Diálogo familiar dominical

— Pai, por que todo mundo odeia Cuba?

— Filho, Cuba é uma ditadura socialista falida, economicamente atrasada. Lá, as pessoas não podem ter carro, não podem dizer o que pensam, não podem ver programas de TV que prestem e não podem sair do país.

— E nós, podemos fazer tudo isso?

— Claro, vivemos em um país livre.

— Então, por que nunca saímos do país?

— Ahn, bem… É que pra viajar pro Exterior é preciso ter bastante dinheiro. E nós não temos.

— Ahhh. Também foi por não ter dinheiro que o senhor precisou vender o carro, né?

— Filho, fica quietinho que o papai quer ouvir o que o Faustão tá dizendo.

— O senhor não disse que aqui a gente pode dizer o que pensa?

O melhor emprego do mundo

Quando crescer, eu quero ser reitor da UnB.

Parece não haver emprego melhor que o de Sir Timothy Mulholland. Depois de ganhar uma reforma de R$ 470 mil no ap, com direito a saca-rolhas de mais de R$ 800, agora se descobre que o homem recebeu de presente, daquela mesma fundação de amparo à “pesquisa”, um carro de R$ 72 mil.

Não sei por que ninguém tinha percebido antes, mas o cargo parece ser uma espécie de sultanato. No gabinete do reitor deve haver até um divã para Sua Magnificência deitar e ser abanado por escravas núbias enquanto despacha. Tudo isso (divã, escravas e etc) pago com dinheiro da Finatec, que, por sua vez, vive da mesada recebida de um monte de instituições, entre elas a própria UnB.

Isso é que eu chamo de Afundação de pesquisa…

Certos conceitos contratualistas

Você já parou para se perguntar quem ou o que garante que as suas coisas sejam suas e de mais ninguém? A quem cabe impedir que outras pessoas tomem o que é seu?

No estado da propriedade, no qual se encontram certas sociedades avançadas, o direito de propriedade é assegurado e protegido pelo Estado e o que ele representa. Ou seja, o governo é que impede que outras pessoas roubem suas coisas e ainda se encarrega de punir duramente quem ousar fazê-lo.

Já no estado da posse, bem mais primitivo, alguém só possui algo enquanto tiver poder de coação – física ou moral – para repelir as investidas dos salteadores. Nesse estágio, o que é seu só é seu enquanto você for mais forte ou astuto que os assaltantes, pois não há Estado para garantir a sua segurança.

Deve ser horrível viver num lugar assim, não é?

Pergunte a qualquer brasileiro e ele dirá a você como é.

A Idade Média, quem diria, é logo ali

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Uma das coisas mais assustadoramente fantásticas do filme Extermínio (28 Days Later), do Danny Boyle, é o modo como a nossa dependência da tecnologia é evidenciada.

Na trama (para os poucos que ainda não conhecem a sinopse), um vírus modificado da raiva dizima a população do Reino Unido em poucos dias. Não sobra ninguém para operar as centrais energéticas ou os meios de transporte e comunicações, e isso reduz o tamanho do mundo à capacidade dos olhos e das pernas de cada um. Ou seja: se tal hecatombe acontecesse, nossos “horizontes”, que hoje são planetários, voltariam a ser locais (e por “local” entenda-se “até onde conseguimos enxergar a olho nu ou até onde podemos caminhar”).

Em Extermínio, a Grã-Bretanha fica absurdamente isolada do mundo, a ponto de os personagens acreditarem que toda a humanidade foi exterminada pelo vírus.

Estamos tão acostumados à tecnologia que esquecemos o quanto dependemos dela para manter o nosso estilo de vida. Aliás, o nosso estilo de vida só existe por causa da tecnologia, e depende absurdamente dos meios de transporte e comunicações, que, por sua vez, só funcionam se houver energia.

Isso é assombroso: saber que, em termos práticos, a fronteira entre a pós-modernidade e a Idade Média é tão tênue. Saber que, se todas as centrais energéticas do mundo fossem permanentemente inutilizadas, a Humanidade passaria, em pouco tempo, a ter condições de vida muito semelhantes às de mil anos atrás, com a diferença de que nós, ao contrário dos medievos, saberíamos a falta que estariam fazendo  os aviões, os carros, os computadores, a TV e o chuveiro elétrico…

Prometo nunca mais reclamar do valor da conta de luz.

Ode aos nerds

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O post “Terapia nerd”, publicado anteontem, pode ter causado uma má impressão entre os meus cinco leitores. Caso alguém tenha considerado ofensivo o uso que fiz do termo “nerd”, quero desde já dizer que nada tenho contra os nerds. Pelo contrário, tenho tudo a favor!

Amo os nerds e preciso deles. Muito. Por exemplo, eu não faço idéia de como este texto chegou até o seu monitor, leitor. Tudo que sei é que tive que digitar as palavras, clicar em “Publicar” e esperar que o milagre acontecesse por obra de mecanismos alheios à minha compreensão. Para mim, o interior desta caixa ronronante (que um dia um nerd batizou de “CPU”**) é um mundo mágico e misterioso onde duendes correm para lá e para cá carregando algarismos 0 ou 1 nas costas, enquanto incontáveis escravos chamados transístores remam ritmados, não porque gostem de remar, mas sim porque um feitor armado de chicote os fustiga aos gritos de “Remem, seus molóides!”, já que é preciso atingir a velocidade contratual de sei-lá-quantos-megahertz.

Portanto, quando estou inocentemente usando o meu computador e a tela é subitamente invadida por uma mensagem cretina como “este programa executou uma operação ilegal e será fechado”, e eu perco horas de trabalho, além do acesso a todos os meus arquivos, o que me resta fazer? A única coisa que uma pessoa sensata faria: verificar se há algum nerd online no MSN e pedir-lhe ajuda. A boa notícia é que os nerds estão sempre online. Tanto no MSN quanto em outra dúzia de programas de bate-papo.

Você já viu um nerd tentando resolver algum problema em um computador? É fascinante. Fascinante e assombroso. Eles acessam mil pastas e arquivos de cuja existência você, que é o dono do computador, sequer suspeitava, digitam mil comandos que sabem de cor e não se intimidam com as ameaças e bravatas do seu sistema operacional. Quando surge um problema que eles desconhecem, eles não fazem o que você faria (bater com a cabeça no teclado); eles procuram a saída na internet, em fóruns virtuais onde nerds de todo o mundo trocam tutoriais e dicas sobre a instalação da versão 4.34.1 do MegaXZWare Turbo. Assim, você descobre, não sem espanto, o que os nerds já sabem: que não há falha operacional que algum nerd já não tenha resolvido e divulgado.

Logo, o que torna os nerds especiais é que eles realmente entendem como funcionam os computadores, tanto no plano do software quanto no do harware. Eles são a classe mais importante do mundo! Se eles cruzassem os braços e decidissem parar de “mexer com computadores”, a humanidade como a conhecemos seria extinta! Mas relaxe, isso nunca vai acontecer. Não porque eles sejam bonzinhos, mas porque eles não conseguem ficar longe do computador.

Então, por que raios os nerds são tão maltratados e discriminados? Por que gozam tanto com a cara deles? Por que o simples uso do termo “nerd” tornou-se ofensivo? A imagem arquetípica e preconceituosa de um nerd é a de um cara magro demais ou gordo demais, pálido demais, que usa óculos de aros grossos demais, nunca sai de casa e só tem amigos virtuais. Ele nunca fez sexo fora do Second Life mas, em compensação, sabe de cor os nomes de todos os atores que já participaram de Star Trek e levou apenas dois dias para virar o jogo Super Mario versus Predador, que ainda não foi lançado mas que ele já conseguiu no câmbio negro. Em suma, os nerds são geralmente considerados párias desprezíveis, a quem só dirigimos a palavra quando precisamos de ajuda para atualizar o anti-vírus.

Recentemente, um nerd com o incomum talento para relações públicas cunhou o termo “geek”, para definir uma nova classe de pessoas que, a despeito de saberem tudo de informática e seriados bizarros, têm uma assim chamada “vida social”.

Então, há agora nerds que são chamados de “nerds” e nerds que são chamados de “geeks”. Ao que tudo indica, a única diferença entre um tipo e outro é que o geek é um nerd que tem uma namorada de carne e osso (uma também nerd que ele conheceu em uma convenção de trekkers ou naquela lojinha de hardware de segunda mão que só eles sabem onde fica, cujo proprietário é outro nerd). Os geeks também parecem gostar de festas, mas festas geeks, onde centenas de nerds com camisetas do Radiohead tentam dançar ao som de Indie Rock e ficam contando piadas como a do cara que garante que o seu mouse rouba queijo da geladeira.

Em todo o caso, os nerds, qualquer que seja o termo que usemos para nomeá-los, são pessoas admiráveis e fascinantes, das quais muito precisamos para continuar vivendo. Um viva a todos eles.

 

 

** Adendo tardio: um amigo nerd acaba de informar que o termo CPU refere-se apenas ao processador (aquele barquinho onde os pobres transístores remam), e não à caixa inteira. Eis mais uma prova do total desconhecimento de informática por parte dos não-nerds… Passei anos e anos ouvindo as pessoas dizerem que a CPU era a caixa inteira.

As Lixeiras do Senhor Reitor

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Não, o cara da foto não é Sir Timothy Mulholland, o reitor da UnB.

De repente, Mulholland ganhou destaque nos noticiários, graças à pequena reforma empreendida no apartamentinho (uma cobertura) que lhe é destinado na Universidade, obrinha que custou, de acordo com o Ministério Público, mais de R$ 470 mil. Tudo pago pela Finatec, uma fundação de amparo à pesquisa que, segundo parece, está realizando um estudo sobre tendências em decoração de interiores.

Para quem ainda não sabe, a grana foi empregada em coisas como um saca-rolhas de R$ 859 e três lixeiras de quase R$ 1 mil cada. E o Senhor Reitor teve a cara de pau de dizer que o gasto é justificado pela necessidade de se seguir “uma linha estética” na reforma da sua penthouse, e que não há qualquer problema legal ou ético nisso (para ver a entrevista do cara, clique aqui).

Ocorre que a UnB deu à Finatec quase R$ 30 milhões nos últimos seis anos, e tem gente achando que esse dinheiro não foi todo gasto em pesquisa. Aí está o problema legal, Sir Mulholland.

O problema ético, nem seria preciso mencionar, está no fato de esse saca-rolhas ou qualquer uma dessas lixeiras custarem mais de duas vezes o salário de boa parte da população.

Como não disse Charles DeGaulle, “o Brasil não é um país sério”.