o ministério da dilma: links pra (tentar) entender o que tá acontecendo

Foto: Roberto Stuckert Filho/PR
Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Serão quatro anos interessantes.

Estamos (nós, da esquerda) putos com o novo ministério da Dilma, que favorece o que de pior e mais nojento existe na política nacional. Mas, por outro lado, a presidente está sob artilharia pesada de forças poderosas (o grande capital, seus partidos de aluguel e sua imprensa de estimação, sempre ávida por um osso e um cafuné na barriga) e precisando de uma manobra para acalmar os inimigos e fazê-los acreditar que está tudo bem. “Mantenha seus amigos perto e seus inimigos mais perto“, dizia Don Corleone, mestre de tantos políticos e de tantos empresários e barões da mídia.

O problema (um dos muitos) é que fazer tantas concessões aos inimigos no momento de crise é, como escreveu alguém, queimar a aldeia para salvar a aldeia. Talvez não seja possível enxotá-los do governo quando as coisas acalmarem. Estou sendo otimista com esse “talvez”. Claro que não será possível se livrar desse abraço de figueira.

Enquanto isso, vemos outras forças intestinas se movendo no PT, e que parecem sinalizar quatro anos de teatrinho: Dilma sacrificando-se no papel de bad cop, que janta com o empresariado e com os senhores de escravos rurais enquanto pisa nos ribeirinhos que prometeu defender, e Lula fazendo o papel do nice cop, que busca uma reaproximação com os movimentos sociais e com o coração da periferia ao mesmo tempo em que afaga os velhos amigos dos partidos fisiológicos, dizendo, em tom dramático: “Mas o que essa mulher tá fazendo? Não foi pra isso que eu a ungi, juro!”, de olho na eleição de 2018.

Tenho lido, via redes sociais, diversas análises sobre os impactos dessa nova Esplanada na direção do futuro governo. Há desde esquerdistas indignados com as escolhas até petistas-justificadores acusando de burrice e traição qualquer um que ouse questionar a composição do ministério, pois, para eles, a culpa é toda dos eleitores que escolheram um Congresso tão alheio ao projeto petista. Se é que alguém ainda sabe qual é o projeto petista.

Compartilho abaixo alguns desses links (não endosso tudo que está escrito nos textos, apenas indico vários argumentos para tentar contribuir com o debate). Boa leitura!

> ‘Ah, mas votei na Dilma para o Kassab ser ministro?’, por Lino Bocchini

> Novo ministério: Extra, resta uma ilusão?, por Jean Wyllys

> O Planalto de Kafka, por André Singer

> É a composição do Congresso, estúpido, por Luiz Eduardo Nascimento

> Dilma arrisca numa jogada que nem é de gênio e tampouco uma traição, por Renato Rovai

> Quando Dilma irá acalmar a esquerda?, por Breno Altman

>  Dilma e o ministério do segundo mandato, por Marcos Doniseti Vicente

> Novo ministério de Dilma só mudará, de fato, na área econômica, por Marcelo Moraes

viagem à porto alegre de 2114

[publicado originalmente em 17 de abril de 2014, num blogue que deixou de existir]

Num entardecer de por do sol particularmente lindo, dada a nuvem de poluição de milhares e milhares de carros e ônibus semiparados – como virou praxe no trânsito de Porto Alegre -, uma mistura acidental de gases de escapamento, vapores de churrasquinho de gato e fedor de mijo das calçadas me entra pelas narinas e leva-me ao transe místico. Abro os olhos e descubro que viajei ao futuro. E, como é próprio das epifanias induzidas pelo bodum da cidade, tenho total ciência dos acontecimentos a minha volta.

De repente, me vejo na Porto Alegre de 2114 – é, por coincidência, ano de Copa do Mundo, mas esta não será no Brasil. O torneio deste ano ocorre na Bélgica, e o próximo Mundial, esse sim, será aqui. Porto Alegre está na expectativa de se tornar uma das cidades-sede do certame de 2118, o que dá novo ânimo aos empreiteiros que ainda não concluíram as obras estruturais da Copa de 2014, realizada há exatos cem anos. Os canteiros tinham sido abandonados oficialmente em 2075, mas o anúncio do Mundial motivou novos contratos e a prefeitura promete uma revolução nas estruturas da cidade para meados de 2118.

Andam dizendo que o prefeito, Jotair Peçanha, do PQP, conseguirá a indicação à reeleição, mas isso dependerá, é claro, dos valores dos contratos para as obras da próxima Copa. Há pouco mais de 20 anos, os presidentes das grandes empreiteiras, empresas de transporte e associações comerciais de Porto Alegre cansaram da ineficácia do poder público, que já estava indiretamente em suas mãos, e decidiram apertar um pouco mais as rédeas. Concluíram que gastavam dinheiro demais financiando simultaneamente todas as campanhas e resolveram otimizar o processo. Agora, o candidato a prefeito, que sempre concorre em chapa única, é escolhido em reunião prévia dos empresários – e uma cláusula contratual prevê o seu impeachment caso descumpra o plano de governo costurado pelas empresas. O mesmo ocorre com a nominata da Câmara de Vereadores, embora neste caso seja permitido o registro de até duas candidaturas de partidos de esquerda, para manter as aparências.

Desço do ônibus e ando alguns passos até uma estação de aluguel de carros. Não quero correr o risco de caminhar e ser multado ou preso por um azulzinho. Desde 2062, é proibido se locomover pelas ruas de Porto Alegre a pé ou de bicicleta. E até andar de ônibus não é considerado de bom tom, embora não resulte em sanção. Com a nova lei, o planejamento urbano pôde enfim se libertar das amarras e focar-se exclusivamente nas necessidades dos motoristas. Isso levou a algumas mudanças drásticas na paisagem urbana.

Em 2088, foi concluída a grande obra de drenagem do Lago Guaíba, que precisou ser transformado em estacionamento. Como o trânsito está constantemente congestionado no resto da cidade, muitos motoristas usam o Guaíba também como avenida para ir do Centro Shopping à Zona Sul e vice-versa, uma prática tolerada apesar de proibida. Os azuizinhos fazem vista grossa e não multam os infratores, desde que a locomoção ocorra de carro e não a pé ou de bicicleta. Isso sim não é perdoado.

Chego, enfim, aos arredores do Centro Shopping e estaciono o carro alugado numa vaga do Guaíba. Maior obra da história da cidade, o grande distrito administrativo e comercial é o único lugar de Porto Alegre onde é permitido andar a pé – pelo menos até 2130, quando os empresários esperam concluir a adaptação de todas as lojas e escritórios ao sistema drive-thru. Sua construção foi uma exigência dos cidadãos de bem da Capital, que queriam uma revitalização mais efetiva da área central da cidade desde o Grande Massacre de Estudantes de 2045.

Confinado em uma redoma de vidro climatizada, o antigo Centro Histórico foi totalmente higienizado e restaurado e está registrado no Guinness Book como maior shopping center do mundo – abrangendo uma área que vai do Parque da Redenção à Usina do Gasômetro, das rebarbas do bairro Floresta à Cidade Baixa. Livre dos moradores de rua, vendedores ambulantes e rios de mijo que caracterizavam a área antes da Grande Revitalização, o Centro Shopping agora é frequentado por pessoas de bem nas 24 horas do dia – e a entrada de elementos fichados no Departamento Municipal de Combate à Contestação é estritamente proibida, para evitar depredações.

É por isso que não me deixam entrar. Ao mostrar minha identidade no guichê, ouço do atendente que o meu nome está no banco de dados de contestadores da prefeitura. Retruco que isso não é possível – mal sabe ele que eu sequer existo neste universo de 2114 -, mas ele garante que eu estou fichado no DMCC como “dono de blog com viés de esquerda”. E todos sabem que a entrada de blogueiros de esquerda no Centro Shopping é proibida desde 2100.

É nesse momento que acordo do transe e estou de novo em 2014, de novo preso no trânsito aleijado de uma Porto Alegre suja, paralisada e mal coordenada, com a tristeza de quem não sabe quando tudo isso vai ter fim.

golpe de 64: vamos falar de economia?

[publicado originalmente em 31 de março de 2013, num blogue que deixou de existir]

Hoje é aniversário do golpe de Estado que em 1964 derrubou um governo democraticamente eleito e instaurou uma ditadura civil-militar de mais de 20 anos.

Simpatizantes do golpe sempre o defendem pelo prisma econômico: falam com orgulho do “milagre brasileiro”, do “Brasil-oitava-economia-do-mundo”, da consolidação do parque industrial, da defesa ~nacionalista~ da produção nacional, etc. Inquiridos sobre a violência do regime, os seus defensores ou dizem que foram abusos isolados ou justificam as ações dizendo que foram necessárias devido à “ameaça do comunismo”.

Opositores do golpe sempre o criticam pelo prisma da repressão: falam da censura, das prisões, do AI-5, de tortura e assassinatos de opositores, de infiltrados do Dops nos grupos estudantis e movimentos sociais, etc. Quase nada costuma ser dito sobre a economia. É como se até os críticos da ditadura concordassem que o regime foi um sucesso econômico.

Já eu critico a ditadura civil-militar tanto pela repressão quanto pela economia.

Do ponto de vista da distribuição de renda, o Estado brasileiro foi, de 1964 a 1985 (e depois por mais alguns anos), um verdadeiro Nibor Dooh (expressão de Fausto Wolff): um Robin Hood ao contrário, que tirava dos pobres para dar aos ricos. O Banco do Brasil (via conta-movimento) e os bancos estaduais eram verdadeiros sacos sem fundo, jazidas inexauríveis de recursos para latifundiários e usineiros. Mais tarde, quando surgiram planos anti-inflação nos anos 80 (nos governos Sarney e Collor), os pacotes sempre resultaram numa explosão do consumo de carne e até de produtos como absorventes íntimos pelas classes mais baixas, o que evidencia que na época do “milagre” tais produtos não faziam parte da cesta básica de milhões de pessoas. O milagre era para poucos ungidos.

Do ponto de vista do nacionalismo, a política econômica do governo civil-militar era risível. Que nacionalismo é esse que consistia numa sujeição servil aos interesses econômicos norte-americanos? Mesmo no campo interno, as diversas estatais serviam basicamente para fornecer (às custas de prejuízos deliberados) matéria-prima ridiculamente barata às multinacionais da indústria, engordando os dividendos de matrizes instaladas bem longe da Mãe Gentil. E a repressão dos movimentos operários também impedia uma negociação salarial vantajosa para os trabalhadores.

Por fim, do ponto de vista da concorrência e do desenvolvimento da economia, o fechamento das fronteiras de consumo com as famigeradas “reservas de mercado” levou o país a um atraso tecnológico de décadas. Como escreveu o Verissimo, era mais fácil entrar no Brasil com cocaína do que com um computador. O resultado não foi o desenvolvimento sadio da indústria nacional, mas um déficit que demoramos anos para recuperar, após a abertura do mercado nos anos 90.

E eu não mencionei as obras faraônicas que contribuíram para engordar o endividamento externo e nem que o regime jogou o país num buraco negro inflacionário do qual só saímos depois de uma “década perdida”.

Resta algo a defender do Golpe?

o verdadeiro motivo dos protestos

[publicado originalmente em 15 de junho de 2013, num blogue que deixou de existir]

No fundo, as questões sobre as manifestações contra os gastos excessivos da Copa do Mundo, contra o aumento das tarifas do transporte público, contra a privatização de espaços públicos, as questões sobre o estabelecimento de cotas sociais/raciais nas universidades, os debates sobre as políticas de inclusão social e de transferência de renda podem ser resumidos a uma única pergunta:

– Qual a sua posição sobre a desigualdade social?

Porque é precisamente disso que se trata tudo isso. O Brasil é permeado pela desigualdade social e a raiz de quase todos os nossos problemas como nação está no fato de que fomos, desde o início, lá em 1500, erigindo o nosso país e a nossa sociedade usando como alicerce, como tijolos e como cimento a desigualdade social.

Desde que éramos uma colônia, ficou bem claro que as abundantes riquezas desta terra seriam destinadas a poucos. Primeiro, o território foi dividido entre poucos donos portugueses. As riquezas iam para poucos cofres europeus e os trabalhadores que se faziam necessários – fossem escravos africanos, fossem escravos índios, fossem pequenos profissionais d’além mar aqui estabelecidos – ficavam com o mínimo para garantir sua subsistência.

Os donos da terra mandavam seus filhos estudarem em universidades europeias e assim se inaugurou outra dimensão da nossa desigualdade endêmica: o bacharelismo, o culto ao ‘dotô’, a ideia de que a alta instrução é um privilégio e uma espécie de título de nobreza que dá acesso a um quinhão da riqueza aqui produzida – o que acaba deixando tudo em família, pois o ‘dotô’ veio do mesmo clã que recebeu, por direito divino, a chave do cofre da nação.

Como eram todos muito próximos, todos aparentados, os donos do poder de então (nobres-políticos, militares de alta patente, ‘dotores’ e clérigos), era-lhes muito fácil negociar e ajeitar tudo para garantir os seus interesses. Surgiu assim a nossa cultura de negociata, de clientelismo, de “eu falo com o Fulano e ele resolve pra mim”, de burlar as regras para favorecer os amigos.

Quinhentos anos depois, a situação se mantém quase a mesma. Os governantes, os donos dos meios de produção que financiam as campanhas eleitorais dos governantes, os intelectuais que pensam a nação, os promotores que acusam, os advogados que defendem, os juízes que julgam, os altos funcionários públicos que comandam o funcionamento da máquina estatal vêm quase sempre da mesma casta. Não por acaso, exatamente a casta que administrava as capitanias hereditárias no Brasil-colônia. Com algumas exceções, são quase todos brancos de classes abastadas, filhos de brancos de classes abastadas. E todos eles ajeitam tudo que for necessário para favorecer os amigos.

O dono da empresa de ônibus que recebe a concessão do Estado e presta um serviço de má qualidade, o governante que assina a concessão e depois faz vista grossa ao serviço porco e o dono da empresa de comunicação que condena quem protesta contra essa patifaria são todos oriundos da mesma classe social.

O aumento da tarifa dos ônibus a despeito do serviço de má qualidade, o superfaturamento das obras da Copa, as políticas em prol do modelo rodoviário-petroleiro, os atentados contra os direitos dos trabalhadores, o abocanhamento pelos empresários da isenção de impostos que deveria ser repassada para o consumidor via redução de preços, os discursos contra políticas de inclusão social são todos parte de um único movimento: a tentativa dos donos do país de evitar que mais gente tenha acesso ao dinheiro, ao poder e aos títulos de ‘dotô’. E esse movimento envolve o uso da força.

Os escravos não obedeciam aos senhores por conta própria. Eram domesticados pela chibata. A força sempre foi usada para manter a ordem nas senzalas e nas ruas brasileiras. Tanto a força física, dos canhões e mosquetes e fuzis e cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo, quanto a força econômica, simbólica e institucional: do discurso legitimador da mídia e dos ‘dotores’, do cerceamento dos sindicatos pelo mesmo Getúlio Vargas que fez algumas (importantes) concessões aos trabalhadores, a força do entorpecimento das massas por uma educação sucateada e pelo lixo televisivo.

A força da tropa de choque que bate em manifestantes e a força das mídias que deslegitimam as causas desses manifestantes se coadunam e retroalimentam. Eventualmente, parte da mídia pode ver que a maré da opinião pública está virando e passar a condenar, pontualmente, alguns excessos da repressão policial. Mas a defesa do que constitui o cerne da questão (a sua tentativa de manter as riquezas do país nas mãos de poucos) continuará permeando seu discurso.

As manifestações que ajudaram a derrubar o aumento do preço da passagem em Porto Alegre e as que vêm ocorrendo pelo Brasil afora mostram que estamos num grande momento: primeiro, há a canalização da indignação em forma de protesto; segundo, há um meio (a internet) de disseminação do discurso contestador.

Tomando como exemplo a manifestação de 13/06/2013 em São Paulo, que acompanhei em tempo real pelas redes sociais, fica evidente que o poder legitimador da mídia tradicional está abalado. Em poucas horas, as timelines foram inundadas por centenas de relatos, fotos, vídeos e comentários que mostravam claramente o que estava acontecendo naquelas ruas. Ninguém precisava ligar a TV para saber. Na manhã seguinte, quando os jornais impressos foram às bancas, todo mundo (que use redes sociais) já estava sabendo o que tinha acontecido. A mídia tradicional ainda é muito poderosa, mas há uma ferramenta que pode ser usada para contrapor esse domínio e disseminar um outro discurso, uma outra visão, ou outros discursos e outras visões.
As políticas de inclusão social e de ação afirmativa estão ajudando, paulatinamente, a redistribuir riqueza e acesso ao consumo, à cultura, à instrução. Mais gente está ganhando a sua parte. Os que perdem com isso são os que estavam acostumados a ficar com tudo. Eles não pretendem dividir o bolo sem luta, por isso a importância de vermos claramente que a redução da tarifa de ônibus é uma causa que se liga a diversas outras causas que no fundo são partes de uma única grande causa: a necessidade de acabarmos com a desigualdade.

A desigualdade permeia o Brasil. A corrupção, o caos na educação e na saúde, os problemas estruturais são reflexo desse abismo social. Qual a sua posição em relação a isso? De que lado você está?

P.S.: Sempre aparece alguém pra tentar desmerecer o movimento dizendo que os manifestantes que vão às ruas são apenas jovens de classe média e de classe alta, são filhinhos de papai, são playboys que não pegam ônibus, etc. O que posso dizer é: a causa é justa, a causa é plural, a causa é de todos. ‘Playboy’ que enfrenta a tropa de choque pra defender o fim da desigualdade tem lugar no meu time.

em defesa do dedo no olho

[publicado originalmente em 28 de março de 2013, num blogue que deixou de existir]

E o debate sobre o protesto contra o aumento da passagem que acabou em pancadaria em frente à prefeitura de Porto Alegre enveredou para a discussão da legitimidade da violência física — com uma pitada de crítica à suposta partidarização da manifestação.

É o velho argumento do “não vale dedo no olho”. Para o senso comum, não importa a intenção do movimento: se partiu para as vias de fato, “perdeu a razão”. Se tem bandeira de partido no meio, “perdeu a razão”. Se disse palavrão, “perdeu a razão”. Se bloqueou a rua e me fez esperar uma hora a mais para chegar em casa, “perdeu a razão”. O importante é achar o atalho mais curto para desqualificar os manifestantes e jogá-los no lixo junto com a sua causa.

Resume-se todo o conceito de “violência” à violência física. Ignorando que existe violência simbólica, violência econômica, violência institucional, condena-se, nesse cenário de várias violências, apenas a única forma de violência com que os violentados pelo sistema podem revidar — e alguns leitores dirão que eu, aqui, “perdi a razão” ao usar a expressão “violentados pelo sistema”, um clássico chavão da esquerdalha.

Outro argumento muito repetido ontem foi: “isso não vai baixar o valor da passagem”. É bem provável que realmente não baixe. Mas ficar em silêncio também não baixa, erguer faixa de protesto também não baixa, reclamar nas redes sociais também não baixa. Ontem mesmo, passando de ônibus pela Avenida Protásio Alves, li a seguinte frase pichada em um prédio: “2,70 é roubo!”. Uma pichação contra o aumento de dois anos atrás! Todo ano tem protesto e os aumentos seguem sem justificativa, o Conselho Municipal de Transporte segue funcionando alegremente a despeito de sua representatividade não corresponder à real configuração social de Porto Alegre, o transporte público da cidade continua funcionando sem licitação, as empresas continuam prestando um serviço de qualidade inversamente proporcional ao aumento da tarifa. Então, o que fazer para reverter esse ciclo de VIOLÊNCIA contra o cidadão?

Ninguém em sã consciência espera que a saída seja indolor. Os manifestantes que bloqueiam uma avenida não querem que as pessoas gostem de ficar paradas no trânsito. O objetivo é justamente causar desconforto. Eu também não gosto de ficar trancado no trânsito. Mas, quando isso acontece, a minha raiva não se volta contra os manifestantes, e sim contra os responsáveis pela violência originária que motivou o protesto: seja uma negociação salarial desfavorável aos trabalhadores, seja um aumento de R$ 0,20 no valor de uma passagem que deveria BAIXAR em vez de subir, segundo os cálculos atualizados.

Mas vivemos uma era de individualismo e fatalismo. Um tempo em que quem interfere no meu direito de chegar cedo em casa “perde a razão”, qualquer que seja a sua reivindicação. Um tempo em que ninguém se importa com a privatização ou a degeneração dos espaços públicos, pois, afinal, pra que espaço público se ninguém quer encontrar o Outro na rua e conviver com ele?

Nessa era de individualismo e fatalismo, quem se levanta contra a violência simbólica e econômica “perde a razão”, torna-se o vilão. Esquecemos a História. Esquecemos que muitos dos hoje heróis foram considerados arruaceiros em seu próprio tempo. Não sei o que acontecerá quando a nossa própria era for colocada em perspectiva pelos pósteros. Espero que não entremos para a história como “aqueles bundões do século 21”.

P.S. 1: Ontem, durante as altercações, vi, no Twitter, várias manifestações dizendo que “quebraram tudo e a Brigada Militar não fez nada”. O que queriam que a Brigada fizesse? Entre ver quebrados vidros da prefeitura e cabeças de jovens manifestantes, prefiro que se quebrem os vidros.

P.S. 2: Não estou defendendo agressão física de pessoas. Sou, apesar de tudo, um pacifista e condeno que se espanque, se torture ou se assassine qualquer pessoa, independente do lado em que ela está. Li, via Twitter, que um repórter apanhou. Se isso deveras aconteceu, foi um erro que não consigo defender.

a arte do possível – e do inacreditável

[publicado originalmente em 8 de outubro de 2012, num blogue que deixou de existir]

As eleições municipais deste domingo foram marcadas, em quase todas as cidades, por vitórias de candidatos que dividiram o palaque com apoiadores de um mosaico de bandeiras e ideologias diferentes. O fenômeno é um retrato do momento atual da política no país.

A pluralidade partidária absurda (já temos pelo menos 30 partidos registrados) obriga os governantes a se cercarem de apoiadores para garantir a tal governabilidade, aquela palavra que já virou eufemismo para tantas barbaridades.

As agremiações políticas já nem disfarçam:

— Nobre colega, eu quero me candidatar e preciso do apoio do seu partido, que me dará direito a 50 segundos a mais na TV.

— O que ganharemos se apoiarmos a candidatura de Vossa Excelência?

— Olha, pensei em dar a vocês uma secretaria…

— Qual?

— Que tal a Secretaria de Reintegração dos Sabiás com a Asa Quebrada?

— Nem pensar! O outro candidato já me ofereceu a Secretaria de Obras.

— A Secretaria de Obras por CINQUENTA SEGUNDOS DE TV? Cê tá brincando, né?

— É, tô. Mas não podia ser pelo menos uma secretaria com orçamento maior?

— Que tal a de Educação?

— Hum, é pouco. Não temos só os cinquenta segundos de TV. Certamente vamos reeleger pelo menos dois dos nossos vereadores. Esse apoio na Câmara pode ser fundamental para você. Se você me der a Educação, também vou querer cinquenta cargos de confiança para o meu partido em alguma empresa pública.

— Cinquenta??! Nem pensar. Dou vinte cargos na empresa de coleta de lixo e é pegar ou largar.

— Aceito vinte, mas só se for na empresa de emplacamento de veículos…

— Fechado!

— Me dá um abraço, meu candidato!

(Mais tarde, na foto oficial e na entrevista coletiva, ambos farão caras e bocas para dizer que coligar-se era uma opção natural, dada a comunhão ideológica e programática que os dois partidos sempre demonstraram em sua história conjunta de lutas pela democracia e blá blá blá)

Obviamente, a negociação não acaba aí. Depois que o candidato é eleito, os partidos da sua base nunca esquecerão de sussurrar no seu ouvido o preço do apoio. Às vezes, esse preço é renegociado. Votações polêmicas no Legislativo, por exemplo, podem necessitar de um adicional em dinheiro ou em cargos.

A proximidade das novas eleições sempre indica uma necessidade de rever a estrutura de alianças, já que outros candidatos também podem querer contar com os tais cinquenta segundos a mais na TV — e podem estar dispostos a pagar um preço ainda mais alto pelo apoio.

— Olha, Fulano, não sei se vamos manter a coligação na próxima eleição…

— Mas, Beltrano, eu já te dei mais uma secretaria e dezoito cargos de confiança além daqueles vinte! Já não basta?

— É que o Sicrano me ofereceu o cargo de vice na chapa dele…

— Desculpa, mas não posso dar a vaga de vice pra vocês e deixar o pessoal do PQP, que tem cinco vereadores e uma militância muito maior, sem o cargo.

— Olha, talvez a gente possa resolver isso como resolvemos aquela votação na Câmara mês passado.

— Vai querer em notas de vinte ou de cinquenta?

quero o direito de ser obrigado a votar

[publicado originalmente em 2010, em um blogue que deixou de existir]

O período eleitoral e o pós-eleitoral são sempre as ocasiões em que mais se ouvem manifestações contrárias ou favoráveis à obrigatoriedade do voto.

Creio que, se se fizesse um plebiscito para decidir a questão, os partidários do voto facultativo teriam uma vitória esmagadora nas urnas – e esse seria, muito provavelmente, o último voto de muita gente.

Para o brasileiro médio, votar é uma obrigação das mais chatas, uma imposição autoritária e opressiva que só se cumpre por medo das consequências legais. Isso é, no mínimo, estranho, se levarmos em conta que esse mesmo povo estava, há pouco mais de 20 anos, ocupando ruas e praças para exigir o direito de votar.

É assim que vejo o voto: como um direito, antes de ser um dever. Um direito que nossos antepassados não tiveram, que a geração pré-1989 teve tolhido, um direito que hoje nos é assegurado pela Constituição, mesmo que não saibamos valorizá-lo.

Afinal, por que diabos o voto é obrigatório no Brasil?

Essa história de democracia, como você bem sabe, é invenção dos gregos. Mas a democracia grega era um pouco diferente da nossa. Como disse certa vez o  Renato Janine Ribeiro, o estado grego era como um barco em que todos remam (pelo menos, todos os cidadãos livres do sexo masculino, o que já é um avanço “evolutivo”). Já o estado brasileiro é um barco com poucos remadores e muitos passageiros. No barco Brasil, onde não se obriga ninguém a remar, o mínimo que se exige dos passageiros é que elejam os remadores.
Isso, não há como discordar, é “para o bem” (no sentido usado pelas nossas mamães) dos próprios passageiros do barco.

Como o cinto de segurança. A obrigatoriedade do uso de cinto de segurança nos automóveis é um absurdo descomunal. É como se criassem uma lei proibindo a ingestão de veneno.

Ora, as pessoas deveriam querer muito, e por conta própria, usar o cinto – que serve, como todo mundo sabe, para protegê-las. A população deveria fazer passeatas, ocupar praças e ruas exigindo o direito de usar cinto de segurança. Mas não. Para que os brasileiros usem cinto, é preciso obrigá-los. É preciso obrigá-los e cobrar multa dos desobedientes, como se criancinhas fossem.

Isso porque a tal democracia, aquela invenção dos gregos, só funciona de verdade quando os cidadãos são conscientes o bastante para saber a importância do seu voto (diga-se de passagem, a própria Filosofia-como-a-conhecemos surgiu, com Sócrates, para educar os jovens para o exercício da cidadania).

Será que tornar o voto facultativo melhoraria os resultados das nossas eleições? Os americanos não são obrigados a votar e elegeram Bush. Duas vezes (ou uma, se o Michael Moore estiver certo na sua contagem).

Será que tornar o voto facultativo melhoraria a compreensão da cidadania pelos boçais que ainda não entenderam o alcance e a necessidade do seu voto? Com certeza, não.

Acredito que o menos pior seja continuar obrigando os passageiros do barco a escolher seus remadores, e fazer o que for preciso para que eles entendam que esse dever é “para o seu bem” – mas que se faça isso de um modo realmente eficaz, e não com essas propagandas excessivamente abstratas e pretensamente artísticas da Justiça Eleitoral, que só são compreendidas por aqueles que menos precisam ser conscientizados.

BONUS TRACKS:

Um dos argumentos usados pelos partidários do voto facultativo é o de que o fim da obrigatoriedade moralizaria os pleitos e reduziria a corrupção. Pois eu digo que o voto facultativo poderia, em se tratando de Brasil, facilitar e incentivar a corrupção.

Os candidatos precisariam de menos votos para se eleger. Isso, para começo de conversa, baixaria os preços do mercado de compra e venda de votos. Além disso, com menos gente votando, ficaria mais fácil para os corruptos fiscalizar os votos dos eleitores que lhes vendessem a alma. Bastaria colocar um jagunço cabo eleitoral em cada seção, anotando o número de votantes (ou até os nomes) e depois conferir a quantidade de votos computados em cada urna.

Petistas também costumam defender o voto facultativo por acharem que a mobilização dos seus militantes e simpatizantes lhes garantiria vitórias esmagadoras nas urnas. Isso poderia não ser bem assim, primeiro porque o entusiasmo pelo PT decaiu muitíssimo depois que se viu que o partido é apenas um PSDB melhorado. Segundo,porque a direita e o centrão não são tão desmobilizados quanto imaginam os esquerdistas. Que o diga o socialista Lionel Jospin, que perdeu a chance de ser presidente da França (onde o voto é facultativo) porque os seus eleitores preferiram curtir um feriadão de sol a comparecer às urnas.
Terceiro, porque sempre cabe a perguntinha: o que é maior, a capacidade de mobilização dos bons ou a verba de campanha dos maus?

Mas o melhor argumento que já ouvi a favor do voto obrigatório foi apresentado por um professor de Ciência Política cujo nome esqueci. Disse ele que temos, num país tão vasto, diversos tipos de voto: o voto consciente, o voto útil, o voto nulo, o voto branco, o voto de protesto, o voto comprado, o voto de gratidão etc. E o sistema que melhor equilibra todos esses tipos de voto é o obrigatório. O voto facultativo desequilibraria a relação entre os eleitores que praticam cada uma dessas modalidades e, com isso, o resultado seria menos fiel ao desejo do conjunto da população.

até quando contarei histórias assim?

[postado originalmente em 14 de agosto de 2012, num blogue que deixou de existir – antes de ir praquele falecido blogue, o texto foi censurado no jornal onde eu trabalhava]

Era quase 0h de uma fria noite de junho quando o nosso carro chegou ao maior hospital de Porto Alegre e do Estado. Na entrada da emergência pediátrica, dezenas de pessoas vibraram quando viram o logotipo do jornal na porta do automóvel.

Quando descemos do carro, eu e o fotógrafo Jean Schwarz fomos abordados por vários homens e mulheres, alguns com crianças pequenas no colo, que despejaram sobre nós uma torrente de queixas e protestos, todos gritando ao mesmo tempo.

— É um absurdo!

— Tô com a minha mulher grávida de oito meses ali!

— Uma menina engoliu uma moeda e ainda não foi atendida!

Alvoroçado com a presença da imprensa, um grupo começou a ensaiar palavras de ordem.

— Queremo atendimento! Queremo atendimento! — gritavam alguns, em uníssono.

Aquelas pessoas, algumas havia mais de oito horas na fila de espera, acreditavam que poderíamos ajudá-las a conseguir uma consulta médica. Acreditavam que a simples presença de repórteres destravaria as engrenagens enferrujadas de um sistema de saúde agonizante e permitiria que elas e seus filhos pudessem sentar diante de um médico. Estavam nos pedindo mais do que podíamos lhes dar.

Eu tinha nas mãos apenas um bloco de anotações e uma caneta e Jean, uma câmera fotográfica. Eram nossas únicas armas para combater o mal crônico que aflige o nosso sistema de saúde. Como poderíamos ajudar aquelas pessoas?

A nós, cabia cumprir o papel social da imprensa: tornar pública aquela triste situação. Contar a história daquelas pessoas.

Pessoas como a pequena alvoradense Isadora, de três meses, que, com febre e sintomas de gripe, aguardava uma consulta médica desde as 18h, sem entender o que se passava enquanto seu pai, o classificador de metais Carlos Alberto Araújo da Silva, pedia ajuda a um repórter que nada sabe de medicina.

Pessoas como o funcionário do hospital que não quis se identificar e que veio até mim apenas para dizer que não era autorizado a dar entrevistas e que eu deveria ligar para a assessoria de imprensa da instituição — e que depois voltou para o saguão sob uma saraivada de ofensas e palavrões.

Em meio à gritaria e aos impropérios dirigidos aos funcionários, procurei um lugar um pouco mais calmo, peguei um telefone celular e liguei para a assessoria de imprensa.

Da rua, contemplando o sofrimento de homens, mulheres e crianças, falei, por telefone, com um assessor daquele hospital que estava a poucos metros de mim. Ele me passou a posição oficial da instituição. Disse que todas as emergências de todos os hospitais estão enfrentando superlotação. Disse que a maioria daqueles pacientes não são casos de emergência e que, portanto, deveriam ser atendidos em postos de saúde. Disse, por fim, que o atendimento continuará, do jeito que for possível, na emergência pediátrica — mas fez uma ressalva: o atendimento continuará se os pais dos pacientes souberem se comportar.

Os funcionários do hospital estão com medo, me disse o assessor. Eu também estaria, no lugar deles. Desesperados com a demora e com a falta de perspectiva de atendimento para os seus filhos doentes, muitos pais e mães se exaltam, ofendem e ameaçam trabalhadores que não têm culpa pela falta de médicos e de leitos.

Momentos antes da nossa chegada à emergência pediátrica, uma viatura da Brigada Militar tinha saído de lá. Os policiais foram acionados por funcionários que temiam pela própria segurança, diante de pais e mães tão exaltados. Foi justamente uma dessas mães desesperadas que ligou para a redação do jornal, quando os policiais militares chegaram à emergência, para nos avisar do problema.

Aquela não tinha sido a primeira ligação da noite. Eu mesmo tinha atendido, horas antes, pelo menos outras duas pessoas que estavam em situações semelhantes: uma no mesmo hospital da Capital e outra, em Gravataí.

Dois dias antes, em Viamão, uma jovem de 18 anos havia sido presa depois de depredar o hospital da cidade e agredir dois seguranças.

A espera por um sistema de saúde mais eficiente e mais universal parece não ter fim. Eu, como repórter, espero o dia em que poderei contar um outro tipo de história, uma história em que menininhas de três meses não precisem passar horas e horas com febre em um saguão de hospital.

cestas básicas, asfalto, pé no barro e mudez

[postado originalmente em 3 de outubro de 2012, num blogue que deixou de existir]

E agora, a poucos dias das eleições, começam a pulular denúncias de compra de votos em diversas cidades gaúchas. Algumas a imprensa publica, outras a imprensa ignora e eu me sinto, cada vez mais, um náufrago afundando em um mar de pus.

Hoje, na Rádio Gaúcha, após a veiculação de uma notícia sobre crime eleitoral em São José do Ouro, o comentarista Cláudio Brito perguntou, retoricamente: “Será que é só em São José do Ouro que ocorre compra de votos?”

Sei que sua pergunta foi retórica, Cláudio, mas respondo: não, não é. A pilantragem está instaurada, é um esquema com muito mais cúmplices do que vítimas, praticamente todo mundo sabe disso e ninguém move um dedo para impedir que essa máfia continue elegendo os seus beleguins e comprando votos e perpetuando a sua escandalosa usurpação da coisa pública.

Há duas semanas, falei com meu tio Rogério, que trabalha como açougueiro na Vila São Martim, em São Sebastião do Caí, e ele disse: “Até um mês depois das eleições, nenhum mercado vende um quilo de arroz na São Martim, pois tá todo mundo com os armários cheios de comida dada pelos candidatos”.

Cresci em São Sebastião do Caí e sei que a compra de votos é algo comum e disseminado no município. Votar em troca de favores ou de produtos é uma prática entalhada no DNA político da minha cidade. E, pelo que vejo e ouço, no de todas as outras.

O mais absurdo é que todo mundo sabe disso. Haveria farto material para ilustrar dezenas de reportagens sobre crimes do tipo. Mas, como jornalista, acabo com as mãos atadas pelas rotinas jornalísticas (necessidade de fontes, comprovação palpável, contrapontos etc) e pelas salvaguardas jurídicas necessárias para impedir que os bandidos que pretendo denunciar acabem processando a mim e ao veículo que me emprega — e usando a Justiça que deveria colocá-los na cadeia para arrancar ainda mais dinheiro de outras pessoas.

E é por isso, entre outros motivos, que deixamos de publicar barbaridades que poderiam ajudar, nem que fosse um pouquinho, a diminuir as maiúsculas votações desses crápulas — se é que ainda existe algum (e)leitor que se importe com a moralidade dos representantes que elege.

E é assim que, mesmo com as pregas vocais intactas, acabo prisioneiro de uma mudez que me impede de gritar e denunciar absurdos e mais absurdos que leitores me relatam diariamente (eles recorrem a mim porque acham que a minha voz pode soar mais alto que a deles, veja só que ingênuos).

Mas a nossa mudez está longe de se restringir à compra de votos. Hoje, quando eu voltava do trabalho ouvindo a Rádio Gaúcha, uma reportagem mostrou que essa é uma situação bem mais complexa e com muito mais nuances.

Um repórter foi a uma vila de Porto Alegre — onde um beco teria sido asfaltado a mando de um candidato a vereador em troca de votos e da colocação de placas do referido candidato em frente às casas.

Lá, um dos moradores ameaçou esse jovem repórter. Tudo gravado e transmitido pela rádio. O homem disse ao jornalista para não fotografar a placa em frente a sua casa, ou haveria represálias.

Até aí, parecia a típica dicotomia brutamontes x mocinho, selvagem x civilizado; afinal, um bárbaro inculto prometia, diante de um gravador ligado, agredir um representante da imprensa que fazia uma denúncia de crime eleitoral. Era um cúmplice de compra de votos tentando intimidar um arauto da Verdade.

Foi então que aquele homem disse algo que me deixou assombrado: “Tem que entrar aqui quando estamos pisando no barro!”

Nocaute!

Aquele bárbaro inculto pisava, enquanto ameaçava o repórter, em uma via pavimentada. Precariamente pavimentada, mas ainda assim pavimentada. Aquele beco que antes obrigava os moradores a pisar na lama está agora com uma camada improvisada de asfalto.

E onde estávamos nós, jornalistas, quando aquela gente sujava os pés toda vez que saía de casa?

Há muitas barbaridades por aí, além da compra de votos, barbaridades que ocorrem em outras épocas além do período eleitoral.

Há pessoas que viajam espremidas em ônibus lotados, muitas vezes, como em finais de semana e feriados, depois de uma longa espera no ponto. Você já passou quarenta minutos esperando um ônibus e suportando a chuva e o frio do inverno gaúcho, leitor? Eu já, e sei que não é nada agradável. Muita gente passa por isso regularmente — e o que fazemos nós, jornalistas?

Há pessoas, como o porto-alegrense que ameaçou o repórter da Rádio Gaúcha, que moram em becos sem nome, onde sobra poeira nos dias secos e lama nos dias chuvosos. Mas isso raramente sai no jornal.

Há crianças que brincam ao lado de riachos de excremento e urina, há meninas que vendem o corpo por uma pedra de crack, há milhares de coisas que eu poderia continuar elencando para soar ainda mais piegas, e nós nos omitimos.

Em cinco anos de plantões na redação, já recebi dezenas e dezenas de ligações de pessoas que recorrem a nós em busca de ajuda para a falta de ônibus, de pavimentação, de atendimento médico, de professor na escola, de policiais na rua. E o que fiz para denunciar essas situações?

A compra de votos é crime eleitoral e deve ser denunciada, mas também devemos denunciar a negligência do poder público. Aquelas pessoas não precisariam trocar seus votos por asfalto se aquelas ruas já estivessem asfaltadas, regularizadas, iluminadas e integradas à rede de esgoto.

Se houvesse políticas públicas humanizantes, um sistema de saúde eficiente, um transporte público de qualidade, escolas que ensinassem de verdade em vez de dar certificados a analfabetos funcionais, talvez as pessoas soubessem o que é cidadania e escorraçassem essa corja da política para sempre.

Mas, como os detentores do poder não farão isso por conta própria, talvez seja hora de a imprensa fazer a sua parte.