MOHAMMED E EPHRAIM NO PARAÍSO

CENA 1

Ephraim, judeu, e Mohammed, muçulmano, morrem no mesmo dia e vão para o Céu. Ambos se encontram na sala de espera do Paraíso.

EPHRAIM: Você por aqui?

MOHAMMED: Era isso que eu ia dizer, mas em relação a você! Alá é mesmo misericordioso. Quem poderia imaginar? Um judeu no Paraíso!

EPHRAIM: Deve haver algum engano. Essa deve ser apenas a sala de triagem. Daqui a pouco você será mandado para o seu lugar.

MOHAMMED: Impossível. Vou para o Paraíso. Morri como um herói na guerra contra os infiéis. Mal vejo a hora de mergulhar no rio de vinho. Onde será que estão as minhas virgens?

EPHRAIM: Como foi que você morreu?

MOHAMMED: Amarrei uns explosivos na cintura e explodi um ônibus em Jerusalém. Pena que estava vazio. Eu ia descer e embarcar em outro, mas a bomba detonou sozinha.

EPHRAIM: Então foi você, seu miserável! Eu era o motorista daquele ônibus!

MOHAMMED: Bem, agora é tarde pra lamentar.

Nesse momento, um anjo aparece no guichê

ANJO: Os papéis foram liberados. Vocês já podem entrar para ver o chefe.

CENA 2

Eles entram num vestíbulo de luz e se prostram imediatamente. A luz se apaga e um menino está diante deles. Eles levantam a cabeça.

EPHRAIM: Ahn?

MOHAMMED: Ahn?

DEUS: Sim, eu sei. Eu sempre causo essa impressão.

MOHAMMED: Alá?

EPHRAIM: Javé?

DEUS: Nenhum dos dois. Podem me chamar de Júpiter. E fiquem de pé, por favor. Vocês não precisam mais disso. Aliás, nunca precisaram. Não fui eu que inventei essa moda.

EPHRAIM: Então, o vosso nome é… Júpiter?

DEUS: Não. Mas esse é um nome sonoro, poderoso, vocês não acham?

MOHAMMED: Alá, digo, Júpiter, podeis dizer o que faz esse infiel no Paraíso?

EPHRAIM: Era justamente essa a pergunta que eu ia fazer, meu Senhor.

DEUS: No Céu não existe apartheid. E na Terra também não deveria haver. Vocês entenderam tudo errado.

MOHAMMED: Mas Al…, digo, Júpiter, e o Corão? E o Profeta?

EPHRAIM: E a Torá? E os profetas?

DEUS: Um bando de falastrões que achavam que podiam ser meus porta-vozes. Se bem que os livros sagrados de vocês têm algumas passagens engraçadas… Mas não estamos aqui pra discutir Literatura. Antes de mais nada, vocês precisam de um bom puxão de orelhas. Que história é essa de ficarem se matando?

EPHRAIM: Senhor, aquela é a nossa terra! A Terra Prometida! Vós a destes aos nossos antepassados. É nosso dever defendê-la dos gentios.

MOHAMMED: Idem, Senhor.

DEUS: Eu já estou ficando cansado de ouvir essas besteiras. Como escreveu o Michael Moore, vocês acham que eu daria aquela terra a alguém? Aquilo é só um monte de areia e pedregulhos! Eu nunca dei terra alguma a povo nenhum, e nunca tive preferência por este ou aquele povo.

EPHRAIM: Mas Senhor, e toda a ajuda que vós destes ao povo hebreu ao longo da História? A fuga do Egito, o Mar se abrindo, as Muralhas de Jericó, a força de Sansão, Davi matando Golias…

DEUS: Lendas, lendas. Eu não me meto nas suas guerras. Os seus líderes é que fingem estar lutando em meu nome, quando na verdade lutam por poder. E por dinheiro.

MOHAMMED: E a guerra santa? E a promessa de salvação a quem morrer em defesa da fé?

EPHRAIM: E a vinda do Messias?

DEUS: Lamento dizer, mas vocês caíram no conto do vigário. Ou melhor, no conto do rabino e do mulá. Mas agora é tarde pra falar disso. Vocês passaram a vida inteira evitando a carne de porco, as bebidas fermentadas, seguindo leis inventadas pelos homens, mas agora estão livres. Aproveitem a estada no Céu. Vocês terão a eternidade inteira pra aprender a se gostar.

EPHRAIM: Senhor, posso fazer uma última pergunta? Uma pergunta que eu sempre quis fazer?

DEUS: É claro que pode, embora eu já saiba o que você vai perguntar.

EPHRAIM: Qual é o sentido da vida?

DEUS : Quem foi que disse que ela tem que ter um sentido?

[Publicado originalmente em 2006, no meu blogue antigo. Mas, infelizmente, ainda atual]

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Ai de quem escandalizar os pequeninos

— Pai, qual é o motivo dessa guerra?

— Filho, Israel atacou Gaza para que o Hamas pare de atacar Israel.

— Por que o Hamas ataca Israel?

— Porque os palestinos odeiam os judeus.

— E por que os palestinos odeiam os judeus?

— Porque os israelenses  fazem coisas que eles não gostam, como cercar a terra dos palestinos, obrigá-los a ficar em filas e matar alguns deles.

— E agora, com essa guerra, os palestinos deixaram de odiar os judeus?

— Na verdade, acho que eles odeiam mais ainda.

— Mas, então…

— Filho, pare de fazer perguntas, que o papai quer prestar atenção no Jornal Nacional.

Mais uma dica tardia

Tenho a estranha mania de só indicar livros e filmes depois que todo mundo já leu/assistiu.

Por exemplo, só ontem consegui ver Ensaio Sobre a Cegueira, filme dirigido pelo Fernando Meirelles e baseado em um romance do José Saramago, que, aliás, é um quase-blogueiro (explicações aqui).

Ler um livro do Saramago é um dos meus projetos para a aposentadoria. Já ouvi falar sobre todos eles, mas ainda não arranjei tempo para ler. Logo, peguei o filme na locadora pelo Meirelles, um dos meus diretores preferidos, e não pelo Saramago, que, diga-se de passagem, ouvi no Fórum Social Mundial e achei um chatolino de marca maior.

Tratemos do filme: é um soco no estômago.

Assim como Dogville, é uma metáfora da condição humana, que mostra o que nós temos de pior – como se a nossa sociedade fosse colocada diante de um espelho capaz de mostrar detalhes de nós mesmos que antes nos passavam despercebidos.

No filme de Meirelles, uma epidemia de cegueira atinge os habitantes de uma grande cidade. A princípio, os cegos são jogados em um sanatório abandonado e se obrigam a criar uma sociedade própria. Nem é preciso dizer que o pior acontece, pois os seres humanos são sempre seres humanos – mesmo cegos.

Moral da história: estamos tão acostumados à nossa própria cegueira, que não nos damos conta da nossa condição de cegos. A sociedade mostrada no filme não é a de cegos num sanatório; é a nossa.

Uma dica para as três pessoas que ainda não viram o filme: vejam.

O CEO do Wal-Mart Brasil merece uma surra

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Às vezes (no sentido de “quase sempre”), sou tão rabugento que me sinto o próprio Harvey Pekar. Especialmente quando estou numa fila.

Um caso clássico é o da fila da rodoviária. Eu, que sou um brasileiro atípico, só vou à rodoviária quando já sei para onde quero ir, a que horas sai o ônibus e quanto custa a passagem. Logo, o tempo que passo no guichê é mínimo, dependendo da morosidade do atendente.

Mas há pessoas que, diante do referido guichê, parecem não saber a resposta às perguntas “Para onde?” e “Quando?” É tão longo o tempo que demoram para comprar uma passagem, que parece que elas decidem na hora o destino, dado o número de perguntas que fazem para o atendente.

Algumas travam longos diálogos com o vendedor, antes de se decidirem pela compra, e é aí que eu, prestes a ter um ataque cardíaco de raiva, empreendo um esforço kantiano para imaginar que assunto alguém poderia ter com um atendente de rodoviária. Por que diabos conversam tanto, e sobre o quê? Será que são velhos conhecidos que se encontraram por acaso? Por que não vão conversar em casa, liberando o guichê para pessoas que, como eu, realmente querem comprar uma passagem de ônibus?

Um problema ainda mais grave (e, aqui, não sou só eu o estressado, a julgar pela revolta na fila) é o dos supermercados do Grupo WalMart Brasil, proprietário das redes Nacional e Big, entre outras.

Quando estou em Porto Alegre, sempre evito entrar nesses supermercados, pois conheço o atendimento. Mas, quando estou em Gravataí, onde mora a minha namorada, não tenho alternativa a não ser enfrentar as compras no Big. Temos passado horas intermináveis lá dentro, e 90% desse tempo é ocupado com a deliciosa espera na fila do caixa.

Não que não haja caixas no Big. São dezenas, mas a maioria não funciona. Por algum motivo que foge à minha compreensão, o Grupo Wal-Mart acha que contratar pessoal é uma despesa desnecessária. É bem provável que essa seja a razão da diferença de poucos centavos nos preços: gastam menos com mão-de-obra e maltratam o cliente só para poderem dizer que cobram menos.

Além da falta de caixas funcionando, há algum sério problema no esquema de trabalho. A moça do caixa acende aquela luzinha piscante (para chamar a moça dos patins) a cada pagamento efetuado. É incrível! Se ela é chamada sempre, seria mais prático deixar uma moça de patins de plantão ao lado de cada caixa. Ou então substituir as moças dos caixas por moças de patins. Ou a caixa não tem troco, ou há algum problema na maquininha leitora de cartões, ou a rede caiu, ou há divergência entre o valor anunciado na gôndola e o do produto, etc.

Eles até criaram um sistema de “caixa rápido”, para compras de no máximo 30 (!!!) itens. Via de regra, esses caixas são mais demorados que os normais. A fila dá voltas no hipermercado.

Aí, eu acesso o site do grupo (já devidamente linkado, acima) e o slogan no cabeçalho diz: “Wal-Mart Brasil: vendemos por menos para as pessoas viverem melhor”, o que prova que, além do mau atendimento, o humor negro também é um dos pontos fortes da empresa.

Como disse o Kent Brockman no filme dos Simpsons, este blogue não apóia a justiça com as próprias mãos, a menos que dê certo.