a arte do possível – e do inacreditável

[publicado originalmente em 8 de outubro de 2012, num blogue que deixou de existir]

As eleições municipais deste domingo foram marcadas, em quase todas as cidades, por vitórias de candidatos que dividiram o palaque com apoiadores de um mosaico de bandeiras e ideologias diferentes. O fenômeno é um retrato do momento atual da política no país.

A pluralidade partidária absurda (já temos pelo menos 30 partidos registrados) obriga os governantes a se cercarem de apoiadores para garantir a tal governabilidade, aquela palavra que já virou eufemismo para tantas barbaridades.

As agremiações políticas já nem disfarçam:

— Nobre colega, eu quero me candidatar e preciso do apoio do seu partido, que me dará direito a 50 segundos a mais na TV.

— O que ganharemos se apoiarmos a candidatura de Vossa Excelência?

— Olha, pensei em dar a vocês uma secretaria…

— Qual?

— Que tal a Secretaria de Reintegração dos Sabiás com a Asa Quebrada?

— Nem pensar! O outro candidato já me ofereceu a Secretaria de Obras.

— A Secretaria de Obras por CINQUENTA SEGUNDOS DE TV? Cê tá brincando, né?

— É, tô. Mas não podia ser pelo menos uma secretaria com orçamento maior?

— Que tal a de Educação?

— Hum, é pouco. Não temos só os cinquenta segundos de TV. Certamente vamos reeleger pelo menos dois dos nossos vereadores. Esse apoio na Câmara pode ser fundamental para você. Se você me der a Educação, também vou querer cinquenta cargos de confiança para o meu partido em alguma empresa pública.

— Cinquenta??! Nem pensar. Dou vinte cargos na empresa de coleta de lixo e é pegar ou largar.

— Aceito vinte, mas só se for na empresa de emplacamento de veículos…

— Fechado!

— Me dá um abraço, meu candidato!

(Mais tarde, na foto oficial e na entrevista coletiva, ambos farão caras e bocas para dizer que coligar-se era uma opção natural, dada a comunhão ideológica e programática que os dois partidos sempre demonstraram em sua história conjunta de lutas pela democracia e blá blá blá)

Obviamente, a negociação não acaba aí. Depois que o candidato é eleito, os partidos da sua base nunca esquecerão de sussurrar no seu ouvido o preço do apoio. Às vezes, esse preço é renegociado. Votações polêmicas no Legislativo, por exemplo, podem necessitar de um adicional em dinheiro ou em cargos.

A proximidade das novas eleições sempre indica uma necessidade de rever a estrutura de alianças, já que outros candidatos também podem querer contar com os tais cinquenta segundos a mais na TV — e podem estar dispostos a pagar um preço ainda mais alto pelo apoio.

— Olha, Fulano, não sei se vamos manter a coligação na próxima eleição…

— Mas, Beltrano, eu já te dei mais uma secretaria e dezoito cargos de confiança além daqueles vinte! Já não basta?

— É que o Sicrano me ofereceu o cargo de vice na chapa dele…

— Desculpa, mas não posso dar a vaga de vice pra vocês e deixar o pessoal do PQP, que tem cinco vereadores e uma militância muito maior, sem o cargo.

— Olha, talvez a gente possa resolver isso como resolvemos aquela votação na Câmara mês passado.

— Vai querer em notas de vinte ou de cinquenta?

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