pílulas de absurdol #006

Enquanto aguardava o avanço da modorrenta pauta do Órgão Especial do Tribunal de Justiça do RS, me pus a rabiscar estatísticas do plenário e chamaram a minha atenção as proporções de etnia e gênero de quem servia e de quem era servido*:

Entre desembargadores e membros do MP, 24 pessoas togadas (24 brancos, sendo 22 homens e 02 mulheres) eram constantemente servidas de café e água por 04 pessoas (04 mulheres, sendo 02 brancas, 01 negra e 01 parda).

*Sonho com o dia em que todos os Poderes e órgãos públicos abolirão o uso de CRIADAGEM e determinarão que seus membros sirvam o próprio cafezinho.

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pílulas de absurdol #005

Durante o café, o cara posta uma crítica veemente ao regime comunista que os petralhas estão implantando no Brasil. No fim da manhã, exige apoio financeiro do governo e flexibilização das leis trabalhistas como única forma de evitar a demissão de metade dos seus funcionários ~devido à crise~. À tarde, manda a secretária cancelar os compromissos e sai pra comprar um Audi novo.

http://mecanicaonline.com.br/wordpress/2015/07/09/audi-do-brasil-tem-melhor-primeiro-semestre-da-historia-da-marca-no-pais/

pílulas de absurdol #004

Duas notícias que estão umbilicalmente ligadas: o dinheiro que sobra pra quem tem demais é O MESMO que falta pra quem tem menos.

1) Lucro do Bradesco cresce e chega a R$ 4,47 bilhões no 2º trimestre
http://g1.globo.com/…/lucro-do-bradesco-cresce-e-chega-r-44…

2) Governo corta mais R$ 1 bi da educação e quase R$ 2 bi da saúde
http://m.economia.estadao.com.br/…/geral,governo-anuncia-co…

Nesse ritmo, Dilma vai virar presidente de honra do PSDB.

pílulas de absurdol #001

Esquete de programa humorístico da vida real na Assembleia Legislativa do RS: impedido de ingressar no plenário com uma maçã inteira e ensacada, o sujeito (eu) a deixa numa gaveta vigiada pela segurança da casa. Ao sair e pedir a fruta de volta, descobre que foi roubada.

Os homi são ligero.

o racismo em mim

Estou acostumado a ver o debate do racismo perpassar minha timeline como uma competição de dedos apontados para racistas que são sempre o Outro. Tanto que, a julgar pela amostra representada por meus contatos do Facebook e do Twitter, a impressão que fica é a de que não há, no Brasil, um único racista. Todos ou consideram o racismo abominável ou se gabam de ter amigos negros. Vivemos num país racista que não tem cidadãos racistas, veja só.

Eu olhei para o espelho das minhas memórias e não gostei nada do que vi. Vi o meu próprio reflexo e enxerguei um racista. O racismo não é exclusividade dos outros; já foi parte importante de mim.

Cresci jogando bola no campinho do Mário Galego, na Coxilha Verde, loteamento no distrito de Conceição, interior de São Sebastião do Caí-RS. No gramado irregular e cheio de rosetas e eivas de chão batido, que ficava a poucos metros da casa dos meus avós maternos, eu jogava com alguns primos e, sobretudo, com filhos dos vizinhos do vô e da vó.

Nem sempre tinha gente suficiente pra fechar dois times (considerávamos um desperdício de tempo e de energia iniciar uma partida antes que houvesse, no mínimo, uns três jogadores pra cada lado), por isso os primeiros que chegavam ao campinho ficavam jogando um três-dentro-três-fora até que os outros aparecessem.

Via de regra, nossos amigos negros Julinho e Alexandre, que faziam parte do clã familiar conhecido em toda a Conceição como “Os Nêgo do Niquinho”, e, às vezes, o Juliano, filho adotivo da Dona Iolanda, jogavam conosco. Quando eles chegavam, caminhando pela trilha entre maricás que levava da rua ao campo, era comum que fossem recebidos por nós com frases como “Preteou!” ou “Ih, vai chover…” (se algum desavisado perguntasse por que fazíamos a previsão meteorológica, respondíamos: “Porque o tempo tá escurecendo praquele lado”).

Alexandre e Julinho, sobretudo, eram da nossa turma. Estudavam na nossa escola, faziam catequese conosco na igreja, crescemos brincando e confraternizando com eles.

Mas isso não nos impedia de gritar “Caga, nêgo!” quando um deles estava no gol e era vazado por um de nossos chutes certeiros. Ou de dizer: “Fez a negrice!” quando um deles cometia um erro. Ou de gritar: “Olha lá! Uma camiseta correndo sozinha!” quando o jogo continuava noite adentro e o Julinho, vestindo camiseta clara, corria com a bola no pé. Ou de repetir dezenas de vezes, na presença deles, piadas do tipo “Sabe por que Deus fez o mundo redondo? Pros negros não cagarem nos cantos”.

Não lembro de ter ouvido o Julinho e o Alexandre gritarem “Caga, branco!” ou “Fez a branquice!”. Nossos amigos negros costumavam ouvir nossa torrente de racismo em silêncio, às vezes dando um sorriso amarelo. Acho que é disso que os racistas de hoje estão falando quando, cobrados publicamente por seu preconceito, dizem que “hoje o mundo anda muito chato” e “não se pode mais brincar”. Estão dizendo que antes ninguém se importava com esses gracejos, não se reclamava. Quando ouço (ou leio) um racista pego em flagrante dizer que “até tem amigos negros”, lembro do semblante do Julinho e do Alexandre quando lhes dizíamos que eles não tinham cagado na entrada, mas certamente cagariam na saída. Eu “até tinha amigos negros”, mas era um amigo muito cretino. Ou, talvez, não fosse amigo deles em absoluto.

Eu era um racista de merda, isso sim. Era uma criança e, depois, um adolescente que reproduzia o racismo que absorvia dos mais velhos. Repetia essas piadas racistas em busca de aceitação e para afirmar uma segregação que todo mundo fingia não existir, mas existia. Nossos amigos negros eram tratados pela maioria de nós com condescendência e cinismo. Éramos todos quase igualmente pobres, mas é claro que havia, na Conceição, uma linha divisória invisível, desenhando em preto e branco a hierarquia das gentes. Não lembro de ter ouvido o Julinho ou o Alexandre se pronunciarem sobre isso, mas nunca esqueci do que disse uma pré-adolescente negra (cujo nome me escapou da memória) que uma amiga da minha mãe pretendia adotar e acabou não adotando: “Eu queria que todo mundo fosse branco”. Era assim que uma negra da minha terra se sentia quanto a sua condição. Quanto desse sentimento se devia ao comportamento dos seus “amigos” brancos? Era esse o resultado das nossas piadas e frases ditas “na brincadeira”, “sem maldade”.

Saí da Conceição aos 14 anos, deixei de conviver com a turminha que jogava bola no campo do Mário Galego, morei em muitos lugares e, hoje, olho para trás e me envergonho de mim mesmo e de todos os atos de racismo que cometi. Não sei por onde andam e o que têm feito os meus amigos negros de infância. Soube que Seu Niquinho, o patriarca, morreu, octogenário. Não sei como seus filhos, netos e bisnetos reagem, hoje, às palavras racistas que certamente continuam ouvindo. Espero que ouçam cada vez menos piadas racistas como as que repeti tantas vezes.

Espero que lá, na Coxilha Verde, o mundo também esteja ficando cada vez mais chato, como aqui,  e que piadas racistas sejam cada vez menos aceitas – que gerem indignação em vez de riso amarelo. Espero que os meus parceiros de gracejos tenham amadurecido e percebido o horror dos seus próprios atos. Espero que os negros que moram lá tenham, hoje, amigos brancos que sejam amigos de verdade.

eu politico, tu politicas, ele politica

O baixo clero aclama o seu papa
O baixo clero aclama o seu papa

Eis que abro o site do Estadão nesta quarta-feira e a manchete é uma declaração do presidente da Câmara dos Deputados (apenas o cara que assume a Presidência da República na ausência da presidente e do vice), Eduardo Cunha (PMDB-RJ): “Espero que não sejam investigações de natureza política“.

Cunha manifestou essa esperança porque teria sido citado pelo procurador-geral da República como um dos parlamentares que levaram grana de empreiteiras investigadas na Operação Lava Jato. A pergunta que a repórter do Estadão Irany Tereza poderia ter feito ao parlamentar e não fez (ou fez e seus editores cortaram, o que é bem improvável) é: “Mas, deputado, o que não é de natureza política nessa história?” Afinal, trata-se de um político sendo acusado por políticos de ter sido financiado por grupos econômicos com interesses políticos para conquistar seu cargo político em uma instituição política por excelência.

Temos, na média, uma acepção bem limitada de política. Nas reuniões sociais e festas de família, existe meio que um acordo tácito, para evitar atritos: “Religião e política não se discutem”. Quando alguém, em algum grupo da sociedade civil, expõe sua eventual militância partidária, é imediatamente acusado de “ter interesse político”. A imprensa e o empresariado costumam usar o adjetivo “político”/”política” de forma pejorativa: “O anúncio é de cunho político“, “Fulano é uma indicação política para o secretariado” etc – dando a entender que é possível que algum secretário ou ministro não seja uma indicação política. Ao depreciativo “político”, esses grupos costumam contrapor o laudativo “técnico“. O sonho de muita gente é um “governo técnico” e não político – o que evidencia que há uma má compreensão (proposital, às vezes) da própria ideia de política.

Mas o que é política? Podemos dizer, com pouca chance de erro, que para a opinião pública não existe política fora do campo da militância partidária. A ideia disseminada e infinitamente repetida de que só os partidos fazem política é tão forte que atores importantíssimos do jogo político, como os grandes grupos econômicos e a imprensa, conseguiram se colocar à margem disso tudo aos olhos da sociedade. Assim, operadores político-partidários são demonizados pela opinião pública (e são bem pagos pelo Estado e pelos seus financiadores privados justamente para arcar com esse peso) e os grupos que efetivamente dão as cartas (os donos do dinheiro e da máquina de propaganda) continuam exercendo aquilo que sempre tiveram: o poder (econômico, político, simbólico etc).

Gosto bastante da definição de que a política é a disputa pelo poder em uma sociedade. É a tensão entre vontades e interesses de grupos específicos. Li, certa vez, que “se todos pudessem ter o que quisessem na hora em que quisessem, não haveria política”. A política, então, é a disputa pelo poder de definir quais interesses serão atendidos – e quando e como isso acontecerá. Assim, ninguém está fora da política.

Os partidos e candidatos que disputam o poder institucional fazem política. Os eleitores que votam neles ou que defendem suas propostas na fila do banco fazem política. Até quem decide não votar está fazendo política. Os empresários, fazendeiros, grupos financeiros e pessoas físicas que financiam as campanhas, colam um adesivo no peito ou compartilham uma notícia favorável a Fulano ou Beltrano nas redes sociais fazem política. Os jornais, ao definir o que será e o que não será publicado em TODAS as editorias, ao definir como será essa publicação e que espaço terá, fazem política, na medida em que essa publicação influenciará (e sempre influencia) o equilíbrio de forças na disputa pelo poder.

Por isso o Estadão e outros veículos de imprensa (bem como os grupos econômicos que atuam com tanta veemência nas coxias do teatro político e muito raramente são vistos ou ouvidos pela plateia) não se sentem nem um pouco desconfortáveis com a declaração de Cunha sobre a suposta “natureza política” (em oposição a outras naturezas mais nobres) da investigação da Operação Lava Jato. Os principais jogadores da disputa pelo poder (e justamente os que dominam o jogo) não têm sequer o nome na lista de jogadores. Eles fazem política sem dizê-lo e é esse um dos segredos do seu sucesso.

nem todos são (chamados de) macacos

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[postado originalmente em 29 de abril de 2014, num blogue que deixou de existir]

Aplaudi, no domingo, o belo gesto antropofágico do lateral Daniel Alves, que, ao ver no gramado uma banana arremessada com intenção de petardo por um torcedor racista, descascou e comeu a fruta do preconceito – e com ela digeriu, simbolicamente, o próprio agressor. O que não mata engorda.

Muita gente também aplaudiu a altivez e ironia de Dani, principalmente nas redes sociais. E começou, no ritmo acelerado e irrefletido do novo tempo que nos regula, uma campanha de apoio ao jogador, comandada, ao que tudo indica, por Neymar (depois se descobriu que tinha uma agência de propaganda orquestrando o viral bem sucedido). Uma galeeeeeera postou nas timelines fotos, geralmente no estilo selfie, em que os neo-Luther Kings apareciam segurando uma banana semidescascada. As imagens eram acompanhadas da hashtag #somostodosmacacos, com o que tentavam dizer que todos nós, negros, brancos, pardos, índios, asiáticos, mestiços e, claro, as várias espécies de macacos, estamos no mesmo barco de Dani Alves.

Luciano Huck, esse antenado empreendedor do bom-mocismo, também postou uma foto e, rapidinho, tratou de lançar um modelo de camiseta inspirado na campanha, que oferece por R$ 69 na loja da sua grife.

Seria uma acachapante goleada, um vareio aplicado sobre o preconceito, não fosse essa campanha inteira meramente cosmética, mais um produto altamente vendável da indústria do cool. Os brancos e os negros não são iguais. E Luciano Huck sabe disso.

Há vários níveis de igualdade. Claro que todos temos (ou deveríamos ter) a mesma dignidade, mas, no que diz respeito às condições materiais, chances na vida e enfrentamento com o preconceito, só alguns de nós são macacos.

Quantos negros as celebridades brancas que comeram banana para a foto costumam encontrar fazendo compras nas suas lojas de carros importados favoritas? Quantos deles levam os filhos a pediatras negros? Quantos deles já ouviram falar de um médico negro nascido e formado no Brasil?

No sentido oposto, qual é o percentual de negros na população carcerária? Qual é o percentual de negros entre as pessoas assassinadas pela polícia? Qual é o percentual de negros entre os faxineiros? Se somos todos iguais, como diz a campanha cool da banana, por que raios mais negros entram no crime ou “optam” (como dizem os liberais) por profissões subalternas? Isso é natural?

Claro que a última pergunta foi retórica. Essa desigualdade não é natural; é historicamente imposta. E não será resolvida com selfies frutíferos acompanhados de hashtags duvidosas – até porque o racismo não se resume a jogar bananas em jogadores de futebol. E não basta não ofender os negros para não ser considerado racista.

Apoiar um sistema político, econômico e sociocultural que mantém os negros nas classes menos favorecidas também é racismo. Votar em candidatos contrários a políticas de ação afirmativa e de resgate da dignidade dos negros (e de outras etnias menos empoderadas, claro) também é racismo. Apoiar o status militarizado de uma polícia que mata negros (e que considera matar pessoas de qualquer etnia um modo de operação aceitável) também é racismo.

Nesse sentido, negar a diferença é prejudicial aos que já são desfavorecidos por essa diferença. É preciso que essa diferença seja escancarada e evidenciada. É preciso que a desigualdade nos cause desconforto – para que a enfrentemos nos contextos em que se revela mais perversa. Quando for normal que Luciano Huck encontre negros almoçando na mesa ao lado no seu restaurante favorito, aí sim poderemos dizer que somos iguais.

Tudo mais é perfumaria e postagem caça-like – o que inclui este texto.

golpe de 64: vamos falar de economia?

[publicado originalmente em 31 de março de 2013, num blogue que deixou de existir]

Hoje é aniversário do golpe de Estado que em 1964 derrubou um governo democraticamente eleito e instaurou uma ditadura civil-militar de mais de 20 anos.

Simpatizantes do golpe sempre o defendem pelo prisma econômico: falam com orgulho do “milagre brasileiro”, do “Brasil-oitava-economia-do-mundo”, da consolidação do parque industrial, da defesa ~nacionalista~ da produção nacional, etc. Inquiridos sobre a violência do regime, os seus defensores ou dizem que foram abusos isolados ou justificam as ações dizendo que foram necessárias devido à “ameaça do comunismo”.

Opositores do golpe sempre o criticam pelo prisma da repressão: falam da censura, das prisões, do AI-5, de tortura e assassinatos de opositores, de infiltrados do Dops nos grupos estudantis e movimentos sociais, etc. Quase nada costuma ser dito sobre a economia. É como se até os críticos da ditadura concordassem que o regime foi um sucesso econômico.

Já eu critico a ditadura civil-militar tanto pela repressão quanto pela economia.

Do ponto de vista da distribuição de renda, o Estado brasileiro foi, de 1964 a 1985 (e depois por mais alguns anos), um verdadeiro Nibor Dooh (expressão de Fausto Wolff): um Robin Hood ao contrário, que tirava dos pobres para dar aos ricos. O Banco do Brasil (via conta-movimento) e os bancos estaduais eram verdadeiros sacos sem fundo, jazidas inexauríveis de recursos para latifundiários e usineiros. Mais tarde, quando surgiram planos anti-inflação nos anos 80 (nos governos Sarney e Collor), os pacotes sempre resultaram numa explosão do consumo de carne e até de produtos como absorventes íntimos pelas classes mais baixas, o que evidencia que na época do “milagre” tais produtos não faziam parte da cesta básica de milhões de pessoas. O milagre era para poucos ungidos.

Do ponto de vista do nacionalismo, a política econômica do governo civil-militar era risível. Que nacionalismo é esse que consistia numa sujeição servil aos interesses econômicos norte-americanos? Mesmo no campo interno, as diversas estatais serviam basicamente para fornecer (às custas de prejuízos deliberados) matéria-prima ridiculamente barata às multinacionais da indústria, engordando os dividendos de matrizes instaladas bem longe da Mãe Gentil. E a repressão dos movimentos operários também impedia uma negociação salarial vantajosa para os trabalhadores.

Por fim, do ponto de vista da concorrência e do desenvolvimento da economia, o fechamento das fronteiras de consumo com as famigeradas “reservas de mercado” levou o país a um atraso tecnológico de décadas. Como escreveu o Verissimo, era mais fácil entrar no Brasil com cocaína do que com um computador. O resultado não foi o desenvolvimento sadio da indústria nacional, mas um déficit que demoramos anos para recuperar, após a abertura do mercado nos anos 90.

E eu não mencionei as obras faraônicas que contribuíram para engordar o endividamento externo e nem que o regime jogou o país num buraco negro inflacionário do qual só saímos depois de uma “década perdida”.

Resta algo a defender do Golpe?

o verdadeiro motivo dos protestos

[publicado originalmente em 15 de junho de 2013, num blogue que deixou de existir]

No fundo, as questões sobre as manifestações contra os gastos excessivos da Copa do Mundo, contra o aumento das tarifas do transporte público, contra a privatização de espaços públicos, as questões sobre o estabelecimento de cotas sociais/raciais nas universidades, os debates sobre as políticas de inclusão social e de transferência de renda podem ser resumidos a uma única pergunta:

– Qual a sua posição sobre a desigualdade social?

Porque é precisamente disso que se trata tudo isso. O Brasil é permeado pela desigualdade social e a raiz de quase todos os nossos problemas como nação está no fato de que fomos, desde o início, lá em 1500, erigindo o nosso país e a nossa sociedade usando como alicerce, como tijolos e como cimento a desigualdade social.

Desde que éramos uma colônia, ficou bem claro que as abundantes riquezas desta terra seriam destinadas a poucos. Primeiro, o território foi dividido entre poucos donos portugueses. As riquezas iam para poucos cofres europeus e os trabalhadores que se faziam necessários – fossem escravos africanos, fossem escravos índios, fossem pequenos profissionais d’além mar aqui estabelecidos – ficavam com o mínimo para garantir sua subsistência.

Os donos da terra mandavam seus filhos estudarem em universidades europeias e assim se inaugurou outra dimensão da nossa desigualdade endêmica: o bacharelismo, o culto ao ‘dotô’, a ideia de que a alta instrução é um privilégio e uma espécie de título de nobreza que dá acesso a um quinhão da riqueza aqui produzida – o que acaba deixando tudo em família, pois o ‘dotô’ veio do mesmo clã que recebeu, por direito divino, a chave do cofre da nação.

Como eram todos muito próximos, todos aparentados, os donos do poder de então (nobres-políticos, militares de alta patente, ‘dotores’ e clérigos), era-lhes muito fácil negociar e ajeitar tudo para garantir os seus interesses. Surgiu assim a nossa cultura de negociata, de clientelismo, de “eu falo com o Fulano e ele resolve pra mim”, de burlar as regras para favorecer os amigos.

Quinhentos anos depois, a situação se mantém quase a mesma. Os governantes, os donos dos meios de produção que financiam as campanhas eleitorais dos governantes, os intelectuais que pensam a nação, os promotores que acusam, os advogados que defendem, os juízes que julgam, os altos funcionários públicos que comandam o funcionamento da máquina estatal vêm quase sempre da mesma casta. Não por acaso, exatamente a casta que administrava as capitanias hereditárias no Brasil-colônia. Com algumas exceções, são quase todos brancos de classes abastadas, filhos de brancos de classes abastadas. E todos eles ajeitam tudo que for necessário para favorecer os amigos.

O dono da empresa de ônibus que recebe a concessão do Estado e presta um serviço de má qualidade, o governante que assina a concessão e depois faz vista grossa ao serviço porco e o dono da empresa de comunicação que condena quem protesta contra essa patifaria são todos oriundos da mesma classe social.

O aumento da tarifa dos ônibus a despeito do serviço de má qualidade, o superfaturamento das obras da Copa, as políticas em prol do modelo rodoviário-petroleiro, os atentados contra os direitos dos trabalhadores, o abocanhamento pelos empresários da isenção de impostos que deveria ser repassada para o consumidor via redução de preços, os discursos contra políticas de inclusão social são todos parte de um único movimento: a tentativa dos donos do país de evitar que mais gente tenha acesso ao dinheiro, ao poder e aos títulos de ‘dotô’. E esse movimento envolve o uso da força.

Os escravos não obedeciam aos senhores por conta própria. Eram domesticados pela chibata. A força sempre foi usada para manter a ordem nas senzalas e nas ruas brasileiras. Tanto a força física, dos canhões e mosquetes e fuzis e cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo, quanto a força econômica, simbólica e institucional: do discurso legitimador da mídia e dos ‘dotores’, do cerceamento dos sindicatos pelo mesmo Getúlio Vargas que fez algumas (importantes) concessões aos trabalhadores, a força do entorpecimento das massas por uma educação sucateada e pelo lixo televisivo.

A força da tropa de choque que bate em manifestantes e a força das mídias que deslegitimam as causas desses manifestantes se coadunam e retroalimentam. Eventualmente, parte da mídia pode ver que a maré da opinião pública está virando e passar a condenar, pontualmente, alguns excessos da repressão policial. Mas a defesa do que constitui o cerne da questão (a sua tentativa de manter as riquezas do país nas mãos de poucos) continuará permeando seu discurso.

As manifestações que ajudaram a derrubar o aumento do preço da passagem em Porto Alegre e as que vêm ocorrendo pelo Brasil afora mostram que estamos num grande momento: primeiro, há a canalização da indignação em forma de protesto; segundo, há um meio (a internet) de disseminação do discurso contestador.

Tomando como exemplo a manifestação de 13/06/2013 em São Paulo, que acompanhei em tempo real pelas redes sociais, fica evidente que o poder legitimador da mídia tradicional está abalado. Em poucas horas, as timelines foram inundadas por centenas de relatos, fotos, vídeos e comentários que mostravam claramente o que estava acontecendo naquelas ruas. Ninguém precisava ligar a TV para saber. Na manhã seguinte, quando os jornais impressos foram às bancas, todo mundo (que use redes sociais) já estava sabendo o que tinha acontecido. A mídia tradicional ainda é muito poderosa, mas há uma ferramenta que pode ser usada para contrapor esse domínio e disseminar um outro discurso, uma outra visão, ou outros discursos e outras visões.
As políticas de inclusão social e de ação afirmativa estão ajudando, paulatinamente, a redistribuir riqueza e acesso ao consumo, à cultura, à instrução. Mais gente está ganhando a sua parte. Os que perdem com isso são os que estavam acostumados a ficar com tudo. Eles não pretendem dividir o bolo sem luta, por isso a importância de vermos claramente que a redução da tarifa de ônibus é uma causa que se liga a diversas outras causas que no fundo são partes de uma única grande causa: a necessidade de acabarmos com a desigualdade.

A desigualdade permeia o Brasil. A corrupção, o caos na educação e na saúde, os problemas estruturais são reflexo desse abismo social. Qual a sua posição em relação a isso? De que lado você está?

P.S.: Sempre aparece alguém pra tentar desmerecer o movimento dizendo que os manifestantes que vão às ruas são apenas jovens de classe média e de classe alta, são filhinhos de papai, são playboys que não pegam ônibus, etc. O que posso dizer é: a causa é justa, a causa é plural, a causa é de todos. ‘Playboy’ que enfrenta a tropa de choque pra defender o fim da desigualdade tem lugar no meu time.

em defesa do dedo no olho

[publicado originalmente em 28 de março de 2013, num blogue que deixou de existir]

E o debate sobre o protesto contra o aumento da passagem que acabou em pancadaria em frente à prefeitura de Porto Alegre enveredou para a discussão da legitimidade da violência física — com uma pitada de crítica à suposta partidarização da manifestação.

É o velho argumento do “não vale dedo no olho”. Para o senso comum, não importa a intenção do movimento: se partiu para as vias de fato, “perdeu a razão”. Se tem bandeira de partido no meio, “perdeu a razão”. Se disse palavrão, “perdeu a razão”. Se bloqueou a rua e me fez esperar uma hora a mais para chegar em casa, “perdeu a razão”. O importante é achar o atalho mais curto para desqualificar os manifestantes e jogá-los no lixo junto com a sua causa.

Resume-se todo o conceito de “violência” à violência física. Ignorando que existe violência simbólica, violência econômica, violência institucional, condena-se, nesse cenário de várias violências, apenas a única forma de violência com que os violentados pelo sistema podem revidar — e alguns leitores dirão que eu, aqui, “perdi a razão” ao usar a expressão “violentados pelo sistema”, um clássico chavão da esquerdalha.

Outro argumento muito repetido ontem foi: “isso não vai baixar o valor da passagem”. É bem provável que realmente não baixe. Mas ficar em silêncio também não baixa, erguer faixa de protesto também não baixa, reclamar nas redes sociais também não baixa. Ontem mesmo, passando de ônibus pela Avenida Protásio Alves, li a seguinte frase pichada em um prédio: “2,70 é roubo!”. Uma pichação contra o aumento de dois anos atrás! Todo ano tem protesto e os aumentos seguem sem justificativa, o Conselho Municipal de Transporte segue funcionando alegremente a despeito de sua representatividade não corresponder à real configuração social de Porto Alegre, o transporte público da cidade continua funcionando sem licitação, as empresas continuam prestando um serviço de qualidade inversamente proporcional ao aumento da tarifa. Então, o que fazer para reverter esse ciclo de VIOLÊNCIA contra o cidadão?

Ninguém em sã consciência espera que a saída seja indolor. Os manifestantes que bloqueiam uma avenida não querem que as pessoas gostem de ficar paradas no trânsito. O objetivo é justamente causar desconforto. Eu também não gosto de ficar trancado no trânsito. Mas, quando isso acontece, a minha raiva não se volta contra os manifestantes, e sim contra os responsáveis pela violência originária que motivou o protesto: seja uma negociação salarial desfavorável aos trabalhadores, seja um aumento de R$ 0,20 no valor de uma passagem que deveria BAIXAR em vez de subir, segundo os cálculos atualizados.

Mas vivemos uma era de individualismo e fatalismo. Um tempo em que quem interfere no meu direito de chegar cedo em casa “perde a razão”, qualquer que seja a sua reivindicação. Um tempo em que ninguém se importa com a privatização ou a degeneração dos espaços públicos, pois, afinal, pra que espaço público se ninguém quer encontrar o Outro na rua e conviver com ele?

Nessa era de individualismo e fatalismo, quem se levanta contra a violência simbólica e econômica “perde a razão”, torna-se o vilão. Esquecemos a História. Esquecemos que muitos dos hoje heróis foram considerados arruaceiros em seu próprio tempo. Não sei o que acontecerá quando a nossa própria era for colocada em perspectiva pelos pósteros. Espero que não entremos para a história como “aqueles bundões do século 21”.

P.S. 1: Ontem, durante as altercações, vi, no Twitter, várias manifestações dizendo que “quebraram tudo e a Brigada Militar não fez nada”. O que queriam que a Brigada fizesse? Entre ver quebrados vidros da prefeitura e cabeças de jovens manifestantes, prefiro que se quebrem os vidros.

P.S. 2: Não estou defendendo agressão física de pessoas. Sou, apesar de tudo, um pacifista e condeno que se espanque, se torture ou se assassine qualquer pessoa, independente do lado em que ela está. Li, via Twitter, que um repórter apanhou. Se isso deveras aconteceu, foi um erro que não consigo defender.