Aquele barro na calçada

Hoje, quem passou pela Rua Luiz Afonso, que corta o bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, percebeu que num dado ponto da calçada havia uma grande quantidade de excremento humano (também conhecido como merda, em algumas regiões).

De onde teria vindo aquilo?

O editor deste blogue, na tentativa de encontrar uma explicação para o fato, ouviu diversas opiniões:

  • Sr. Laurêncio Blota Neto (morador da Cidade Baixa desde 1947): É uma pouca duma vergonha o que essa juventude está fazendo com o bairro. Aquela bosta na calçada é coisa dessa gurizada que vira a noite nesses bares, bebendo, fumando maconha e arrumando confusão. No meu tempo, não aconteciam essas coisas, os jovens sabiam respeitar o que é certo.
  • Pierre-Marie Loisignon (filósofo pós-moderno): A merda em questão é a expressão máxima da pluralidade transnacional e pós-tudo que chegou, finalmente, a Porto Alegre. Por muito tempo reprimida, a mérde está hoje livre para mostrar todo o seu potencial de produto cultural legítimo e representativo da peculiaridade singular e pulsante de quem a ajudou a vir-ao-mundo. A escolha pela calçada não é gratuita: é o lugar privilegiado para que o coproartista libere seus impulsos comunicativos e manifeste toda a sua revolta contra o que chamo, no meu último livro, de sociedade merdática.
  • Nelson Dutra Neves (empresário, neoliberal e filho de ex-torturador): Reclamam do tempo do governo militar, mas naquela época isso não acontecia. Se pegassem alguém fazendo isso, baixavam o pau e depois deixavam um bom tempo na cadeia. Bando de vagabundo que, além de não trabalhar, ainda fica incomodando as pessoas de bem.
  • Luís Fernando Villareal (líder estudantil, sustentado pelos pais): Acho que é um absurdo virem falar disso enquanto outras demandas sociais bem mais urgentes não ganham o devido espaço nesse blogue. Isso é um boicote da imprensa contra o que é realmente relevante pra sociedade como um todo. Cagou na calçada? Tem mais é que cagar mesmo! Pra ver se essa sociedade burguesa acorda e pára de viver no mundo da lua, como se a miséria não estivesse logo ao lado.
  • Maria Luísa Sampaio (representante da ONG Escola de Verdade): Vou repetir o que eu sempre digo, porque nunca me ouvem: a culpa é dos professores! Classezinha ordinária que não trabalha, não se atualiza, usa métodos retrógrados e não tem o mínimo comprometimento com as nossas crianças. Só falta agora virem dizer que foi um adolescente que fez isso e que a culpa é dele. Responsabilizo os professores, que não souberam tornar as aulas interessantes, que não souberam dar amor, que não souberam entender o aluno e prepará-lo pra vida. Basta!
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Um comentário em “Aquele barro na calçada”

  1. a merda, de Hans Magnus Enzensberger

    como sempre ouço falarem dela
    como se a culpa de tudo fosse sua.
    vejam só, quão suave e modesta
    ela toma seu lugarzinho embaixo de nós!
    por que sujamos então
    seu bom nome
    e o concedemos
    ao presidente dos estados unidos,
    aos tiras, à guerra
    e ao capitalismo?

    quão transitória ela é,
    mas como dura
    tudo aquilo que leva seu o seu nome!
    ela, tão condescendente,
    está na ponta da língua,
    se o assunto é exploração.
    ela, que esprememos,
    ainda por cima deve exprimir
    a nossa raiva?

    ela não nos aliviou?
    de consistência mole
    e particularmente não-violenta
    é de todas as obras do homem
    provavelmente a mais pacífica

    o que foi então que ela nos fez?

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