Seu Adalírio, o Mercado Jacó e as Ecobags

Conheça o senhor Adalírio Holdenbaum:

Proprietário do Mercado Jacó, no bairro Higienópolis, em Porto Alegre, ele é responsável por uma bela iniciativa: a de distribuir gratuitamente, aos clientes mais assíduos, ecobags personalizadas.

As sacolas de pano, costuradas pela esposa do comerciante, custam R$ 4 a unidade. E o Seu Adalírio as dá, de graça, aos fregueses. O Grupo Wal Mart (bem maior e mais rico que o Grupo Jacó) também lançou uma campanha de ecobags (ser “verde” é cool), mas cobra R$ 2 por unidade.

A iniciativa do Seu Jacó Adalírio surgiu após um bate-papo com membros da ONG Amigos da Terra e com clientes de origem estrangeira que iam ao mercadinho portando suas próprias sacolas de pano.

E no Mercado Jacó a preocupação com o meio ambiente vai além das ecobags. Os clientes são admoestados, por avisos na parede, a não embalarem as verduras em sacos individuais. São usados cestinhos como estes:

Na balança, os produtos, depois de pesados, vão todos para o mesmo saco. Com isso, uma média de três a quatro embalagens deixam de ser utilizadas (e depois jogadas fora) a cada compra.

Adalírio Holdenbaum é um homem de visão ecológica, mas também um homem de visão comercial. Desde que a primeira remessa de sacolas de pano, de 300 unidades, foi distribuída, cerca de 40% dos clientes contemplados passaram a usá-las regularmente, o que diminuiu em quase 30% os gastos com a compra de sacolas plásticas.

Além disso, há todo o “capital espiritual” de ser reconhecido como uma empresa verde.

O Mercado Jacó prova que as sacolas ecológicas são muito mais do que uma tendência de socialites que querem parecer conscientes.

Aeromóvel: a alternativa esquecida

Imagem encontrada em http://www.aeromovel.com.br/

Comentando meu post sobre a necessidade de criarmos espaços livres de carros nas nossas cidades, a Camomila disse que “falta apenas honestidade. Não vejo nenhum empresário do setor viário dar as caras para oferecer uma boa proposta, nem governo nenhum falar abertamente sobre isso.

No começo da década de 80, em Porto Alegre, um empresário chamado Oskar Coester ofereceu a sua boa proposta: o Aeromóvel (site oficial|Wiki). Ele não apenas propôs, mas construiu um protótipo (o da foto acima) próximo à Usina do Gasômetro, para mostrar ao mundo que “um novo transporte é possível”.

O veículo continua lá, como um monumento à má vontade política. Um quarto de século depois da sua criação, o Aeromóvel só foi levado ligeiramente a sério pelas autoridades de Jakarta, na Indonésia.

Para a Camô, não podemos contar com os empresários na empreitada de construção de um modo de vida sustentável. Concordo, em parte. Cabe aos governos dar ao empresariado a “motivação” necessária, através de legislação e incentivos. E cabe à população (pelo menos, à população pensante) fazer com que essa demanda seja incluída na agenda governamental). Impossível? Nem tanto. Como escreveu certa vez o Cardoso, algumas decisões de alto escalão, como a escolha da vice de John McCain, são inspiradas por Deus por blogueiros insistentes.

O presidente Lula, leitor assíduo do meu humilde blogue, com certeza há de concordar.

CarFree Cities

Imagem encontrada em http://www.carfree.com

Não faltam idéias para melhorar o mundo. O que falta aos mocinhos é hegemonia (e a organização/disciplina necessária para alcançá-la).

Um post recente do Ecoblogs, escrito pelo Rodrigo Barba, trouxe uma dessas idéias: o conceito de CarFree City, ou “cidade sem carros”, apresentado por J. H. Crawford em um livro que pode ser encontrado nas melhores Amazons do ramo.

Realmente, qualquer um que ande pelas ruas das nossas cidades às 7h30min ou às 19h (ou a qualquer hora do dia) percebe que carros e cidades não combinam. O “espaço vital” urbano deveria ser um território livre de carros e conectado por meios mais eficientes – e coletivos –  de transporte. Automóveis em demasia poluem mais, gastam mais combustível,  provocam mais acidentes, geram mais barulho e ocupam mais espaço para transportar menos gente.

É ano de eleição. Que tal enviar o link do site do projeto ao seu vereador/prefeito?

China: um problema do tamanho do mundo

Tenho medo da China. Medo de que os chineses, no afã de desenvolver-se, destruam o mundo inteiro. Pelo menos, o mundo como o conhecemos.

Devo ter dito, em algum outro post, que o Capitalismo puro é um sistema suicida. Já o Capitalismo vermelho dos chineses é um sistema cataclísmico, pois alia a concorrência selvagem das empresas à implacável planificação estatal.

Numa economia planificada, os manda-chuvas traçam metas com anos de antecedência e encarregam executores de cumpri-las a contento. A meritocracia do Partido Comunista Chinês baseia-se nisso. Os burocratas mais destacados são aqueles que executam os planos com mais eficiência e em menos tempo. Por isso há tantos arranha-céus e tantas obras faraônicas erguidas em tempo recorde nas neo-metrópoles chinesas. Por isso também há tanto desrespeito aos trabalhadores e ao meio ambiente. O governo traça seus planos mirabolantes e as companhias ocidentais, sedentas por mão-de-obra barata, entram na dança.

Se a poluição produzida pelo desenvolvimento chinês já um problema agora, o prognóstico fica mais grave quando nos damos conta de que eles estão apenas começando. O quadro vai piorar, e muito. Por enquanto, a China tem sido basicamente uma gigantesca fábrica e não um mercado. Mas eles estão consolidando uma classe consumidora bem maior do que toda a população dos EUA. O que acontecerá quando essa gente toda começar a comprar? De onde virão as matérias-primas e a energia necessárias para produzir tantos bens de consumo? E quanta poluição será gerada ao longo do processo?

O jornalista americano John Promfet escreveu umartigoem que sugere um outro agravante. A população chinesa está envelhecendo rapidamente, graças ao aumento da longevidade e à redução da natalidade (lá, o governo tem a “política do filho único”). Projeções indicam que, até 2050, haverá mais de 300 milhões de chineses acima dos 60 anos. E não há uma Previdência Social decente na China. Com uma baixa taxa de natalidade, quem produzirá riqueza excedente para sustentar os idosos? E, caso o governo decida estimular um aumento da natalidade, imagine o desastre. Incentivar uma população de mais de 1 bilhão de pessoas a procriar à vontade não me parece uma boa idéia, definitivamente.

O problema não é a China querer desenvolver-se, mas sim copiar um modelo de “desenvolvimento” que já provou ser catastrófico. O Capitalismo selvagem e irresponsável é um sistema suicida. A China talvez prove isso. E da pior maneira possível.

Poderosa Gaia


Sensacional a foto publicada na capa do Zerohora.com, no início desta tarde pós-ciclone em Porto Alegre. A imagem de devastação foi flagrada na calma Rua Machado de Assis, no bairro Partenon, e suscita assombro e pavor perante a força da Natureza, para usar um clichê mais-que-batido.

Quantos anos foram necessários para que essas árvores atingissem esse diâmetro? Em quantos segundos elas foram arrancadas pelo vento?

Quanto pesa uma árvore dessas? Você conseguiria arrancar uma delas do chão, leitor?

Bill Bryson, no excelente livro “Breve História de Quase Tudo”, diz que a energia gerada por um único temporal poderia suprir as necessidades de eletricidade do Reino Unido por um ano (!).

Estamos para o planeta como uma formiga está para uma criança capaz de destruir um formigueiro sem o menor esforço. O mínimo que podemos fazer é ter um pouco de humildade no trato com Gaia.

Sobre reciclagem, fomento e desenvolvimento

O leitor Marcelo apresentou a seguinte crítica ao post “Da série: Idéias que poderiam mudar o mundo“:

Não adianta induzir o fomento apenas da industria da reciclagem. Mas sim da economia como um todo, a industria da reciclagem é pequena, incipiente, incapaz de conseguir empregar a enorme massa de desempregados do Brasil.

Precisamos de crescimento econômico e melhores condições sociais como um todo…

Marcelo, a “indústria de reciclagem é pequena” AGORA.

No post propus que uma lei OBRIGUE as indústrias a comprarem matérias-primas recicladas.

Outra lei, inclusive, poderia obrigar os municípios a reciclarem 100% do seu lixo.

Você já reparou na quantidade de lixo produzido por uma grande cidade? É algo monstruoso. Recolher e separar todo esse material empregaria muita gente. Muita mesmo.
E isso acabaria aquecendo toda a economia, pois os trabalhadores das cooperativas iriam consumir mais, o que demandaria maior produção industrial, e assim por diante.

“Induzir o fomento da indústria como um todo”, como você diz, é algo mais difuso e complicado. A reciclagem e comercialização de TODO o lixo produzido nas cidades pelo menos nos dá uma base por onde começar, podendo partir de um projeto de lei que criasse a demanda, como exposto no meu post.

Da série “Idéias que poderiam mudar o mundo”

Ontem, um cara veio me pedir dinheiro na rua.

Todo morador de cidade grande passa por situações semelhantes quase todos os dias. Via de regra, contamos aos pedintes sempre a mesma mentira: que não temos dinheiro.

Nos justificamos dizendo que não trabalhamos para sustentar o vício dos cachaceiros, que temos que “correr atrás” e ninguém nos ajuda, que dar esmolas apenas cria dependência e não resolve o problema.

Mas, então, o que resolve o problema, pelamordedeus?

Dar esmolas, realmente, não adianta. É como oferecer um band-aid a alguém que sofreu queimaduras de terceiro grau em 50% do corpo.

Dar trabalho é uma boa ação ao alcance de poucos. Você tem condições de empregar algum desvalido? Eu não tenho.

Exigir que o governo conceda Bolsas Famílias e outros que tais não me parece um bom negócio… soa como uma espécie de esmola institucional.

A melhor solução estaria naquela máxima evangélica: “Não dê o peixe; ensine a pescar”. Ou seja: ao invés da esmola que humilha, dar o emprego que dignifica. Mas será possível criar empregos artificialmente? O sacrossanto mercado tem espaço para todas as pessoas com idade para participar dele?

Teria, se fossem criadas condições para isso. Por exemplo, se o governo obrigasse TODAS as empresas manufatureiras a utilizar uma porcentagem X de matérias-primas recicladas… Imagine a quantidade de papéis, plásticos, metais e outros insumos que seriam reaproveitados. Imagine cooperativas municipais de reciclagem, tirando das ruas, dos aterros e dos riachos toneladas e toneladas de lixo para serem vendidas a compradores garantidos.

Quantos empregos isso geraria? Quanta economia para a indústria? Quantos anos de sobrevida a humanidade ganharia com tal faxina no meio ambiente?

Aqui, chegamos à fronteira entre o sonho e a realidade. Quem apresentará tal projeto de lei? Alguém aí é deputado ou senador? Eu não sou. Farei, então, o que está ao meu alcance: mandarei e-mails ao maior número possível de congressistas, na esperança de que um deles acredite nessa idéia.

Sei que isso parece demasiado utópico, mas é bem melhor do que simplesmente dizer aos pedintes que não tenho moedinhas e depois voltar para casa para dormir o sono dos justos.

A sabedoria do Seu Pedro

É notícia a ocupação (ou “invasão”, dependendo de que lado do balcão você está) de uma fazenda da papeleira nórdica Stora Enso por movimentos de luta pela terra.

Há aí, além da questão da propriedade privada, que é o único viés abordado pela mídia,  um ponto que não costuma ser citado nos debates: as papeleiras estão enchendo o Rio Grande do Sul de eucalipto, com as bênçãos do governo.

Alguém já se perguntou seriamente qual é o impacto da introdução em larga escala dessas gigantescas árvores australianas em uma zona de pradarias?

O senhor Pedro Aldemiro, meu avô, um homem de 73 anos que não passou da segunda série do primário, acredita ter encontrado a resposta:

— Quando eu era novo, esses campos eram todos cheios de arroios, sangas e olhos-de-boi. Agora, tudo que é banhado tá secando. Isso é porque naquela época não tinha esse monte de eucalipto que tem agora. Vai chegar um ponto em que nós não vamos mais ter água.

Eu gosto de conversar com meu vô.

Masdar, o novo Eldorado

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Dias atrás, escrevi que nós precisamos, com urgência, de um Partido Verde com bons quadros. Precisamos mesmo. Com bons quadros e muitos votos.

Por que os Verdes não têm expressão no Brasil? Porque a nossa sociedade ainda acha que a preocupação com questões ambientais é coisa de gente jovem metida a riponga. Participar do PV ou votar nos seus candidatos seria uma excentricidade ou uma forma inócua de idealismo. A culpa disso, em grande parte, é do próprio partido, que ainda não soube mostrar aos eleitores a importância, o potencial econômico, a urgência e a seriedade da sua plataforma.

Os árabes, que são pragmáticos, se deram conta da importância da preservação ambiental e decidiram transformar isso num negócio lucrativo.

Eis que leio, na IstoÉ, que o governo de Abu Dhabi vai construir, no meio do deserto, a primeira cidade 100% ecológica: Masdar (acesse o site do projeto aqui). O lugar, uma urbe de 50 mil habitantes, funcionará à base de energia limpa, reciclará todos os detritos e terá emissão zero de poluentes (com exceção do metano oriundo dos intestinos dos masdarenses). Apesar de Abu Dhabi estar assentada sobre gigantescas jazidas de petróleo, não haverá carros em Masdar, nem sequer elétricos. Os cidadãos se deslocarão a pé ou a bordo de modernos trens suspensos. A água utilizada na cidade será obtida em usinas de dessalinização e será reciclada depois de consumida, para irrigar plantações destinadas à produção de biocombustíveis.

A sociedade do petróleo está com os dias contados. Os árabes, que vivem dos polpudos lucros obtidos com a venda do ouro negro, pretendem, obviamente, transformar os petrodólares em ecodólares. Se a empreitada pioneira de Masdar for um estrondoso sucesso, Abu Dhabi poderá exportar o seu know-how ecológico para o mundo inteiro.

Consciência ecológica, como bem sabem os sultões, é muito mais do que uma filosofia riponga: é o único modo de salvar a humanidade, além de ser uma alternativa com alto potencial econômico. É disso que os brasileiros, capitalistas ou não, precisam se dar conta. É isso que o Partido Verde, ou qualquer outro, precisa mostrar na campanha eleitoral.

Um presidente chamado Delay

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Os americanos têm um congressista chamado Tom DeLay. Dizem que ele é o último a rir das piadas e sempre pede, para um assessor, uma explicação à parte sobre as matérias em votação no plenário, para saber de que diabos todos estão falando.

Nós, brasileiros-que-não-desistimos-nunca, temos um presidente chamado Delay. Ontem, dia 24 de janeiro de 2008, ele deu-se conta de que o desmatamento na Amazônia está meio que demais, e realizou uma reunião ministerial para tratar do tema. No ano que vem ele vai descobrir que a violência urbana passou dos limites e no terceiro mandato, em 2014, vai começar a desconfiar que tem alguma coisa errada no nosso ensino público.

Tenho, por enquanto, 26 anos e, desde criancinha, ouço as pessoas dizerem que o desmatamento está acabando com a Amazônia. Tudo bem, o lugar é bem grande, mas um dia a falta dessas árvores vai realmente fazer diferença, o que é deveras assustador, já que nós precisamos delas para manter confortável o clima do planeta.

Dirão os lulistas mais empedernidos, como o professor Ivalino, de Itapuã, que pelo menos o Delay está tentando fazer alguma coisa e que é melhor tomar providências agora do que mais tarde.

Certo, Iva, mas o que exatamente será feito? O problema é tão superlativo que não pode ser resolvido com medidas paliativas como cadastramento de madeireiras e cotas de extração. O negócio é radicalizar. Proibir o corte de árvores nativas da selva e promover os madeireiros ao status de terroristas, para que sejam caçados pelos Navy Seals (sim, isso foi uma brincadeira de mau gosto). Falando sério, devemos sim endurecer, e muito, a fiscalização, mesmo que isso signifique perder a ternura de vez em quando. É preciso, também, vedar certas áreas ao extrativismo, aumentando (muito) o território livre de desmatamento e, aos poucos, fomentar a criação de gado em confinamento e educar a sociedade para o uso de materiais alternativos à madeira-de-lei, como, por exemplo, compostos fabricados a partir do lixo reciclado. Mas isso tem que ser feito rápido. Não podemos começar a debater o tema agora… temos é que tomar atitudes antes que seja tarde.

Há, com certeza, maneiras menos prejudiciais de exploração econômica da Amazônia, como a criação de zonas de ecoturismo e resorts de pesquisa científica.

Algumas pessoas preocupam-se com a preservação da natureza por uma questão de charme. É cool ter consciência ecológica, ouvir Seu Jorge e ver filmes do Almodóvar. Mas nem todos esses parentes do presidente Delay se deram conta de que o que está em jogo não é a vida de meia dúzia de macacos-prego, e sim a manutenção do equilíbrio biológico de todo o planeta.

Ah, e precisamos, com urgência, de um Partido Verde com bons quadros.