cestas básicas, asfalto, pé no barro e mudez

[postado originalmente em 3 de outubro de 2012, num blogue que deixou de existir]

E agora, a poucos dias das eleições, começam a pulular denúncias de compra de votos em diversas cidades gaúchas. Algumas a imprensa publica, outras a imprensa ignora e eu me sinto, cada vez mais, um náufrago afundando em um mar de pus.

Hoje, na Rádio Gaúcha, após a veiculação de uma notícia sobre crime eleitoral em São José do Ouro, o comentarista Cláudio Brito perguntou, retoricamente: “Será que é só em São José do Ouro que ocorre compra de votos?”

Sei que sua pergunta foi retórica, Cláudio, mas respondo: não, não é. A pilantragem está instaurada, é um esquema com muito mais cúmplices do que vítimas, praticamente todo mundo sabe disso e ninguém move um dedo para impedir que essa máfia continue elegendo os seus beleguins e comprando votos e perpetuando a sua escandalosa usurpação da coisa pública.

Há duas semanas, falei com meu tio Rogério, que trabalha como açougueiro na Vila São Martim, em São Sebastião do Caí, e ele disse: “Até um mês depois das eleições, nenhum mercado vende um quilo de arroz na São Martim, pois tá todo mundo com os armários cheios de comida dada pelos candidatos”.

Cresci em São Sebastião do Caí e sei que a compra de votos é algo comum e disseminado no município. Votar em troca de favores ou de produtos é uma prática entalhada no DNA político da minha cidade. E, pelo que vejo e ouço, no de todas as outras.

O mais absurdo é que todo mundo sabe disso. Haveria farto material para ilustrar dezenas de reportagens sobre crimes do tipo. Mas, como jornalista, acabo com as mãos atadas pelas rotinas jornalísticas (necessidade de fontes, comprovação palpável, contrapontos etc) e pelas salvaguardas jurídicas necessárias para impedir que os bandidos que pretendo denunciar acabem processando a mim e ao veículo que me emprega — e usando a Justiça que deveria colocá-los na cadeia para arrancar ainda mais dinheiro de outras pessoas.

E é por isso, entre outros motivos, que deixamos de publicar barbaridades que poderiam ajudar, nem que fosse um pouquinho, a diminuir as maiúsculas votações desses crápulas — se é que ainda existe algum (e)leitor que se importe com a moralidade dos representantes que elege.

E é assim que, mesmo com as pregas vocais intactas, acabo prisioneiro de uma mudez que me impede de gritar e denunciar absurdos e mais absurdos que leitores me relatam diariamente (eles recorrem a mim porque acham que a minha voz pode soar mais alto que a deles, veja só que ingênuos).

Mas a nossa mudez está longe de se restringir à compra de votos. Hoje, quando eu voltava do trabalho ouvindo a Rádio Gaúcha, uma reportagem mostrou que essa é uma situação bem mais complexa e com muito mais nuances.

Um repórter foi a uma vila de Porto Alegre — onde um beco teria sido asfaltado a mando de um candidato a vereador em troca de votos e da colocação de placas do referido candidato em frente às casas.

Lá, um dos moradores ameaçou esse jovem repórter. Tudo gravado e transmitido pela rádio. O homem disse ao jornalista para não fotografar a placa em frente a sua casa, ou haveria represálias.

Até aí, parecia a típica dicotomia brutamontes x mocinho, selvagem x civilizado; afinal, um bárbaro inculto prometia, diante de um gravador ligado, agredir um representante da imprensa que fazia uma denúncia de crime eleitoral. Era um cúmplice de compra de votos tentando intimidar um arauto da Verdade.

Foi então que aquele homem disse algo que me deixou assombrado: “Tem que entrar aqui quando estamos pisando no barro!”

Nocaute!

Aquele bárbaro inculto pisava, enquanto ameaçava o repórter, em uma via pavimentada. Precariamente pavimentada, mas ainda assim pavimentada. Aquele beco que antes obrigava os moradores a pisar na lama está agora com uma camada improvisada de asfalto.

E onde estávamos nós, jornalistas, quando aquela gente sujava os pés toda vez que saía de casa?

Há muitas barbaridades por aí, além da compra de votos, barbaridades que ocorrem em outras épocas além do período eleitoral.

Há pessoas que viajam espremidas em ônibus lotados, muitas vezes, como em finais de semana e feriados, depois de uma longa espera no ponto. Você já passou quarenta minutos esperando um ônibus e suportando a chuva e o frio do inverno gaúcho, leitor? Eu já, e sei que não é nada agradável. Muita gente passa por isso regularmente — e o que fazemos nós, jornalistas?

Há pessoas, como o porto-alegrense que ameaçou o repórter da Rádio Gaúcha, que moram em becos sem nome, onde sobra poeira nos dias secos e lama nos dias chuvosos. Mas isso raramente sai no jornal.

Há crianças que brincam ao lado de riachos de excremento e urina, há meninas que vendem o corpo por uma pedra de crack, há milhares de coisas que eu poderia continuar elencando para soar ainda mais piegas, e nós nos omitimos.

Em cinco anos de plantões na redação, já recebi dezenas e dezenas de ligações de pessoas que recorrem a nós em busca de ajuda para a falta de ônibus, de pavimentação, de atendimento médico, de professor na escola, de policiais na rua. E o que fiz para denunciar essas situações?

A compra de votos é crime eleitoral e deve ser denunciada, mas também devemos denunciar a negligência do poder público. Aquelas pessoas não precisariam trocar seus votos por asfalto se aquelas ruas já estivessem asfaltadas, regularizadas, iluminadas e integradas à rede de esgoto.

Se houvesse políticas públicas humanizantes, um sistema de saúde eficiente, um transporte público de qualidade, escolas que ensinassem de verdade em vez de dar certificados a analfabetos funcionais, talvez as pessoas soubessem o que é cidadania e escorraçassem essa corja da política para sempre.

Mas, como os detentores do poder não farão isso por conta própria, talvez seja hora de a imprensa fazer a sua parte.