viagem à porto alegre de 2114

[publicado originalmente em 17 de abril de 2014, num blogue que deixou de existir]

Num entardecer de por do sol particularmente lindo, dada a nuvem de poluição de milhares e milhares de carros e ônibus semiparados – como virou praxe no trânsito de Porto Alegre -, uma mistura acidental de gases de escapamento, vapores de churrasquinho de gato e fedor de mijo das calçadas me entra pelas narinas e leva-me ao transe místico. Abro os olhos e descubro que viajei ao futuro. E, como é próprio das epifanias induzidas pelo bodum da cidade, tenho total ciência dos acontecimentos a minha volta.

De repente, me vejo na Porto Alegre de 2114 – é, por coincidência, ano de Copa do Mundo, mas esta não será no Brasil. O torneio deste ano ocorre na Bélgica, e o próximo Mundial, esse sim, será aqui. Porto Alegre está na expectativa de se tornar uma das cidades-sede do certame de 2118, o que dá novo ânimo aos empreiteiros que ainda não concluíram as obras estruturais da Copa de 2014, realizada há exatos cem anos. Os canteiros tinham sido abandonados oficialmente em 2075, mas o anúncio do Mundial motivou novos contratos e a prefeitura promete uma revolução nas estruturas da cidade para meados de 2118.

Andam dizendo que o prefeito, Jotair Peçanha, do PQP, conseguirá a indicação à reeleição, mas isso dependerá, é claro, dos valores dos contratos para as obras da próxima Copa. Há pouco mais de 20 anos, os presidentes das grandes empreiteiras, empresas de transporte e associações comerciais de Porto Alegre cansaram da ineficácia do poder público, que já estava indiretamente em suas mãos, e decidiram apertar um pouco mais as rédeas. Concluíram que gastavam dinheiro demais financiando simultaneamente todas as campanhas e resolveram otimizar o processo. Agora, o candidato a prefeito, que sempre concorre em chapa única, é escolhido em reunião prévia dos empresários – e uma cláusula contratual prevê o seu impeachment caso descumpra o plano de governo costurado pelas empresas. O mesmo ocorre com a nominata da Câmara de Vereadores, embora neste caso seja permitido o registro de até duas candidaturas de partidos de esquerda, para manter as aparências.

Desço do ônibus e ando alguns passos até uma estação de aluguel de carros. Não quero correr o risco de caminhar e ser multado ou preso por um azulzinho. Desde 2062, é proibido se locomover pelas ruas de Porto Alegre a pé ou de bicicleta. E até andar de ônibus não é considerado de bom tom, embora não resulte em sanção. Com a nova lei, o planejamento urbano pôde enfim se libertar das amarras e focar-se exclusivamente nas necessidades dos motoristas. Isso levou a algumas mudanças drásticas na paisagem urbana.

Em 2088, foi concluída a grande obra de drenagem do Lago Guaíba, que precisou ser transformado em estacionamento. Como o trânsito está constantemente congestionado no resto da cidade, muitos motoristas usam o Guaíba também como avenida para ir do Centro Shopping à Zona Sul e vice-versa, uma prática tolerada apesar de proibida. Os azuizinhos fazem vista grossa e não multam os infratores, desde que a locomoção ocorra de carro e não a pé ou de bicicleta. Isso sim não é perdoado.

Chego, enfim, aos arredores do Centro Shopping e estaciono o carro alugado numa vaga do Guaíba. Maior obra da história da cidade, o grande distrito administrativo e comercial é o único lugar de Porto Alegre onde é permitido andar a pé – pelo menos até 2130, quando os empresários esperam concluir a adaptação de todas as lojas e escritórios ao sistema drive-thru. Sua construção foi uma exigência dos cidadãos de bem da Capital, que queriam uma revitalização mais efetiva da área central da cidade desde o Grande Massacre de Estudantes de 2045.

Confinado em uma redoma de vidro climatizada, o antigo Centro Histórico foi totalmente higienizado e restaurado e está registrado no Guinness Book como maior shopping center do mundo – abrangendo uma área que vai do Parque da Redenção à Usina do Gasômetro, das rebarbas do bairro Floresta à Cidade Baixa. Livre dos moradores de rua, vendedores ambulantes e rios de mijo que caracterizavam a área antes da Grande Revitalização, o Centro Shopping agora é frequentado por pessoas de bem nas 24 horas do dia – e a entrada de elementos fichados no Departamento Municipal de Combate à Contestação é estritamente proibida, para evitar depredações.

É por isso que não me deixam entrar. Ao mostrar minha identidade no guichê, ouço do atendente que o meu nome está no banco de dados de contestadores da prefeitura. Retruco que isso não é possível – mal sabe ele que eu sequer existo neste universo de 2114 -, mas ele garante que eu estou fichado no DMCC como “dono de blog com viés de esquerda”. E todos sabem que a entrada de blogueiros de esquerda no Centro Shopping é proibida desde 2100.

É nesse momento que acordo do transe e estou de novo em 2014, de novo preso no trânsito aleijado de uma Porto Alegre suja, paralisada e mal coordenada, com a tristeza de quem não sabe quando tudo isso vai ter fim.

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a arte do possível – e do inacreditável

[publicado originalmente em 8 de outubro de 2012, num blogue que deixou de existir]

As eleições municipais deste domingo foram marcadas, em quase todas as cidades, por vitórias de candidatos que dividiram o palaque com apoiadores de um mosaico de bandeiras e ideologias diferentes. O fenômeno é um retrato do momento atual da política no país.

A pluralidade partidária absurda (já temos pelo menos 30 partidos registrados) obriga os governantes a se cercarem de apoiadores para garantir a tal governabilidade, aquela palavra que já virou eufemismo para tantas barbaridades.

As agremiações políticas já nem disfarçam:

— Nobre colega, eu quero me candidatar e preciso do apoio do seu partido, que me dará direito a 50 segundos a mais na TV.

— O que ganharemos se apoiarmos a candidatura de Vossa Excelência?

— Olha, pensei em dar a vocês uma secretaria…

— Qual?

— Que tal a Secretaria de Reintegração dos Sabiás com a Asa Quebrada?

— Nem pensar! O outro candidato já me ofereceu a Secretaria de Obras.

— A Secretaria de Obras por CINQUENTA SEGUNDOS DE TV? Cê tá brincando, né?

— É, tô. Mas não podia ser pelo menos uma secretaria com orçamento maior?

— Que tal a de Educação?

— Hum, é pouco. Não temos só os cinquenta segundos de TV. Certamente vamos reeleger pelo menos dois dos nossos vereadores. Esse apoio na Câmara pode ser fundamental para você. Se você me der a Educação, também vou querer cinquenta cargos de confiança para o meu partido em alguma empresa pública.

— Cinquenta??! Nem pensar. Dou vinte cargos na empresa de coleta de lixo e é pegar ou largar.

— Aceito vinte, mas só se for na empresa de emplacamento de veículos…

— Fechado!

— Me dá um abraço, meu candidato!

(Mais tarde, na foto oficial e na entrevista coletiva, ambos farão caras e bocas para dizer que coligar-se era uma opção natural, dada a comunhão ideológica e programática que os dois partidos sempre demonstraram em sua história conjunta de lutas pela democracia e blá blá blá)

Obviamente, a negociação não acaba aí. Depois que o candidato é eleito, os partidos da sua base nunca esquecerão de sussurrar no seu ouvido o preço do apoio. Às vezes, esse preço é renegociado. Votações polêmicas no Legislativo, por exemplo, podem necessitar de um adicional em dinheiro ou em cargos.

A proximidade das novas eleições sempre indica uma necessidade de rever a estrutura de alianças, já que outros candidatos também podem querer contar com os tais cinquenta segundos a mais na TV — e podem estar dispostos a pagar um preço ainda mais alto pelo apoio.

— Olha, Fulano, não sei se vamos manter a coligação na próxima eleição…

— Mas, Beltrano, eu já te dei mais uma secretaria e dezoito cargos de confiança além daqueles vinte! Já não basta?

— É que o Sicrano me ofereceu o cargo de vice na chapa dele…

— Desculpa, mas não posso dar a vaga de vice pra vocês e deixar o pessoal do PQP, que tem cinco vereadores e uma militância muito maior, sem o cargo.

— Olha, talvez a gente possa resolver isso como resolvemos aquela votação na Câmara mês passado.

— Vai querer em notas de vinte ou de cinquenta?

MOHAMMED E EPHRAIM NO PARAÍSO

CENA 1

Ephraim, judeu, e Mohammed, muçulmano, morrem no mesmo dia e vão para o Céu. Ambos se encontram na sala de espera do Paraíso.

EPHRAIM: Você por aqui?

MOHAMMED: Era isso que eu ia dizer, mas em relação a você! Alá é mesmo misericordioso. Quem poderia imaginar? Um judeu no Paraíso!

EPHRAIM: Deve haver algum engano. Essa deve ser apenas a sala de triagem. Daqui a pouco você será mandado para o seu lugar.

MOHAMMED: Impossível. Vou para o Paraíso. Morri como um herói na guerra contra os infiéis. Mal vejo a hora de mergulhar no rio de vinho. Onde será que estão as minhas virgens?

EPHRAIM: Como foi que você morreu?

MOHAMMED: Amarrei uns explosivos na cintura e explodi um ônibus em Jerusalém. Pena que estava vazio. Eu ia descer e embarcar em outro, mas a bomba detonou sozinha.

EPHRAIM: Então foi você, seu miserável! Eu era o motorista daquele ônibus!

MOHAMMED: Bem, agora é tarde pra lamentar.

Nesse momento, um anjo aparece no guichê

ANJO: Os papéis foram liberados. Vocês já podem entrar para ver o chefe.

CENA 2

Eles entram num vestíbulo de luz e se prostram imediatamente. A luz se apaga e um menino está diante deles. Eles levantam a cabeça.

EPHRAIM: Ahn?

MOHAMMED: Ahn?

DEUS: Sim, eu sei. Eu sempre causo essa impressão.

MOHAMMED: Alá?

EPHRAIM: Javé?

DEUS: Nenhum dos dois. Podem me chamar de Júpiter. E fiquem de pé, por favor. Vocês não precisam mais disso. Aliás, nunca precisaram. Não fui eu que inventei essa moda.

EPHRAIM: Então, o vosso nome é… Júpiter?

DEUS: Não. Mas esse é um nome sonoro, poderoso, vocês não acham?

MOHAMMED: Alá, digo, Júpiter, podeis dizer o que faz esse infiel no Paraíso?

EPHRAIM: Era justamente essa a pergunta que eu ia fazer, meu Senhor.

DEUS: No Céu não existe apartheid. E na Terra também não deveria haver. Vocês entenderam tudo errado.

MOHAMMED: Mas Al…, digo, Júpiter, e o Corão? E o Profeta?

EPHRAIM: E a Torá? E os profetas?

DEUS: Um bando de falastrões que achavam que podiam ser meus porta-vozes. Se bem que os livros sagrados de vocês têm algumas passagens engraçadas… Mas não estamos aqui pra discutir Literatura. Antes de mais nada, vocês precisam de um bom puxão de orelhas. Que história é essa de ficarem se matando?

EPHRAIM: Senhor, aquela é a nossa terra! A Terra Prometida! Vós a destes aos nossos antepassados. É nosso dever defendê-la dos gentios.

MOHAMMED: Idem, Senhor.

DEUS: Eu já estou ficando cansado de ouvir essas besteiras. Como escreveu o Michael Moore, vocês acham que eu daria aquela terra a alguém? Aquilo é só um monte de areia e pedregulhos! Eu nunca dei terra alguma a povo nenhum, e nunca tive preferência por este ou aquele povo.

EPHRAIM: Mas Senhor, e toda a ajuda que vós destes ao povo hebreu ao longo da História? A fuga do Egito, o Mar se abrindo, as Muralhas de Jericó, a força de Sansão, Davi matando Golias…

DEUS: Lendas, lendas. Eu não me meto nas suas guerras. Os seus líderes é que fingem estar lutando em meu nome, quando na verdade lutam por poder. E por dinheiro.

MOHAMMED: E a guerra santa? E a promessa de salvação a quem morrer em defesa da fé?

EPHRAIM: E a vinda do Messias?

DEUS: Lamento dizer, mas vocês caíram no conto do vigário. Ou melhor, no conto do rabino e do mulá. Mas agora é tarde pra falar disso. Vocês passaram a vida inteira evitando a carne de porco, as bebidas fermentadas, seguindo leis inventadas pelos homens, mas agora estão livres. Aproveitem a estada no Céu. Vocês terão a eternidade inteira pra aprender a se gostar.

EPHRAIM: Senhor, posso fazer uma última pergunta? Uma pergunta que eu sempre quis fazer?

DEUS: É claro que pode, embora eu já saiba o que você vai perguntar.

EPHRAIM: Qual é o sentido da vida?

DEUS : Quem foi que disse que ela tem que ter um sentido?

[Publicado originalmente em 2006, no meu blogue antigo. Mas, infelizmente, ainda atual]

O Filho Comunista do Doutor Saraiva

Imagem encontrada em http://www.anica.com.br

Só podia ser praga de brizolista, era o que muitos diziam ao Dr. Saraiva sobre o seu filho. Outros, mais vividos, consolavam o velho dizendo que era tudo fogo de palha, que o rapaz tomaria jeito assim que constituísse família e tivesse obrigações. Mas o Dr. Saraiva não tinha assim tanta certeza quanto ao futuro do seu caçula, nem quanto à origem da esquisitice do menino. Podia até ser de nascença…

Começaram a desconfiar que o Juquinha era meio “diferente” quando ele organizou uma greve de fome no Jardim de Infância, em solidariedade aos metalúrgicos grevistas do ABC. Os revolucionários da “Primavera de Pampers”, como ficou conhecido o movimento, resistiram heroicamente por três horas e meia, até que alguns camaradas começaram a chorar de fome e foram socorridos pelas “tias” com papinhas ou mamadeiras, de acordo com a idade.

Anos depois, enquanto todos os outros meninos colecionavam figurinhas do Zico, do Rummenigge e do Platini, Juquinha montou seu próprio álbum, com fotos roubadas da Barsa do pai: “figurinhas” de Yuri Gagárin, de Mao Tse-tung, de Ho Chi Minh e dos heróis da Revolução Russa.

Muitos colégios tradicionais expulsaram Juquinha, pois em todos eles o garoto criava jornais panfletários atacando a direção e os professores. Na Faculdade, formou-se praticamente sem estudar, pois acumulava funções no Diretório Acadêmico, que chegou a presidir naquela que ficou conhecida como a gestão mais radical desde 68, ou até mais radical que a de 68, segundo alguns.

Graças ao prestígio do Dr. Saraiva, Juca conseguiu vários bons empregos, mas foi demitido de todos eles, por tentar organizar os trabalhadores contra a tirania dos patrões, o que, na prática, serviu apenas para reduzir o círculo de amizades do pai.

O Dr. Saraiva, por fim, entregou os pontos. Juca estava fadado a ser um ninguém, condenado a passar a vida a circular por botequins de intelectuais e reuniões do PC do B. O PC do B! Um ultraje!

Pai e filho cortaram definitivamente relações após as eleições de 2002 (depois, ambos veriam que hoje em dia o “definitivamente” está se tornando um conceito bastante flexível). O motivo do rompimento foi uma carta enviada por Juca logo depois de anunciado o resultado do pleito. A epístola era de uma concisão apavorante: “Saraiva, tens dois meses para sair do país. Em janeiro, o povo baterá à tua porta para cobrar o que tu roubaste. Saudações Marxistas! Juca.”

Não se sabe ao certo o que aconteceu no breve hiato em que o Dr. Saraiva e seu caçula estiveram brigados, mas hoje eles são grandes amigos, pela primeira vez na vida. Juca continua no PC do B, ocupa um cargo de segundo escalão num Ministério que preferimos, por motivos óbvios, não revelar, e vem conseguindo para a empresa do pai lucrativos contratos.

O Dr. Saraiva, ora vejam, está até cogitando filiar-se ao partido do filho…

[Texto publicado originalmente em 2006, no meu blogue antigo]

Simulão do Vestibular Parlamentar

A democracia representativa mostrou-se incapaz de nos arranjar bons governantes. Já está mais do que na hora de sofisticarmos um pouquinho o processo democrático: proponho que os nossos congressistas, uma vez eleitos, só sejam empossados depois de aprovados num Vestibular Parlamentar. E que os reprovados sejam declarados inelegíveis por pelo menos duas eleições.

As perguntas do Exame Parlamentar poderiam ser mais ou menos assim:

(FAÇA A PROVA, LEITOR, E TESTE AS SUAS CHANCES DE CONCORRER A UM CARGO ELETIVO)

1) Quantas pessoas o salário mínimo pode sustentar?
a) Nenhuma.
b) Uma.
c) O que é salário mínimo?
d) Não conheço ninguém que ganhe tão pouco.
e) Quatro pessoas, mas só por um dia.

2) Quando acaba o dinheiro do salário (lá pela segunda semana do mês), que gastos você corta até a entrada do próximo pagamento?
a) Você deixa de comer até o fim do mês.
b) Você passa a ir a pé para o trabalho todos os dias.
c) Você deixa de pagar as contas de água e luz.
d) Você não paga uma das 12 prestações da sua TV de 20”
e) Quem disse que o dinheiro acaba?

3) Quais as opções de vida para um jovem da favela?
a) Ser aviãozinho de traficante.
b) Vender chicletes no sinal vermelho a vida inteira.
c) Estudar, trabalhar e passar a vida ganhando salário mínimo.
d) Fazer um monte de filhos, para ganhar mais dinheiro do Bolsa- Família.
e) Não creio que se possa chamar aquilo de Vida.

4) Quanto tempo o brasileiro precisa trabalhar a cada ano, para pagar os impostos?
a) Cinco meses.
b) Seis meses.
c) Sete meses.
d) Imposto não se paga; sonega-se.
e) Por mim, tanto faz. Eu não trabalho.

5) Por que alguém se torna deputado?
a) Para ser a expressão da vontade do povo.
b) Para ganhar um salário de 13 mil.
c) Para ganhar um salário de 13 mil, mais 3 mil mensais de auxílio-moradia.
d) Para ganhar um salário de 13 mil, 3 mil de auxílio-moradia e mais 4,2 mil mensais para cota de gastos com caixa postal e telefonia..
e) Para ganhar um salário de 13 mil, 3 mil de auxílio-moradia, 4,2 mil mensais para cota de gastos com caixa postale telefonia e passagens aéreas de graça para “visitar as bases”, sem falar da imunidade parlamentar.

6) A quem um congressista deve lealdade?
a) Ao povo.
b) A si mesmo.
c) Ao partido.
d) Aos financiadores da campanha.
e) Ao Capital Transnacional.

7)Qual dessas alternativas apresenta atitudes próprias de um bom congressista?
a) Aprovar gordos aumentos de salário para o Legislativo.
b) Comparecer às sessões e votar projetos que melhorem a vida do povo.
c) Cobrar propinas de empresas que participam de licitações.
d) Usar uma moto-serra para cortar ao meio os desafetos.
e) Participar de surubas pagas com dinheiro público.

8 ) Quantos reais cabem numa bolsa de tamanho médio?
a) Só transporto dólares.
b) Em notas de 100 ou de 50?
c) Está ficando arriscado usar bolsas. Melhor rechear os brinquedos das crianças.
d) Não tenho tanto dinheiro assim.
e) Não trabalho com dinheiro vivo. Favor depositar em minha conta nas Cayman.

9) O que acontece a um ladrão de galinhas que é preso?
a) Vira mulherzinha da cela inteira.
b) É usado como refém e acaba morto numa rebelião de presos.
c) Morre de tuberculose.
d) Aprende a traficar, assaltar bancos, clonar celulares e matar a sangue frio.
e) Por que me preocupar com isso? Eu tenho imunidade.

10) Quanta gente cabe num metro quadrado de ônibus urbano?
a) Quatro pessoas.
b) Oito pessoas.
c) Em horário de pico, infinitas pessoas.
d) Depende do tamanho das pessoas.
e) Não sei, nunca entrei num ônibus.

GABARITO:
Tudo é relativo, dizem os físicos quânticos e os filósofos franceses pós-modernos. Na verdade, os únicos critérios de aprovação no Vestibular Parlamentar são a quantidade e o valor das cédulas de dólar que o pretendente ao cargo grampeia na seção intitulada “Anexos.”

[Texto publicado originalmente em 2006, no meu blogue antigo]

O Segredo de Leduíno

Um dia, Leduíno viu a Luz.

De súbito, descobriu as respostas para todas as perguntas que já se fizera, isolou-se do mundo e, seis meses depois, lançou um livro entitulado “Manual da Fortuna”, que prometia ensinar tudo que é preciso saber para tornar-se um milionário.

A obra, é desnecessário frisar, vendeu como água no deserto. Leduíno tornou-se o Papa da Auto-ajuda. Participava de programas de TV e conferências de empresários, era fotografado ao lado de famosos, os ingressos para suas palestras se esgotavam em questão de horas.

Os que compravam seu livro e assistiam às suas palestras, entretanto, não enriqueciam. Um dia, durante uma sessão de autógrafos, um dos leitores ludibriados decidiu desmascarar Leduíno. Com um megafone em punho, começou a gritar em meio à multidão:

— Leduíno, seu charlatão! Você é uma fraude! Eu fiz tudo que você sugeriu e continuo pobre! O seu manual do enriquecimento não funciona!

O bom guru não se intimidou. Pegou o microfone e respondeu, incisivo:

— É claro que funciona, meu caro. Graças às vendas do livro, eu estou mais rico do que jamais sonhei estar.

Entrevista exclusiva com o Papai Noel

papai_noel.jpgPassada a correria de Natal, o Papai Noel arranjou tempo para conceder a este blogue uma entrevista exclusivíssima.

Periscópio: Papai Noel, o senhor existe?

Papai Noel: Você aprendeu a fazer perguntas com o Cabrini?

Periscópio: Por favor, não fuja pela tangente. Existe ou não existe?

Noel: Você nunca leu aquele editorial do New York Sun? É claro que existo.

Periscópio: Então, o senhor existe como descrito no editorial de Francis Church?

Noel: É claro que não. Mas o texto de Francis e a idéia que ele defende tiraram das minhas costas o peso de ter que estar sempre provando que eu existo.

Periscópio: Onde o senhor mora?

Noel: Nasci e cresci na Lapônia, mas me mudei para Paris depois que o negócio começou a prosperar de verdade. Também tenho um apartamentinho em Roma e um chalé em Seychelles para passar o verão.

Periscópio: Quando o senhor nasceu?

Noel: Em 25 de dezembro de 1748.

Periscópio: Então, antes disso as crianças não recebiam presentes no Natal?

Noel: Sempre houve pais que deram presentes aos filhos. Eu apenas me dei conta do potencial comercial do Natal e soube tirar proveito disso. Apesar do que diz a Coca-Cola, quem inventou a economia do espírito fui eu.

Periscópio: Para o senhor, o Natal é apenas uma data comercial?

Noel: Para você não é?

Periscópio: Como o senhor lucra com o Natal?

Noel: Basicamente, direitos de imagem. E também tenho ações de algumas redes hoteleiras e companhias dos setores de brinquedos e transporte de cargas. Os pais não acreditam na minha existência, mas compram para os filhos presentes fabricados pelas minhas empresas.

Periscópio: Então, não é o senhor que fabrica os brinquedos na sua oficina?

Noel: No começo, eu fazia isso. Mas consumia todo o meu tempo. Do ano inteiro! Um pobre velho merece descansar. E ainda havia todos aqueles processos na Justiça do Trabalho, movidos por aqueles duendes vagabundos. Foi aí que decidi terceirizar. Hoje, quase todos os brinquedos são feitos na China.

Periscópio: E a entrega ainda é feita no famoso trenó voador?

Noel: Claro que não. Eu usava um trenó no início da carreira. E ele não voava. Mas a expansão do negócio me obrigou a contratar transportadoras.

Periscópio: E o que o senhor fez com as renas?

Noel: Churrasco. Com exceção de uma, que vendi para a fábrica de salsichas do Franz Holopainen. E ele nunca me pagou! Velho sovina…

Periscópio: O senhor atende os pedidos de todas as crianças que lhe escrevem?

Noel: Só daquelas cujos pais podem pagar pelo presente.

Periscópio: E as crianças pobres?

Noel: Essas eu não preciso ajudar. Para isso existem as campanhas dos Correios e as ações dos voluntários.

Periscópio: Existe uma Mamãe Noel?

Noel: Existiu, há muito tempo. Nos separamos e nunca mais nos vimos. Hoje, namoro uma ex-top model cujo nome prefiro manter em segredo. Questão de privacidade, entende?

Periscópio: O senhor não tem medo de ficar desacreditado, após essa entrevista?

Noel: Não.

Periscópio: Por quê?

Noel: Primeiro, porque ninguém lê o seu blogue. Depois, porque os que lerem vão dizer que você inventou isso tudo.