vida!

Para além do consumismo e do feriadão, o que têm a ver um Coelho, ovos de chocolate e um pregador andarilho sendo morto pelo Estado como criminoso político e ressuscitando dois dias depois?

O sentido comum dos três elementos é a vida se renovando e vencendo a morte.

Que nunca percamos a esperança nessa vitória da vida sobre a morte.

nem todos são (chamados de) macacos

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[postado originalmente em 29 de abril de 2014, num blogue que deixou de existir]

Aplaudi, no domingo, o belo gesto antropofágico do lateral Daniel Alves, que, ao ver no gramado uma banana arremessada com intenção de petardo por um torcedor racista, descascou e comeu a fruta do preconceito – e com ela digeriu, simbolicamente, o próprio agressor. O que não mata engorda.

Muita gente também aplaudiu a altivez e ironia de Dani, principalmente nas redes sociais. E começou, no ritmo acelerado e irrefletido do novo tempo que nos regula, uma campanha de apoio ao jogador, comandada, ao que tudo indica, por Neymar (depois se descobriu que tinha uma agência de propaganda orquestrando o viral bem sucedido). Uma galeeeeeera postou nas timelines fotos, geralmente no estilo selfie, em que os neo-Luther Kings apareciam segurando uma banana semidescascada. As imagens eram acompanhadas da hashtag #somostodosmacacos, com o que tentavam dizer que todos nós, negros, brancos, pardos, índios, asiáticos, mestiços e, claro, as várias espécies de macacos, estamos no mesmo barco de Dani Alves.

Luciano Huck, esse antenado empreendedor do bom-mocismo, também postou uma foto e, rapidinho, tratou de lançar um modelo de camiseta inspirado na campanha, que oferece por R$ 69 na loja da sua grife.

Seria uma acachapante goleada, um vareio aplicado sobre o preconceito, não fosse essa campanha inteira meramente cosmética, mais um produto altamente vendável da indústria do cool. Os brancos e os negros não são iguais. E Luciano Huck sabe disso.

Há vários níveis de igualdade. Claro que todos temos (ou deveríamos ter) a mesma dignidade, mas, no que diz respeito às condições materiais, chances na vida e enfrentamento com o preconceito, só alguns de nós são macacos.

Quantos negros as celebridades brancas que comeram banana para a foto costumam encontrar fazendo compras nas suas lojas de carros importados favoritas? Quantos deles levam os filhos a pediatras negros? Quantos deles já ouviram falar de um médico negro nascido e formado no Brasil?

No sentido oposto, qual é o percentual de negros na população carcerária? Qual é o percentual de negros entre as pessoas assassinadas pela polícia? Qual é o percentual de negros entre os faxineiros? Se somos todos iguais, como diz a campanha cool da banana, por que raios mais negros entram no crime ou “optam” (como dizem os liberais) por profissões subalternas? Isso é natural?

Claro que a última pergunta foi retórica. Essa desigualdade não é natural; é historicamente imposta. E não será resolvida com selfies frutíferos acompanhados de hashtags duvidosas – até porque o racismo não se resume a jogar bananas em jogadores de futebol. E não basta não ofender os negros para não ser considerado racista.

Apoiar um sistema político, econômico e sociocultural que mantém os negros nas classes menos favorecidas também é racismo. Votar em candidatos contrários a políticas de ação afirmativa e de resgate da dignidade dos negros (e de outras etnias menos empoderadas, claro) também é racismo. Apoiar o status militarizado de uma polícia que mata negros (e que considera matar pessoas de qualquer etnia um modo de operação aceitável) também é racismo.

Nesse sentido, negar a diferença é prejudicial aos que já são desfavorecidos por essa diferença. É preciso que essa diferença seja escancarada e evidenciada. É preciso que a desigualdade nos cause desconforto – para que a enfrentemos nos contextos em que se revela mais perversa. Quando for normal que Luciano Huck encontre negros almoçando na mesa ao lado no seu restaurante favorito, aí sim poderemos dizer que somos iguais.

Tudo mais é perfumaria e postagem caça-like – o que inclui este texto.

Como é difícil ser superior

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Às vezes eu me pergunto se a nossa Evolução foi mesmo uma evolução, no sentido maniqueísta do termo.

Não quero repetir o discurso do Ivalino, que acha que deveríamos viver da agricultura de subsistência, mas sim ir ainda mais longe no passado e questionar se deveríamos ter descido das árvores.

Cá estou eu, um menino que tem dois empregos e faz faculdade, com trabalhos atrasados de 8 cadeiras e apenas uma semana para terminá-los todos. Isso acontece todo semestre e sempre dou um jeito, perdendo noites de sono e comendo compulsivamente pra compensar a ansiedade.

Tudo pra ganhar um diploma, tentar conseguir um emprego “melhor” e ficar vinte anos pagando um financiamento imobiliário, só pra depois procurar um apartamento melhor e mais caro.

A vida passa diante de nossos olhos sem que possamos vivê-la decentemente –  eis o que nos proporcionou a Evolução.

Meu cérebro é um milagre da natureza – e o seu também, leitor. E pra que mesmo eu uso todos os meus fabulosos neurônios e sinapses? Pra pensar em maneiras de sair de um emprego, comer e chegar ao outro emprego em menos de 40 minutos. Ou, então, pra achar um jeito de fazer resenhas sem precisar ler os livros que os professores indicam. E não adianta achar que “depois da formatura vou me aliviar”, porque sei que quando me formar vou achar outra(s) atividade(s) ainda mais massacrante(s) pra ocupar todo o meu tempo.

Depois que desceu das árvores, o homem se tornou caçador e depois conseguiu inventar uma maneira de se alimentar sem precisar caçar, mas em compensação criou os impostos, as filas e os prazos de entrega. Talvez tivesse sido melhor ficar se espichando de galho em galho, comendo bagas e catando piolhos dos semelhantes. Afinal, se não fosse a nossa evolução, haveria muitas florestas vicejantes cheias de macacos gordos e satisfeitos e muitos pastos verdinhos com milhares de ruminantes pastando alegremente – sem nenhuma preocupação maior que fugir de um leopardo de vez em quando.

O calendário, outra invenção do macaco-trabalhador, é um tormento particularmente opressivo. Caso você ainda não tenha percebido, estamos chegando à metade de mais um novembro. Mais um ano acaba e… o que eu fiz de bom? Eu sempre prometo a mim mesmo, todo ano, fazer algo grandioso – e nunca consigo cumprir a promessa. E não vou puxar do bolso aquela maldita modéstia politicamente correta. Eu realmente me considero capaz de grandes coisas, mas vou adiando-as todas só porque preciso pagar as contas.

Alternativas existem, você vai me dizer, e eu vou concordar com você. É possível dizer adeus a tudo isso, viver como andarilho e depois acabar morrendo no Alasca. Ou, então, abrir um bar na praia  e viver mais sossegado. Ou, ainda, aprender a atirar, comprar uma arma e ir ser assaltante em Esteio, RS, onde ninguém fica preso se roubar menos de R$ 300 de cada vez.

Mas… aqui reside a minha hipocrisia: eu optei por esta vida –  e ratifico a minha decisão a cada dia. Apesar dessa merda de rotina, com todos esses prazos, obrigações, contas a pagar e tempo desperdiçado, eu realmente gosto de algumas coisas que a evolução permitiu ao homem fazer.

Renunciar à parte chata e opressiva da vida em sociedade significa dizer adeus àqueles pedacinhos de plástico chamados cartões de crédito e tudo que eles nos permitem fazer e desfrutar. Eu nunca fiz nada grandioso, mas alguns outros espécimes, como Ritchie Blackmore, Douglas Adams e Cameron Crowe, fizeram – e essas obras maravilhosas, que tornam a vida mais suportável, só poderão ser apreciadas por mim se eu tiver dinheiro para comprá-las ou, no mínimo, para pagar a conta do acesso à internet.

Resumindo: talvez seja melhor agüentar a rotina frenética e sem sentido, cheia de atividades maçantes, ouvir boa música, ver bons filmes, ler bons livros nos momentos de folga e esperar para criar coisas grandiosas no ano que vem.

E um viva à Evolução.

Brasília: a cara do Brasil

Um dos passatempos preferidos de todo brasileiro é ficar imaginando diferentes maneiras de destruir Brasília, ou pelo menos a sua área administrativa. De marretas a bombas atômicas, passando pela chuva de enxofre, cada um acredita ter encontrado o modo mais eficaz – ou o mais divertido – de acabar com aquela Ilha da Fantasia e resolver de vez os problemas do Brasil.

No imaginário popular, a sede da administração federal – em especial, o Congresso Nacional – é um símbolo do que o nosso país tem de pior.
Um sindicato do crime oprimindo todo um povo, uma maçã podre contaminando o cesto inteiro, uma corja sem a qual tudo funcionaria: sem eles, a saúde e a educação teriam recursos, os bueiros não entupiriam, o sertão viraria mar e a Joelma do Calypso pararia de cantar para se dedicar à jardinagem.

Ao apontar os políticos como culpados pela situação lamentável em que nos encontramos, os acusadores esquecem de fazer a si próprios a seguinte pergunta: de onde vieram esses filhos da puta corruptos? Serão eles alienígenas oriundos do planeta Maracutaia, que um dia aterrisaram nesta terra de ingênuos e implantaram sua cleptocracia? Não terão eles nenhum “parentesco moral” com o povo que representam?

Nem é preciso um grande estudo sociológico (basta observar um pouco as pessoas à nossa volta) para constatar que o político médio brasileiro não é muito diferente do cidadão médio que o elegeu. Brasília é a cara do Brasil. Um povo com alto índice de corruptos só pode gerar um Congresso com alto índice de corruptos. Em maior ou em menor grau, muitíssimos brasileiros praticam atos de corrupção o tempo todo.

Quem não conhece alguém que usa comprovante de endereço falso para receber benefícios a que não tem direito? Isso é um tipo de corrupção (pra não chamar de “roubo”), mas o senso comum decidiu chamar de “esperteza”.

Quem não conhece alguém que põe o nome da mãe como dependente no formulário do Imposto de Renda, para pagar menos à Receita? Corrupção? Não, a culpa é transferida para o Leão do IR, que tem fome demais.

O cobrador de ônibus se engana na contagem do troco e dá dinheiro a mais para o passageiro. No Brasil, quem se dá conta do engano do cobrador e lhe devolve o dinheiro é chamado de “otário”. Ficar com esse dinheiro, que depois será descontado do salário do cobrador, não é corrupção: é “senso de oportunidade.”

Um microônibus com vários menores de idade volta de um passeio. A Polícia Rodoviária o manda parar, numa verificação de rotina, e constata que aqueles menores não têm o bilhete de autorização assinado pelos pais. Logo, eles não podem seguir viagem. O que acontece? Os policiais e o motorista acertam o preço (duzentos reais) e o micro vai embora numa boa. Corruptos e corruptor? Não. São apenas brasileiros normais removendo um obstáculo legal.

Esses dias, quando fui trocar de celular, o vendedor do Ponto Frio usou o seguinte argumento para tentar me vender um seguro para o aparelho: bastaria que eu fosse a uma delegacia e fizesse um boletim de ocorrência (Beó, pros íntimos) mentindo que tinha sido roubado, e o seguro me daria um telefone novo. Aí, eu ficaria com dois. Um grande corruptor investigado pela PF? Não, um trabalhador brasileiro tentando engordar a sua comissão. 

Não inventei nenhum desses casos. Eu vi tudo isso acontecer. No caso do micro e da compra do celular, eu estava lá, observando tudo. Imagino que haja outros milhares de exemplos possíveis. No país regido pela Lei de Gérson, inventar maneiras de se dar bem burlando a lei é algo chamado “criatividade.” Claro que todos esses corruptos cotidianos têm desculpas muito boas para justificar os seus atos, mas os grandes corruptos governamentais também devem conhecer umas justificativas excelentes.

Desde a fundação do Brasil, lá nos tempos de colônia, instaurou-se por aqui uma cultura de patrimonialismo, de clientelismo, de coronelismo. O patrimônio público passou a servir para engordar interesses privados e o descaso do poder com as camadas médias e pobres cristalizou a ideia de que o único caminho é se locupletar também.

Foi Augusto Comte quem disse que “cada povo tem o governo que merece.” No Brasil, a frase cai como uma luva. É por isso que destruir Brasília não resolveria o problema da corrupção. Os políticos corruptos só deixarão de ser regra para se tornar a exceção (e só serão devidamente punidos) quando o “otário” que devolve o troco a mais também deixar de ser exceção para se tornar a regra.

[Publicado originalmente em 2007, no meu blogue antigo]

Religare

Afirmam os religiosos e os filólogos que o termo RELIGIÃO vem de RELIGARE, re-ligar, unir de novo o que foi separado. No caso (e aqui apenas os religiosos continuam especulando, pois os filólogos saíram pra beber e inventar trocadilhos engraçadinhos), trata-se de unir de novo o humano e o divino, o terreno e o celestial, o material e o imaterial, o concreto e o místico. Um belo conceito, devo dizer. Si non è vero, è bene trovato.

Quando crianças, aprendemos que existe um Papai do Céu de barba branca, que usa vestido e ouve tudo que dizemos, vê tudo que fazemos (mesmo quando apagamos a luz do banheiro), conhece de cor o nosso passado e, pasmem, o nosso futuro. Aprendemos que esse Papai do Céu é muito bondoso e compreensivo, mas não hesitará em nos jogar no fogo eterno se ousarmos perder a missa, comer carne na Sexta-feira Santa ou espiar as meninas tomando banho de sol. Sim, um cretino, mas um cretino que dá todas essas ordens para o nosso bem.

Depois que crescemos, ficamos orgulhosíssimos da nossa genialidade ao dizer em alto e bom som que não acreditamos em Deus e que o Altíssimo, seu Filho e toda a Corte Celestial são: a) uma invenção do sistema opressor para alienar as cabecinhas ocas do proletariado e perpetuar a opressão; ou b) uma artimanha deveras lucrativa de um bando de matutos que tiram até o último centavo das pobres viúvas em nome de Deus.

E nós, que desmascaramos os farsantes, somos muito espertos! Não ter espiritualidade é tão cool!

Será?

Sim, instituições religiosas que colaboram para legitimar a exploração do homem pelo homem. É um argumento excelente dizer aos pobres que eles devem suportar o seu sofrimento e, mais que isso, ter orgulho da própria pobreza para merecer a Salvação Eterna.

Sim, instituições religiosas que lucram com a fé e o desespero das pessoas simples de coração. Há padres católicos que vivem como príncipes nababos às custas das doações. Há aviões que sobrevoam o país com malas cheias de dinheiro de ofertas e dízimos pagos a lobos travestidos de pastores.

Mas a nossa investigação do conceito de religião deve ser menos ingênua, mais radical e mais profunda. É perigoso ou pretensioso fazer afirmações universalizantes baseadas em casos particulares.

Para começo de conversa (sim, estamos apenas começando, leitor… mas você terá que ler até o fim se quiser ir para o céu), seria interessante perguntarmos: se a religião é só um mecanismo de controle ou um negócio rentável, por que raios os bilhões de fiéis mordem a isca ao invés de irem fazer um monte de coisas prazerosas e proibidas?

E a resposta, não é novidade, é: porque o homem é mortal.

Em algum lugar da sua caminhada evolutiva (seja ela resultado de um boneco de barro criado por Deus ou produto do egoísmo dos genes), o Homo sapiens deu-se conta da própria mortalidade. E entrou em desespero.

Depois de alguns suicídios (ainda não tinham inventado a Psicanálise e nem a Auto-ajuda), a  Humanidade achou uma “resposta”: o fim da vida passou a ser visto como o começo de uma nova vida: a vida após a morte. O homem, esse egoísta incorrigível, não se conforma com a morte. Ele quer continuar vivendo. De preferência, em um Paraíso com rios de vinho e virgens à disposição. A religião, ao prometer a vida eterna, veio ao encontro dessa necessidade do homem de vencer a morte.

Além disso, o surgimento da racionalidade levou o homem a perguntar não apenas o “como ” ou  o “onde,” mas também o porquê. O senso comum e a “ciência” nascente responderam algumas dessas questões, mas de repente se começou a buscar respostas para o maior porquê de todos: o porquê da Vida, o porquê da Morte, o porquê de Tudo. E isso a Ciência não consegue responder.

A Religião foi apenas uma das respostas para essa pergunta. O místico surgiu como uma tentativa de explicação do que ainda não foi explicado – e talvez nunca venha a ser. O homem passou a supor e depois passou a crer em entidades imateriais, sobrenaturais, divinas. Seres superiores que criaram tudo que existe e que, de vez em quando, interferem no destino das coisas criadas, só de sacanagem. Agradar esses seres tornou-se uma obrigação, para obter a bênção divina. E assim surgiram as preces, as cerimônias, as cosmogonias, as danças rituais e, claro, as guerras santas.

O fenômeno religioso, essa busca por conexão com o imaterial, está presente em todas as culturas. Todos os povos do mundo têm seus deuses, seus orixás, seus kamis, seus cultos, seus karmas. Os marxistas fingem que não participam disso mas adoram o Partido quando ninguém está olhando.

Essas tentativas de religação com o transcendente nem sempre são alienantes ou exploratórias. Pessoalmente, acho linda a religiosidade dos povos indígenas americanos, a sua busca de contato com o cosmo, o culto e o respeito à natureza como forma de comunhão com o universo. É uma manifestação do fenômeno religioso que deriva em uma ética do cuidado e do amor. Algo tão em falta na nossa sociedade decadente e auto-destrutiva, mas que ainda se orgulha da própria auto-suficiência e do próprio ateísmo.

Em tempo: quando preencho algum questionário, respondo “Agnóstico” no campo entitulado “Religião”.

[Post publicado originalmente no meu blogue antigo, em 2007, e trazido à tona pela proximidade da morte do meu querido avô. ]

O LHC nos salvará do caos

Parece que uma das propriedades do buraco negro que o LHC pode causar (sim, pois, para quem não sabe, a colisão fatídica ainda não aconteceu… por enquanto, a máquina está apenas fazendo gargarejos) é a de virar tudo pelo avesso.

Quando os prótons se chocarem e o buraco negro surgir, tudo vai deixar de ser o que é para se tornar o que pode vir a deixar de não ser.

Para o Brasil, as conseqüências podem ser extremamente positivas. Imagine só como seria ser o nosso avesso.

Faustão pararia de puxar o saco de todos os energúmenos que no seu programa aparecem, pediria demissão e se tornaria roadie da nova banda do Luiz Schiavon, o TPM.

Lula passaria a ter a mesma polidactilia de Hannibal Lecter, romperia com o FMI, daria moratória na dívida externa e distribuiria terras aos camponeses, ao mesmo tempo em que contrataria Diogo Mainardi para redigir a síntese dos seus pensamentos. A obra, o Livro Vermelho de Lula, seria distribuída à população e debatida nas escolas.

O petróleo perderia todo o valor de mercado e ficaria acima da camada de pré-sal, e a Petrobras seria contratada pelas companhias pesqueiras para encontrar uma maneira de explorar cardumes que vivessem abaixo da camada de óleo.

Nossos trens sairiam e chegariam sempre no horário, seriam rápidos e modernos e um bando de reaças criaria blogues para criticar o excesso de importância dado pelo governo à nossa excessivamente abrangente malha ferroviária.

Guilherme Fontes ganharia a Palma de Ouro por seu Chatô e o filme seria tão lucrativo que o seu criador poderia devolver aos cofres públicos todos os milhões que lhe foram dados.

Torçamos pelo insucesso da experiência. Do jeito que as coisas andam, só um buraco negro pode nos salvar.

Large Hadron Collider: a Máquina do Juízo Final

Agora é oficial: os Quatro Cavaleiros do Apocalipse chamam-se Atlas, Alice, LHCb e CMS. Esses são os nomes dos artefatos que compõem o LHC (Large Hadron Collider, ou Grande Colisor de Hádrons), o maior acelerador de partículas do mundo, uma engenhoca de US$ 8 bilhões que uns cientistas malucos do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern, na sigla em francês) construíram no meio da Europa e pretendem ligar em breve.

Outros cientistas um pouco mais malucos afirmam que, se acionado, o LHC pode criar um pequeno buraco negro capaz de tragar a Terra inteira ou, na melhor das hipóteses, provocar uma explosão forte o bastante para nos mandar a todos pelos ares.

Os técnicos envolvidos no projeto redargüem que isso é tudo balela catastrofista e que as chances de a super-máquina gerar um cataclisma planetário são de 1 em 50 milhões — mais ou menos a mesma improbabilidade que é derrotada toda vez que alguém ganha na loteria.

Um acelerador como o LHC é basicamente um autorama para partículas subatômicas. Os cientistas vão usar o gigantesco brinquedo para fazer com que dois prótons percorram a “pista” em sentidos opostos, chegando muito perto da velocidade da luz, até se chocarem e gerarem muita, mas muita energia, além de se quebrarem em pedacinhos menores. Divertido, não?

Com a colisão, os milhares de pesquisadores empenhados na brincadeira pretendem verificar a possível existência do Bóson de Higgs (a partícula hipotética que seria a chave para entendermos a matéria), estudar algumas outras partículas e, mais que tudo, querem criar condições semelhantes àquelas geradas imediatamente após o Big Bang, para aprender um pouco mais sobre a origem do universo.

E é aqui que nós podemos começar a chamá-los de malucos.

Ora, o Big Bang teria sido a explosão de um ponto de tamanho infinitesimal, e essa detonação foi tão descomunal que seus ecos podem ser “ouvidos” mesmo depois de 15 bilhões de anos.

Qualquer um sabe que, se existisse “espaço” no momento exato do Big Bang original, nenhuma pessoa dotada de um mínimo de juízo gostaria de estar nas imediações do evento depois de apertado o botão. E falamos em “imediações” no sentido cósmico do termo, ou seja, alguns bilhões de quilômetros. E eles querem fazer algo parecido logo ali, na Europa.

Temos algum tempo antes que o LHC (que será ligado para testes nesta semana) seja acionado pra valer e provoque a colisão possivelmente fatídica. E, nesse ínterim, eu poderia dizer aos cientistas do Cern como surgiu o nosso universo, se eles viessem me perguntar (o que pouparia um bocado de dinheiro e preocupação):

Tudo começou há muito tempo, numa outra dimensão, onde vivia uma civilização pretensamente avançada cujos cientistas, por não terem nada muito útil para fazer, decidiram construir uma máquina que lhes revelasse as origens do universo. Quando o artefato foi ligado, ocorreu uma explosão tão poderosa que aniquilou aquele universo e deu origem a outro (o nosso). E essa é a história de tudo.

É claro que é bem mais provável (cerca de 50 milhões de vezes mais provável) que eu esteja enganado, que tudo transcorra bem e que os homens continuem vivendo e se matando alegremente depois do teste do LHC. Mas sempre é bom lembrar que, se as pessoas realmente levassem em conta a lei das probabilidades, ninguém apostaria na Mega Sena.

E o Velho Lobo se entregou

Fausto Wolff não vai para o céu, pois nunca acreditou nele. Tampouco irá para o inferno do esquecimento, pois soube em vida, como poucos, construir sua morada na Alameda Eternidade.

Sim, uma introdução pra lá de piegas, mas estamos falando de um dos meus heróis de cabeceira, pombas!

Faustino von Wolffenbüttel nasceu no Rio Grande do Sul, em 1940, mas era carioca por opção e merecimento. Entrou para uma redação de jornal ainda adolescente, numa época em que isso era possível e permitido. Sempre crítico e contundente, exilou-se no período do governo militar, indo viver na Itália e na Dinamarca, terra que sempre citou como exemplo de igualdade e liberdade. Voltou, com a Abertura, para um Brasil modificado por vinte anos de torniquete.

O Velho Lobo costumava descrever a si próprio como “comunista, jogador, bêbado e decadente”. Foi um dos maiores e mais notórios beberrões de que se tem notícia. Foi, também, comunista até o fim. Engajou-se no PDT de Brizola, que tanto admirou e criticou, e ousou pensar e pregar uma sociedade mais justa e mais humana.

Fausto orgulhava-se de nada possuir. Vivia do que escrevia, e gastava em prazeres simples o dinheiro que ganhava escrevendo. E como escrevia… Seus textos jornalísticos e literários eram sempre carregados de paixão e sempre calcados na vida real, mesmo quando a fantasia tomava conta do autor e da obra. Muitos dizem que ele era pessimista, por trazer à tona os males que o afligiam e angustiavam. Discordo. Ele foi, e sempre será, um otimista incorrigível, pois acreditava no ser humano. Assim como tantos outros heróis românticos, Wolff acreditava que a dor e a opressão desapareceriam quando fossem cortadas as amarras que aprisionam as pessoas, principalmente a propriedade privada e a miséria cultural. Para mim, era esse o principal defeito do Mestre: ele era otimista demais.

Descobri Fausto Wolff na finada Revista Bundas, e desde então o acompanhei no também finado O Pasquim 21, no quase finado Jornal do Brasil e nos seus livros.

É de um de seus livros (A Imprensa Livre de Fausto Wolff, p. 180) o artigo que cito, escolhido a esmo, para mostrar aos meus quatro leitores um pouco do que escreveu o Mestre:

BOM HUMOR & POESIA

E continuamos a plantar rosas sobre o pus, continuamos jogando basquete no pântano, continuamos tapando o sol com a peneira, continuamos matando quem deveria estar vivo e quem ainda não nasceu. Perdão, leitores, estou começando a ficar como esses bêbados que vemos pela rua praguejando contra deuses desconhecidos, perseguidos por cachorros e gozados pelas crianças. Nós – eu e vocês, leitores – continuamos tentando pagar nossos impostos, aluguéis e trabalhando; morrendo de medo de que nos demitam sem indenização ou que mandem nos queixarmos ao bispo Macedo ou ao juiz Lalau. São eles que continuam roubando e matando, esta máfia asquerosa e sem vergonha chamada Poder. Afinal, com raras exceções são todos Oliveiras, Silvas, Rodrigues, Santos e Joãos Antônios, e Josés Carlos, e Eduardos Jorges, e Luízes Maurícios e Paulos Augustos. Nem eu que sou jornalista há mais de 45 anos lembro os nomes de uma décima parte desses gatunos.

Aposto o que vocês quiserem que eles estão se lixando para os eventuais insultos. Afinal de contas, as pessoas que lhes interessam também são ladrões e assassinos e os amigos dos filhos e das filhas também são filhos de ladrões e assassinos prontos para seguirem a carreira paterna. Será que não há uma maldita lei nesta nossa colcha de fétidos retalhos chamada Constituição que proíba que filhos de ladrões se elejam com dinheiro roubado do povo? O roubo, o assassinato e o genocídio são crimes perante a lei mas a nossa justiça só é cega para os crimes cometidos pelos ricos.

Quando me candidatei a deputado federal para a Constituinte, meus amigos mandaram confeccionar uma única faixa com meu nome e número. Filhos de amigos carregariam essa faixa pelos locais movimentados do Rio. Disse carregariam, pois essa minha única faixa foi apreendida pela legislação eleitoral no primeiro dia. Para vocês terem uma idéia da farsa: duas famílias inteiras votaram em mim numa zona eleitoral de Icaraí, bairro de Niterói, onde nem fiz campanha com meu único carro emprestado que vivia enguiçado. Foram 33 votos e nas urnas apareceram apenas 3. Um mês antes das eleições, O Globo publicou que eu seria um dos candidatos a deputado federal mais votados do Rio de Janeiro. Tive menos de 10 mil votos e a pesquisa avaliava que minha votação seria superior a 50 mil votos. Mais tarde, uma velha raposa política me disse: “Eleição se ganha depois da eleição, junto aos apuradores”. Em matéria de pesquisa, nossa classe política seria uma verdadeira Disneyworld para Lombroso. Imaginem políticos que vêm se elegendo desde 1964 e têm o físico do papel sempre com votações esmagadoras embora jamais tenham praticado uma boa ação. Vocês nunca se perguntaram como essas caricaturas de seres humanos continuam se elegendo mesmo sem fazer campanha? Cada um deles tem currais ou chiqueiros e cada curral ou chiqueiro das regiões mais pobres do Brasil têm capatazes que vendem os votos dos seus pobres porquinhos a um, cinco ou dez reais cada um, dependendo da pobreza da região. O capataz garante mil votos e recebe cinco mil reais. Quatro vão para o bolso dele e o resto para os porquinhos. Troço nojento, não é? Pois os palhaços somos nós.

Nosso sistema previdenciário sempre foi dirigido por uma corja de ladrões e precisa ser mudado, precisa ser dedetizado. Deve haver um teto, sim, para o funcionalismo de colarinho branco que em geral acumula funções mas deve haver um mínimo digno para todos os trabalhadores, a começar pelos mais humildes e que menos ganham, a começar pelas pobres professoras primárias que não têm nem condições de estudar o que ensinam. A base de tudo o que aprendi na vida devo a cinco mulheres elegantes, inteligentes, bem vestidas e cujo salário permitia que vivessem com dignidade e sustentassem seus filhos: dona Candinha, dona Norma, dona Zuleika, dona Aracy e dona Marina, professoras do primeiro ao quinto ano primário do Grupo Escolar 1° de Maio, de Porto Alegre. Nós, garotos pobres, em nossos tapapós brancos, cantávamos orgulhosos todas as manhãs – entre os anos 45 e 50 – o Hino Nacional. Não sabíamos ainda dos planos de Dutra de trocar matéria-prima por matéria plástica. Felizmente, minhas professoras estão mortas e não precisam ver o pantanal em que se transformou o ensino no nosso país. Estou falando da educação, pois a cultura – a verdadeira arma de defesa pessoal de um povo, que garante sua integridade e individualidade -, esta lhe foi roubada há muito tempo pelo poder e pelos meios de comunicação.

Lula não tem culpa disso e sempre lutou contra isso. É vergonhoso, porém, que, por causa de uma minoria de safados, queira punir todo o serviço público. Concordo com ele quando pergunta: “Por que o cortador de cana se aposenta aos 60 e o professor aos 53?”. Minha pergunta para ele, porém, é a seguinte: qual é a justiça que existe em punir o professor e manter o cortador de cana na miséria? Antes que alguém suspeite de que tenho interesse pessoal na matéria, vou logo informando: nunca fui funcionário público. O que insulta a minha inteligência são os novos Torquemadas do PT não informarem o que querem fazer com a previdência e quererem que tenhamos fé. Que diabos? Voltamos à Idade Média? E se voltamos, deveríamos aproveitar, pelo menos, o que ela tinha de positivo. Parágrafo para explicar e botar as idéias no lugar.

Na Idade Média era considerado crime grave cobrar juros pelo uso do dinheiro. O empréstimo a juros era proibido pela maior potência do mundo, a Igreja. Para ela, emprestar a juros era usura e usura era pecado. Quem violasse essa lei da Igreja era ameaçado com danação eterna, o que não era pouco numa época em que acreditar em Deus era tão natural quanto o ar que se respirava. Mas não era apenas a Igreja que condenava a usura. Os governos municipais e mais tarde os estaduais baixaram leis contra ela. Uma lei contra a usura aplicada na Inglaterra dizia: “Sendo a usura, pela palavra de Deus, estritamente proibida, como vício dos mais odiáveis e detestáveis (…), fica determinado que ninguém pratique usura sob pena de confisco e prisão.” Depois a Igreja tornou-se sócia do mercado mas naquela época os banqueiros iam para o inferno. Falar nisso, Lula, faz alguma coisa para que eu, teu eleitor, possa te defender. Que tal aplicar a lei (está na Constituição) de autoria de Fernando Gasparian que limita os juros bancário a 12% ao ano, o que, ainda assim, nos países que fazem parte dos sete grandes, é considerado escorchante?

A verdade é que os pobres ajudam (ainda?) os pobres e ficam mais pobres e os ricos ajudam os ricos e ficam mais ricos. Eu nada teria contra a taxação de quase 27% se ela fosse aplicada apenas aos ricos mas que, ao mesmo tempo, a reforma tributária previsse o confisco do lucro excessivo, previsse a prisão do empresário que decreta falência e depois vai passar as férias nas Bahamas ou Cayman ou Jersey. Essa taxação, porém, é criminosa porque pune quem trabalha honestamente. O empresário ladrão internacional simplesmente fechará sua fábrica em Madureira para implantá-la na Malásia, onde o poder não tem escrúpulos e o empregado é escravo. Se não fechar suas portas e ocasionar desemprego (e olhem que segundo a Câmara de Comércio da ONU, o operário brasileiro é considerado o mais trabalhador, responsável e cortês do mundo), o empresário ladrão simplesmente repassará os preços para a população. Esta – a que ainda está acima da linha da miséria – desconta imposto na fonte. É o catch 22: se correr o bicho pega e se ficar o bicho come. Gostaria que os novos inquisidores do PT (se vocês disserem que eles são de direita, fazem caras e bocas) me informassem os itens da reforma que falam de trabalho infantil, de obrigatoriedade escolar, de prostituição infantil, de trabalho escravo, das punições para empregadores que não assinam carteira, das reformas hospitalares tão severas que deixariam os planos de saúde apenas para os muitos ricos como ocorre, por exemplo, nos países escandinavos. Vamos lá, Lula, faz alguma coisa aí para que a gente possa aplaudir como aplaudimos seus comícios, mesmo os mais palatáveis à burguesia, durante a campanha eleitoral. Não deixa um delinqüente como o FHC ficar te gozando.

Os jornalões continuam como sempre. Perderam a capacidade de se estarrecerem, se é que um dia a tiveram. Desde 64 que leio: “O governo promete”; “A Câmara vai instaurar CPI”; “Ministro prevê melhorias”; “Presidente anuncia queda do dólar para o ano que vem”; “Presidente do Banco Central pede paciência”. Eles apenas anunciam, prevêem, acham, pedem, prometem, criticam, apelam mas a única coisa que fazem é baixar as calças para o FMI e é disso que trata a Reforma da Previdência. De positivo somente o fato de o PT ser um partido de palavra; um partido que, como todos os outros, com raríssimas exceções, cumpre o que prometeu aos nossos exploradores. Às vezes, porém, algum editor descuidado de um jornalão dá espaço a vozes dissidentes e honestas. No mesmo jornal que anuncia que o Estado vai contratar mais dois mil PMs por ano e que militares vendem armas a traficantes, foi dado um espaço para Cristovam Buarque, o ministro da Educação, um homem corajoso que declarou na ONU: “Concordo que se faça da Amazônia uma reserva ecológica internacional desde que se internacionalize a ONU, os museus, o petróleo, o gás, etc”. Pois bem, ele agora alerta o governo, o governo do PT, para risco de fracasso na área social. Para ele a burocracia é uma fábrica de indiferença. Ele teme que após seis meses de governo (faltam menos de duas semanas) os petistas se tornem tolerantes (bom eufemismo, digo eu) com a tragédia social brasileira. Lembrou finalmente que Lula foi eleito para mudar o país. Cristovam não descobriu a América. Já sabíamos disso tudo. O que não sabíamos é que o PT seria conivente com isso.

Comecei este artigo falando em genocídio e depois mudei de assunto para deixar o item para o final do cardápio. Sou contra a pena de morte, menos para os genocidas. Na minha opinião ladrões como os do Banestado, do Propinoduto deveriam ser fuzilados em praça pública pois são genocidas. Quem rouba dinheiro do povo provoca morte, miséria, delinqüência, desemprego, divide famílias, coloca marido contra mulher, pais contra filhos. Gente que rouba centenas de milhões de dólares (como em alguns poucos casos isolados) condenam à morte e à miséria milhões de pessoas. Quero dedicar aos genocidas do Banestado e do Propinoduto um poeminha do meu livro O pacto de Wolffenbüttel:

“Se todos disséssemos “não”/ e agüentássemos as conseqüências / os ratos teriam de se devorar entre eles / teriam de roubar uns aos outros / sodomizar os próprios filhos, prostituir esposas e crianças. / Talvez, depois disso, pudéssemos todos cantar, orgulhosos, novamente, o Hino Nacional”

Farás falta, seu velho bagaceiro.

China: um problema do tamanho do mundo

Tenho medo da China. Medo de que os chineses, no afã de desenvolver-se, destruam o mundo inteiro. Pelo menos, o mundo como o conhecemos.

Devo ter dito, em algum outro post, que o Capitalismo puro é um sistema suicida. Já o Capitalismo vermelho dos chineses é um sistema cataclísmico, pois alia a concorrência selvagem das empresas à implacável planificação estatal.

Numa economia planificada, os manda-chuvas traçam metas com anos de antecedência e encarregam executores de cumpri-las a contento. A meritocracia do Partido Comunista Chinês baseia-se nisso. Os burocratas mais destacados são aqueles que executam os planos com mais eficiência e em menos tempo. Por isso há tantos arranha-céus e tantas obras faraônicas erguidas em tempo recorde nas neo-metrópoles chinesas. Por isso também há tanto desrespeito aos trabalhadores e ao meio ambiente. O governo traça seus planos mirabolantes e as companhias ocidentais, sedentas por mão-de-obra barata, entram na dança.

Se a poluição produzida pelo desenvolvimento chinês já um problema agora, o prognóstico fica mais grave quando nos damos conta de que eles estão apenas começando. O quadro vai piorar, e muito. Por enquanto, a China tem sido basicamente uma gigantesca fábrica e não um mercado. Mas eles estão consolidando uma classe consumidora bem maior do que toda a população dos EUA. O que acontecerá quando essa gente toda começar a comprar? De onde virão as matérias-primas e a energia necessárias para produzir tantos bens de consumo? E quanta poluição será gerada ao longo do processo?

O jornalista americano John Promfet escreveu umartigoem que sugere um outro agravante. A população chinesa está envelhecendo rapidamente, graças ao aumento da longevidade e à redução da natalidade (lá, o governo tem a “política do filho único”). Projeções indicam que, até 2050, haverá mais de 300 milhões de chineses acima dos 60 anos. E não há uma Previdência Social decente na China. Com uma baixa taxa de natalidade, quem produzirá riqueza excedente para sustentar os idosos? E, caso o governo decida estimular um aumento da natalidade, imagine o desastre. Incentivar uma população de mais de 1 bilhão de pessoas a procriar à vontade não me parece uma boa idéia, definitivamente.

O problema não é a China querer desenvolver-se, mas sim copiar um modelo de “desenvolvimento” que já provou ser catastrófico. O Capitalismo selvagem e irresponsável é um sistema suicida. A China talvez prove isso. E da pior maneira possível.