o verdadeiro motivo dos protestos

[publicado originalmente em 15 de junho de 2013, num blogue que deixou de existir]

No fundo, as questões sobre as manifestações contra os gastos excessivos da Copa do Mundo, contra o aumento das tarifas do transporte público, contra a privatização de espaços públicos, as questões sobre o estabelecimento de cotas sociais/raciais nas universidades, os debates sobre as políticas de inclusão social e de transferência de renda podem ser resumidos a uma única pergunta:

– Qual a sua posição sobre a desigualdade social?

Porque é precisamente disso que se trata tudo isso. O Brasil é permeado pela desigualdade social e a raiz de quase todos os nossos problemas como nação está no fato de que fomos, desde o início, lá em 1500, erigindo o nosso país e a nossa sociedade usando como alicerce, como tijolos e como cimento a desigualdade social.

Desde que éramos uma colônia, ficou bem claro que as abundantes riquezas desta terra seriam destinadas a poucos. Primeiro, o território foi dividido entre poucos donos portugueses. As riquezas iam para poucos cofres europeus e os trabalhadores que se faziam necessários – fossem escravos africanos, fossem escravos índios, fossem pequenos profissionais d’além mar aqui estabelecidos – ficavam com o mínimo para garantir sua subsistência.

Os donos da terra mandavam seus filhos estudarem em universidades europeias e assim se inaugurou outra dimensão da nossa desigualdade endêmica: o bacharelismo, o culto ao ‘dotô’, a ideia de que a alta instrução é um privilégio e uma espécie de título de nobreza que dá acesso a um quinhão da riqueza aqui produzida – o que acaba deixando tudo em família, pois o ‘dotô’ veio do mesmo clã que recebeu, por direito divino, a chave do cofre da nação.

Como eram todos muito próximos, todos aparentados, os donos do poder de então (nobres-políticos, militares de alta patente, ‘dotores’ e clérigos), era-lhes muito fácil negociar e ajeitar tudo para garantir os seus interesses. Surgiu assim a nossa cultura de negociata, de clientelismo, de “eu falo com o Fulano e ele resolve pra mim”, de burlar as regras para favorecer os amigos.

Quinhentos anos depois, a situação se mantém quase a mesma. Os governantes, os donos dos meios de produção que financiam as campanhas eleitorais dos governantes, os intelectuais que pensam a nação, os promotores que acusam, os advogados que defendem, os juízes que julgam, os altos funcionários públicos que comandam o funcionamento da máquina estatal vêm quase sempre da mesma casta. Não por acaso, exatamente a casta que administrava as capitanias hereditárias no Brasil-colônia. Com algumas exceções, são quase todos brancos de classes abastadas, filhos de brancos de classes abastadas. E todos eles ajeitam tudo que for necessário para favorecer os amigos.

O dono da empresa de ônibus que recebe a concessão do Estado e presta um serviço de má qualidade, o governante que assina a concessão e depois faz vista grossa ao serviço porco e o dono da empresa de comunicação que condena quem protesta contra essa patifaria são todos oriundos da mesma classe social.

O aumento da tarifa dos ônibus a despeito do serviço de má qualidade, o superfaturamento das obras da Copa, as políticas em prol do modelo rodoviário-petroleiro, os atentados contra os direitos dos trabalhadores, o abocanhamento pelos empresários da isenção de impostos que deveria ser repassada para o consumidor via redução de preços, os discursos contra políticas de inclusão social são todos parte de um único movimento: a tentativa dos donos do país de evitar que mais gente tenha acesso ao dinheiro, ao poder e aos títulos de ‘dotô’. E esse movimento envolve o uso da força.

Os escravos não obedeciam aos senhores por conta própria. Eram domesticados pela chibata. A força sempre foi usada para manter a ordem nas senzalas e nas ruas brasileiras. Tanto a força física, dos canhões e mosquetes e fuzis e cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo, quanto a força econômica, simbólica e institucional: do discurso legitimador da mídia e dos ‘dotores’, do cerceamento dos sindicatos pelo mesmo Getúlio Vargas que fez algumas (importantes) concessões aos trabalhadores, a força do entorpecimento das massas por uma educação sucateada e pelo lixo televisivo.

A força da tropa de choque que bate em manifestantes e a força das mídias que deslegitimam as causas desses manifestantes se coadunam e retroalimentam. Eventualmente, parte da mídia pode ver que a maré da opinião pública está virando e passar a condenar, pontualmente, alguns excessos da repressão policial. Mas a defesa do que constitui o cerne da questão (a sua tentativa de manter as riquezas do país nas mãos de poucos) continuará permeando seu discurso.

As manifestações que ajudaram a derrubar o aumento do preço da passagem em Porto Alegre e as que vêm ocorrendo pelo Brasil afora mostram que estamos num grande momento: primeiro, há a canalização da indignação em forma de protesto; segundo, há um meio (a internet) de disseminação do discurso contestador.

Tomando como exemplo a manifestação de 13/06/2013 em São Paulo, que acompanhei em tempo real pelas redes sociais, fica evidente que o poder legitimador da mídia tradicional está abalado. Em poucas horas, as timelines foram inundadas por centenas de relatos, fotos, vídeos e comentários que mostravam claramente o que estava acontecendo naquelas ruas. Ninguém precisava ligar a TV para saber. Na manhã seguinte, quando os jornais impressos foram às bancas, todo mundo (que use redes sociais) já estava sabendo o que tinha acontecido. A mídia tradicional ainda é muito poderosa, mas há uma ferramenta que pode ser usada para contrapor esse domínio e disseminar um outro discurso, uma outra visão, ou outros discursos e outras visões.
As políticas de inclusão social e de ação afirmativa estão ajudando, paulatinamente, a redistribuir riqueza e acesso ao consumo, à cultura, à instrução. Mais gente está ganhando a sua parte. Os que perdem com isso são os que estavam acostumados a ficar com tudo. Eles não pretendem dividir o bolo sem luta, por isso a importância de vermos claramente que a redução da tarifa de ônibus é uma causa que se liga a diversas outras causas que no fundo são partes de uma única grande causa: a necessidade de acabarmos com a desigualdade.

A desigualdade permeia o Brasil. A corrupção, o caos na educação e na saúde, os problemas estruturais são reflexo desse abismo social. Qual a sua posição em relação a isso? De que lado você está?

P.S.: Sempre aparece alguém pra tentar desmerecer o movimento dizendo que os manifestantes que vão às ruas são apenas jovens de classe média e de classe alta, são filhinhos de papai, são playboys que não pegam ônibus, etc. O que posso dizer é: a causa é justa, a causa é plural, a causa é de todos. ‘Playboy’ que enfrenta a tropa de choque pra defender o fim da desigualdade tem lugar no meu time.

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