golpe de 64: vamos falar de economia?

[publicado originalmente em 31 de março de 2013, num blogue que deixou de existir]

Hoje é aniversário do golpe de Estado que em 1964 derrubou um governo democraticamente eleito e instaurou uma ditadura civil-militar de mais de 20 anos.

Simpatizantes do golpe sempre o defendem pelo prisma econômico: falam com orgulho do “milagre brasileiro”, do “Brasil-oitava-economia-do-mundo”, da consolidação do parque industrial, da defesa ~nacionalista~ da produção nacional, etc. Inquiridos sobre a violência do regime, os seus defensores ou dizem que foram abusos isolados ou justificam as ações dizendo que foram necessárias devido à “ameaça do comunismo”.

Opositores do golpe sempre o criticam pelo prisma da repressão: falam da censura, das prisões, do AI-5, de tortura e assassinatos de opositores, de infiltrados do Dops nos grupos estudantis e movimentos sociais, etc. Quase nada costuma ser dito sobre a economia. É como se até os críticos da ditadura concordassem que o regime foi um sucesso econômico.

Já eu critico a ditadura civil-militar tanto pela repressão quanto pela economia.

Do ponto de vista da distribuição de renda, o Estado brasileiro foi, de 1964 a 1985 (e depois por mais alguns anos), um verdadeiro Nibor Dooh (expressão de Fausto Wolff): um Robin Hood ao contrário, que tirava dos pobres para dar aos ricos. O Banco do Brasil (via conta-movimento) e os bancos estaduais eram verdadeiros sacos sem fundo, jazidas inexauríveis de recursos para latifundiários e usineiros. Mais tarde, quando surgiram planos anti-inflação nos anos 80 (nos governos Sarney e Collor), os pacotes sempre resultaram numa explosão do consumo de carne e até de produtos como absorventes íntimos pelas classes mais baixas, o que evidencia que na época do “milagre” tais produtos não faziam parte da cesta básica de milhões de pessoas. O milagre era para poucos ungidos.

Do ponto de vista do nacionalismo, a política econômica do governo civil-militar era risível. Que nacionalismo é esse que consistia numa sujeição servil aos interesses econômicos norte-americanos? Mesmo no campo interno, as diversas estatais serviam basicamente para fornecer (às custas de prejuízos deliberados) matéria-prima ridiculamente barata às multinacionais da indústria, engordando os dividendos de matrizes instaladas bem longe da Mãe Gentil. E a repressão dos movimentos operários também impedia uma negociação salarial vantajosa para os trabalhadores.

Por fim, do ponto de vista da concorrência e do desenvolvimento da economia, o fechamento das fronteiras de consumo com as famigeradas “reservas de mercado” levou o país a um atraso tecnológico de décadas. Como escreveu o Verissimo, era mais fácil entrar no Brasil com cocaína do que com um computador. O resultado não foi o desenvolvimento sadio da indústria nacional, mas um déficit que demoramos anos para recuperar, após a abertura do mercado nos anos 90.

E eu não mencionei as obras faraônicas que contribuíram para engordar o endividamento externo e nem que o regime jogou o país num buraco negro inflacionário do qual só saímos depois de uma “década perdida”.

Resta algo a defender do Golpe?

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