O peculiar patriotismo dos brasileiros

Acordei, neste domingo, torcendo para que estivesse chovendo. E estava.

Comemorei dando um soco de júbilo no travesseiro, mas minha alegria só se completou quando recebi, no celular, um torpedo da vice-diretora da minha escola. A mensagem era concisa e animadora: “Desfile cancelado”. Pronto. Aí estava a senha para um lindo domingo de descanso, ainda que chuvoso.

Explicando: eu deveria ter ido a Viamão, RS, município em cuja rede de ensino trabalho, para participar de um desfile cívico (o de 7 de setembro foi transferido devido… ao mau tempo). Se chovesse, não teríamos desfile.

Uma coisa é certa: a chuva foi comemorada por muitos professores e por muitíssimos alunos, todos filhos amantíssimos da Mãe Gentil.

O civismo no Brasil só é visto durante as Copas do Mundo e Olimpíadas, e ainda assim só em caso de vitória (como já disseram, com muita propriedade, Cardoso e Felipe Neto, entre tantos outros). Nos demais dias do ano, o brasileiro médio costuma odiar o seu país. Quem duvida disso deveria ver a farsa que é a “Semana da Pátria” nas nossas escolas públicas.

Nesses cinco dias, costuma-se reunir à força (e falo em “força” no sentido literal) toda a comunidade escolar no pátio central, para “cantar” o hino. As aspas são necessárias porque muito poucos cantam.

Os professores e funcionários não conseguem cantar porque precisam gritar para que os alunos tirem os bonés, fiquem em fila, descruzem os braços, parem de rir de quem tenta cantar, parem de empurrar uns aos outros, parem de gritar “Créééééu!”, etc.

Um dos funcionários não consegue cantar porque precisa ficar o tempo todo aumentando o volume do aparelho de som que executa o hino, para que a cantoria gravada fique mais audível que as risadas dos alunos e os gritos dos professores.

Os alunos também não conseguem cantar, porque estão ocupados colocando os bonés só pra provocar os professores, saindo da fila, cruzando os braços, rindo de quem tenta cantar,  empurrando os colegas, gritando “Créééééu!”, etc.

Uma farsa. De nada adianta fazer essa merda toda, se não for uma manifestação espontânea e/ou sincera . Vivemos no País das Maravilhas, como eu vivo repetindo. Aqui, os únicos que acreditam nas mentiras são os próprios mentirosos.

O mesmo se aplica aos desfiles cívicos. Para arrebanhar o maior número possível de alunos, muitos professores prometem dar um, dois, três, quatro, cinco pontos a quem desfilar. Eu disse CINCO PONTOS a mais na nota, para fazer algo que deveria ser uma expressão de patriotismo. Os diretores também usam certas técnicas de convencimento para que seus professores compareçam: dão um ou até DOIS dias de folga para os membros do corpo docente que participarem do festejo.

Consultados sobre os seus motivos para odiar os desfiles e outras manifestações de apreço ao altaneiro torrão, os professores em geral afirmam que essas cerimônias são “coisas de milico”, “resquícios da ditadura”, “doutrinação ideológica”, etc. Os alunos, menos aptos ao uso rebuscado do vernáculo, dizem que desfilar é “frau”, é “nada-a-ver”, é “chato.”

Quanto a mim, só queria aproveitar um domingo de folga, ainda que chuvoso. Sabem o que aconteceu? Choveu de manhã, o suficiente para que o evento fosse cancelado pela prefeitura. Logo depois, o sol apareceu e não se escondeu mais. A tarde foi L-I-N-D-A em Porto Alegre e arredores (incluindo Viamão), o que prova que São Pedro também não é dado a ufanismos fingidos.

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7 comentários em “O peculiar patriotismo dos brasileiros”

  1. Quando eu era criança eu gostava de desfilar. Não sei aí no Sul, mas aqui em Minas (pelo menos na minha cidade) era um evento municipal os desfiles de 7 de setembro. Quase todo mundo ia, as escolas ensaiavam por até 2 meses e vinha verba extra do Estado pras escolas promoverem os desfiles.

    Era algo bem espontâneo, lembro que eu desfilava até duas vezes (uma vez na minha escola e depois na escola da minha mãe). Mas, hoje, ninguém mais se importa. Ninguém mais vai, os desfiles ficam vazios e nem todas as escolas mais desfilam.

    Eu não acho que desfile de 7 de setembro seja “resquício da ditadura”, acho até que é uma maneira de estudar nossa história e tentar transformar o país numa nação de verdade.

    Hoje, não existe mais valor de Brasil; na verdade, nunca existiu, e ninguém faz nada para mudar isso.

  2. Depois do “AME-O, OU DEXE-O”; “Educação Moral e Cívica”, “OSPB”, da Gloriosa Revolução de 64, que salvou o país do Comunismo; depois que os estudantes apanharam de tudo o que foi jeito, por serem subversivos; que os alunos tinham de marchar como militares, ensaiando durantes três meses, três vezes por semana; retirarem Filosofia e Sociologia do curriculo; o magistério virar uma profissão tão valorizada; a música mais interessante ser o pagode; o programa de televisão ser o BBB; ( poderia ficar aqui desfiando um rol cultural imenso socado garganta abaixo do brasileiro:NOVELAS…) , qual o espaço sobraria para uma reflexão sobre nossa Pátria, Hino Nacional, Civismo ou coisa que o valha?

  3. Acho que o grande problema das comemorações de 7 de setembro é que ninguém mais acredita no que está comemorando. Não somos independentes coisa nenhuma, não acreditamos que nosso futuro será brilhante e temos certeza de que nosso país não nos ajuda em nada.
    O que deveria ser discutido é que um país, seja ele qual for, será sempre o reflexo do seu povo. Se não temos o que comemorar, a culpa é inteiramente nossa.

  4. Olá,

    Patriotismo? Defina por favor, não conheço mais essa palavra. Há anos.

    Veja bem: Se quiser atrair a atenção de seus alunos, e pais. É fácil: Primeiro, durante a aula, informe que quem comparecer ganhará “de graça e grátis” um CD do “MC Qualquer coisa”. Ou, ainda, que após o desfile marcial (tem que ser após, pois se for antes ninguém ficará) terá mulheres frutas.. à vontade.. uma verdadeira salada. Pronto! Pais, Tios, Sogros, Primos (…) todos comparecerão. Até a criançada. Afinal, um CD com Créu(do) deve custar uns 5 reais.. ai faltaria para a pipa e carretéu.

    Abraços,

  5. Eu concordo com a Adriana , nós não temos o que comemorar , um país que é subordinado a nações como os Estados Unidos não pode ser chamado de independente , um país que não valoriza a educação, que exibe corrupção da forma mais descarada possível , não merece comemoração , não temos o que comemorar , mas também acho que a culpa é nossa , que só valorizamos o que vem de fora , independente do que seja : músicas , roupas , filmes . Acho que se nós realmente lutassemos por um país melhor e acreditássemos que isso é possivel , poderíamos conseguir comemorar de forma verdadeira e sincera .

  6. Pingback: Blog do Lucho
  7. hauhauhauhau adorei o texto. Quero é que o brasil vá pra puta que pariu. Aqui so tem analfabeto,funkeiro e ladrão.

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