me impede de gritar e denunciar absurdos e mais absurdos que leitores me relatam diariamente (eles recorrem a mim porque acham que a minha voz pode soar mais alto que a deles, veja só que ingênuos).

Mas a nossa mudez está longe de se restringir à compra de votos. Hoje, quando eu voltava do trabalho ouvindo a Rádio Gaúcha, uma reportagem mostrou que essa é uma situação bem mais complexa e com muito mais nuances.

Um repórter foi a uma vila de Porto Alegre — onde um beco teria sido asfaltado a mando de um candidato a vereador em troca de votos e da colocação de placas do referido candidato em frente às casas.

Lá, um dos moradores ameaçou esse jovem repórter. Tudo gravado e transmitido pela rádio. O homem disse ao jornalista para não fotografar a placa em frente a sua casa, ou haveria represálias.

Até aí, parecia a típica dicotomia brutamontes x mocinho, selvagem x civilizado; afinal, um bárbaro inculto prometia, diante de um gravador ligado, agredir um representante da imprensa que fazia uma denúncia de crime eleitoral. Era um cúmplice de compra de votos tentando intimidar um arauto da Verdade.

Foi então que aquele homem disse algo que me deixou assombrado: “Tem que entrar aqui quando estamos pisando no barro!”

Nocaute!

Aquele bárbaro inculto pisava, enquanto ameaçava o repórter, em uma via pavimentada. Precariamente pavimentada, mas ainda assim pavimentada. Aquele beco que antes obrigava os moradores a pisar na lama está agora com uma camada improvisada de asfalto.

E onde estávamos nós, jornalistas, quando aquela gente sujava os pés toda vez que saía de casa?

Há muitas barbaridades por aí, além da compra de votos, barbaridades que ocorrem em outras épocas além do período eleitoral.

Há pessoas que viajam espremidas em ônibus lotados, muitas vezes, como em finais de semana e feriados, depois de uma longa espera no ponto. Você já passou quarenta minutos esperando um ônibus e suportando a chuva e o frio do inverno gaúcho, leitor? Eu já, e sei que não é nada agradável. Muita gente passa por isso regularmente — e o que fazemos nós, jornalistas?

Há pessoas, como o porto-alegrense que ameaçou o repórter da Rádio Gaúcha, que moram em becos sem nome, onde sobra poeira nos dias secos e lama nos dias chuvosos. Mas isso raramente sai no jornal.

Há crianças que brincam ao lado de riachos de excremento e urina, há meninas que vendem o corpo por uma pedra de crack, há milhares de coisas que eu poderia continuar elencando para soar ainda mais piegas, e nós nos omitimos.

Em cinco anos de plantões na redação, já recebi dezenas e dezenas de ligações de pessoas que recorrem a nós em busca de ajuda para a falta de ônibus, de pavimentação, de atendimento médico, de professor na escola, de policiais na rua. E o que fiz para denunciar essas situações?

A compra de votos é crime eleitoral e deve ser denunciada, mas também devemos denunciar a negligência do poder público. Aquelas pessoas não precisariam trocar seus votos por asfalto se aquelas ruas já estivessem asfaltadas, regularizadas, iluminadas e integradas à rede de esgoto.

Se houvesse políticas públicas humanizantes, um sistema de saúde eficiente, um transporte público de qualidade, escolas que ensinassem de verdade em vez de dar certificados a analfabetos funcionais, talvez as pessoas soubessem o que é cidadania e escorraçassem essa corja da política para sempre.

Mas, como os detentores do poder não farão isso por conta própria, talvez seja hora de a imprensa fazer a sua parte.

Brasília: a cara do Brasil

Um dos passatempos preferidos de todo brasileiro é ficar imaginando diferentes maneiras de destruir Brasília, ou pelo menos a sua área administrativa. De marretas a bombas atômicas, passando pela chuva de enxofre, cada um acredita ter encontrado o modo mais eficaz – ou o mais divertido – de acabar com aquela Ilha da Fantasia e resolver de vez os problemas do Brasil.

No imaginário popular, a sede da administração federal – em especial, o Congresso Nacional – é um símbolo do que o nosso país tem de pior.
Um sindicato do crime oprimindo todo um povo, uma maçã podre contaminando o cesto inteiro, uma corja sem a qual tudo funcionaria: sem eles, a saúde e a educação teriam recursos, os bueiros não entupiriam, o sertão viraria mar e a Joelma do Calypso pararia de cantar para se dedicar à jardinagem.

Ao apontar os políticos como culpados pela situação lamentável em que nos encontramos, os acusadores esquecem de fazer a si próprios a seguinte pergunta: de onde vieram esses filhos da puta corruptos? Serão eles alienígenas oriundos do planeta Maracutaia, que um dia aterrisaram nesta terra de ingênuos e implantaram sua cleptocracia? Não terão eles nenhum “parentesco moral” com o povo que representam?

Nem é preciso um grande estudo sociológico (basta observar um pouco as pessoas à nossa volta) para constatar que o político médio brasileiro não é muito diferente do cidadão médio que o elegeu. Brasília é a cara do Brasil. Um povo com alto índice de corruptos só pode gerar um Congresso com alto índice de corruptos. Em maior ou em menor grau, muitíssimos brasileiros praticam atos de corrupção o tempo todo.

Quem não conhece alguém que usa comprovante de endereço falso para receber benefícios a que não tem direito? Isso é um tipo de corrupção (pra não chamar de “roubo”), mas o senso comum decidiu chamar de “esperteza”.

Quem não conhece alguém que põe o nome da mãe como dependente no formulário do Imposto de Renda, para pagar menos à Receita? Corrupção? Não, a culpa é transferida para o Leão do IR, que tem fome demais.

O cobrador de ônibus se engana na contagem do troco e dá dinheiro a mais para o passageiro. No Brasil, quem se dá conta do engano do cobrador e lhe devolve o dinheiro é chamado de “otário”. Ficar com esse dinheiro, que depois será descontado do salário do cobrador, não é corrupção: é “senso de oportunidade.”

Um microônibus com vários menores de idade volta de um passeio. A Polícia Rodoviária o manda parar, numa verificação de rotina, e constata que aqueles menores não têm o bilhete de autorização assinado pelos pais. Logo, eles não podem seguir viagem. O que acontece? Os policiais e o motorista acertam o preço (duzentos reais) e o micro vai embora numa boa. Corruptos e corruptor? Não. São apenas brasileiros normais removendo um obstáculo legal.

Esses dias, quando fui trocar de celular, o vendedor do Ponto Frio usou o seguinte argumento para tentar me vender um seguro para o aparelho: bastaria que eu fosse a uma delegacia e fizesse um boletim de ocorrência (Beó, pros íntimos) mentindo que tinha sido roubado, e o seguro me daria um telefone novo. Aí, eu ficaria com dois. Um grande corruptor investigado pela PF? Não, um trabalhador brasileiro tentando engordar a sua comissão. 

Não inventei nenhum desses casos. Eu vi tudo isso acontecer. No caso do micro e da compra do celular, eu estava lá, observando tudo. Imagino que haja outros milhares de exemplos possíveis. No país regido pela Lei de Gérson, inventar maneiras de se dar bem burlando a lei é algo chamado “criatividade.” Claro que todos esses corruptos cotidianos têm desculpas muito boas para justificar os seus atos, mas os grandes corruptos governamentais também devem conhecer umas justificativas excelentes.

Desde a fundação do Brasil, lá nos tempos de colônia, instaurou-se por aqui uma cultura de patrimonialismo, de clientelismo, de coronelismo. O patrimônio público passou a servir para engordar interesses privados e o descaso do poder com as camadas médias e pobres cristalizou a ideia de que o único caminho é se locupletar também.

Foi Augusto Comte quem disse que “cada povo tem o governo que merece.” No Brasil, a frase cai como uma luva. É por isso que destruir Brasília não resolveria o problema da corrupção. Os políticos corruptos só deixarão de ser regra para se tornar a exceção (e só serão devidamente punidos) quando o “otário” que devolve o troco a mais também deixar de ser exceção para se tornar a regra.

[Publicado originalmente em 2007, no meu blogue antigo]