máximas #005

Só serei favorável a medidas de ~~~austeridade~~~ se me mostrarem fotos dos rentistas ou dos executivos dos bancos credores tendo que colocar água no leite longa-vida pra ter pra todo mundo no café da manhã em casa, ou almoçando arroz com ovo numa vianda de alumínio – ou indo, a pé, buscar os filhos na creche municipal depois de um longo dia de trabalho.

A condição vale pra Grécia, vale pro Brasil, vale pro RS, vale pra qualquer trabalhador endividado. Não sendo atendida, que os banqueiros e políticos e jornalistas enfiem a austeridade onde lhes doa mais.

pílulas de absurdol #005

Durante o café, o cara posta uma crítica veemente ao regime comunista que os petralhas estão implantando no Brasil. No fim da manhã, exige apoio financeiro do governo e flexibilização das leis trabalhistas como única forma de evitar a demissão de metade dos seus funcionários ~devido à crise~. À tarde, manda a secretária cancelar os compromissos e sai pra comprar um Audi novo.

http://mecanicaonline.com.br/wordpress/2015/07/09/audi-do-brasil-tem-melhor-primeiro-semestre-da-historia-da-marca-no-pais/

pílulas de absurdol #004

Duas notícias que estão umbilicalmente ligadas: o dinheiro que sobra pra quem tem demais é O MESMO que falta pra quem tem menos.

1) Lucro do Bradesco cresce e chega a R$ 4,47 bilhões no 2º trimestre
http://g1.globo.com/…/lucro-do-bradesco-cresce-e-chega-r-44…

2) Governo corta mais R$ 1 bi da educação e quase R$ 2 bi da saúde
http://m.economia.estadao.com.br/…/geral,governo-anuncia-co…

Nesse ritmo, Dilma vai virar presidente de honra do PSDB.

golpe de 64: vamos falar de economia?

[publicado originalmente em 31 de março de 2013, num blogue que deixou de existir]

Hoje é aniversário do golpe de Estado que em 1964 derrubou um governo democraticamente eleito e instaurou uma ditadura civil-militar de mais de 20 anos.

Simpatizantes do golpe sempre o defendem pelo prisma econômico: falam com orgulho do “milagre brasileiro”, do “Brasil-oitava-economia-do-mundo”, da consolidação do parque industrial, da defesa ~nacionalista~ da produção nacional, etc. Inquiridos sobre a violência do regime, os seus defensores ou dizem que foram abusos isolados ou justificam as ações dizendo que foram necessárias devido à “ameaça do comunismo”.

Opositores do golpe sempre o criticam pelo prisma da repressão: falam da censura, das prisões, do AI-5, de tortura e assassinatos de opositores, de infiltrados do Dops nos grupos estudantis e movimentos sociais, etc. Quase nada costuma ser dito sobre a economia. É como se até os críticos da ditadura concordassem que o regime foi um sucesso econômico.

Já eu critico a ditadura civil-militar tanto pela repressão quanto pela economia.

Do ponto de vista da distribuição de renda, o Estado brasileiro foi, de 1964 a 1985 (e depois por mais alguns anos), um verdadeiro Nibor Dooh (expressão de Fausto Wolff): um Robin Hood ao contrário, que tirava dos pobres para dar aos ricos. O Banco do Brasil (via conta-movimento) e os bancos estaduais eram verdadeiros sacos sem fundo, jazidas inexauríveis de recursos para latifundiários e usineiros. Mais tarde, quando surgiram planos anti-inflação nos anos 80 (nos governos Sarney e Collor), os pacotes sempre resultaram numa explosão do consumo de carne e até de produtos como absorventes íntimos pelas classes mais baixas, o que evidencia que na época do “milagre” tais produtos não faziam parte da cesta básica de milhões de pessoas. O milagre era para poucos ungidos.

Do ponto de vista do nacionalismo, a política econômica do governo civil-militar era risível. Que nacionalismo é esse que consistia numa sujeição servil aos interesses econômicos norte-americanos? Mesmo no campo interno, as diversas estatais serviam basicamente para fornecer (às custas de prejuízos deliberados) matéria-prima ridiculamente barata às multinacionais da indústria, engordando os dividendos de matrizes instaladas bem longe da Mãe Gentil. E a repressão dos movimentos operários também impedia uma negociação salarial vantajosa para os trabalhadores.

Por fim, do ponto de vista da concorrência e do desenvolvimento da economia, o fechamento das fronteiras de consumo com as famigeradas “reservas de mercado” levou o país a um atraso tecnológico de décadas. Como escreveu o Verissimo, era mais fácil entrar no Brasil com cocaína do que com um computador. O resultado não foi o desenvolvimento sadio da indústria nacional, mas um déficit que demoramos anos para recuperar, após a abertura do mercado nos anos 90.

E eu não mencionei as obras faraônicas que contribuíram para engordar o endividamento externo e nem que o regime jogou o país num buraco negro inflacionário do qual só saímos depois de uma “década perdida”.

Resta algo a defender do Golpe?

O CEO do Wal-Mart Brasil merece uma surra

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Às vezes (no sentido de “quase sempre”), sou tão rabugento que me sinto o próprio Harvey Pekar. Especialmente quando estou numa fila.

Um caso clássico é o da fila da rodoviária. Eu, que sou um brasileiro atípico, só vou à rodoviária quando já sei para onde quero ir, a que horas sai o ônibus e quanto custa a passagem. Logo, o tempo que passo no guichê é mínimo, dependendo da morosidade do atendente.

Mas há pessoas que, diante do referido guichê, parecem não saber a resposta às perguntas “Para onde?” e “Quando?” É tão longo o tempo que demoram para comprar uma passagem, que parece que elas decidem na hora o destino, dado o número de perguntas que fazem para o atendente.

Algumas travam longos diálogos com o vendedor, antes de se decidirem pela compra, e é aí que eu, prestes a ter um ataque cardíaco de raiva, empreendo um esforço kantiano para imaginar que assunto alguém poderia ter com um atendente de rodoviária. Por que diabos conversam tanto, e sobre o quê? Será que são velhos conhecidos que se encontraram por acaso? Por que não vão conversar em casa, liberando o guichê para pessoas que, como eu, realmente querem comprar uma passagem de ônibus?

Um problema ainda mais grave (e, aqui, não sou só eu o estressado, a julgar pela revolta na fila) é o dos supermercados do Grupo WalMart Brasil, proprietário das redes Nacional e Big, entre outras.

Quando estou em Porto Alegre, sempre evito entrar nesses supermercados, pois conheço o atendimento. Mas, quando estou em Gravataí, onde mora a minha namorada, não tenho alternativa a não ser enfrentar as compras no Big. Temos passado horas intermináveis lá dentro, e 90% desse tempo é ocupado com a deliciosa espera na fila do caixa.

Não que não haja caixas no Big. São dezenas, mas a maioria não funciona. Por algum motivo que foge à minha compreensão, o Grupo Wal-Mart acha que contratar pessoal é uma despesa desnecessária. É bem provável que essa seja a razão da diferença de poucos centavos nos preços: gastam menos com mão-de-obra e maltratam o cliente só para poderem dizer que cobram menos.

Além da falta de caixas funcionando, há algum sério problema no esquema de trabalho. A moça do caixa acende aquela luzinha piscante (para chamar a moça dos patins) a cada pagamento efetuado. É incrível! Se ela é chamada sempre, seria mais prático deixar uma moça de patins de plantão ao lado de cada caixa. Ou então substituir as moças dos caixas por moças de patins. Ou a caixa não tem troco, ou há algum problema na maquininha leitora de cartões, ou a rede caiu, ou há divergência entre o valor anunciado na gôndola e o do produto, etc.

Eles até criaram um sistema de “caixa rápido”, para compras de no máximo 30 (!!!) itens. Via de regra, esses caixas são mais demorados que os normais. A fila dá voltas no hipermercado.

Aí, eu acesso o site do grupo (já devidamente linkado, acima) e o slogan no cabeçalho diz: “Wal-Mart Brasil: vendemos por menos para as pessoas viverem melhor”, o que prova que, além do mau atendimento, o humor negro também é um dos pontos fortes da empresa.

Como disse o Kent Brockman no filme dos Simpsons, este blogue não apóia a justiça com as próprias mãos, a menos que dê certo.