Religare

Afirmam os religiosos e os filólogos que o termo RELIGIÃO vem de RELIGARE, re-ligar, unir de novo o que foi separado. No caso (e aqui apenas os religiosos continuam especulando, pois os filólogos saíram pra beber e inventar trocadilhos engraçadinhos), trata-se de unir de novo o humano e o divino, o terreno e o celestial, o material e o imaterial, o concreto e o místico. Um belo conceito, devo dizer. Si non è vero, è bene trovato.

Quando crianças, aprendemos que existe um Papai do Céu de barba branca, que usa vestido e ouve tudo que dizemos, vê tudo que fazemos (mesmo quando apagamos a luz do banheiro), conhece de cor o nosso passado e, pasmem, o nosso futuro. Aprendemos que esse Papai do Céu é muito bondoso e compreensivo, mas não hesitará em nos jogar no fogo eterno se ousarmos perder a missa, comer carne na Sexta-feira Santa ou espiar as meninas tomando banho de sol. Sim, um cretino, mas um cretino que dá todas essas ordens para o nosso bem.

Depois que crescemos, ficamos orgulhosíssimos da nossa genialidade ao dizer em alto e bom som que não acreditamos em Deus e que o Altíssimo, seu Filho e toda a Corte Celestial são: a) uma invenção do sistema opressor para alienar as cabecinhas ocas do proletariado e perpetuar a opressão; ou b) uma artimanha deveras lucrativa de um bando de matutos que tiram até o último centavo das pobres viúvas em nome de Deus.

E nós, que desmascaramos os farsantes, somos muito espertos! Não ter espiritualidade é tão cool!

Será?

Sim, instituições religiosas que colaboram para legitimar a exploração do homem pelo homem. É um argumento excelente dizer aos pobres que eles devem suportar o seu sofrimento e, mais que isso, ter orgulho da própria pobreza para merecer a Salvação Eterna.

Sim, instituições religiosas que lucram com a fé e o desespero das pessoas simples de coração. Há padres católicos que vivem como príncipes nababos às custas das doações. Há aviões que sobrevoam o país com malas cheias de dinheiro de ofertas e dízimos pagos a lobos travestidos de pastores.

Mas a nossa investigação do conceito de religião deve ser menos ingênua, mais radical e mais profunda. É perigoso ou pretensioso fazer afirmações universalizantes baseadas em casos particulares.

Para começo de conversa (sim, estamos apenas começando, leitor… mas você terá que ler até o fim se quiser ir para o céu), seria interessante perguntarmos: se a religião é só um mecanismo de controle ou um negócio rentável, por que raios os bilhões de fiéis mordem a isca ao invés de irem fazer um monte de coisas prazerosas e proibidas?

E a resposta, não é novidade, é: porque o homem é mortal.

Em algum lugar da sua caminhada evolutiva (seja ela resultado de um boneco de barro criado por Deus ou produto do egoísmo dos genes), o Homo sapiens deu-se conta da própria mortalidade. E entrou em desespero.

Depois de alguns suicídios (ainda não tinham inventado a Psicanálise e nem a Auto-ajuda), a  Humanidade achou uma “resposta”: o fim da vida passou a ser visto como o começo de uma nova vida: a vida após a morte. O homem, esse egoísta incorrigível, não se conforma com a morte. Ele quer continuar vivendo. De preferência, em um Paraíso com rios de vinho e virgens à disposição. A religião, ao prometer a vida eterna, veio ao encontro dessa necessidade do homem de vencer a morte.

Além disso, o surgimento da racionalidade levou o homem a perguntar não apenas o “como ” ou  o “onde,” mas também o porquê. O senso comum e a “ciência” nascente responderam algumas dessas questões, mas de repente se começou a buscar respostas para o maior porquê de todos: o porquê da Vida, o porquê da Morte, o porquê de Tudo. E isso a Ciência não consegue responder.

A Religião foi apenas uma das respostas para essa pergunta. O místico surgiu como uma tentativa de explicação do que ainda não foi explicado – e talvez nunca venha a ser. O homem passou a supor e depois passou a crer em entidades imateriais, sobrenaturais, divinas. Seres superiores que criaram tudo que existe e que, de vez em quando, interferem no destino das coisas criadas, só de sacanagem. Agradar esses seres tornou-se uma obrigação, para obter a bênção divina. E assim surgiram as preces, as cerimônias, as cosmogonias, as danças rituais e, claro, as guerras santas.

O fenômeno religioso, essa busca por conexão com o imaterial, está presente em todas as culturas. Todos os povos do mundo têm seus deuses, seus orixás, seus kamis, seus cultos, seus karmas. Os marxistas fingem que não participam disso mas adoram o Partido quando ninguém está olhando.

Essas tentativas de religação com o transcendente nem sempre são alienantes ou exploratórias. Pessoalmente, acho linda a religiosidade dos povos indígenas americanos, a sua busca de contato com o cosmo, o culto e o respeito à natureza como forma de comunhão com o universo. É uma manifestação do fenômeno religioso que deriva em uma ética do cuidado e do amor. Algo tão em falta na nossa sociedade decadente e auto-destrutiva, mas que ainda se orgulha da própria auto-suficiência e do próprio ateísmo.

Em tempo: quando preencho algum questionário, respondo “Agnóstico” no campo entitulado “Religião”.

[Post publicado originalmente no meu blogue antigo, em 2007, e trazido à tona pela proximidade da morte do meu querido avô. ]

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O periscópio e a megalomania

Todos os dias, os motores de busca trazem a este blogue vários internautas sequiosos por informações sobre o periscópio. De acordo com os termos usados nas buscas, eles querem saber “quem inventou o periscópio”, “como funciona o periscópio”, etc.

Por uma questão de respeito com esses pobres náufragos errantes que aqui chegam sem querer, vou tentar dar um fim à angustiante dúvida sobre tão salutar aparelho. Notem que não tenho qualquer qualificação técnica para tanto. Não sou uma autoridade em Óptica ou em Engenharia. Apenas sei duas ou três coisas sobre pesquisa em sites de buscas.

O periscópio teria sido concebido primeiramente pelo russo Drzewiecki, em 1863. Entretanto, o primeiro aparelho de que se tem notícia foi construído só em 1894, pelo italiano Angelo Salmoiraghi. O nome vem do grego periskopein, que significa “ver em volta”.

Todo mundo que assistiu a filmes de submarinos sabe como ele é: um longo tubo que permite, graças a espelhos colocados estrategicamente acima e abaixo, ver coisas num plano acima do nosso campo de visão, mais ou menos como na figura:

Se você clicar aqui, leitor-que-quer-saber-sobre-periscópios, encontrará informações muito mais detalhadas e abalizadas sobre o tema – e até um guia passo-a-passo que ensina como montar o seu próprio periscópio.

Mas o que tudo isso tem a ver com megalomania? Ora, o título deste blogue não foi escolhido por acaso. A analogia com o periscópio significa que eu, o todo-poderoso Editor do site e comandante da embarcação, mostrarei aos leitores coisas que estariam além do seu “campo de visão”. Pretensão? Sim, é claro, mas é justamente isso que traz tanta gente à blogosfera.

Large Hadron Collider: a Máquina do Juízo Final

Agora é oficial: os Quatro Cavaleiros do Apocalipse chamam-se Atlas, Alice, LHCb e CMS. Esses são os nomes dos artefatos que compõem o LHC (Large Hadron Collider, ou Grande Colisor de Hádrons), o maior acelerador de partículas do mundo, uma engenhoca de US$ 8 bilhões que uns cientistas malucos do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern, na sigla em francês) construíram no meio da Europa e pretendem ligar em breve.

Outros cientistas um pouco mais malucos afirmam que, se acionado, o LHC pode criar um pequeno buraco negro capaz de tragar a Terra inteira ou, na melhor das hipóteses, provocar uma explosão forte o bastante para nos mandar a todos pelos ares.

Os técnicos envolvidos no projeto redargüem que isso é tudo balela catastrofista e que as chances de a super-máquina gerar um cataclisma planetário são de 1 em 50 milhões — mais ou menos a mesma improbabilidade que é derrotada toda vez que alguém ganha na loteria.

Um acelerador como o LHC é basicamente um autorama para partículas subatômicas. Os cientistas vão usar o gigantesco brinquedo para fazer com que dois prótons percorram a “pista” em sentidos opostos, chegando muito perto da velocidade da luz, até se chocarem e gerarem muita, mas muita energia, além de se quebrarem em pedacinhos menores. Divertido, não?

Com a colisão, os milhares de pesquisadores empenhados na brincadeira pretendem verificar a possível existência do Bóson de Higgs (a partícula hipotética que seria a chave para entendermos a matéria), estudar algumas outras partículas e, mais que tudo, querem criar condições semelhantes àquelas geradas imediatamente após o Big Bang, para aprender um pouco mais sobre a origem do universo.

E é aqui que nós podemos começar a chamá-los de malucos.

Ora, o Big Bang teria sido a explosão de um ponto de tamanho infinitesimal, e essa detonação foi tão descomunal que seus ecos podem ser “ouvidos” mesmo depois de 15 bilhões de anos.

Qualquer um sabe que, se existisse “espaço” no momento exato do Big Bang original, nenhuma pessoa dotada de um mínimo de juízo gostaria de estar nas imediações do evento depois de apertado o botão. E falamos em “imediações” no sentido cósmico do termo, ou seja, alguns bilhões de quilômetros. E eles querem fazer algo parecido logo ali, na Europa.

Temos algum tempo antes que o LHC (que será ligado para testes nesta semana) seja acionado pra valer e provoque a colisão possivelmente fatídica. E, nesse ínterim, eu poderia dizer aos cientistas do Cern como surgiu o nosso universo, se eles viessem me perguntar (o que pouparia um bocado de dinheiro e preocupação):

Tudo começou há muito tempo, numa outra dimensão, onde vivia uma civilização pretensamente avançada cujos cientistas, por não terem nada muito útil para fazer, decidiram construir uma máquina que lhes revelasse as origens do universo. Quando o artefato foi ligado, ocorreu uma explosão tão poderosa que aniquilou aquele universo e deu origem a outro (o nosso). E essa é a história de tudo.

É claro que é bem mais provável (cerca de 50 milhões de vezes mais provável) que eu esteja enganado, que tudo transcorra bem e que os homens continuem vivendo e se matando alegremente depois do teste do LHC. Mas sempre é bom lembrar que, se as pessoas realmente levassem em conta a lei das probabilidades, ninguém apostaria na Mega Sena.