Por onde começar a mudar a educação

sobre o projeto de reforma do ensino médio, o que tenho a dizer é: vamos deixar o ensino médio um pouco de lado e olhar o que (não) está sendo feito nas séries iniciais do ensino fundamental.

é LÁ que está o grande gargalo e é LÁ que temos de nos focar no curto prazo.

Duas escolas. Dois mundos

[texto publicado em julho de 2009, em um blogue que deixou de existir]

As duas escolas em que trabalho, apesar de ficarem a menos de dois quilômetros uma da outra, parecem estar em dois mundos diferentes – e são a prova de que a educação só é possível com organização e disciplina da parte de todos os atores envolvidos no processo.

O ambiente: Vilas Esmeralda e São Jorge, em Viamão, cidade-dormitório da periferia de Porto Alegre. Um lugar mais ou menos assim:

São comunidades parecidas, formadas por pessoas de baixo poder aquisitivo, com elevados índices de violência e criminalidade, forte e notável presença do tráfico de drogas etc, como acontece em tantas outras periferias brasileiras.

Num lugar desses, este é o aspecto normal de um posto de saúde, por exemplo:

Pois bem. Em uma das referidas escolas, essa realidade de violência, permissividade e desorganização é reproduzida e até aprimorada. Na outra, a maioria desses problemas é barrada no portão de entrada.

EMEF Território do Caos

O nome é fictício, mas tem excepcional valor descritivo. Observe, por exemplo, o cemitério de carteiras e cadeiras quebradas que fica nos fundos da escola:

Você já tentou quebrar uma cadeira ou uma carteira, leitor? Eu nunca tentei, mas imagino que a tarefa não seja das mais fáceis.

Tantos móveis inutilizados só podem significar duas coisas: ou a escola recebeu a visita de uma manada de búfalos, ou os alunos que a frequentam não têm muita intimidade com normas de conduta.

O mobiliário não é a única vítima da violência nesse educandário. Os alunos também quebram portas, vidros, divisórias de banheiro, canos; picham paredes e carteiras.

À noite, um dos passatempos dos moradores da vila parece ser apedrejar a escola, quebrando telhas e vidraças:

Pelo vidro quebrado, podemos ver o rosto de Paulo Freire, num banner em que está escrito:

“…Escola é, sobretudo, gente,
gente que trabalha, que estuda,
que se alegra, se conhece, se estima…”

Meu amigo Paulo Feire, você já visitou esta escola? Se visitasse, veria coisas como essas:

– Uma das salas de aula passou quase todo o ano de 2008 sem porta. As dobradiças foram simplesmente arrebentadas por impacto (s) de natureza ignorada. Quem quebrou a porta? Não se sabe. Que medida socioeducativa foi tomada? Nenhuma.

– Numa tarde deste ano, estávamos na sala dos professores no fim do recreio, quando uma aluna bateu na porta. Ao ser atendida pela vice-diretora, a menina foi logo gritando: “Sôra, tão batendo no Fulano!” Que atitude tomou a educadora? Apenas disse: “Tá, já vou dar o sinal, pra vocês irem pra sala”. E simplesmente encerrou o recreio, como se o espancamento não tivesse ocorrido, como se não fosse necessário identificar e punir os culpados.

– Num sábado letivo (desses em que nada se faz, apenas para o presidente poder se gabar de ter 200 dias no calendário escolar), alunos vieram correndo informar que um colega tinha dado um pontapé em uma porta e arrebentado o marco, tornando inútil a fechadura. Adivinhe o que foi feito… Nada. A porta continua inutilizada e o infrator, que sequer foi identificado (ou, se identificado foi, não sofreu punição), aprendeu as maravilhas da impunidade.

Como uma escola chega a tal nível de degradação?

Quando cheguei lá, no início de 2008, percebi que a direção e o grupo de professores estavam em guerra. Intrigas e ranços pessoais geram um clima de má vontade de ambos os lados, o que impossibilita qualquer pacto, qualquer trabalho integrado.

Não há referencial, não há regras claras e unívocas, não há diálogo entre os segmentos da comunidade escolar. Em caso de problemas, não há a quem recorrer e, quando se recorre à equipe diretiva, ouve-se respostas desse tipo:

“Eduardo, os nossos alunos são filhos de traficantes, são irmãos de presidiários. Nós não podemos bater de frente com essa gente.” (dito pela diretora, que, aliás, entrou em licença-saúde e provavelmente não voltará ao cargo)

“Eu não vou fazer mais nada em relação ao Fulano (aluno com graves problemas de conduta)”. (dito pela orientadora, em reunião pedagógica).

O leitor corajoso que chegou até aqui pode estar se perguntando: “Por que raios esse cara não sai dessa escola?”

Ora, pergunte ao secretário de Educação.

Pedi transferência no final do ano passado. A Secretaria não me deixou sair totalmente; apenas reduziu a minha carga horária lá em 10 horas, mandando-me cumprir esses períodos em outra escola, tão perto e tão distante da EMEF Território do Caos.

EMEF São Jorge

É comum que as pessoas que visitam a escola São Jorge exclamem coisas como “Nem parece escola pública!” ou “Parece escola particular!”

A vila São Jorge também é pobre e problemática, mas as paredes e móveis da sua escola não estão pichados, os banheiros estão bem conservados, têm espelhos intactos, azulejos brilhando nas paredes e, pasmem, sabonetes nas pias!

As portas e janelas estão intactas e não há uma montanha de carteiras e cadeiras quebradas nos fundos. Não há espancamentos no recreio.

Será a escola freqüentada por anjos? Não. Lá também há alunos agitados e mal-educados, também há problemas, mas a diferença é que esses problemas são imediatamente identificados e tratados.

A equipe diretiva, professores, funcionários, pais e alunos trabalham juntos em prol do bem comum. Não por boa vontade e abnegação, mas porque as normas de conduta foram definidas em conjunto e são constantemente lembradas. Todos os segmentos da comunidade escolar são orientados a seguir as regras.

Na EMEF São Jorge, diferente de outras escolas, foi estabelecido o seguinte pacto: o normal é que as coisas funcionem bem. Os problemas são exceção. Por exemplo, todos os alunos sabem que as carteiras têm de estar limpas. Quando uma é pichada, todos sabem que isso foge à normalidade – e o pichador é localizado e sofre a medida socioeducativa prevista nas normas de conduta.

Quando um professor, aluno ou funcionário é agredido verbalmente, todos sabem que isso é um desrespeito às normas de conduta – e o infrator já sabe que o deslize não vai passar em branco. Lá não existe a cultura do “Não dá nada.”

Os alunos da São Jorge também têm parentes e/ou amigos traficantes e presidiários, mas lá ninguém da equipe diretiva diz “Não podemos bater de frente”, pois a lógica é outra: o infrator é que está batendo de frente com a instituição chamada escola. Assim, a agressão a um colega é tratada como uma agressão à escola. A pichação é tratada como uma agressão à escola. Matar aulas é tratado como uma agressão à escola. Portar celular na sala de aula é tratado como uma agressão à escola.

Os professores da São Jorge também têm regras rígidas de conduta. Por exemplo, todos os dias dois mestres passam o recreio no pátio, fiscalizando o comportamento dos alunos. Em outras escolas, tal medida geraria um motim. “O meu intervalo é sagrado!”, já ouvi uma professora bradar, alhures. Pois bem, na São Jorge a norma foi sacramentada no Projeto Político Pedagógico e, graças a ela, os alunos sabem que estão sendo observados e não se comportam como uma manada de búfalos.

Infelizmente, uma escola assim é exceção na rede pública. Mas o seu exemplo mostra que ainda há esperança para a educação no Brasil.

[Para ver um slideshow com fotos das duas escolas, clique aqui]

O peculiar patriotismo dos brasileiros

Acordei, neste domingo, torcendo para que estivesse chovendo. E estava.

Comemorei dando um soco de júbilo no travesseiro, mas minha alegria só se completou quando recebi, no celular, um torpedo da vice-diretora da minha escola. A mensagem era concisa e animadora: “Desfile cancelado”. Pronto. Aí estava a senha para um lindo domingo de descanso, ainda que chuvoso.

Explicando: eu deveria ter ido a Viamão, RS, município em cuja rede de ensino trabalho, para participar de um desfile cívico (o de 7 de setembro foi transferido devido… ao mau tempo). Se chovesse, não teríamos desfile.

Uma coisa é certa: a chuva foi comemorada por muitos professores e por muitíssimos alunos, todos filhos amantíssimos da Mãe Gentil.

O civismo no Brasil só é visto durante as Copas do Mundo e Olimpíadas, e ainda assim só em caso de vitória (como já disseram, com muita propriedade, Cardoso e Felipe Neto, entre tantos outros). Nos demais dias do ano, o brasileiro médio costuma odiar o seu país. Quem duvida disso deveria ver a farsa que é a “Semana da Pátria” nas nossas escolas públicas.

Nesses cinco dias, costuma-se reunir à força (e falo em “força” no sentido literal) toda a comunidade escolar no pátio central, para “cantar” o hino. As aspas são necessárias porque muito poucos cantam.

Os professores e funcionários não conseguem cantar porque precisam gritar para que os alunos tirem os bonés, fiquem em fila, descruzem os braços, parem de rir de quem tenta cantar, parem de empurrar uns aos outros, parem de gritar “Créééééu!”, etc.

Um dos funcionários não consegue cantar porque precisa ficar o tempo todo aumentando o volume do aparelho de som que executa o hino, para que a cantoria gravada fique mais audível que as risadas dos alunos e os gritos dos professores.

Os alunos também não conseguem cantar, porque estão ocupados colocando os bonés só pra provocar os professores, saindo da fila, cruzando os braços, rindo de quem tenta cantar,  empurrando os colegas, gritando “Créééééu!”, etc.

Uma farsa. De nada adianta fazer essa merda toda, se não for uma manifestação espontânea e/ou sincera . Vivemos no País das Maravilhas, como eu vivo repetindo. Aqui, os únicos que acreditam nas mentiras são os próprios mentirosos.

O mesmo se aplica aos desfiles cívicos. Para arrebanhar o maior número possível de alunos, muitos professores prometem dar um, dois, três, quatro, cinco pontos a quem desfilar. Eu disse CINCO PONTOS a mais na nota, para fazer algo que deveria ser uma expressão de patriotismo. Os diretores também usam certas técnicas de convencimento para que seus professores compareçam: dão um ou até DOIS dias de folga para os membros do corpo docente que participarem do festejo.

Consultados sobre os seus motivos para odiar os desfiles e outras manifestações de apreço ao altaneiro torrão, os professores em geral afirmam que essas cerimônias são “coisas de milico”, “resquícios da ditadura”, “doutrinação ideológica”, etc. Os alunos, menos aptos ao uso rebuscado do vernáculo, dizem que desfilar é “frau”, é “nada-a-ver”, é “chato.”

Quanto a mim, só queria aproveitar um domingo de folga, ainda que chuvoso. Sabem o que aconteceu? Choveu de manhã, o suficiente para que o evento fosse cancelado pela prefeitura. Logo depois, o sol apareceu e não se escondeu mais. A tarde foi L-I-N-D-A em Porto Alegre e arredores (incluindo Viamão), o que prova que São Pedro também não é dado a ufanismos fingidos.

Alguns sintomas da deseducação

O Brasil é mesmo o país das maravilhas. Temos uma educação progressista e libertadora, mas nossos alunos saem da escola na condição de analfabetos.

Para entendermos como é que se faz essa mágica, a de se ensinar sem que se aprenda, imaginemos como seria uma simples ida ao médico, se o bom exemplo das escolas de Ensino Fundamental e Médio (dessas que engordam as entusiasmantes estatísticas) fosse seguido por todas as instituições de ensino, inclusive as faculdades de Medicina.

Numa cidadezinha pacata, no recém-instalado consultório do único médico do município, o paciente aguarda a sua chamada. Trata-se de um desses tipos ligeiramente hipocondríacos, leitores vorazes das bulas de remédio, e que encaram cada tosse atravessada como o prenúncio da Grande Pandemia.

O médico finalmente o chama:

– Sr. Lopes?

– Sou eu, Doutor.

– Pode entrar. Sente-se.

– Obrigado, Doutor. Nossa, como o senhor é jovem…

– Ora, agora a gente se forma bem mais cedo, depois que a Reforma do Ensino cortou a Residência… O que o senhor tem?

– Olha, Doutor, desde ontem que estou com uma tosse seca, e uma pontada nas costas. Será que é pulmão?

– Bem, o senhor vai ter que me desculpar, mas na faculdade eu colei em todas as provas da cadeira de Pneumo. Infelizmente, não posso ajudá-lo nessa área…

– Ah… Bom, mas eu também ando me sentindo meio mal depois do almoço. Umas náuseas, vômitos. O que será, Doutor?

– Ai, Sr. Lopes, nessa área eu também não sou muito forte, pois naquele semestre tinham baixado a média pra cinco, e como a gente fez um trabalho em grupo e eu já tava com cinco e meio na cadeira de Gastro, eu nem quis estudar pra prova, pois com essa nota já tinha passado…

– Tudo bem, a Maria me faz um chá de boldo, então… Doutor, e o que será que é essa descamação que tá começando no meu braço esquerdo?

– Bah, Sr. Lopes… Eu rodei em Dermato, mas como muita gente também repetiu naquele semestre, eles decidiram aprovar os que só tinham sido reprovados nessa cadeira…

– Doutor, o senhor não entende de doença nenhuma? E essas erupções aqui? Elas me aparecem de vez em quando. A Maria diz que é sangue sujo. O que eu posso tomar, Doutor?

– Bem, o senhor me desculpe, mas eu não pude estudar pra prova sobre sangue, e só passei porque o professor deixou fazer com consulta. Acabei não aprendendo nada.

– Olha, Doutor, isso é um absurdo! O senhor não pode atender pacientes num consultório, se não sabe nada de Medicina! Vou agora mesmo ao advogado, saber como posso denunciá-lo!

– Que advogado? O Freitas, do outro lado da rua?

– Esse mesmo!

– Ih, o senhor se deu mal. O Freitas se formou em Direito lá na minha Faculdade. Como ele era um terror e bagunçava muito, os professores o empurraram direto pro último semestre, pra se livrarem dele…

[texto publicado originalmente em 2006, no meu primeiro blogue]

Minha vida de Mestre

(onde são narrados catorze minutos da rotina diária de um trabalhador da Educação – com nomes fictícios)

Entro na sala. Dou o “bom dia” mais cordial de que sou capaz. Ponho o caderno de chamadas na minha mesa e fico de pé, observando – só observando. Mais da metade da turma parece nem ter notado a minha presença. A balbúrdia duraria a manhã inteira, se os mais puxa-sacos não começassem a gritar: “Senta, senta, o Eduardo taí!”.

 Quando há condições mínimas de me fazer ouvir, sento pra fazer a chamada. Na minha cadeira desenharam um pênis bem grande, e não posso deixar de notar uns sorrisinhos sacanas em alguns rostos, como se fosse uma grande coisa fazer o professor sentar num cacete.

Sempre fui contra as chamadas, pois acredito que as aulas deveriam ser para quem quisesse aprender, mas quem sou eu pra contrariar a Direção, os pais e a Secretaria de Educação? Alguns nomes já estão nessa mesma lista há anos. Muitos vêm à escola só pra ter direito às Bolsas do governo federal, ou para evitar problemas com o Conselho Tutelar. Maldito Conselho Tutelar… Eu queria que um conselheiro tutelar ficasse só uma hora tentando ensinar as Grandes Navegações pra minha sexta série.

Levanto e vou pro quadro. Lá encontro um coração desenhado, enorme, com o texto “Jéssica y Maurício: 100% Amor Eterno”. Amor eterno… Logo a Jéssica, que já amou tanta gente desde o início do trimestre… Mando abrirem os cadernos. Alguns abrem. Tenho que ensinar a essas crianças que os burgueses precisavam de especiarias pra poderem vender carne estragada, aromatizada artificialmente. Eu pretendia também mostrar como desde aquela época os comerciantes fazem de bobos os consumidores; mas não consigo, pois primeiro tenho que mandar o Jéferson parar de chamar o Thiago (com TH) de Dumbo. Ele pára, mas aí tenho que correr pra evitar que a Cíntia e o Jonatan se matem. Que guriazinha insuportável! E o Jonatan é pior ainda. Mando os dois pra Orientação, onde não acontecerá nada com nenhum deles, a menos que desta vez a Orientadora faça algo que não seja passar um sermão inócuo.

Bem, vamos ao conteúdo. Vocês lembram onde os europeus buscavam especiarias? Como ninguém ouviu, peço silêncio e pergunto mais alto. Continuam não ouvindo. Só o Fernando, o nerd da turma, sabe a resposta. Os demais esqueceram, ou então acham que não precisam aprender essas coisas. E talvez tenham razão. Pra que mesmo eu aprendi isso? No fim das contas, só pra passar no vestibular e depois tentar ensinar esse mesmo conteúdo a pessoas que não querem aprendê-lo.

Olho o relógio, com medo do que vou ver. Faltam trinta e um minutos para o recreio. Como o tempo passa devagar na sexta série! Bem, o jeito é apertar o botão de “Foda-se”, dar as costas para a turma, pegar o giz e escrever, escrever, escrever, até que toque o sinal ou que eu morra de exaustão, o que vier primeiro.

[Texto publicado originalmente no meu blogue antigo, em dezembro de 2006. É triste dizer, mas de lá para cá as coisas só pioraram]

Chega de educação progressista

Ontem, o C. Cardoso escreveu um post sobre a Educação, o Universo e Tudo Mais, destacando a pobreza do nosso ensino e, por extensão, a tosquice da nossa economia em relação a outros países.

Pouca gente sabe, mas o ensino no Brasil só é tão ruim porque é bom demais.

Sim, você não sabia? Nós temos a melhor educação do mundo, segundo os pedabobos pedagogos e antropólogos imbecis nefelibatas que ditam os rumos.

Todos lembram daquele padrão de escola tradicional: carteiras enfileiradas, alunos em silêncio e de cabeça baixa, todos vestidos em tons escuros, todos escrevendo, escrevendo, escrevendo. A professora, deus-nos-livre! Mulher implacável, juíza do bem e do mal, pronta para punir qualquer gaiato que pergunte as horas ao colega ou que deixe de copiar para ler um romance de faroeste. Sentada na sua cadeira, ela fiscaliza tudo, espreitando por cima dos óculos. De repente, levanta e dispara a pergunta à queima-roupa: Joãozinho, quem descobriu o Brasil?

Num belo dia (ou em vários belos dias, pois falamos de várias pessoas em tempos diferentes), pensadores pensaram demais e concluíram que esse modelo de escola é prejudicial, pois limita, oprime, tolhe, molda, cerceia, escraviza, atrofia as pobres mentes das criancinhas. Repetir que “bê mais a é igual a bá” virou pecado dos gravíssimos. Falar de coisas de fora do contexto imediato do aluno tornou-se delito passível de pena de morte. Decorar regras de gramática, a tabuada y otras cositas passou a ser considerado crime contra a humanidade.

No Brasil, muita gente entrou em polvorosa com essas teorias. Estava aí a saída! E tivemos um agravante bastante… grave: o país era regido por uma ditadura militar de direita, que coordenava a rede de ensino. Logo, a educação tradicional passou a ser identificada como instrumento de doutrinação do regime (e realmente era, até certo ponto). Logo, ser contra a ditadura significava ser contra o bê-a-bá, contra decorar a tabuada, contra fazer ditados e sabatinas.

Findo o regime militar, tratou-se de implodir o modelo vigente de ensino. Era cool ser progressista, ser construtivista, ser interacionista, ser freireano, ser piagetano, etc. O importante era que a escola fosse prazerosa e que se aprendesse “CONSTRUINDO O CONHECIMENTO”. Punir a indisciplina dos alunos foi confundido com autoritarismo de direita. Reprovar os que não aprendem foi confundido com autoritarismo de direita. Escrever as notas abaixo da média com caneta vermelha também não pode, pois traumatiza os coitadinhos, além de ser autoritarismo de direita. Mandar decorar as capitais dos Estados do Brasil, adivinhe: é autoritarismo de direita. Cantar o Hino Nacional, então, é o mais terrível exemplo de autoritarismo de direita! É coisa de milico! “Tradicional” virou xingamento, tornou-se sinônimo de “Fascista”

Temos, desde então, a melhor educação do mundo inteiro. Sim, do mundo inteirinho. Nossos métodos são inovadores e sintonizados com a vanguarda do pensamento pedagógico. Nossos alunos não podem mais ser punidos, pois temos a legislação “mais moderna do mundo” para a área. Privilegiamos a riqueza da experiência dos educandos, a construção pessoal e prazerosa do conhecimento, e nossos alunos nunca estiveram tão mal. Nunca, em toda a História.

Quem é professor sabe: a maioria dos estudantes brasileiros sai da 8ª série sem capacidade para resolver um problema matemático de 4ª série ou para entender um texto infantil. Eles não ficam mais lendo romances de faroeste na sala de aula, porque simplesmente não lêem mais nada. Escrever, então, nem pensar. Eles cometem tantos erros de ortografia e concordância, são tão incapazes de se expressar por escrito, que poderiam ser considerados analfabetos no sentido clássico, e não “analfabetos funcionais, como reza a atual nomenclatura. É duro admitir, mas foi nisso que a Educação Progressista nos transformou: num país de analfabetos.

Ao mesmo tempo, citam-se os exemplos de países que vão bem na educação, como a Finlândia, a Coréia do Sul, o Japão. Entrem numa sala de aula desses países e vejam se lá essas teorias de merda libertadoras têm vez. E não adianta dizer que a educação de lá é melhor por causa do dinheiro e da tecnologia. A educação dos países de ponta é melhor porque lá se sabe que só aprende quem estuda. Lá a educação é voltada para RESULTADOS, pois SÓ OS RESULTADOS LIBERTAM. Eu disse: SÓ OS RESULTADOS LIBERTAM.

Vivemos aqui também um boom tecnológico. A tal inclusão digital já chegou nas periferias. Quase todos os meus alunos pobres usam computador, seja em casa ou nas lan houses. Mas usam apenas para acessar o Orkut (onde escrevem coisas como “eu é minha amiga adoro ela nós samos show” e o MSN (onde usam nicks como “ale to na pista pra negosio“). Não nos falta tecnologia. Falta rumo.

O futuro da Educação está numa volta ao passado. Não para andarmos pra trás, mas para voltarmos a fazer coisas que antes davam certo, adaptando-as ao invés de implodi-las. Comparem um aluno de 4ª série dos anos 50 com um aluno de 8ª série de hoje e veremos qual é o modelo que realmente funciona.

Mais duas ou três coisas em que acredito

O professor Ivalino, leitor deste blogue, comentou um dos textos sobre Educação afirmando que temos que mudar o modo como avaliamos nossos alunos.

Concordo, Iva. Temos que mudar mesmo. Estamos sendo condescendentes demais com a ignorância. Hoje em dia, muitíssimos alunos saem da escola quase tão despreparados quanto entraram.

Eu, que lecionava História e Geografia para 7ª e 8ª séries, tive que desistir de usar os textos dos livros didáticos em sala de aula, por um motivo estarrecedor: os alunos não entendem o que está escrito. Milhões de adolescentes brasileiros chegam ao final do Ensino Fundamental (muitos, do Médio) na condição de analfabetos funcionais, sem saber interpretar ou produzir um texto em nível de 4ª série. Portanto, decidi usar os livros apenas para mostrar as figuras e mapas. Nada de textos. Pra que saber ler, não é mesmo?

E o problema não é apenas nas Ciências Humanas. Na escola onde eu trabalhava, a professora de Matemática da 5ª série sempre passava o primeiro trimestre de cada ano sem poder dar matéria de 5ª série, porque nesse tempo ela ficava ensinando… tabuada! Isso mesmo: conteúdo de SEGUNDA série.

Se a escola decidisse aprovar em todas as séries apenas os alunos que APRENDERAM os conteúdos propostos, mais de 90% seriam reprovados.

Aqui, o Ivalino e outros críticos da escola “tradicional” (como eles dizem), questionarão a necessidade de se ensinar esses conteúdos ao invés de “preparar os alunos para a vida”.

Bem, devemos tomar as coisas como são, e não como deveriam ser. No mundo real, em que vivemos (pelo menos, em que quase todos vivem, com exceção de alguns antropólogos e pedagogos), nesse mundo concreto, a conquista de melhores condições de vida passa necessariamente por vestibulares, concursos públicos e processos seletivos diversos. Para conseguir um bom emprego ou até para escrever uma carta para a namorada, é preciso CONHECIMENTO. Preparar para a vida é ensinar o valor do estudo com afinco. É ensinar que o conhecimento genuíno só se constrói com leitura e reflexão. E com seriedade.

Mas, nestes tristes tempos de supervalorização das estatísticas, os órgãos governamentais não se preocupam com o aprendizado, e sim com o percentual de aprovados.

Viva a hipocrisia.

Mais sobre o desmonte da escola pública

A prefeitura do município onde trabalho deixou bem claro que lá a Educação é uma questão de grana.

Ano passado, o então secretário de Educação (que também era e é vice-prefeito) exigiu que as escolas reduzissem o índice de reprovação, porque o fracasso escolar gera despesas para o município, que tem que dar escola por mais tempo aos repetentes. Isso mesmo. A justificativa não foi sequer a necessidade de melhoria do aprendizado, o compromisso com os alunos, etc. Assumiram, no maior caradurismo, que encaram a escola como um negócio COM fins lucrativos.

Obrigaram as escolas a aprovar alunos que precisavam de mais de 30 pontos em Matemática e/ou Português, e neste ano comemoraram a diminuição do número de alunos reprovados. Sim, uma piada. Todos sabem que a melhoria no índice foi obtida por canetaço, às custas da aprovação artificial de alunos sem as mínimas condições de avanço.

Calma, leitor. Tudo sempre piora.

Durante as últimas férias de verão, o prefeito baixou o seguinte decreto: escolas com menos de 300 alunos não terão mais secretário, bibliotecário, vice-direção, supervisão e poderão ter no máximo UM servente para cuidar da limpeza e merenda. A justificativa é que “em escolas pequenas esses profissionais não são necessários porque a direção e os professores podem dar conta do recado.”

A próxima medida talvez seja demitir todos os professores e entregar a Educação aos Amigos da Escola.

Caso de polícia é tratado como brincadeira de criança

O que você faria se alguém ameaçasse matar você, e estivesse falando sério?

Nesta semana, um aluno da rede municipal de um certo município gaúcho (estudante que tem 16 anos e está no Ensino Fundamental, turma matinal) prometeu matar uma professora de Português. O que fez ela para merecer a morte? Exigiu que o aluno tivesse uma postura respeitosa e se empenhasse nos estudos.

O caso foi levado à Secretaria de Educação do referido município. Qual foi a orientação dada pela Intelligentsia educacional? Mandaram prender o quase- bandido? Encaminharam-no para o Conselho Tutelar? Prometeram transferi-lo para outra escola? Procuraram os seus pais ou responsáveis para informar que eles criaram um assassino?

Não.

Os sábios tecnocratas disseram que se deve resolver a questão tomando-se as seguintes medidas:

1) A professora deve chamar o assassino em potencial para uma conversa reservada.

2) Se isso não funcionar, a equipe diretiva da escola deve conversar com ele.

3) Se nem isso adiantar, o Conselho Escolar deve ter uma conversinha com o bom rapaz.

Nesse meio-tempo, ele terá todas as oportunidades do mundo para cumprir a promessa que fez.

Detalhe: na semana passada, um professor do mesmo município foi executado com cinco tiros quando chegava em casa. Há rumores de que os assassinos são dois de seus alunos do período noturno.

Em tempo: A Intelligentsia dessa secretaria de Educação encontrou uma maneira genial de resolver os problemas sociais do município. A partir de agora, os professores estão PROIBIDOS de dizer que os seus alunos vêm de famílias desestruturadas. A nova nomenclatura oficial é “famílias com cultura diferenciada”.

Por essas e por outras é que a Educação no Brasil está essa merda (com o perdão dos moralistas): ao invés de atacar os problemas de frente, inventam-se outros nomes para eles.

No bosque das professoras cacarejantes

Quem já participou de um seminário de Educação sabe que a única coisa mais desgastante que tentar falar para uma platéia de adolescentes é tentar falar para uma platéia de professores.

Elas (o percentual de mulheres é sempre de 95% , no mínimo) conversam, riem, falam ao celular, gritam, riem, conversam, gritam, riem mais, acenam, comem, gritam, levantam e saem, sentam de costas para o palestrante, gargalham, levantam para cumprimentar alguém, oferecem uma bolacha a uma colega que está sentada a cinco metros, compram e vendem produtos da Hermes e por aí vai.

São as mesmas pessoas que reclamam, cheias de razão, quando os seus alunos têm posturas semelhantes.

Detalhe: quando alguém lhes chama a atenção pelos maus modos, essas professoras justificam-se dizendo que o palestrante só estava falando abobrinhas. Não por coincidência, é quase a mesma desculpa dada pelos alunos.