Como é difícil ser superior

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Às vezes eu me pergunto se a nossa Evolução foi mesmo uma evolução, no sentido maniqueísta do termo.

Não quero repetir o discurso do Ivalino, que acha que deveríamos viver da agricultura de subsistência, mas sim ir ainda mais longe no passado e questionar se deveríamos ter descido das árvores.

Cá estou eu, um menino que tem dois empregos e faz faculdade, com trabalhos atrasados de 8 cadeiras e apenas uma semana para terminá-los todos. Isso acontece todo semestre e sempre dou um jeito, perdendo noites de sono e comendo compulsivamente pra compensar a ansiedade.

Tudo pra ganhar um diploma, tentar conseguir um emprego “melhor” e ficar vinte anos pagando um financiamento imobiliário, só pra depois procurar um apartamento melhor e mais caro.

A vida passa diante de nossos olhos sem que possamos vivê-la decentemente –  eis o que nos proporcionou a Evolução.

Meu cérebro é um milagre da natureza – e o seu também, leitor. E pra que mesmo eu uso todos os meus fabulosos neurônios e sinapses? Pra pensar em maneiras de sair de um emprego, comer e chegar ao outro emprego em menos de 40 minutos. Ou, então, pra achar um jeito de fazer resenhas sem precisar ler os livros que os professores indicam. E não adianta achar que “depois da formatura vou me aliviar”, porque sei que quando me formar vou achar outra(s) atividade(s) ainda mais massacrante(s) pra ocupar todo o meu tempo.

Depois que desceu das árvores, o homem se tornou caçador e depois conseguiu inventar uma maneira de se alimentar sem precisar caçar, mas em compensação criou os impostos, as filas e os prazos de entrega. Talvez tivesse sido melhor ficar se espichando de galho em galho, comendo bagas e catando piolhos dos semelhantes. Afinal, se não fosse a nossa evolução, haveria muitas florestas vicejantes cheias de macacos gordos e satisfeitos e muitos pastos verdinhos com milhares de ruminantes pastando alegremente – sem nenhuma preocupação maior que fugir de um leopardo de vez em quando.

O calendário, outra invenção do macaco-trabalhador, é um tormento particularmente opressivo. Caso você ainda não tenha percebido, estamos chegando à metade de mais um novembro. Mais um ano acaba e… o que eu fiz de bom? Eu sempre prometo a mim mesmo, todo ano, fazer algo grandioso – e nunca consigo cumprir a promessa. E não vou puxar do bolso aquela maldita modéstia politicamente correta. Eu realmente me considero capaz de grandes coisas, mas vou adiando-as todas só porque preciso pagar as contas.

Alternativas existem, você vai me dizer, e eu vou concordar com você. É possível dizer adeus a tudo isso, viver como andarilho e depois acabar morrendo no Alasca. Ou, então, abrir um bar na praia  e viver mais sossegado. Ou, ainda, aprender a atirar, comprar uma arma e ir ser assaltante em Esteio, RS, onde ninguém fica preso se roubar menos de R$ 300 de cada vez.

Mas… aqui reside a minha hipocrisia: eu optei por esta vida –  e ratifico a minha decisão a cada dia. Apesar dessa merda de rotina, com todos esses prazos, obrigações, contas a pagar e tempo desperdiçado, eu realmente gosto de algumas coisas que a evolução permitiu ao homem fazer.

Renunciar à parte chata e opressiva da vida em sociedade significa dizer adeus àqueles pedacinhos de plástico chamados cartões de crédito e tudo que eles nos permitem fazer e desfrutar. Eu nunca fiz nada grandioso, mas alguns outros espécimes, como Ritchie Blackmore, Douglas Adams e Cameron Crowe, fizeram – e essas obras maravilhosas, que tornam a vida mais suportável, só poderão ser apreciadas por mim se eu tiver dinheiro para comprá-las ou, no mínimo, para pagar a conta do acesso à internet.

Resumindo: talvez seja melhor agüentar a rotina frenética e sem sentido, cheia de atividades maçantes, ouvir boa música, ver bons filmes, ler bons livros nos momentos de folga e esperar para criar coisas grandiosas no ano que vem.

E um viva à Evolução.

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