China: um problema do tamanho do mundo

Tenho medo da China. Medo de que os chineses, no afã de desenvolver-se, destruam o mundo inteiro. Pelo menos, o mundo como o conhecemos.

Devo ter dito, em algum outro post, que o Capitalismo puro é um sistema suicida. Já o Capitalismo vermelho dos chineses é um sistema cataclísmico, pois alia a concorrência selvagem das empresas à implacável planificação estatal.

Numa economia planificada, os manda-chuvas traçam metas com anos de antecedência e encarregam executores de cumpri-las a contento. A meritocracia do Partido Comunista Chinês baseia-se nisso. Os burocratas mais destacados são aqueles que executam os planos com mais eficiência e em menos tempo. Por isso há tantos arranha-céus e tantas obras faraônicas erguidas em tempo recorde nas neo-metrópoles chinesas. Por isso também há tanto desrespeito aos trabalhadores e ao meio ambiente. O governo traça seus planos mirabolantes e as companhias ocidentais, sedentas por mão-de-obra barata, entram na dança.

Se a poluição produzida pelo desenvolvimento chinês já um problema agora, o prognóstico fica mais grave quando nos damos conta de que eles estão apenas começando. O quadro vai piorar, e muito. Por enquanto, a China tem sido basicamente uma gigantesca fábrica e não um mercado. Mas eles estão consolidando uma classe consumidora bem maior do que toda a população dos EUA. O que acontecerá quando essa gente toda começar a comprar? De onde virão as matérias-primas e a energia necessárias para produzir tantos bens de consumo? E quanta poluição será gerada ao longo do processo?

O jornalista americano John Promfet escreveu umartigoem que sugere um outro agravante. A população chinesa está envelhecendo rapidamente, graças ao aumento da longevidade e à redução da natalidade (lá, o governo tem a “política do filho único”). Projeções indicam que, até 2050, haverá mais de 300 milhões de chineses acima dos 60 anos. E não há uma Previdência Social decente na China. Com uma baixa taxa de natalidade, quem produzirá riqueza excedente para sustentar os idosos? E, caso o governo decida estimular um aumento da natalidade, imagine o desastre. Incentivar uma população de mais de 1 bilhão de pessoas a procriar à vontade não me parece uma boa idéia, definitivamente.

O problema não é a China querer desenvolver-se, mas sim copiar um modelo de “desenvolvimento” que já provou ser catastrófico. O Capitalismo selvagem e irresponsável é um sistema suicida. A China talvez prove isso. E da pior maneira possível.

O home theater cubano

Dia desses, quando eu voltava para casa de ônibus, a bordo do famoso “Viamão lotado”, um senhor de aparência humilde sentou-se ao meu lado e puxou conversa.

O velho homem estava, segundo me disse, indo a uma loja de aparelhos eletrônicos comprar um cabo para o seu novo home theater. Discorreu, orgulhoso, sobre as virtudes do sistema de som do aparelho, que o faz sentir-se “dentro do filme”, mas admitiu precisar do cabo novo para poder assistir à programação da TV com a mesma qualidade sonora do DVD.

Sabe-se lá por que cargas d’água, a conversa entrou no campo da política, e o meu anônimo companheiro de viagem manifestou a sua veemente desaprovação ao governo federal. Segundo ele, o PT é um partido comunista e seus líderes querem “deixar o Brasil igual a Cuba, onde as pessoas não têm nada.”

É impressionante a força de certas idéias. Gravado a ferro em brasa no inconsciente coletivo das massas, o medo dos comedores-de-criancinhas não desaparece nem depois de todas as demonstrações de ortodoxia econômica dos últimos cinco anos de governo.

Essa mesma ortodoxia permite que velhinhos de Viamão comprem Home theaters, embora eles não saibam disso.