A Dança da Morte

morte.jpg

Em pleno clima de euforia com o novo ano que se inicia, tenho algo bem sério para dizer: só estamos vivos por milagre.

OK, mesmo excluindo da discussão o fato de que habitamos uma pedra gigante que gira a milhares de quilômetros por hora em torno de uma bola de fogo, rodeada por um vácuo de 270 graus negativos de temperatura, e que estamos constantemente sujeitos ao ataque de pedras menores que voam por aí ao sabor da gravidade, mesmo assim as coisas estão feias para o nosso lado.

Há raios que caem aqui e ali. Você já tomou um choque de 110 volts? Eu falo de descargas elétricas de alguns milhões de volts, que podem dar um chicotada mortal no primeiro transeunte desavisado. Há mais coisas caindo das nuvens, como pedras de granizo, algumas bem grandes. Há também socialites ligeiramente cocainadas que, do alto de suas coberturas de luxo, jogam ovos podres nas cabeças dos plebeus que caminham na calçada. O que as impede de jogar melancias? Outras coisas também costumam cair, como aviões, prédios, pontes e marquises. Ah, as marquises. Você já reparou nas marquises? Não parece um milagre que elas não caiam?

Voltando à nossa pedra gigante que gira em torno de uma bola de fogo, ela não é uma pedra maciça e nem inteiriça. Ela tem gomos como uma bola de futebol, e o seu interior é feito de rocha derretida. Derreter manteiga é fácil, mas você já tentou derreter uma pedra? Imagine a temperatura. Sim, é uma sopa-creme de pedra aquecida a até 1250 graus. E estamos falando de graus Celsius, não Farenheit. Essa rocha derretida tenta, de vez em quando, sair por entre as frestas dos gomos tectônicos, e aí você sabe o que acontece. Em 1943, uma fenda fumegante surgiu numa plantação de milho do México. Uma semana depois, ela tinha se tornado um vulcão de mais de 150 metros de altura. Tenha muito cuidado quando aparecer uma rachadura no seu jardim. Ou quando for veranear à beira-mar. Às vezes os movimentos das placas tectônicas produzem ondas de dezenas de metros. Isso quer dizer que uma parede de água pode arrancar o seu guarda-sol da areia sem mais nem menos — e levar a cidade inteira junto.

Nosso planeta também é cheio de formas de vida que tentam tirar a vida de outros seres. Há bactérias, vírus, protozoários, fungos, vegetais, artrópodes, répteis, anfíbios, peixes e mamíferos que podem matar, e os mais perigosos de todos são aqueles mamíferos que chamam a si próprios de humanos. Eles são os únicos seres vivos que não precisam de um bom motivo para matar outros seres vivos, e a má notícia é que eles estão por toda parte.

Numa certa noite, há alguns anos, um rapaz caminhava por uma rua do bairro Santana, em Porto Alegre, quando outro rapaz começou a persegui-lo com uma faca. Ele foi alcançado e morto a facadas. Mais tarde, soube-se que o assassino tinha levado um fora da namorada e por isso matou o primeiro cara que passou na rua. Há pessoas que matam por motivos ainda mais “nobres”, como para roubar um par de tênis ou por causa da derrota de uma equipe de 11 caras que corriam atrás de um pedaço de couro. Ou então matam alguém só porque esse alguém arranhou o pára-choques do seu carro, mesmo que tenha sido sem querer.

Isso me lembra que também há humanos que matam sem querer.

Há humanos que conduzem montanhas de aço de 40 toneladas a 100 km/h, e de vez em quando eles perdem o controle do veículo e matam uma família inteira. Às vezes esses humanos consomem substâncias entorpecentes que tornam mais fácil o ato de matar outros humanos por engano.

Há pessoas que controlam a produção de fábricas inteiras de alimentos, bebidas ou remédios, e às vezes elas podem errar na dosagem de alguma substância e envenenar um lote inteiro de algum medicamento ou de algum tipo de comida. Nada impede que um louco consiga um emprego desses e decida colocar veneno na barra de cereais que você come ou, o que é pior, na que EU como.

Por falar em envenenar, há também humanos que fumam perto de outros humanos que não fumam, levando-os a fumar também de maneira involuntária. Como se não bastasse encherem os próprios pulmões de fumaça tóxica, eles precisam encher os pulmões dos outros também. Eles são assassinos, ainda que involuntários, embora ninguém os chame assim.

Alguns desses assassinos constroem máquinas para encher os pulmões dos outros de fumaça tóxica. Essas máquinas são identificadas pelas suas chaminés e pelos seus canos de descarga, e elas também estão por toda parte. Dizem que essas máquinas de matar estão alterando o clima do planeta. Pensadores como James Lovelock estimam que essas alterações climáticas levarão à morte de 6 bilhões de pessoas neste século. E você chamava Hitler de genocida?

Eu ainda não falei nos genocidas que fabricam máquinas de matar chamadas bombas, bombardeiros e correlatos, nem nos genocidas que ordenam que essas máquinas sejam usadas, nem nos genocidas que votam neles.

Você conhece algum paranóico? Seja quem for, ele tem razão. Tudo conspira contra nós. Estamos sempre com a vida por um fio. Andamos na corda bamba 24 horas por dia, pois há sempre um fator de morte na iminência de nos afetar. Por isso, se você se acha azarado, saiba que você tem muita sorte por ter chegado a essa idade com vida.

Moral da história: vamos tomar mais um chope e parar de pensar nisso. É a única maneira de não enlouquecer.

Anúncios

4 comentários em “A Dança da Morte”

  1. Não sei porque mas a primeira coisa que lembrei ao ler o post foi:

    Nós vamos morrer, e isso nos torna afortunados. A maioria das pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai nascer. As pessoas potenciais que poderiam estar no meu lugar, mas que jamais verão a luz do dia, são mais numerosas que os grãos de areia da Arábia. Certamente esses fantasmas não nascidos incluem poetas maiores que Keats, cientistas maiores que Newton. Sabemos disso porque o conjunto das pessoas possíveis permitidas pelo nosso DNA excede em muito o conjunto de pessoas reais. Apesar dessas probabilidades assombrosas, somos eu e você, com toda a nossa banalidade, que aqui estamos…

    Richard Dawkins, Deus, um delírio (Companhia das Letras, p. 21)

  2. Não é um consolo, e não foi essa a minha intenção.

    É apenas um contribuição para o que eu penso como “ironia de viver” ou “ironia de morrer”.

    Eu gosto de pensar sobre a improbabilidade da minha existência e o quanto isso me faz ter vontade de viver da melhor maneira que posso. E as palavras do Dawkins me fazem refletir muito sobre a improbabilidade de tudo. :D

    Preferi comentar desta forma porque é o que eu penso quando leio algo sobre quão suscetíveis à morte estamos.

    E “Você conhece algum paranóico? Seja quem for, ele tem razão. Tudo conspira contra nós. Estamos sempre com a vida por um fio. Andamos na corda bamba 24 horas por dia, pois há sempre um fator de morte na iminência de nos afetar. Por isso, se você se acha azarado, saiba que você tem muita sorte por ter chegado a essa idade com vida.” me remeteu muito à passagem do Dawkins, principalmente “Por isso, se você se acha azarado, saiba que você tem muita sorte por ter chegado a essa idade com vida.” pois, na verdade, temos muita “sorte” de ter nascido também!

  3. Eduardo,
    Talvez o chopp não seja o suficiente. Se o texto de Dawkins não te consolou de nenhuma maneira, talvez seja melhor se converter ao maradonismo.

    Eduardo aproximadamente 99,9% das espécies que habitaram o globo terrestre estão extintas. Considere-se um sortudo por ter nascido, visto a luz do sol, poder ter um pc com conexão para a internet, saber ler e escrever, ter tempo para pensar sobre a morte…

    Mais uma coisa, não me venha com esse papo de milagre

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s