Masdar, o novo Eldorado

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Dias atrás, escrevi que nós precisamos, com urgência, de um Partido Verde com bons quadros. Precisamos mesmo. Com bons quadros e muitos votos.

Por que os Verdes não têm expressão no Brasil? Porque a nossa sociedade ainda acha que a preocupação com questões ambientais é coisa de gente jovem metida a riponga. Participar do PV ou votar nos seus candidatos seria uma excentricidade ou uma forma inócua de idealismo. A culpa disso, em grande parte, é do próprio partido, que ainda não soube mostrar aos eleitores a importância, o potencial econômico, a urgência e a seriedade da sua plataforma.

Os árabes, que são pragmáticos, se deram conta da importância da preservação ambiental e decidiram transformar isso num negócio lucrativo.

Eis que leio, na IstoÉ, que o governo de Abu Dhabi vai construir, no meio do deserto, a primeira cidade 100% ecológica: Masdar (acesse o site do projeto aqui). O lugar, uma urbe de 50 mil habitantes, funcionará à base de energia limpa, reciclará todos os detritos e terá emissão zero de poluentes (com exceção do metano oriundo dos intestinos dos masdarenses). Apesar de Abu Dhabi estar assentada sobre gigantescas jazidas de petróleo, não haverá carros em Masdar, nem sequer elétricos. Os cidadãos se deslocarão a pé ou a bordo de modernos trens suspensos. A água utilizada na cidade será obtida em usinas de dessalinização e será reciclada depois de consumida, para irrigar plantações destinadas à produção de biocombustíveis.

A sociedade do petróleo está com os dias contados. Os árabes, que vivem dos polpudos lucros obtidos com a venda do ouro negro, pretendem, obviamente, transformar os petrodólares em ecodólares. Se a empreitada pioneira de Masdar for um estrondoso sucesso, Abu Dhabi poderá exportar o seu know-how ecológico para o mundo inteiro.

Consciência ecológica, como bem sabem os sultões, é muito mais do que uma filosofia riponga: é o único modo de salvar a humanidade, além de ser uma alternativa com alto potencial econômico. É disso que os brasileiros, capitalistas ou não, precisam se dar conta. É isso que o Partido Verde, ou qualquer outro, precisa mostrar na campanha eleitoral.

Um outro faturamento é possível

Fala-se agora, devido ao ocaso do Fórum Social Mundial, em trazer o evento de volta a Porto Alegre, sede que deu projeção e notoriedade ao encontro.

A idéia não é nova, pois há anos os taxistas e os donos de hotéis e restaurantes da capital gaúcha esperneiam pelo retorno do Fórum à cidade, de olho na grana preta (ou vermelha) trazida pela torrente de romeiros do outro mundo possível.

Você começa a desconfiar que um evento de esquerda não tem lá muita relevância quando os maiores interessados na sua permanência são os capitalistas.

Um presidente chamado Delay

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Os americanos têm um congressista chamado Tom DeLay. Dizem que ele é o último a rir das piadas e sempre pede, para um assessor, uma explicação à parte sobre as matérias em votação no plenário, para saber de que diabos todos estão falando.

Nós, brasileiros-que-não-desistimos-nunca, temos um presidente chamado Delay. Ontem, dia 24 de janeiro de 2008, ele deu-se conta de que o desmatamento na Amazônia está meio que demais, e realizou uma reunião ministerial para tratar do tema. No ano que vem ele vai descobrir que a violência urbana passou dos limites e no terceiro mandato, em 2014, vai começar a desconfiar que tem alguma coisa errada no nosso ensino público.

Tenho, por enquanto, 26 anos e, desde criancinha, ouço as pessoas dizerem que o desmatamento está acabando com a Amazônia. Tudo bem, o lugar é bem grande, mas um dia a falta dessas árvores vai realmente fazer diferença, o que é deveras assustador, já que nós precisamos delas para manter confortável o clima do planeta.

Dirão os lulistas mais empedernidos, como o professor Ivalino, de Itapuã, que pelo menos o Delay está tentando fazer alguma coisa e que é melhor tomar providências agora do que mais tarde.

Certo, Iva, mas o que exatamente será feito? O problema é tão superlativo que não pode ser resolvido com medidas paliativas como cadastramento de madeireiras e cotas de extração. O negócio é radicalizar. Proibir o corte de árvores nativas da selva e promover os madeireiros ao status de terroristas, para que sejam caçados pelos Navy Seals (sim, isso foi uma brincadeira de mau gosto). Falando sério, devemos sim endurecer, e muito, a fiscalização, mesmo que isso signifique perder a ternura de vez em quando. É preciso, também, vedar certas áreas ao extrativismo, aumentando (muito) o território livre de desmatamento e, aos poucos, fomentar a criação de gado em confinamento e educar a sociedade para o uso de materiais alternativos à madeira-de-lei, como, por exemplo, compostos fabricados a partir do lixo reciclado. Mas isso tem que ser feito rápido. Não podemos começar a debater o tema agora… temos é que tomar atitudes antes que seja tarde.

Há, com certeza, maneiras menos prejudiciais de exploração econômica da Amazônia, como a criação de zonas de ecoturismo e resorts de pesquisa científica.

Algumas pessoas preocupam-se com a preservação da natureza por uma questão de charme. É cool ter consciência ecológica, ouvir Seu Jorge e ver filmes do Almodóvar. Mas nem todos esses parentes do presidente Delay se deram conta de que o que está em jogo não é a vida de meia dúzia de macacos-prego, e sim a manutenção do equilíbrio biológico de todo o planeta.

Ah, e precisamos, com urgência, de um Partido Verde com bons quadros.

 

 

Bial no paredón!

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Ainda bem que eu não sou moralista. Se fosse, eu seria obrigado a iniciar uma marcha até Brasília, para riscar o carro do ministro das Comunicações com um prego enferrujado. O carro particular, não o oficial, fique bem entendido. Talvez até o oficial, para que o protesto atraísse mais a atenção da mídia.

O motivo? Este trecho de matéria, publicado em um site noticioso:

“Depois da festa no BBB da noite de quarta-feira, a gaúcha Natália mostrou os seios ‘acidentalmente’ para as câmeras. Alcoolizada, a miss foi resgatada por Thatiana do futon, onde estava deitada há algum tempo. A brasiliense leva a amiga até o Quarto Muuu para ajudá-la a vestir seu pijama.”

Nada tenho contra seios. Aliás, sou completamente a favor. Minha crítica não é ao uso que se possa fazer dessa salutar particularidade anatômica feminina, mas sim à falta de controle do percentual de coliformes fecais presentes na programação da TV aberta. Trocando por miúdos: por que raios essa merda de programa continua no ar?

Não assisto ao BBB. Sim, sou o tipo de pessoa que as outras pessoas denominam “chato de galocha”. Mas, pelo que ouço falar, muita gente assiste. E torce. E paga para tirar ou para deixar alguém na “casa”. E vibra ou se entristece com cada resultado de paredão (eu preferia que fosse “paredón”, no sentido cubano do termo). Dirão os liberais que cada um vê o que quer, que é preciso liberdade, que há outras opções em outros canais, e que proibir a exibição de programas é censura. Eu digo: basta!

Então, em nome de uma suposta “liberdade”, podemos exibir em horário nobre uma “casa” cheia de boçais que passam o dia e a noite bebendo e se exercitando na arte da intriga e da vadiagem? A quem isso interessa? Interessa aos pais que seus filhos vejam e aplaudam uma mulher tão bêbada que sequer consegue vestir o pijama? Interessa ao governo, que sempre faz campanhas e cria leis contra o abuso de álcool, que a embriaguez inconseqüente seja alçada à condição de virtude? Interessa à sociedade que paguemos pessoas para se tornarem celebridades sem que tenham feito nada mais notório que tomar um porre em rede nacional?

O programa tem classificação etária? Mesmo que tenha, para que serve isso? Algum menor deixa de ver programas de TV ou de acessar sites “impróprios” para a sua idade só porque há um aviso dizendo que é preciso ter 18 anos? E os pais? Ora, os pais estão junto com os filhos no sofá, pedindo que o Júnior passe logo a pipoca.

Meus amigos, estamos diante de um círculo vicioso, viciante e viciado. O povo só terá condições de decidir o que ver na TV (e, por extensão, condições de tomar outras decisões importantes, como o voto) quando tiver capacidade genuína de “discernimento”, e só terá capacidade genuína de discernimento quando os fatores que moldam a consciência crítica (entre eles, e talvez principalmente, a TV) fizerem a sua parte.

Alguém precisa quebrar esse círculo, e com certeza não será o Pedro Bial. Nem a… como é mesmo o nome dela?

Tirar do ar programas dessa laia não é censura, nem ditadura. É uma necessidade, pelo bem do que ainda resta de civilizado em nós. Isso não é ser moralista, é ser razoável. No sentido iluminista do termo.

O tal do risco-país

O sujeito pára o seu carro zerinho e oferece carona a um amigo.

— Sobe aí!

— Legal o seu carro.

— Você acha? É uma bosta.

— Ué, então por que você comprou esse?

— É que aqui no Brasil a gente não pode comprar o carro que quer. Tem que comprar o carro que os ladrões não querem.