Minha vida de Mestre

(onde são narrados catorze minutos da rotina diária de um trabalhador da Educação – com nomes fictícios)

Entro na sala. Dou o “bom dia” mais cordial de que sou capaz. Ponho o caderno de chamadas na minha mesa e fico de pé, observando – só observando. Mais da metade da turma parece nem ter notado a minha presença. A balbúrdia duraria a manhã inteira, se os mais puxa-sacos não começassem a gritar: “Senta, senta, o Eduardo taí!”.

 Quando há condições mínimas de me fazer ouvir, sento pra fazer a chamada. Na minha cadeira desenharam um pênis bem grande, e não posso deixar de notar uns sorrisinhos sacanas em alguns rostos, como se fosse uma grande coisa fazer o professor sentar num cacete.

Sempre fui contra as chamadas, pois acredito que as aulas deveriam ser para quem quisesse aprender, mas quem sou eu pra contrariar a Direção, os pais e a Secretaria de Educação? Alguns nomes já estão nessa mesma lista há anos. Muitos vêm à escola só pra ter direito às Bolsas do governo federal, ou para evitar problemas com o Conselho Tutelar. Maldito Conselho Tutelar… Eu queria que um conselheiro tutelar ficasse só uma hora tentando ensinar as Grandes Navegações pra minha sexta série.

Levanto e vou pro quadro. Lá encontro um coração desenhado, enorme, com o texto “Jéssica y Maurício: 100% Amor Eterno”. Amor eterno… Logo a Jéssica, que já amou tanta gente desde o início do trimestre… Mando abrirem os cadernos. Alguns abrem. Tenho que ensinar a essas crianças que os burgueses precisavam de especiarias pra poderem vender carne estragada, aromatizada artificialmente. Eu pretendia também mostrar como desde aquela época os comerciantes fazem de bobos os consumidores; mas não consigo, pois primeiro tenho que mandar o Jéferson parar de chamar o Thiago (com TH) de Dumbo. Ele pára, mas aí tenho que correr pra evitar que a Cíntia e o Jonatan se matem. Que guriazinha insuportável! E o Jonatan é pior ainda. Mando os dois pra Orientação, onde não acontecerá nada com nenhum deles, a menos que desta vez a Orientadora faça algo que não seja passar um sermão inócuo.

Bem, vamos ao conteúdo. Vocês lembram onde os europeus buscavam especiarias? Como ninguém ouviu, peço silêncio e pergunto mais alto. Continuam não ouvindo. Só o Fernando, o nerd da turma, sabe a resposta. Os demais esqueceram, ou então acham que não precisam aprender essas coisas. E talvez tenham razão. Pra que mesmo eu aprendi isso? No fim das contas, só pra passar no vestibular e depois tentar ensinar esse mesmo conteúdo a pessoas que não querem aprendê-lo.

Olho o relógio, com medo do que vou ver. Faltam trinta e um minutos para o recreio. Como o tempo passa devagar na sexta série! Bem, o jeito é apertar o botão de “Foda-se”, dar as costas para a turma, pegar o giz e escrever, escrever, escrever, até que toque o sinal ou que eu morra de exaustão, o que vier primeiro.

[Texto publicado originalmente no meu blogue antigo, em dezembro de 2006. É triste dizer, mas de lá para cá as coisas só pioraram]

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4 comentários em “Minha vida de Mestre”

  1. Cara, é fogo… o pessoal não está nem aí, acha que esse tipo de coisa não faz diferença nenhuma na vida deles, nem percebem que a escola é uma academia para o cérebro. Provavelmente eles não vão precisar saber sobre de onde vieram as especiarias, mas se eles não pararem para começar a ler mais e estudar, vão terminar fazendo “malabaris” no farol ou quando nascem em berço de ouro, sendo filhinhos de papai que ficam o dia inteiro sem fazer p.n. em um emprego QI… sad, but true

  2. Caro colega, já disse a você, pessoalmente que o adimiro por seu conhecimento. Você não pode ser parâmetro para medir seus alunos. Eles estão, definitivamente noutra. Como não vais ser professor ( teu lugar é na redação de um bom jornal, sabesmuito bem disso), não terás a oportunidade de, com a devida experiência, vir achar graça dessa preocupação toda de hoje. Levar na flauta? Não, não é isso, é dar importância apenas àquilo que a merece. Acho que você não nasceu para ser professor. ( Ad maiora natu sum.) Não que a missão do professor seja pequena ou insignificante…

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