Brasília: a cara do Brasil

Um dos passatempos preferidos de todo brasileiro é ficar imaginando diferentes maneiras de destruir Brasília, ou pelo menos a sua área administrativa. De marretas a bombas atômicas, passando pela chuva de enxofre, cada um acredita ter encontrado o modo mais eficaz – ou o mais divertido – de acabar com aquela Ilha da Fantasia e resolver de vez os problemas do Brasil.

No imaginário popular, a sede da administração federal – em especial, o Congresso Nacional – é um símbolo do que o nosso país tem de pior.
Um sindicato do crime oprimindo todo um povo, uma maçã podre contaminando o cesto inteiro, uma corja sem a qual tudo funcionaria: sem eles, a saúde e a educação teriam recursos, os bueiros não entupiriam, o sertão viraria mar e a Joelma do Calypso pararia de cantar para se dedicar à jardinagem.

Ao apontar os políticos como culpados pela situação lamentável em que nos encontramos, os acusadores esquecem de fazer a si próprios a seguinte pergunta: de onde vieram esses filhos da puta corruptos? Serão eles alienígenas oriundos do planeta Maracutaia, que um dia aterrisaram nesta terra de ingênuos e implantaram sua cleptocracia? Não terão eles nenhum “parentesco moral” com o povo que representam?

Nem é preciso um grande estudo sociológico (basta observar um pouco as pessoas à nossa volta) para constatar que o político médio brasileiro não é muito diferente do cidadão médio que o elegeu. Brasília é a cara do Brasil. Um povo com alto índice de corruptos só pode gerar um Congresso com alto índice de corruptos. Em maior ou em menor grau, muitíssimos brasileiros praticam atos de corrupção o tempo todo.

Quem não conhece alguém que usa comprovante de endereço falso para receber benefícios a que não tem direito? Isso é um tipo de corrupção (pra não chamar de “roubo”), mas o senso comum decidiu chamar de “esperteza”.

Quem não conhece alguém que põe o nome da mãe como dependente no formulário do Imposto de Renda, para pagar menos à Receita? Corrupção? Não, a culpa é transferida para o Leão do IR, que tem fome demais.

O cobrador de ônibus se engana na contagem do troco e dá dinheiro a mais para o passageiro. No Brasil, quem se dá conta do engano do cobrador e lhe devolve o dinheiro é chamado de “otário”. Ficar com esse dinheiro, que depois será descontado do salário do cobrador, não é corrupção: é “senso de oportunidade.”

Um microônibus com vários menores de idade volta de um passeio. A Polícia Rodoviária o manda parar, numa verificação de rotina, e constata que aqueles menores não têm o bilhete de autorização assinado pelos pais. Logo, eles não podem seguir viagem. O que acontece? Os policiais e o motorista acertam o preço (duzentos reais) e o micro vai embora numa boa. Corruptos e corruptor? Não. São apenas brasileiros normais removendo um obstáculo legal.

Esses dias, quando fui trocar de celular, o vendedor do Ponto Frio usou o seguinte argumento para tentar me vender um seguro para o aparelho: bastaria que eu fosse a uma delegacia e fizesse um boletim de ocorrência (Beó, pros íntimos) mentindo que tinha sido roubado, e o seguro me daria um telefone novo. Aí, eu ficaria com dois. Um grande corruptor investigado pela PF? Não, um trabalhador brasileiro tentando engordar a sua comissão. 

Não inventei nenhum desses casos. Eu vi tudo isso acontecer. No caso do micro e da compra do celular, eu estava lá, observando tudo. Imagino que haja outros milhares de exemplos possíveis. No país regido pela Lei de Gérson, inventar maneiras de se dar bem burlando a lei é algo chamado “criatividade.” Claro que todos esses corruptos cotidianos têm desculpas muito boas para justificar os seus atos, mas os grandes corruptos governamentais também devem conhecer umas justificativas excelentes.

Desde a fundação do Brasil, lá nos tempos de colônia, instaurou-se por aqui uma cultura de patrimonialismo, de clientelismo, de coronelismo. O patrimônio público passou a servir para engordar interesses privados e o descaso do poder com as camadas médias e pobres cristalizou a ideia de que o único caminho é se locupletar também.

Foi Augusto Comte quem disse que “cada povo tem o governo que merece.” No Brasil, a frase cai como uma luva. É por isso que destruir Brasília não resolveria o problema da corrupção. Os políticos corruptos só deixarão de ser regra para se tornar a exceção (e só serão devidamente punidos) quando o “otário” que devolve o troco a mais também deixar de ser exceção para se tornar a regra.

[Publicado originalmente em 2007, no meu blogue antigo]

Esse país precisa de valor agregado

Dia desses eu estava numa sala de espera qualquer, folheando uma revista Isto É do ano passado, e meus olhos se depararam com uma notinha sobre a possível compra de helicópteros russos pela FAB. Em troca dos aparelhos, segundo o texto, o Brasil venderia à Rússia carne de frango e de porco.

É aqui o ponto exato em que a gente aperta stop, volta a fita (lembram do tempo em que se voltava a fita?) e repete o período anterior, para ter certeza de que não houve nenhum engano: em troca dos aparelhos, o Brasil venderia à Rússia carne de frango e de porco.

Vamos usar uma figurinhas, para facilitar a compreensão da coisa toda.

Produto oferecido pela Rússia (uma ex-ditadura-comunista-atrasada-e-falida):

Helicópteros Mi-17 (foto encontrada neste fórum)

Produto oferecido pelo Brasil (se você for vegetariano, feche esta janel… ops, agora você já viu):

Animais mortos (foto tirada daqui)

Qual destes produtos tem mais valor agregado?

O valor agregado, como vocês bem sabem, é matéria-prima + trabalho + tecnologia/know-how. Pode-se vender porcos vivos por um preço X, ou então vender carne de porco in natura por 2X, espetinhos de carne de porco por 3X, pratos chiques à base de carne de porco por 10X, etc.

O trabalho e o conhecimento agregam valor, e quanto mais conhecimento (tecnologia) utilizamos para transformar as coisas, mais qualificado é o nosso trabalho e maior será a nossa recompensa. O que vale mais,  uma tonelada de aço puro ou uma tonelada de aço na forma de geladeiras, fogões e automóveis?

Há nações que se especializaram em agregar valor aos seus produtos. Israel, por exemplo. Eles têm um territoriozinho árido, cheio de pedregulhos e rodeado de vizinhos hostis, mas estão entre os três países que mais registram patentes no mundo. Tudo porque eles não têm mentalidade de jeca, como os nossos dirigentes. Que poderiam fazer lá? Plantar cana-de-açúcar? Criar cabras? Claro que não. Os judeus investiram em alta tecnologia e hoje exportam produtos e know-how para o mundo inteiro.

Dia desses, achei na internet um desses prognósticos de agências de classificação de risco, sobre o futuro da economia. O texto dizia que as maiores potências do mundo, em 2050, serão China, Índia e Brasil, e afirmava que os dois primeiros se destacarão pela indústria, e o Brasil pela produção de alimentos e combustíveis.

O quê? Então, estamos condenados a ser o celeiro do mundo? Enquanto chineses e indianos estiverem produzindo automóveis, aviões e computadores, nós seremos um gigantesco curral? Nosso território será uma descomunal lavoura de cana cultivada por milhões de bóias-frias alegremente engajados na produção de biocombustíveis em escala global?

Não creio em determinismos, mas creio na burrice humana. Nós temos nossas chances e desperdiçamos quase todas – por burrice de uns e má-fé de outros. Há pouco, tivemos a oportunidade de dar um passo à frente, com a questão da TV digital. Nossas universidades e técnicos formaram uma rede de pesquisa integrada, visando a desenvolver um padrão nacional.

O resultado foi um sistema tupiniquim que não chegou a ser concluído mas que seria, segundo os entendidos, o melhor. Na hora de tomar a decisão, entretanto, o governo da companheirada escolheu, por canetaço seu e por pressão das emissoras, o padrão japonês, que é bom para a única coisa que interessa às redes: inserir propaganda/venda direta na programação. Traduzindo: por submissão do governo às redes de TV, jogamos no lixo uma chance de ouro de nos tornarmos exportadores de tecnologia e um pólo de produção de microchips. Pra que produzir microchips, se criar porcos é mais fácil?

Somos mesmo uma República de Bananas. Ou, como disse o Cardoso, nem isso mais podemos ser, pois já fomos passados para trás até no setor primário.

[o post foi atualizado]

O Filho Comunista do Doutor Saraiva

Imagem encontrada em http://www.anica.com.br

Só podia ser praga de brizolista, era o que muitos diziam ao Dr. Saraiva sobre o seu filho. Outros, mais vividos, consolavam o velho dizendo que era tudo fogo de palha, que o rapaz tomaria jeito assim que constituísse família e tivesse obrigações. Mas o Dr. Saraiva não tinha assim tanta certeza quanto ao futuro do seu caçula, nem quanto à origem da esquisitice do menino. Podia até ser de nascença…

Começaram a desconfiar que o Juquinha era meio “diferente” quando ele organizou uma greve de fome no Jardim de Infância, em solidariedade aos metalúrgicos grevistas do ABC. Os revolucionários da “Primavera de Pampers”, como ficou conhecido o movimento, resistiram heroicamente por três horas e meia, até que alguns camaradas começaram a chorar de fome e foram socorridos pelas “tias” com papinhas ou mamadeiras, de acordo com a idade.

Anos depois, enquanto todos os outros meninos colecionavam figurinhas do Zico, do Rummenigge e do Platini, Juquinha montou seu próprio álbum, com fotos roubadas da Barsa do pai: “figurinhas” de Yuri Gagárin, de Mao Tse-tung, de Ho Chi Minh e dos heróis da Revolução Russa.

Muitos colégios tradicionais expulsaram Juquinha, pois em todos eles o garoto criava jornais panfletários atacando a direção e os professores. Na Faculdade, formou-se praticamente sem estudar, pois acumulava funções no Diretório Acadêmico, que chegou a presidir naquela que ficou conhecida como a gestão mais radical desde 68, ou até mais radical que a de 68, segundo alguns.

Graças ao prestígio do Dr. Saraiva, Juca conseguiu vários bons empregos, mas foi demitido de todos eles, por tentar organizar os trabalhadores contra a tirania dos patrões, o que, na prática, serviu apenas para reduzir o círculo de amizades do pai.

O Dr. Saraiva, por fim, entregou os pontos. Juca estava fadado a ser um ninguém, condenado a passar a vida a circular por botequins de intelectuais e reuniões do PC do B. O PC do B! Um ultraje!

Pai e filho cortaram definitivamente relações após as eleições de 2002 (depois, ambos veriam que hoje em dia o “definitivamente” está se tornando um conceito bastante flexível). O motivo do rompimento foi uma carta enviada por Juca logo depois de anunciado o resultado do pleito. A epístola era de uma concisão apavorante: “Saraiva, tens dois meses para sair do país. Em janeiro, o povo baterá à tua porta para cobrar o que tu roubaste. Saudações Marxistas! Juca.”

Não se sabe ao certo o que aconteceu no breve hiato em que o Dr. Saraiva e seu caçula estiveram brigados, mas hoje eles são grandes amigos, pela primeira vez na vida. Juca continua no PC do B, ocupa um cargo de segundo escalão num Ministério que preferimos, por motivos óbvios, não revelar, e vem conseguindo para a empresa do pai lucrativos contratos.

O Dr. Saraiva, ora vejam, está até cogitando filiar-se ao partido do filho…

[Texto publicado originalmente em 2006, no meu blogue antigo]

Seu Adalírio, o Mercado Jacó e as Ecobags

Conheça o senhor Adalírio Holdenbaum:

Proprietário do Mercado Jacó, no bairro Higienópolis, em Porto Alegre, ele é responsável por uma bela iniciativa: a de distribuir gratuitamente, aos clientes mais assíduos, ecobags personalizadas.

As sacolas de pano, costuradas pela esposa do comerciante, custam R$ 4 a unidade. E o Seu Adalírio as dá, de graça, aos fregueses. O Grupo Wal Mart (bem maior e mais rico que o Grupo Jacó) também lançou uma campanha de ecobags (ser “verde” é cool), mas cobra R$ 2 por unidade.

A iniciativa do Seu Jacó Adalírio surgiu após um bate-papo com membros da ONG Amigos da Terra e com clientes de origem estrangeira que iam ao mercadinho portando suas próprias sacolas de pano.

E no Mercado Jacó a preocupação com o meio ambiente vai além das ecobags. Os clientes são admoestados, por avisos na parede, a não embalarem as verduras em sacos individuais. São usados cestinhos como estes:

Na balança, os produtos, depois de pesados, vão todos para o mesmo saco. Com isso, uma média de três a quatro embalagens deixam de ser utilizadas (e depois jogadas fora) a cada compra.

Adalírio Holdenbaum é um homem de visão ecológica, mas também um homem de visão comercial. Desde que a primeira remessa de sacolas de pano, de 300 unidades, foi distribuída, cerca de 40% dos clientes contemplados passaram a usá-las regularmente, o que diminuiu em quase 30% os gastos com a compra de sacolas plásticas.

Além disso, há todo o “capital espiritual” de ser reconhecido como uma empresa verde.

O Mercado Jacó prova que as sacolas ecológicas são muito mais do que uma tendência de socialites que querem parecer conscientes.