nem todos são (chamados de) macacos

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[postado originalmente em 29 de abril de 2014, num blogue que deixou de existir]

Aplaudi, no domingo, o belo gesto antropofágico do lateral Daniel Alves, que, ao ver no gramado uma banana arremessada com intenção de petardo por um torcedor racista, descascou e comeu a fruta do preconceito – e com ela digeriu, simbolicamente, o próprio agressor. O que não mata engorda.

Muita gente também aplaudiu a altivez e ironia de Dani, principalmente nas redes sociais. E começou, no ritmo acelerado e irrefletido do novo tempo que nos regula, uma campanha de apoio ao jogador, comandada, ao que tudo indica, por Neymar (depois se descobriu que tinha uma agência de propaganda orquestrando o viral bem sucedido). Uma galeeeeeera postou nas timelines fotos, geralmente no estilo selfie, em que os neo-Luther Kings apareciam segurando uma banana semidescascada. As imagens eram acompanhadas da hashtag #somostodosmacacos, com o que tentavam dizer que todos nós, negros, brancos, pardos, índios, asiáticos, mestiços e, claro, as várias espécies de macacos, estamos no mesmo barco de Dani Alves.

Luciano Huck, esse antenado empreendedor do bom-mocismo, também postou uma foto e, rapidinho, tratou de lançar um modelo de camiseta inspirado na campanha, que oferece por R$ 69 na loja da sua grife.

Seria uma acachapante goleada, um vareio aplicado sobre o preconceito, não fosse essa campanha inteira meramente cosmética, mais um produto altamente vendável da indústria do cool. Os brancos e os negros não são iguais. E Luciano Huck sabe disso.

Há vários níveis de igualdade. Claro que todos temos (ou deveríamos ter) a mesma dignidade, mas, no que diz respeito às condições materiais, chances na vida e enfrentamento com o preconceito, só alguns de nós são macacos.

Quantos negros as celebridades brancas que comeram banana para a foto costumam encontrar fazendo compras nas suas lojas de carros importados favoritas? Quantos deles levam os filhos a pediatras negros? Quantos deles já ouviram falar de um médico negro nascido e formado no Brasil?

No sentido oposto, qual é o percentual de negros na população carcerária? Qual é o percentual de negros entre as pessoas assassinadas pela polícia? Qual é o percentual de negros entre os faxineiros? Se somos todos iguais, como diz a campanha cool da banana, por que raios mais negros entram no crime ou “optam” (como dizem os liberais) por profissões subalternas? Isso é natural?

Claro que a última pergunta foi retórica. Essa desigualdade não é natural; é historicamente imposta. E não será resolvida com selfies frutíferos acompanhados de hashtags duvidosas – até porque o racismo não se resume a jogar bananas em jogadores de futebol. E não basta não ofender os negros para não ser considerado racista.

Apoiar um sistema político, econômico e sociocultural que mantém os negros nas classes menos favorecidas também é racismo. Votar em candidatos contrários a políticas de ação afirmativa e de resgate da dignidade dos negros (e de outras etnias menos empoderadas, claro) também é racismo. Apoiar o status militarizado de uma polícia que mata negros (e que considera matar pessoas de qualquer etnia um modo de operação aceitável) também é racismo.

Nesse sentido, negar a diferença é prejudicial aos que já são desfavorecidos por essa diferença. É preciso que essa diferença seja escancarada e evidenciada. É preciso que a desigualdade nos cause desconforto – para que a enfrentemos nos contextos em que se revela mais perversa. Quando for normal que Luciano Huck encontre negros almoçando na mesa ao lado no seu restaurante favorito, aí sim poderemos dizer que somos iguais.

Tudo mais é perfumaria e postagem caça-like – o que inclui este texto.

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