o racismo em mim

Estou acostumado a ver o debate do racismo perpassar minha timeline como uma competição de dedos apontados para racistas que são sempre o Outro. Tanto que, a julgar pela amostra representada por meus contatos do Facebook e do Twitter, a impressão que fica é a de que não há, no Brasil, um único racista. Todos ou consideram o racismo abominável ou se gabam de ter amigos negros. Vivemos num país racista que não tem cidadãos racistas, veja só.

Eu olhei para o espelho das minhas memórias e não gostei nada do que vi. Vi o meu próprio reflexo e enxerguei um racista. O racismo não é exclusividade dos outros; já foi parte importante de mim.

Cresci jogando bola no campinho do Mário Galego, na Coxilha Verde, loteamento no distrito de Conceição, interior de São Sebastião do Caí-RS. No gramado irregular e cheio de rosetas e eivas de chão batido, que ficava a poucos metros da casa dos meus avós maternos, eu jogava com alguns primos e, sobretudo, com filhos dos vizinhos do vô e da vó.

Nem sempre tinha gente suficiente pra fechar dois times (considerávamos um desperdício de tempo e de energia iniciar uma partida antes que houvesse, no mínimo, uns três jogadores pra cada lado), por isso os primeiros que chegavam ao campinho ficavam jogando um três-dentro-três-fora até que os outros aparecessem.

Via de regra, nossos amigos negros Julinho e Alexandre, que faziam parte do clã familiar conhecido em toda a Conceição como “Os Nêgo do Niquinho”, e, às vezes, o Juliano, filho adotivo da Dona Iolanda, jogavam conosco. Quando eles chegavam, caminhando pela trilha entre maricás que levava da rua ao campo, era comum que fossem recebidos por nós com frases como “Preteou!” ou “Ih, vai chover…” (se algum desavisado perguntasse por que fazíamos a previsão meteorológica, respondíamos: “Porque o tempo tá escurecendo praquele lado”).

Alexandre e Julinho, sobretudo, eram da nossa turma. Estudavam na nossa escola, faziam catequese conosco na igreja, crescemos brincando e confraternizando com eles.

Mas isso não nos impedia de gritar “Caga, nêgo!” quando um deles estava no gol e era vazado por um de nossos chutes certeiros. Ou de dizer: “Fez a negrice!” quando um deles cometia um erro. Ou de gritar: “Olha lá! Uma camiseta correndo sozinha!” quando o jogo continuava noite adentro e o Julinho, vestindo camiseta clara, corria com a bola no pé. Ou de repetir dezenas de vezes, na presença deles, piadas do tipo “Sabe por que Deus fez o mundo redondo? Pros negros não cagarem nos cantos”.

Não lembro de ter ouvido o Julinho e o Alexandre gritarem “Caga, branco!” ou “Fez a branquice!”. Nossos amigos negros costumavam ouvir nossa torrente de racismo em silêncio, às vezes dando um sorriso amarelo. Acho que é disso que os racistas de hoje estão falando quando, cobrados publicamente por seu preconceito, dizem que “hoje o mundo anda muito chato” e “não se pode mais brincar”. Estão dizendo que antes ninguém se importava com esses gracejos, não se reclamava. Quando ouço (ou leio) um racista pego em flagrante dizer que “até tem amigos negros”, lembro do semblante do Julinho e do Alexandre quando lhes dizíamos que eles não tinham cagado na entrada, mas certamente cagariam na saída. Eu “até tinha amigos negros”, mas era um amigo muito cretino. Ou, talvez, não fosse amigo deles em absoluto.

Eu era um racista de merda, isso sim. Era uma criança e, depois, um adolescente que reproduzia o racismo que absorvia dos mais velhos. Repetia essas piadas racistas em busca de aceitação e para afirmar uma segregação que todo mundo fingia não existir, mas existia. Nossos amigos negros eram tratados pela maioria de nós com condescendência e cinismo. Éramos todos quase igualmente pobres, mas é claro que havia, na Conceição, uma linha divisória invisível, desenhando em preto e branco a hierarquia das gentes. Não lembro de ter ouvido o Julinho ou o Alexandre se pronunciarem sobre isso, mas nunca esqueci do que disse uma pré-adolescente negra (cujo nome me escapou da memória) que uma amiga da minha mãe pretendia adotar e acabou não adotando: “Eu queria que todo mundo fosse branco”. Era assim que uma negra da minha terra se sentia quanto a sua condição. Quanto desse sentimento se devia ao comportamento dos seus “amigos” brancos? Era esse o resultado das nossas piadas e frases ditas “na brincadeira”, “sem maldade”.

Saí da Conceição aos 14 anos, deixei de conviver com a turminha que jogava bola no campo do Mário Galego, morei em muitos lugares e, hoje, olho para trás e me envergonho de mim mesmo e de todos os atos de racismo que cometi. Não sei por onde andam e o que têm feito os meus amigos negros de infância. Soube que Seu Niquinho, o patriarca, morreu, octogenário. Não sei como seus filhos, netos e bisnetos reagem, hoje, às palavras racistas que certamente continuam ouvindo. Espero que ouçam cada vez menos piadas racistas como as que repeti tantas vezes.

Espero que lá, na Coxilha Verde, o mundo também esteja ficando cada vez mais chato, como aqui,  e que piadas racistas sejam cada vez menos aceitas – que gerem indignação em vez de riso amarelo. Espero que os meus parceiros de gracejos tenham amadurecido e percebido o horror dos seus próprios atos. Espero que os negros que moram lá tenham, hoje, amigos brancos que sejam amigos de verdade.

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