Refforma ortographica no ditongo dos outros é refresco

Todo  mundo fala (quase só se fala, pois escrever ninguém mais sabe) na nova reforma ortográfica assinada pelos países lusófonos (eu sempre quis usar essa palavra). O acontecimento é destaque em vários sites e blogues, incluindo o das gurias do Diva Diz, que dá aqueles detalhes que eu tive preguiça de pesquisar…

Hoje, enquanto saboreávamos um delicioso almoço no RU da UFRGS (arroz, feijão, repolho cozido e carne de panela), falávamos nisso e na burrice (ou má-fé) de quem inventa tais modas. Pois a reforma, ao invés de simplificar o já escabroso Português, tornou-o ainda mais assustador.

Por exemplo, os hífens presentes ou ausentes e os ditongos acentuados ou não. Ao invés de padronizar de vez, no sentido de TUDO ACENTUADO/HIFENIZADO x NADA ACENTUADO/HIFENIZADO, apenas mudaram a frágil relação de regras x exceções.

Ah, e os tremas e acentos diferenciais farão muita, muita falta. Sentirei saudades.

Em tempo: quem ainda não viu precisa ver o genial post da Nova Corja que mostra como o presidente Lula “assinou” o acordo. Sim, deveras preconceituoso, mas muito, muito engraçado.

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Religare

Afirmam os religiosos e os filólogos que o termo RELIGIÃO vem de RELIGARE, re-ligar, unir de novo o que foi separado. No caso (e aqui apenas os religiosos continuam especulando, pois os filólogos saíram pra beber e inventar trocadilhos engraçadinhos), trata-se de unir de novo o humano e o divino, o terreno e o celestial, o material e o imaterial, o concreto e o místico. Um belo conceito, devo dizer. Si non è vero, è bene trovato.

Quando crianças, aprendemos que existe um Papai do Céu de barba branca, que usa vestido e ouve tudo que dizemos, vê tudo que fazemos (mesmo quando apagamos a luz do banheiro), conhece de cor o nosso passado e, pasmem, o nosso futuro. Aprendemos que esse Papai do Céu é muito bondoso e compreensivo, mas não hesitará em nos jogar no fogo eterno se ousarmos perder a missa, comer carne na Sexta-feira Santa ou espiar as meninas tomando banho de sol. Sim, um cretino, mas um cretino que dá todas essas ordens para o nosso bem.

Depois que crescemos, ficamos orgulhosíssimos da nossa genialidade ao dizer em alto e bom som que não acreditamos em Deus e que o Altíssimo, seu Filho e toda a Corte Celestial são: a) uma invenção do sistema opressor para alienar as cabecinhas ocas do proletariado e perpetuar a opressão; ou b) uma artimanha deveras lucrativa de um bando de matutos que tiram até o último centavo das pobres viúvas em nome de Deus.

E nós, que desmascaramos os farsantes, somos muito espertos! Não ter espiritualidade é tão cool!

Será?

Sim, instituições religiosas que colaboram para legitimar a exploração do homem pelo homem. É um argumento excelente dizer aos pobres que eles devem suportar o seu sofrimento e, mais que isso, ter orgulho da própria pobreza para merecer a Salvação Eterna.

Sim, instituições religiosas que lucram com a fé e o desespero das pessoas simples de coração. Há padres católicos que vivem como príncipes nababos às custas das doações. Há aviões que sobrevoam o país com malas cheias de dinheiro de ofertas e dízimos pagos a lobos travestidos de pastores.

Mas a nossa investigação do conceito de religião deve ser menos ingênua, mais radical e mais profunda. É perigoso ou pretensioso fazer afirmações universalizantes baseadas em casos particulares.

Para começo de conversa (sim, estamos apenas começando, leitor… mas você terá que ler até o fim se quiser ir para o céu), seria interessante perguntarmos: se a religião é só um mecanismo de controle ou um negócio rentável, por que raios os bilhões de fiéis mordem a isca ao invés de irem fazer um monte de coisas prazerosas e proibidas?

E a resposta, não é novidade, é: porque o homem é mortal.

Em algum lugar da sua caminhada evolutiva (seja ela resultado de um boneco de barro criado por Deus ou produto do egoísmo dos genes), o Homo sapiens deu-se conta da própria mortalidade. E entrou em desespero.

Depois de alguns suicídios (ainda não tinham inventado a Psicanálise e nem a Auto-ajuda), a  Humanidade achou uma “resposta”: o fim da vida passou a ser visto como o começo de uma nova vida: a vida após a morte. O homem, esse egoísta incorrigível, não se conforma com a morte. Ele quer continuar vivendo. De preferência, em um Paraíso com rios de vinho e virgens à disposição. A religião, ao prometer a vida eterna, veio ao encontro dessa necessidade do homem de vencer a morte.

Além disso, o surgimento da racionalidade levou o homem a perguntar não apenas o “como ” ou  o “onde,” mas também o porquê. O senso comum e a “ciência” nascente responderam algumas dessas questões, mas de repente se começou a buscar respostas para o maior porquê de todos: o porquê da Vida, o porquê da Morte, o porquê de Tudo. E isso a Ciência não consegue responder.

A Religião foi apenas uma das respostas para essa pergunta. O místico surgiu como uma tentativa de explicação do que ainda não foi explicado – e talvez nunca venha a ser. O homem passou a supor e depois passou a crer em entidades imateriais, sobrenaturais, divinas. Seres superiores que criaram tudo que existe e que, de vez em quando, interferem no destino das coisas criadas, só de sacanagem. Agradar esses seres tornou-se uma obrigação, para obter a bênção divina. E assim surgiram as preces, as cerimônias, as cosmogonias, as danças rituais e, claro, as guerras santas.

O fenômeno religioso, essa busca por conexão com o imaterial, está presente em todas as culturas. Todos os povos do mundo têm seus deuses, seus orixás, seus kamis, seus cultos, seus karmas. Os marxistas fingem que não participam disso mas adoram o Partido quando ninguém está olhando.

Essas tentativas de religação com o transcendente nem sempre são alienantes ou exploratórias. Pessoalmente, acho linda a religiosidade dos povos indígenas americanos, a sua busca de contato com o cosmo, o culto e o respeito à natureza como forma de comunhão com o universo. É uma manifestação do fenômeno religioso que deriva em uma ética do cuidado e do amor. Algo tão em falta na nossa sociedade decadente e auto-destrutiva, mas que ainda se orgulha da própria auto-suficiência e do próprio ateísmo.

Em tempo: quando preencho algum questionário, respondo “Agnóstico” no campo entitulado “Religião”.

[Post publicado originalmente no meu blogue antigo, em 2007, e trazido à tona pela proximidade da morte do meu querido avô. ]

Aeromóvel: a alternativa esquecida

Imagem encontrada em http://www.aeromovel.com.br/

Comentando meu post sobre a necessidade de criarmos espaços livres de carros nas nossas cidades, a Camomila disse que “falta apenas honestidade. Não vejo nenhum empresário do setor viário dar as caras para oferecer uma boa proposta, nem governo nenhum falar abertamente sobre isso.

No começo da década de 80, em Porto Alegre, um empresário chamado Oskar Coester ofereceu a sua boa proposta: o Aeromóvel (site oficial|Wiki). Ele não apenas propôs, mas construiu um protótipo (o da foto acima) próximo à Usina do Gasômetro, para mostrar ao mundo que “um novo transporte é possível”.

O veículo continua lá, como um monumento à má vontade política. Um quarto de século depois da sua criação, o Aeromóvel só foi levado ligeiramente a sério pelas autoridades de Jakarta, na Indonésia.

Para a Camô, não podemos contar com os empresários na empreitada de construção de um modo de vida sustentável. Concordo, em parte. Cabe aos governos dar ao empresariado a “motivação” necessária, através de legislação e incentivos. E cabe à população (pelo menos, à população pensante) fazer com que essa demanda seja incluída na agenda governamental). Impossível? Nem tanto. Como escreveu certa vez o Cardoso, algumas decisões de alto escalão, como a escolha da vice de John McCain, são inspiradas por Deus por blogueiros insistentes.

O presidente Lula, leitor assíduo do meu humilde blogue, com certeza há de concordar.

CarFree Cities

Imagem encontrada em http://www.carfree.com

Não faltam idéias para melhorar o mundo. O que falta aos mocinhos é hegemonia (e a organização/disciplina necessária para alcançá-la).

Um post recente do Ecoblogs, escrito pelo Rodrigo Barba, trouxe uma dessas idéias: o conceito de CarFree City, ou “cidade sem carros”, apresentado por J. H. Crawford em um livro que pode ser encontrado nas melhores Amazons do ramo.

Realmente, qualquer um que ande pelas ruas das nossas cidades às 7h30min ou às 19h (ou a qualquer hora do dia) percebe que carros e cidades não combinam. O “espaço vital” urbano deveria ser um território livre de carros e conectado por meios mais eficientes – e coletivos –  de transporte. Automóveis em demasia poluem mais, gastam mais combustível,  provocam mais acidentes, geram mais barulho e ocupam mais espaço para transportar menos gente.

É ano de eleição. Que tal enviar o link do site do projeto ao seu vereador/prefeito?

O peculiar patriotismo dos brasileiros

Acordei, neste domingo, torcendo para que estivesse chovendo. E estava.

Comemorei dando um soco de júbilo no travesseiro, mas minha alegria só se completou quando recebi, no celular, um torpedo da vice-diretora da minha escola. A mensagem era concisa e animadora: “Desfile cancelado”. Pronto. Aí estava a senha para um lindo domingo de descanso, ainda que chuvoso.

Explicando: eu deveria ter ido a Viamão, RS, município em cuja rede de ensino trabalho, para participar de um desfile cívico (o de 7 de setembro foi transferido devido… ao mau tempo). Se chovesse, não teríamos desfile.

Uma coisa é certa: a chuva foi comemorada por muitos professores e por muitíssimos alunos, todos filhos amantíssimos da Mãe Gentil.

O civismo no Brasil só é visto durante as Copas do Mundo e Olimpíadas, e ainda assim só em caso de vitória (como já disseram, com muita propriedade, Cardoso e Felipe Neto, entre tantos outros). Nos demais dias do ano, o brasileiro médio costuma odiar o seu país. Quem duvida disso deveria ver a farsa que é a “Semana da Pátria” nas nossas escolas públicas.

Nesses cinco dias, costuma-se reunir à força (e falo em “força” no sentido literal) toda a comunidade escolar no pátio central, para “cantar” o hino. As aspas são necessárias porque muito poucos cantam.

Os professores e funcionários não conseguem cantar porque precisam gritar para que os alunos tirem os bonés, fiquem em fila, descruzem os braços, parem de rir de quem tenta cantar, parem de empurrar uns aos outros, parem de gritar “Créééééu!”, etc.

Um dos funcionários não consegue cantar porque precisa ficar o tempo todo aumentando o volume do aparelho de som que executa o hino, para que a cantoria gravada fique mais audível que as risadas dos alunos e os gritos dos professores.

Os alunos também não conseguem cantar, porque estão ocupados colocando os bonés só pra provocar os professores, saindo da fila, cruzando os braços, rindo de quem tenta cantar,  empurrando os colegas, gritando “Créééééu!”, etc.

Uma farsa. De nada adianta fazer essa merda toda, se não for uma manifestação espontânea e/ou sincera . Vivemos no País das Maravilhas, como eu vivo repetindo. Aqui, os únicos que acreditam nas mentiras são os próprios mentirosos.

O mesmo se aplica aos desfiles cívicos. Para arrebanhar o maior número possível de alunos, muitos professores prometem dar um, dois, três, quatro, cinco pontos a quem desfilar. Eu disse CINCO PONTOS a mais na nota, para fazer algo que deveria ser uma expressão de patriotismo. Os diretores também usam certas técnicas de convencimento para que seus professores compareçam: dão um ou até DOIS dias de folga para os membros do corpo docente que participarem do festejo.

Consultados sobre os seus motivos para odiar os desfiles e outras manifestações de apreço ao altaneiro torrão, os professores em geral afirmam que essas cerimônias são “coisas de milico”, “resquícios da ditadura”, “doutrinação ideológica”, etc. Os alunos, menos aptos ao uso rebuscado do vernáculo, dizem que desfilar é “frau”, é “nada-a-ver”, é “chato.”

Quanto a mim, só queria aproveitar um domingo de folga, ainda que chuvoso. Sabem o que aconteceu? Choveu de manhã, o suficiente para que o evento fosse cancelado pela prefeitura. Logo depois, o sol apareceu e não se escondeu mais. A tarde foi L-I-N-D-A em Porto Alegre e arredores (incluindo Viamão), o que prova que São Pedro também não é dado a ufanismos fingidos.

Simulão do Vestibular Parlamentar

A democracia representativa mostrou-se incapaz de nos arranjar bons governantes. Já está mais do que na hora de sofisticarmos um pouquinho o processo democrático: proponho que os nossos congressistas, uma vez eleitos, só sejam empossados depois de aprovados num Vestibular Parlamentar. E que os reprovados sejam declarados inelegíveis por pelo menos duas eleições.

As perguntas do Exame Parlamentar poderiam ser mais ou menos assim:

(FAÇA A PROVA, LEITOR, E TESTE AS SUAS CHANCES DE CONCORRER A UM CARGO ELETIVO)

1) Quantas pessoas o salário mínimo pode sustentar?
a) Nenhuma.
b) Uma.
c) O que é salário mínimo?
d) Não conheço ninguém que ganhe tão pouco.
e) Quatro pessoas, mas só por um dia.

2) Quando acaba o dinheiro do salário (lá pela segunda semana do mês), que gastos você corta até a entrada do próximo pagamento?
a) Você deixa de comer até o fim do mês.
b) Você passa a ir a pé para o trabalho todos os dias.
c) Você deixa de pagar as contas de água e luz.
d) Você não paga uma das 12 prestações da sua TV de 20”
e) Quem disse que o dinheiro acaba?

3) Quais as opções de vida para um jovem da favela?
a) Ser aviãozinho de traficante.
b) Vender chicletes no sinal vermelho a vida inteira.
c) Estudar, trabalhar e passar a vida ganhando salário mínimo.
d) Fazer um monte de filhos, para ganhar mais dinheiro do Bolsa- Família.
e) Não creio que se possa chamar aquilo de Vida.

4) Quanto tempo o brasileiro precisa trabalhar a cada ano, para pagar os impostos?
a) Cinco meses.
b) Seis meses.
c) Sete meses.
d) Imposto não se paga; sonega-se.
e) Por mim, tanto faz. Eu não trabalho.

5) Por que alguém se torna deputado?
a) Para ser a expressão da vontade do povo.
b) Para ganhar um salário de 13 mil.
c) Para ganhar um salário de 13 mil, mais 3 mil mensais de auxílio-moradia.
d) Para ganhar um salário de 13 mil, 3 mil de auxílio-moradia e mais 4,2 mil mensais para cota de gastos com caixa postal e telefonia..
e) Para ganhar um salário de 13 mil, 3 mil de auxílio-moradia, 4,2 mil mensais para cota de gastos com caixa postale telefonia e passagens aéreas de graça para “visitar as bases”, sem falar da imunidade parlamentar.

6) A quem um congressista deve lealdade?
a) Ao povo.
b) A si mesmo.
c) Ao partido.
d) Aos financiadores da campanha.
e) Ao Capital Transnacional.

7)Qual dessas alternativas apresenta atitudes próprias de um bom congressista?
a) Aprovar gordos aumentos de salário para o Legislativo.
b) Comparecer às sessões e votar projetos que melhorem a vida do povo.
c) Cobrar propinas de empresas que participam de licitações.
d) Usar uma moto-serra para cortar ao meio os desafetos.
e) Participar de surubas pagas com dinheiro público.

8 ) Quantos reais cabem numa bolsa de tamanho médio?
a) Só transporto dólares.
b) Em notas de 100 ou de 50?
c) Está ficando arriscado usar bolsas. Melhor rechear os brinquedos das crianças.
d) Não tenho tanto dinheiro assim.
e) Não trabalho com dinheiro vivo. Favor depositar em minha conta nas Cayman.

9) O que acontece a um ladrão de galinhas que é preso?
a) Vira mulherzinha da cela inteira.
b) É usado como refém e acaba morto numa rebelião de presos.
c) Morre de tuberculose.
d) Aprende a traficar, assaltar bancos, clonar celulares e matar a sangue frio.
e) Por que me preocupar com isso? Eu tenho imunidade.

10) Quanta gente cabe num metro quadrado de ônibus urbano?
a) Quatro pessoas.
b) Oito pessoas.
c) Em horário de pico, infinitas pessoas.
d) Depende do tamanho das pessoas.
e) Não sei, nunca entrei num ônibus.

GABARITO:
Tudo é relativo, dizem os físicos quânticos e os filósofos franceses pós-modernos. Na verdade, os únicos critérios de aprovação no Vestibular Parlamentar são a quantidade e o valor das cédulas de dólar que o pretendente ao cargo grampeia na seção intitulada “Anexos.”

[Texto publicado originalmente em 2006, no meu blogue antigo]

Alguns sintomas da deseducação

O Brasil é mesmo o país das maravilhas. Temos uma educação progressista e libertadora, mas nossos alunos saem da escola na condição de analfabetos.

Para entendermos como é que se faz essa mágica, a de se ensinar sem que se aprenda, imaginemos como seria uma simples ida ao médico, se o bom exemplo das escolas de Ensino Fundamental e Médio (dessas que engordam as entusiasmantes estatísticas) fosse seguido por todas as instituições de ensino, inclusive as faculdades de Medicina.

Numa cidadezinha pacata, no recém-instalado consultório do único médico do município, o paciente aguarda a sua chamada. Trata-se de um desses tipos ligeiramente hipocondríacos, leitores vorazes das bulas de remédio, e que encaram cada tosse atravessada como o prenúncio da Grande Pandemia.

O médico finalmente o chama:

– Sr. Lopes?

– Sou eu, Doutor.

– Pode entrar. Sente-se.

– Obrigado, Doutor. Nossa, como o senhor é jovem…

– Ora, agora a gente se forma bem mais cedo, depois que a Reforma do Ensino cortou a Residência… O que o senhor tem?

– Olha, Doutor, desde ontem que estou com uma tosse seca, e uma pontada nas costas. Será que é pulmão?

– Bem, o senhor vai ter que me desculpar, mas na faculdade eu colei em todas as provas da cadeira de Pneumo. Infelizmente, não posso ajudá-lo nessa área…

– Ah… Bom, mas eu também ando me sentindo meio mal depois do almoço. Umas náuseas, vômitos. O que será, Doutor?

– Ai, Sr. Lopes, nessa área eu também não sou muito forte, pois naquele semestre tinham baixado a média pra cinco, e como a gente fez um trabalho em grupo e eu já tava com cinco e meio na cadeira de Gastro, eu nem quis estudar pra prova, pois com essa nota já tinha passado…

– Tudo bem, a Maria me faz um chá de boldo, então… Doutor, e o que será que é essa descamação que tá começando no meu braço esquerdo?

– Bah, Sr. Lopes… Eu rodei em Dermato, mas como muita gente também repetiu naquele semestre, eles decidiram aprovar os que só tinham sido reprovados nessa cadeira…

– Doutor, o senhor não entende de doença nenhuma? E essas erupções aqui? Elas me aparecem de vez em quando. A Maria diz que é sangue sujo. O que eu posso tomar, Doutor?

– Bem, o senhor me desculpe, mas eu não pude estudar pra prova sobre sangue, e só passei porque o professor deixou fazer com consulta. Acabei não aprendendo nada.

– Olha, Doutor, isso é um absurdo! O senhor não pode atender pacientes num consultório, se não sabe nada de Medicina! Vou agora mesmo ao advogado, saber como posso denunciá-lo!

– Que advogado? O Freitas, do outro lado da rua?

– Esse mesmo!

– Ih, o senhor se deu mal. O Freitas se formou em Direito lá na minha Faculdade. Como ele era um terror e bagunçava muito, os professores o empurraram direto pro último semestre, pra se livrarem dele…

[texto publicado originalmente em 2006, no meu primeiro blogue]

O periscópio e a megalomania

Todos os dias, os motores de busca trazem a este blogue vários internautas sequiosos por informações sobre o periscópio. De acordo com os termos usados nas buscas, eles querem saber “quem inventou o periscópio”, “como funciona o periscópio”, etc.

Por uma questão de respeito com esses pobres náufragos errantes que aqui chegam sem querer, vou tentar dar um fim à angustiante dúvida sobre tão salutar aparelho. Notem que não tenho qualquer qualificação técnica para tanto. Não sou uma autoridade em Óptica ou em Engenharia. Apenas sei duas ou três coisas sobre pesquisa em sites de buscas.

O periscópio teria sido concebido primeiramente pelo russo Drzewiecki, em 1863. Entretanto, o primeiro aparelho de que se tem notícia foi construído só em 1894, pelo italiano Angelo Salmoiraghi. O nome vem do grego periskopein, que significa “ver em volta”.

Todo mundo que assistiu a filmes de submarinos sabe como ele é: um longo tubo que permite, graças a espelhos colocados estrategicamente acima e abaixo, ver coisas num plano acima do nosso campo de visão, mais ou menos como na figura:

Se você clicar aqui, leitor-que-quer-saber-sobre-periscópios, encontrará informações muito mais detalhadas e abalizadas sobre o tema – e até um guia passo-a-passo que ensina como montar o seu próprio periscópio.

Mas o que tudo isso tem a ver com megalomania? Ora, o título deste blogue não foi escolhido por acaso. A analogia com o periscópio significa que eu, o todo-poderoso Editor do site e comandante da embarcação, mostrarei aos leitores coisas que estariam além do seu “campo de visão”. Pretensão? Sim, é claro, mas é justamente isso que traz tanta gente à blogosfera.

Minha vida de Mestre

(onde são narrados catorze minutos da rotina diária de um trabalhador da Educação – com nomes fictícios)

Entro na sala. Dou o “bom dia” mais cordial de que sou capaz. Ponho o caderno de chamadas na minha mesa e fico de pé, observando – só observando. Mais da metade da turma parece nem ter notado a minha presença. A balbúrdia duraria a manhã inteira, se os mais puxa-sacos não começassem a gritar: “Senta, senta, o Eduardo taí!”.

 Quando há condições mínimas de me fazer ouvir, sento pra fazer a chamada. Na minha cadeira desenharam um pênis bem grande, e não posso deixar de notar uns sorrisinhos sacanas em alguns rostos, como se fosse uma grande coisa fazer o professor sentar num cacete.

Sempre fui contra as chamadas, pois acredito que as aulas deveriam ser para quem quisesse aprender, mas quem sou eu pra contrariar a Direção, os pais e a Secretaria de Educação? Alguns nomes já estão nessa mesma lista há anos. Muitos vêm à escola só pra ter direito às Bolsas do governo federal, ou para evitar problemas com o Conselho Tutelar. Maldito Conselho Tutelar… Eu queria que um conselheiro tutelar ficasse só uma hora tentando ensinar as Grandes Navegações pra minha sexta série.

Levanto e vou pro quadro. Lá encontro um coração desenhado, enorme, com o texto “Jéssica y Maurício: 100% Amor Eterno”. Amor eterno… Logo a Jéssica, que já amou tanta gente desde o início do trimestre… Mando abrirem os cadernos. Alguns abrem. Tenho que ensinar a essas crianças que os burgueses precisavam de especiarias pra poderem vender carne estragada, aromatizada artificialmente. Eu pretendia também mostrar como desde aquela época os comerciantes fazem de bobos os consumidores; mas não consigo, pois primeiro tenho que mandar o Jéferson parar de chamar o Thiago (com TH) de Dumbo. Ele pára, mas aí tenho que correr pra evitar que a Cíntia e o Jonatan se matem. Que guriazinha insuportável! E o Jonatan é pior ainda. Mando os dois pra Orientação, onde não acontecerá nada com nenhum deles, a menos que desta vez a Orientadora faça algo que não seja passar um sermão inócuo.

Bem, vamos ao conteúdo. Vocês lembram onde os europeus buscavam especiarias? Como ninguém ouviu, peço silêncio e pergunto mais alto. Continuam não ouvindo. Só o Fernando, o nerd da turma, sabe a resposta. Os demais esqueceram, ou então acham que não precisam aprender essas coisas. E talvez tenham razão. Pra que mesmo eu aprendi isso? No fim das contas, só pra passar no vestibular e depois tentar ensinar esse mesmo conteúdo a pessoas que não querem aprendê-lo.

Olho o relógio, com medo do que vou ver. Faltam trinta e um minutos para o recreio. Como o tempo passa devagar na sexta série! Bem, o jeito é apertar o botão de “Foda-se”, dar as costas para a turma, pegar o giz e escrever, escrever, escrever, até que toque o sinal ou que eu morra de exaustão, o que vier primeiro.

[Texto publicado originalmente no meu blogue antigo, em dezembro de 2006. É triste dizer, mas de lá para cá as coisas só pioraram]