O LHC nos salvará do caos

Parece que uma das propriedades do buraco negro que o LHC pode causar (sim, pois, para quem não sabe, a colisão fatídica ainda não aconteceu… por enquanto, a máquina está apenas fazendo gargarejos) é a de virar tudo pelo avesso.

Quando os prótons se chocarem e o buraco negro surgir, tudo vai deixar de ser o que é para se tornar o que pode vir a deixar de não ser.

Para o Brasil, as conseqüências podem ser extremamente positivas. Imagine só como seria ser o nosso avesso.

Faustão pararia de puxar o saco de todos os energúmenos que no seu programa aparecem, pediria demissão e se tornaria roadie da nova banda do Luiz Schiavon, o TPM.

Lula passaria a ter a mesma polidactilia de Hannibal Lecter, romperia com o FMI, daria moratória na dívida externa e distribuiria terras aos camponeses, ao mesmo tempo em que contrataria Diogo Mainardi para redigir a síntese dos seus pensamentos. A obra, o Livro Vermelho de Lula, seria distribuída à população e debatida nas escolas.

O petróleo perderia todo o valor de mercado e ficaria acima da camada de pré-sal, e a Petrobras seria contratada pelas companhias pesqueiras para encontrar uma maneira de explorar cardumes que vivessem abaixo da camada de óleo.

Nossos trens sairiam e chegariam sempre no horário, seriam rápidos e modernos e um bando de reaças criaria blogues para criticar o excesso de importância dado pelo governo à nossa excessivamente abrangente malha ferroviária.

Guilherme Fontes ganharia a Palma de Ouro por seu Chatô e o filme seria tão lucrativo que o seu criador poderia devolver aos cofres públicos todos os milhões que lhe foram dados.

Torçamos pelo insucesso da experiência. Do jeito que as coisas andam, só um buraco negro pode nos salvar.

Large Hadron Collider: a Máquina do Juízo Final

Agora é oficial: os Quatro Cavaleiros do Apocalipse chamam-se Atlas, Alice, LHCb e CMS. Esses são os nomes dos artefatos que compõem o LHC (Large Hadron Collider, ou Grande Colisor de Hádrons), o maior acelerador de partículas do mundo, uma engenhoca de US$ 8 bilhões que uns cientistas malucos do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern, na sigla em francês) construíram no meio da Europa e pretendem ligar em breve.

Outros cientistas um pouco mais malucos afirmam que, se acionado, o LHC pode criar um pequeno buraco negro capaz de tragar a Terra inteira ou, na melhor das hipóteses, provocar uma explosão forte o bastante para nos mandar a todos pelos ares.

Os técnicos envolvidos no projeto redargüem que isso é tudo balela catastrofista e que as chances de a super-máquina gerar um cataclisma planetário são de 1 em 50 milhões — mais ou menos a mesma improbabilidade que é derrotada toda vez que alguém ganha na loteria.

Um acelerador como o LHC é basicamente um autorama para partículas subatômicas. Os cientistas vão usar o gigantesco brinquedo para fazer com que dois prótons percorram a “pista” em sentidos opostos, chegando muito perto da velocidade da luz, até se chocarem e gerarem muita, mas muita energia, além de se quebrarem em pedacinhos menores. Divertido, não?

Com a colisão, os milhares de pesquisadores empenhados na brincadeira pretendem verificar a possível existência do Bóson de Higgs (a partícula hipotética que seria a chave para entendermos a matéria), estudar algumas outras partículas e, mais que tudo, querem criar condições semelhantes àquelas geradas imediatamente após o Big Bang, para aprender um pouco mais sobre a origem do universo.

E é aqui que nós podemos começar a chamá-los de malucos.

Ora, o Big Bang teria sido a explosão de um ponto de tamanho infinitesimal, e essa detonação foi tão descomunal que seus ecos podem ser “ouvidos” mesmo depois de 15 bilhões de anos.

Qualquer um sabe que, se existisse “espaço” no momento exato do Big Bang original, nenhuma pessoa dotada de um mínimo de juízo gostaria de estar nas imediações do evento depois de apertado o botão. E falamos em “imediações” no sentido cósmico do termo, ou seja, alguns bilhões de quilômetros. E eles querem fazer algo parecido logo ali, na Europa.

Temos algum tempo antes que o LHC (que será ligado para testes nesta semana) seja acionado pra valer e provoque a colisão possivelmente fatídica. E, nesse ínterim, eu poderia dizer aos cientistas do Cern como surgiu o nosso universo, se eles viessem me perguntar (o que pouparia um bocado de dinheiro e preocupação):

Tudo começou há muito tempo, numa outra dimensão, onde vivia uma civilização pretensamente avançada cujos cientistas, por não terem nada muito útil para fazer, decidiram construir uma máquina que lhes revelasse as origens do universo. Quando o artefato foi ligado, ocorreu uma explosão tão poderosa que aniquilou aquele universo e deu origem a outro (o nosso). E essa é a história de tudo.

É claro que é bem mais provável (cerca de 50 milhões de vezes mais provável) que eu esteja enganado, que tudo transcorra bem e que os homens continuem vivendo e se matando alegremente depois do teste do LHC. Mas sempre é bom lembrar que, se as pessoas realmente levassem em conta a lei das probabilidades, ninguém apostaria na Mega Sena.