Mais da série “Eu morro e não vejo tudo”

Você percebe o quanto uma ex-celebridade está desesperada com o anonimato ao zapear pela TV no domingo à tarde.

Hoje, foi hilário ver a jornalista (sic) Mônica Veloso no “Qual é a Música”, disputando espaço na telinha com as colegas de equipe: Carla Perez e uma outra que nunca vi na vida.

A propósito, será que o povão lembra por que a Mônica ficou famosa?

Aquele barro na calçada

Hoje, quem passou pela Rua Luiz Afonso, que corta o bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, percebeu que num dado ponto da calçada havia uma grande quantidade de excremento humano (também conhecido como merda, em algumas regiões).

De onde teria vindo aquilo?

O editor deste blogue, na tentativa de encontrar uma explicação para o fato, ouviu diversas opiniões:

  • Sr. Laurêncio Blota Neto (morador da Cidade Baixa desde 1947): É uma pouca duma vergonha o que essa juventude está fazendo com o bairro. Aquela bosta na calçada é coisa dessa gurizada que vira a noite nesses bares, bebendo, fumando maconha e arrumando confusão. No meu tempo, não aconteciam essas coisas, os jovens sabiam respeitar o que é certo.
  • Pierre-Marie Loisignon (filósofo pós-moderno): A merda em questão é a expressão máxima da pluralidade transnacional e pós-tudo que chegou, finalmente, a Porto Alegre. Por muito tempo reprimida, a mérde está hoje livre para mostrar todo o seu potencial de produto cultural legítimo e representativo da peculiaridade singular e pulsante de quem a ajudou a vir-ao-mundo. A escolha pela calçada não é gratuita: é o lugar privilegiado para que o coproartista libere seus impulsos comunicativos e manifeste toda a sua revolta contra o que chamo, no meu último livro, de sociedade merdática.
  • Nelson Dutra Neves (empresário, neoliberal e filho de ex-torturador): Reclamam do tempo do governo militar, mas naquela época isso não acontecia. Se pegassem alguém fazendo isso, baixavam o pau e depois deixavam um bom tempo na cadeia. Bando de vagabundo que, além de não trabalhar, ainda fica incomodando as pessoas de bem.
  • Luís Fernando Villareal (líder estudantil, sustentado pelos pais): Acho que é um absurdo virem falar disso enquanto outras demandas sociais bem mais urgentes não ganham o devido espaço nesse blogue. Isso é um boicote da imprensa contra o que é realmente relevante pra sociedade como um todo. Cagou na calçada? Tem mais é que cagar mesmo! Pra ver se essa sociedade burguesa acorda e pára de viver no mundo da lua, como se a miséria não estivesse logo ao lado.
  • Maria Luísa Sampaio (representante da ONG Escola de Verdade): Vou repetir o que eu sempre digo, porque nunca me ouvem: a culpa é dos professores! Classezinha ordinária que não trabalha, não se atualiza, usa métodos retrógrados e não tem o mínimo comprometimento com as nossas crianças. Só falta agora virem dizer que foi um adolescente que fez isso e que a culpa é dele. Responsabilizo os professores, que não souberam tornar as aulas interessantes, que não souberam dar amor, que não souberam entender o aluno e prepará-lo pra vida. Basta!

Sobre reciclagem, fomento e desenvolvimento

O leitor Marcelo apresentou a seguinte crítica ao post “Da série: Idéias que poderiam mudar o mundo“:

Não adianta induzir o fomento apenas da industria da reciclagem. Mas sim da economia como um todo, a industria da reciclagem é pequena, incipiente, incapaz de conseguir empregar a enorme massa de desempregados do Brasil.

Precisamos de crescimento econômico e melhores condições sociais como um todo…

Marcelo, a “indústria de reciclagem é pequena” AGORA.

No post propus que uma lei OBRIGUE as indústrias a comprarem matérias-primas recicladas.

Outra lei, inclusive, poderia obrigar os municípios a reciclarem 100% do seu lixo.

Você já reparou na quantidade de lixo produzido por uma grande cidade? É algo monstruoso. Recolher e separar todo esse material empregaria muita gente. Muita mesmo.
E isso acabaria aquecendo toda a economia, pois os trabalhadores das cooperativas iriam consumir mais, o que demandaria maior produção industrial, e assim por diante.

“Induzir o fomento da indústria como um todo”, como você diz, é algo mais difuso e complicado. A reciclagem e comercialização de TODO o lixo produzido nas cidades pelo menos nos dá uma base por onde começar, podendo partir de um projeto de lei que criasse a demanda, como exposto no meu post.

Mais duas ou três coisas em que acredito

O professor Ivalino, leitor deste blogue, comentou um dos textos sobre Educação afirmando que temos que mudar o modo como avaliamos nossos alunos.

Concordo, Iva. Temos que mudar mesmo. Estamos sendo condescendentes demais com a ignorância. Hoje em dia, muitíssimos alunos saem da escola quase tão despreparados quanto entraram.

Eu, que lecionava História e Geografia para 7ª e 8ª séries, tive que desistir de usar os textos dos livros didáticos em sala de aula, por um motivo estarrecedor: os alunos não entendem o que está escrito. Milhões de adolescentes brasileiros chegam ao final do Ensino Fundamental (muitos, do Médio) na condição de analfabetos funcionais, sem saber interpretar ou produzir um texto em nível de 4ª série. Portanto, decidi usar os livros apenas para mostrar as figuras e mapas. Nada de textos. Pra que saber ler, não é mesmo?

E o problema não é apenas nas Ciências Humanas. Na escola onde eu trabalhava, a professora de Matemática da 5ª série sempre passava o primeiro trimestre de cada ano sem poder dar matéria de 5ª série, porque nesse tempo ela ficava ensinando… tabuada! Isso mesmo: conteúdo de SEGUNDA série.

Se a escola decidisse aprovar em todas as séries apenas os alunos que APRENDERAM os conteúdos propostos, mais de 90% seriam reprovados.

Aqui, o Ivalino e outros críticos da escola “tradicional” (como eles dizem), questionarão a necessidade de se ensinar esses conteúdos ao invés de “preparar os alunos para a vida”.

Bem, devemos tomar as coisas como são, e não como deveriam ser. No mundo real, em que vivemos (pelo menos, em que quase todos vivem, com exceção de alguns antropólogos e pedagogos), nesse mundo concreto, a conquista de melhores condições de vida passa necessariamente por vestibulares, concursos públicos e processos seletivos diversos. Para conseguir um bom emprego ou até para escrever uma carta para a namorada, é preciso CONHECIMENTO. Preparar para a vida é ensinar o valor do estudo com afinco. É ensinar que o conhecimento genuíno só se constrói com leitura e reflexão. E com seriedade.

Mas, nestes tristes tempos de supervalorização das estatísticas, os órgãos governamentais não se preocupam com o aprendizado, e sim com o percentual de aprovados.

Viva a hipocrisia.

Da série “Idéias que poderiam mudar o mundo”

Ontem, um cara veio me pedir dinheiro na rua.

Todo morador de cidade grande passa por situações semelhantes quase todos os dias. Via de regra, contamos aos pedintes sempre a mesma mentira: que não temos dinheiro.

Nos justificamos dizendo que não trabalhamos para sustentar o vício dos cachaceiros, que temos que “correr atrás” e ninguém nos ajuda, que dar esmolas apenas cria dependência e não resolve o problema.

Mas, então, o que resolve o problema, pelamordedeus?

Dar esmolas, realmente, não adianta. É como oferecer um band-aid a alguém que sofreu queimaduras de terceiro grau em 50% do corpo.

Dar trabalho é uma boa ação ao alcance de poucos. Você tem condições de empregar algum desvalido? Eu não tenho.

Exigir que o governo conceda Bolsas Famílias e outros que tais não me parece um bom negócio… soa como uma espécie de esmola institucional.

A melhor solução estaria naquela máxima evangélica: “Não dê o peixe; ensine a pescar”. Ou seja: ao invés da esmola que humilha, dar o emprego que dignifica. Mas será possível criar empregos artificialmente? O sacrossanto mercado tem espaço para todas as pessoas com idade para participar dele?

Teria, se fossem criadas condições para isso. Por exemplo, se o governo obrigasse TODAS as empresas manufatureiras a utilizar uma porcentagem X de matérias-primas recicladas… Imagine a quantidade de papéis, plásticos, metais e outros insumos que seriam reaproveitados. Imagine cooperativas municipais de reciclagem, tirando das ruas, dos aterros e dos riachos toneladas e toneladas de lixo para serem vendidas a compradores garantidos.

Quantos empregos isso geraria? Quanta economia para a indústria? Quantos anos de sobrevida a humanidade ganharia com tal faxina no meio ambiente?

Aqui, chegamos à fronteira entre o sonho e a realidade. Quem apresentará tal projeto de lei? Alguém aí é deputado ou senador? Eu não sou. Farei, então, o que está ao meu alcance: mandarei e-mails ao maior número possível de congressistas, na esperança de que um deles acredite nessa idéia.

Sei que isso parece demasiado utópico, mas é bem melhor do que simplesmente dizer aos pedintes que não tenho moedinhas e depois voltar para casa para dormir o sono dos justos.

O típico post de domingo

Quem imaginaria que um dia um filme do 007 teria uma canção de abertura tão espetacular?

Está lá, nos primeiros minutos de Casino Royale, uma espécie de “James Bond Begins” que apresenta o 007 mais macho de todos os tempos, encarnado por Daniel Craig.

A música, You Know My Name, é assinada por Chris Cornell, que, apesar do bigodinho de bicheiro, é o melhor dos cantores em atividade, na opinião do editor deste blogue:

Mais sobre o desmonte da escola pública

A prefeitura do município onde trabalho deixou bem claro que lá a Educação é uma questão de grana.

Ano passado, o então secretário de Educação (que também era e é vice-prefeito) exigiu que as escolas reduzissem o índice de reprovação, porque o fracasso escolar gera despesas para o município, que tem que dar escola por mais tempo aos repetentes. Isso mesmo. A justificativa não foi sequer a necessidade de melhoria do aprendizado, o compromisso com os alunos, etc. Assumiram, no maior caradurismo, que encaram a escola como um negócio COM fins lucrativos.

Obrigaram as escolas a aprovar alunos que precisavam de mais de 30 pontos em Matemática e/ou Português, e neste ano comemoraram a diminuição do número de alunos reprovados. Sim, uma piada. Todos sabem que a melhoria no índice foi obtida por canetaço, às custas da aprovação artificial de alunos sem as mínimas condições de avanço.

Calma, leitor. Tudo sempre piora.

Durante as últimas férias de verão, o prefeito baixou o seguinte decreto: escolas com menos de 300 alunos não terão mais secretário, bibliotecário, vice-direção, supervisão e poderão ter no máximo UM servente para cuidar da limpeza e merenda. A justificativa é que “em escolas pequenas esses profissionais não são necessários porque a direção e os professores podem dar conta do recado.”

A próxima medida talvez seja demitir todos os professores e entregar a Educação aos Amigos da Escola.

Caso de polícia é tratado como brincadeira de criança

O que você faria se alguém ameaçasse matar você, e estivesse falando sério?

Nesta semana, um aluno da rede municipal de um certo município gaúcho (estudante que tem 16 anos e está no Ensino Fundamental, turma matinal) prometeu matar uma professora de Português. O que fez ela para merecer a morte? Exigiu que o aluno tivesse uma postura respeitosa e se empenhasse nos estudos.

O caso foi levado à Secretaria de Educação do referido município. Qual foi a orientação dada pela Intelligentsia educacional? Mandaram prender o quase- bandido? Encaminharam-no para o Conselho Tutelar? Prometeram transferi-lo para outra escola? Procuraram os seus pais ou responsáveis para informar que eles criaram um assassino?

Não.

Os sábios tecnocratas disseram que se deve resolver a questão tomando-se as seguintes medidas:

1) A professora deve chamar o assassino em potencial para uma conversa reservada.

2) Se isso não funcionar, a equipe diretiva da escola deve conversar com ele.

3) Se nem isso adiantar, o Conselho Escolar deve ter uma conversinha com o bom rapaz.

Nesse meio-tempo, ele terá todas as oportunidades do mundo para cumprir a promessa que fez.

Detalhe: na semana passada, um professor do mesmo município foi executado com cinco tiros quando chegava em casa. Há rumores de que os assassinos são dois de seus alunos do período noturno.

Em tempo: A Intelligentsia dessa secretaria de Educação encontrou uma maneira genial de resolver os problemas sociais do município. A partir de agora, os professores estão PROIBIDOS de dizer que os seus alunos vêm de famílias desestruturadas. A nova nomenclatura oficial é “famílias com cultura diferenciada”.

Por essas e por outras é que a Educação no Brasil está essa merda (com o perdão dos moralistas): ao invés de atacar os problemas de frente, inventam-se outros nomes para eles.