Mais duas ou três coisas em que acredito

O professor Ivalino, leitor deste blogue, comentou um dos textos sobre Educação afirmando que temos que mudar o modo como avaliamos nossos alunos.

Concordo, Iva. Temos que mudar mesmo. Estamos sendo condescendentes demais com a ignorância. Hoje em dia, muitíssimos alunos saem da escola quase tão despreparados quanto entraram.

Eu, que lecionava História e Geografia para 7ª e 8ª séries, tive que desistir de usar os textos dos livros didáticos em sala de aula, por um motivo estarrecedor: os alunos não entendem o que está escrito. Milhões de adolescentes brasileiros chegam ao final do Ensino Fundamental (muitos, do Médio) na condição de analfabetos funcionais, sem saber interpretar ou produzir um texto em nível de 4ª série. Portanto, decidi usar os livros apenas para mostrar as figuras e mapas. Nada de textos. Pra que saber ler, não é mesmo?

E o problema não é apenas nas Ciências Humanas. Na escola onde eu trabalhava, a professora de Matemática da 5ª série sempre passava o primeiro trimestre de cada ano sem poder dar matéria de 5ª série, porque nesse tempo ela ficava ensinando… tabuada! Isso mesmo: conteúdo de SEGUNDA série.

Se a escola decidisse aprovar em todas as séries apenas os alunos que APRENDERAM os conteúdos propostos, mais de 90% seriam reprovados.

Aqui, o Ivalino e outros críticos da escola “tradicional” (como eles dizem), questionarão a necessidade de se ensinar esses conteúdos ao invés de “preparar os alunos para a vida”.

Bem, devemos tomar as coisas como são, e não como deveriam ser. No mundo real, em que vivemos (pelo menos, em que quase todos vivem, com exceção de alguns antropólogos e pedagogos), nesse mundo concreto, a conquista de melhores condições de vida passa necessariamente por vestibulares, concursos públicos e processos seletivos diversos. Para conseguir um bom emprego ou até para escrever uma carta para a namorada, é preciso CONHECIMENTO. Preparar para a vida é ensinar o valor do estudo com afinco. É ensinar que o conhecimento genuíno só se constrói com leitura e reflexão. E com seriedade.

Mas, nestes tristes tempos de supervalorização das estatísticas, os órgãos governamentais não se preocupam com o aprendizado, e sim com o percentual de aprovados.

Viva a hipocrisia.

Anúncios

3 comentários em “Mais duas ou três coisas em que acredito”

  1. Eu acho que o Ivalino queria mostrar outro viés do problema, que eu também defendo: antes de reprovar o aluno, reprovar o professor…
    Você realmente acredita que reprovar aluno resolva? Repetir o ano da mesma forma como o anterior, só com um professor diferente? Às vezes até funciona… mas por que? Porque o professor do ano seguinte talvez seja melhorzinho! Simples assim…
    Tenho três filhos que sempre estudaram na rede pública e não acho justo EU ter tido tanto trabalho para que eles pudessem cursar universidades públicas! Os mesmos professores que davam aula para eles trabalhavam também na rede particular, onde não faltavam e eram obrigados a cumprir o programa. E ainda falavam na cara dura: “Aqui eu falto mesmo! É na escola dos meus filhos que não posso faltar, senão perco a bolsa”.
    No mundo real, pelo menos aqui no Estado de São Paulo, o mesmo professor dá aula na rede particular e vagabundeia na pública.
    Eu ainda acho que você deveria refletir melhor sobre seu excelente texto sobre professoras “cacarejantes”…

  2. Giulia

    Não sei se você percebeu, mas eu não sou um defensor incondicional dos professores. Conheço a classe de perto e sei muito bem que muitos são relapsos.

    Mas sei também que há muitos (I said: MUITOS) professores dedicados que não conseguem trabalhar porque não há condições no ambiente escolar.

    Aponto as falhas dos professores mas também aponto o que lhes prejudica a práxis.

    Pelos seus comentários, vejo que você faz o contrário: você elegeu uma casta de culpados e os responsabiliza por todas as mazelas da Educação. Todas as suas opiniões aqui emitidas passaram por esse filtro, como o das ovelhas da Revolução dos Bichos. Elas baliam “Duas pernas ruim; quatro pernas bom”. Você brada “Aluno bonzinho, professor Malvado!”

    Isso se chama MANIQUEÍSMO e é uma visão de mundo muito perigosa. Assim começam todos os totalitarismos.

    Acho deveras tocante esse seu zelo pelos alunos, mas atacar com tanta raiva uma categoria profissional inteira, como se fosse a única responsável pelo caos das escolas, é um grande equívoco (ou muita mesquinhez).

  3. Concordo, Eduardo, com muita coisa do teu ponto de vista, mesmo porque fomos colegas da mesma escola e conheço teu pensamento. Sempre disse que você é uma exceção: uniu inteligência, boa escola e gosto pelo saber. O difícil é imaginar que, ao menos uma pequena porcentagem, hoje se encaixe nesse tipo. O objetivo dos últimos governos foi colocar 100% dos alunos na sala de aula, achando que isso seria a solução para o problema da educação. Dá para imaginar que foram obrigados a ir para a “chatice do aprender à base de pó-de-giz e saliva” um grande número de alunos? E, que, como eles, que já nada almejam da vida, também nada têm a perder… O que fazer na sala de aula? Infernizar( até por instinto e não conscientemente) a vida dos colegas e professores. Aprende-se aquilo que nos dá prazer, o resta decora-se e perde-se após a porta da sala de aula.
    Quanto ao professor: nas primeiras greves ( 1979 ) imaginei que as coisas iriam começar a mudar: professor valorizado, ensino mais qualificado. Creio que é uma verdade. Professor não pode freqüentar feira de livro, quanto menos livrarias… sem dizer que nos últimos 300 anos só o que mudou deve ter sido ” a cátedra”, o estrado porque o resto é tudo igual. E o magistério? Passou a ser visto como classe de arruaceiros. Vejamos o exemplo atual no RGS. Depois de 13 anos, depois da Justiça ter resolvido a questão obrigando o governo a pagar, o atual governo ( o do novo jeito de governar) espicha mais dois anos e adota esses valores como reajuste deste governo. Isso é ou não é um deboche? E V. quer que alguém ensine e outrem aprenda com um barulho desses?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s