eu politico, tu politicas, ele politica

O baixo clero aclama o seu papa
O baixo clero aclama o seu papa

Eis que abro o site do Estadão nesta quarta-feira e a manchete é uma declaração do presidente da Câmara dos Deputados (apenas o cara que assume a Presidência da República na ausência da presidente e do vice), Eduardo Cunha (PMDB-RJ): “Espero que não sejam investigações de natureza política“.

Cunha manifestou essa esperança porque teria sido citado pelo procurador-geral da República como um dos parlamentares que levaram grana de empreiteiras investigadas na Operação Lava Jato. A pergunta que a repórter do Estadão Irany Tereza poderia ter feito ao parlamentar e não fez (ou fez e seus editores cortaram, o que é bem improvável) é: “Mas, deputado, o que não é de natureza política nessa história?” Afinal, trata-se de um político sendo acusado por políticos de ter sido financiado por grupos econômicos com interesses políticos para conquistar seu cargo político em uma instituição política por excelência.

Temos, na média, uma acepção bem limitada de política. Nas reuniões sociais e festas de família, existe meio que um acordo tácito, para evitar atritos: “Religião e política não se discutem”. Quando alguém, em algum grupo da sociedade civil, expõe sua eventual militância partidária, é imediatamente acusado de “ter interesse político”. A imprensa e o empresariado costumam usar o adjetivo “político”/”política” de forma pejorativa: “O anúncio é de cunho político“, “Fulano é uma indicação política para o secretariado” etc – dando a entender que é possível que algum secretário ou ministro não seja uma indicação política. Ao depreciativo “político”, esses grupos costumam contrapor o laudativo “técnico“. O sonho de muita gente é um “governo técnico” e não político – o que evidencia que há uma má compreensão (proposital, às vezes) da própria ideia de política.

Mas o que é política? Podemos dizer, com pouca chance de erro, que para a opinião pública não existe política fora do campo da militância partidária. A ideia disseminada e infinitamente repetida de que só os partidos fazem política é tão forte que atores importantíssimos do jogo político, como os grandes grupos econômicos e a imprensa, conseguiram se colocar à margem disso tudo aos olhos da sociedade. Assim, operadores político-partidários são demonizados pela opinião pública (e são bem pagos pelo Estado e pelos seus financiadores privados justamente para arcar com esse peso) e os grupos que efetivamente dão as cartas (os donos do dinheiro e da máquina de propaganda) continuam exercendo aquilo que sempre tiveram: o poder (econômico, político, simbólico etc).

Gosto bastante da definição de que a política é a disputa pelo poder em uma sociedade. É a tensão entre vontades e interesses de grupos específicos. Li, certa vez, que “se todos pudessem ter o que quisessem na hora em que quisessem, não haveria política”. A política, então, é a disputa pelo poder de definir quais interesses serão atendidos – e quando e como isso acontecerá. Assim, ninguém está fora da política.

Os partidos e candidatos que disputam o poder institucional fazem política. Os eleitores que votam neles ou que defendem suas propostas na fila do banco fazem política. Até quem decide não votar está fazendo política. Os empresários, fazendeiros, grupos financeiros e pessoas físicas que financiam as campanhas, colam um adesivo no peito ou compartilham uma notícia favorável a Fulano ou Beltrano nas redes sociais fazem política. Os jornais, ao definir o que será e o que não será publicado em TODAS as editorias, ao definir como será essa publicação e que espaço terá, fazem política, na medida em que essa publicação influenciará (e sempre influencia) o equilíbrio de forças na disputa pelo poder.

Por isso o Estadão e outros veículos de imprensa (bem como os grupos econômicos que atuam com tanta veemência nas coxias do teatro político e muito raramente são vistos ou ouvidos pela plateia) não se sentem nem um pouco desconfortáveis com a declaração de Cunha sobre a suposta “natureza política” (em oposição a outras naturezas mais nobres) da investigação da Operação Lava Jato. Os principais jogadores da disputa pelo poder (e justamente os que dominam o jogo) não têm sequer o nome na lista de jogadores. Eles fazem política sem dizê-lo e é esse um dos segredos do seu sucesso.

o amor nos tempos do socialismo

Sobre a nostalgia de viver e se apaixonar no lado de lá da Cortina de Ferro

[Texto publicado originalmente em 2009, na revista Sextante, publicação temática do curso de Jornalismo da UFRGS. Naquela edição, o tema era Nostalgia]

Um casamento cubano
Um casamento cubano

Naquela tarde de domingo, o tramvaï percorria velozmente os trilhos que atravessavam a cidade de Volgogrado, importante centro industrial soviético. Viajando de pé no silencioso bonde elétrico, a estudante Ana Maliuk, que tinha aproveitado o dia de folga para visitar a irmã, não pôde deixar de notar os três rapazes que não conversavam em russo.

A julgar pelo espanhol que falavam, eles deviam ser cubanos, suspeita que Ana confirmou ao se aproximar do trio e puxar conversa. Ela não tinha dificuldades para se comunicar com os estrangeiros, não apenas por ser uma aluna avançada do curso de Línguas do Instituto Pedagógico de Volgogrado, mas também porque era, ela mesma, soviética por adoção, tendo nascido muito longe dali, mais precisamente em Santa Rosa, no sul do Brasil.

Além das raízes latino-americanas que tinha em comum com aqueles forasteiros, havia outros motivos para que Ana quisesse conversar com eles. Afinal, “os cubanos estavam na moda, por causa da Revolução”, ela me diria quase quarenta anos depois, sentada ao lado de um dos rapazes que chamaram a sua atenção naquele domingo de 1971. Para ele, entretanto, as razões de Ana foram outras: “éramos três bonitões”.

Ana Maliuk e seu marido, Mario Aquiles Algeciras Fernández, me receberam no Sierra Maestra, o bar que abriram em Porto Alegre, Brasil, depois de terem vivido por muitos anos em terras socialistas. Numa tarde chuvosa de inverno, o cubano e a gaúcha de ascendência ucraniana falaram, saudosos, sobre suas trajetórias de vida e sobre a empolgante experiência de ajudar a construir uma nação. Ou duas.

Endurecerse pero sin perder la ternura

Quando a Revolução Cubana triunfou, em 1959, Mario tinha quase 14 anos e vivia em Holguin, capital da província de mesmo nome. Seu pai, que também se chamava Mario, era um faz-tudo na companhia férrea (Mario, o filho, não lembra que nome a empresa tinha na época, mas frisa que hoje ela se chama Ferrocarriles Nacionales de Cuba) e, nos dias de folga, fazia vários biscates como pedreiro, carpinteiro, pintor, etc, ofícios em que era ajudado pelos filhos. Noelia, a matriarca que deu à luz seis meninos e quatro meninas, era dona-de-casa. Uma típica família pobre do interior de um país que era, segundo a definição imortalizada pelo senso-comum, “o quintal dos Estados Unidos”. O atípico era o fato de Mario-pai ser filiado ao Partido Comunista Cubano.

Enquanto os Algeciras Fernández viviam sua vida pacata em Holguin, as selvas de Cuba eram dominadas, palmo após palmo, pelo Movimento 26 de Julho, a célebre guerrilha organizada pelos irmãos Fidel e Raúl Castro, por Ernesto “Che” Guevara e por Camilo Cienfuegos, entre outros. O nome do M-26-J, como era conhecido o grupo que comandava a resistência ao regime de Fulgencio Batista, homenageava o famoso ataque ao quartel de Moncada, liderado pelo jovem Fidel em 26/7/1953. A ação, ainda que frustrada, deu notoriedade àquele advogado idealista e é considerada o marco inicial da Revolução.

Dos filhos de Mario e Noelia, apenas Milton Aldo participou da guerrilha. O jovem, que trabalhava na serraria de um tio comunista em Baracoa, entrou para o movimento por intermédio do patrão (se é que o tio podia ser chamado assim, pois, segundo Mario, a serraria era, desde sempre, uma empresa socialista administrada em conjunto pelos que nela trabalhavam).

Holguin não foi atingida pelos combates entre exército e M-26-J. Mario conta que as ações dos guerrilheiros, restritas ao meio rural na maior parte do tempo, chegavam à cidade apenas na forma de notícias veiculadas pela imprensa ou de boatos desencontrados espalhados a boca miúda pela população.

Mas ninguém conseguiria deixar de notar as transformações implantadas pelos revolucionários vitoriosos depois de 1959. Mario explica, empolgado, os principais pontos do projeto reformador do governo provisório: “reforma agrária, reforma urbana, reforma da saúde e da educação, reforma política.” Acabar com o analfabetismo, que atingia na época cerca de 45% dos cubanos, foi uma das primeiras ações. Formaram-se brigadas de alfabetizadores voluntários, que percorreram as cidades e as zonas rurais do país, onde se hospedavam nas casas dos camponeses. O pai e uma das irmãs de Mario participaram do movimento. “Quem aprendia já podia ensinar os outros. Em um ano, Cuba se viu livre do analfabetismo”, conta o cubano.

A reforma agrária, outro ponto crucial do programa do governo revolucionário, foi radical e imediata. A paisagem rural da ilha, dominada pelo latifúndio, passou por uma grande transformação. As terras foram repartidas entre os campesinos – a começar pelas fazendas do próprio pai de Fidel. Por ironia do destino, o líder máximo dos rebeldes que tomaram o poder em 1959 era filho de Ángel Castro, um imigrante espanhol que entrou para o ramo madeireiro (ele fornecia madeira para uma companhia ferroviária) e, na medida em que ia abrindo clareiras nas florestas, expandia suas cercas e se apropriava das terras. Quanto mais árvores os empregados do velho Ángel cortavam, maiores ficavam as suas propriedades. O fato de Fidel e Raúl serem os líderes do movimento que tomou o poder no país não bastou para fazer com que todos os Castro apoiassem o novo regime – uma das irmãs, inconformada com a perda do patrimônio, cortou relações com a ala revolucionária da família.

A vida de Mario também mudou radicalmente com a Revolução. Engajado na construção de uma nova Cuba, o jovem estudante ingressou nas milícias paramilitares encarregadas de deter a ação de grupos contra-revolucionários. Em seguida, foi incorporado ao exército regular, onde ficaria por quase oito anos, até dar baixa, em 1969, no posto de tenente.

Depois de deixar as forças armadas, Mario foi morar em Havana, com sua irmã Rosa. Fez um curso técnico no campo da metalurgia e passou a trabalhar em uma usina siderúrgica nas imediações da capital. A essa altura, Cuba já estava alinhada com a União Soviética. A aproximação com o bloco socialista foi tumultuada. Em 1962, a pequena ilha, que já tinha rechaçado uma tentativa de invasão por paramilitares apoiados e treinados pelos Estados Unidos, (a célebre “Invasão da Baía dos Porcos”) se viu no centro de uma crise que quase desencadeou uma guerra nuclear, quando os soviéticos decidiram instalar baterias de mísseis atômicos em solo cubano. Mas, afora esses problemas no campo das relações internacionais, a URSS teve uma forte influência positiva no desenvolvimento da economia cubana.

O internacionalismo era uma característica marcante nas economias do bloco socialista. Era comum ver, nas empresas de Cuba e de outros países-satélite da URSS, técnicos soviéticos, tchecos, alemães-orientais. As políticas de intercâmbio eram incentivadas e assim surgiu, para Mario, a oportunidade de fazer cursos de capacitação profissional na Rússia. Em 1971, depois de um cursinho básico de russo, ele partiu rumo a Moscou, em um voo da Aeroflot com escala no Marrocos. Passou um curto período hospedado em Donetsk e, em seguida, instalou-se em um albergue estudantil em Volgogrado, onde viria a conhecer, numa tarde de domingo, aquela que seria a companheira de toda a vida.

Um pouco da vida na pátria do socialismo

A família de Ana Maliuk emigrou do Brasil para a União Soviética em 1960, saindo de Santa Rosa, a mesma cidade para onde seus pais, Sérgio e Matilde, tinham se mudado poucas décadas antes, ainda crianças, junto com a torrente de ucranianos que se instalaram no Rio Grande do Sul no princípio do século passado.

Questionada sobre o porquê de duas mudanças de endereço (e de vida) de milhares de quilômetros em tão curto espaço de tempo, Ana dá de ombros e diz: “Eram correntes migratórias”. Sérgio, Matilde e os quatro filhos foram morar em Volgogrado, importante cidade às margens do grande rio que lhe empresta o nome: o Volga.

Dezoito anos antes de acolher os Maliuk, quando ainda era chamada de Stalingrado, Volgogrado foi palco da maior batalha da Segunda Guerra Mundial, que freou o avanço nazista e deu início à grande virada do Exército Vermelho. Ao longo dos anos, as marcas da destruição foram sendo apagadas, inclusive com o esforço de Sérgio Maliuk, que passou a trabalhar como carpinteiro quando chegou à URSS.

A União Soviética das lembranças de Ana é muito diferente daquela de que se falava no Ocidente. Eram tempos de Guerra Fria, a disputa pela hegemonia global entre americanos e soviéticos, em que a propaganda era a principal arma usada tanto por capitalistas quanto por socialistas para desqualificar o rival. Pergunto à ex-cidadã soviética sobre os estereótipos tão comuns no discurso ocidental sobre a URSS: a doutrinação política, a escassez de produtos de consumo, o bitolamento da juventude, a padronização dos trajes, a falta de liberdade. Ela sorri e fala, com gosto, dos seus anos de juventude.

Os jovens soviéticos, segundo Ana, eram mais sérios que os ocidentais, mas tinham intensa vida cultural. Muito teatro, cinema, concertos, balé, circo (“um circo ma-ra-vi-lho-so”, ela frisa), acampamentos, caminhadas, banhos nas praias do Volga. As festas eram animadas e se dançava twist, charleston e outras danças do Ocidente. A cultura estrangeira consumida pelos soviéticos era mormente europeia, ela conta. Nada americano. Amigos que viajavam ao exterior voltavam com discos dos Beatles, que animavam as noitadas nos centros comunitários. Pelo espírito de internacionalismo socialista, as cidades da URSS viviam cheias de estudantes e trabalhadores de vários países do bloco. Por isso, quando conheceu Mario e seus dois colegas cubanos naquela viagem de tramvaï, Ana passou a convidá-los para as festinhas e reuniões do seu grupo de amigos.

Ela rechaça a ideia de escassez. Produtos nas prateleiras dos supermercados e lojas, havia de todos os tipos, ainda que fossem todos de uma só marca. “Comprar, tu comprava de tudo. Comida não faltava. O que não se podia comprar era roupa de marca, roupa estrangeira. Isso não existia lá. Tu podias comprar móveis. Tinha casas que vendiam todo tipo de móveis. Geladeiras. Mas todas daquele tipo”, lembra.

Quando não se conseguia o que se queria nas lojas oficiais, sempre se dava um jeitinho: “Os jovens usavam jeans. Alguém que viajou e trouxe. Sempre tinha um mercadinho negro no meio da juventude. As gurias, sempre bem vestidas… Compravam tecidos nas lojas, faziam roupas. Tinha uns tecidos indianos ma-ra-vi-lho-sos!”

Os olhos de Ana brilham enquanto ela fala da profusão de doces, balas e bombons diferentes, da enorme variedade de laticínios, pães, carnes, frutas importadas da África e da Ásia. Mas ela explica que os soviéticos não eram educados para serem consumistas: “Eu era um pouco mais ambiciosa, como estava mais perto da América Latina. Mas eles se contentavam com o que tinham. Porque tinham comida, tinham um teto, estavam quentinhos, tinham estudo, tinham médico, se divertiam. Muito. Eu acho”.

A amizade com Mario aos poucos se transformou em amor. O namoro soviético, eles explicam, não diferia muito do namoro de qualquer outra parte do mundo. Ou melhor, diferia, pois os jovens da URSS, segundo Ana, eram muito mais livres que os de outros lugares, pelo menos naquela época: “A gente era mais independente. A gente se decidia pelas coisas. Claro, pedia conselhos. Mas a mãe e o pai não se intrometiam muito.” A liberação sexual e principalmente a liberação da mulher começaram muito antes na sociedade soviética, que não estava presa aos ditames da moral cristã.

Aliás, outro estereótipo sobre as nações do bloco socialista é o da censura religiosa. Ana conta que havia igrejas cristãs ortodoxas funcionando em Volgogrado. Eram freqüentadas principalmente pelos mais idosos e não havia qualquer restrição, segundo ela, que diz que foi a um templo uma vez, por curiosidade, mas não se entusiasmou com o que viu e nunca mais voltou.

Sobre a repressão, Ana relata que, já no seu tempo, isso era tido como “coisa do passado”, da época em que diziam que era necessário ser duro para consolidar a nação. Mario emenda: “Se Stalin não tivesse tido punho forte, a Rússia não teria chegado aonde chegou.” O ditador, Ana conta, era lembrado com saudosismo pelos mais velhos, por ter vencido a Grande Guerra e pelo hábito de gratificar a população de algum modo no final de cada ano, fosse com bens materiais ou com folgas no trabalho. Ela diz que os idosos viviam suspirando: “No tempo de Stalin é que era bom…”

Haveria agentes do KGB (o famigerado Comitê de Segurança do Estado) à espreita, prontos para prender qualquer subversivo que se traísse por um comentário crítico contra o governo? “Não”, diz Mario,“pelo menos, não que eu saiba”. Rimos e Ana acrescenta, mais séria: “Outra página da história. A nossa época já era mais moderna. A única coisa é que tu não podias ficar falando tanto contra. O governo lutava contra as forças exteriores que tramavam para introduzir no cérebro dos jovens outras ideias.” Fosse como fosse, ambos afirmam não saber de qualquer caso de prisão por motivos políticos nos seus círculos de convivência.

Cidadãos do mundo

Em 1972, Mario concluiu o seu período de intercâmbio e teve de voltar a Cuba. Ana ficou em Volgogrado até terminar a faculdade e se mudou para a ilha em 1975, quando se casaram.

Aos olhos de uma cidadã soviética, Cuba era uma festa. Festa todo dia, muita música, muita dança, muitos mojitos, muitas piadas. Acostumada ao estilo mais sisudo dos eslavos, Ana se encantou com a alegria e a disposição dos cubanos.

Mario continuou trabalhando na mesma siderúrgica e a esposa, que já tinha sido professora de francês em Volgogrado, passou a lecionar russo no Ensino Médio. Eles moravam no apartamento construído pela micro-brigada da empresa de Mario. Em Cuba, explica ele, a política de habitação é gerida por células chamadas micro-brigadas. Cada instituição ou fábrica tem a sua, que se responsabiliza por construir os conjuntos habitacionais e organizar a distribuição dos imóveis. Um dos apartamentos de cada condomínio é sempre destinado ao governo e geralmente serve de moradia para o médico de família encarregado de atender os vizinhos. “Por seus méritos”, Mario conquistou o seu próprio apartamento, pelo qual pagava seis pesos por mês até a quitação da dívida, que totalizou 400 pesos. O imóvel ainda pertence ao casal e atualmente é ocupado por Noelia, a mãe de Mario.

Para Ana, o mais impactante de viver em Cuba era o estado de alerta permanente. “Na União Soviética, havia a Guerra Fria, mas em Cuba a guerra era caliente”, ela brinca. A proximidade dos Estados Unidos e o histórico de ataques e tentativas de invasão mantinha o estado de vigilância. Os cubanos racionalizaram o temor e desenvolveram um esquema de emergência introjetado por todos. Cada mãe de família tinha, guardada em casa, uma bolsa especial contendo diversos itens que seriam úteis em caso de fuga. E, se o pior acontecesse, havia mulheres encarregadas de cuidar dos filhos das vizinhas que estivessem longe de casa durante um ataque americano. E até as “crianças milicianas” eram treinadas para orientar os colegas em situações de emergência.
Apesar deste clima de alerta constante, Ana frisa que os cubanos “não sabem ficar tristes” e estão sempre de bem com a vida, a despeito de todas as dificuldades.

Pergunto pelos cubanos que deixam o país e fogem para os Estados Unidos. Eles dão de ombros e dizem que são poucos casos – e insistem que o governo não proíbe ninguém de abandonar a ilha. Ana cita como exemplo sua amiga Blanquita, que emigrou para os EUA. “De barco?”, indago. “Não, de avião. Pela Cubana de Aviación”, ela responde.

Eles mesmos tiveram permissão do governo para deixar Cuba. Foi em 1993. Ana quis visitar os parentes gaúchos. Eles vieram e “foram ficando”. Conversaram com autoridades do Partido Comunista Cubano, com familiares e decidiram se instalar no Brasil. As duas filhas do casal, Amarys e Anelys, começaram a estudar e “arranjaram namoradinhos” aqui, o que também pesou na decisão.

Em Porto Alegre, Mario começou a trabalhar em uma metalúrgica e Ana passou a dar aulas de línguas. Em seguida, foram morar em Cachoeirinha. Em 2001, abriram na Cidade Baixa, tradicional reduto boêmio da capital gaúcha, o bar temático Sierra Maestra. Numa das paredes do estabelecimento, hoje situado no bairro Floresta, está uma autorização do consulado cubano para difundir a cultura do país.

Mario conta que estranhou alguns aspectos da cultura e da sociedade brasileiras. Ele diz que ainda não se acostumou aos mendigos nas ruas. “Em Cuba, ver um mendigo pedindo esmolas seria o fim do mundo”, afirma, pesaroso. Além disso, sente falta da qualidade dos serviços públicos do seu país. “No Brasil, ir ao médico é atravessar o deserto do Saara caminhando”, desabafa.

O caribenho também critica o sistema político do Brasil. Fala com gosto do exemplo de Cuba, onde, segundo ele, as pessoas não se candidatam, mas são indicadas por seus pares para as eleições distritais. Os representantes de cada distrito são eleitos periodicamente e cabe a eles eleger os representantes das instâncias superiores, que, por sua vez, elegem os representantes da Assembléia Nacional, que escolhem o presidente do país. Mario rechaça a crítica que sempre se fez à permanência de Fidel Castro no poder por tantas décadas: “Dizem que Fidel não era eleito pelo povo. Claro que era. Ele era reeleito vereador, a cada eleição, no seu distrito. Depois, ia sendo reeleito nas outras instâncias, até o topo”.

Como o casal encara a vida numa sociedade capitalista, depois de tantos anos de cultura socialista? Ana diz que as pessoas se acostumam com as mudanças. Que ela e Mario têm facilidade para se adaptar a novas situações e que não têm apego às coisas. Assim como hoje estão aqui, no futuro próximo podem estar em outro lugar. São cidadãos do mundo. E ainda comunistas.

nem todos são (chamados de) macacos

luciano-huck-angélica-macacos

[postado originalmente em 29 de abril de 2014, num blogue que deixou de existir]

Aplaudi, no domingo, o belo gesto antropofágico do lateral Daniel Alves, que, ao ver no gramado uma banana arremessada com intenção de petardo por um torcedor racista, descascou e comeu a fruta do preconceito – e com ela digeriu, simbolicamente, o próprio agressor. O que não mata engorda.

Muita gente também aplaudiu a altivez e ironia de Dani, principalmente nas redes sociais. E começou, no ritmo acelerado e irrefletido do novo tempo que nos regula, uma campanha de apoio ao jogador, comandada, ao que tudo indica, por Neymar (depois se descobriu que tinha uma agência de propaganda orquestrando o viral bem sucedido). Uma galeeeeeera postou nas timelines fotos, geralmente no estilo selfie, em que os neo-Luther Kings apareciam segurando uma banana semidescascada. As imagens eram acompanhadas da hashtag #somostodosmacacos, com o que tentavam dizer que todos nós, negros, brancos, pardos, índios, asiáticos, mestiços e, claro, as várias espécies de macacos, estamos no mesmo barco de Dani Alves.

Luciano Huck, esse antenado empreendedor do bom-mocismo, também postou uma foto e, rapidinho, tratou de lançar um modelo de camiseta inspirado na campanha, que oferece por R$ 69 na loja da sua grife.

Seria uma acachapante goleada, um vareio aplicado sobre o preconceito, não fosse essa campanha inteira meramente cosmética, mais um produto altamente vendável da indústria do cool. Os brancos e os negros não são iguais. E Luciano Huck sabe disso.

Há vários níveis de igualdade. Claro que todos temos (ou deveríamos ter) a mesma dignidade, mas, no que diz respeito às condições materiais, chances na vida e enfrentamento com o preconceito, só alguns de nós são macacos.

Quantos negros as celebridades brancas que comeram banana para a foto costumam encontrar fazendo compras nas suas lojas de carros importados favoritas? Quantos deles levam os filhos a pediatras negros? Quantos deles já ouviram falar de um médico negro nascido e formado no Brasil?

No sentido oposto, qual é o percentual de negros na população carcerária? Qual é o percentual de negros entre as pessoas assassinadas pela polícia? Qual é o percentual de negros entre os faxineiros? Se somos todos iguais, como diz a campanha cool da banana, por que raios mais negros entram no crime ou “optam” (como dizem os liberais) por profissões subalternas? Isso é natural?

Claro que a última pergunta foi retórica. Essa desigualdade não é natural; é historicamente imposta. E não será resolvida com selfies frutíferos acompanhados de hashtags duvidosas – até porque o racismo não se resume a jogar bananas em jogadores de futebol. E não basta não ofender os negros para não ser considerado racista.

Apoiar um sistema político, econômico e sociocultural que mantém os negros nas classes menos favorecidas também é racismo. Votar em candidatos contrários a políticas de ação afirmativa e de resgate da dignidade dos negros (e de outras etnias menos empoderadas, claro) também é racismo. Apoiar o status militarizado de uma polícia que mata negros (e que considera matar pessoas de qualquer etnia um modo de operação aceitável) também é racismo.

Nesse sentido, negar a diferença é prejudicial aos que já são desfavorecidos por essa diferença. É preciso que essa diferença seja escancarada e evidenciada. É preciso que a desigualdade nos cause desconforto – para que a enfrentemos nos contextos em que se revela mais perversa. Quando for normal que Luciano Huck encontre negros almoçando na mesa ao lado no seu restaurante favorito, aí sim poderemos dizer que somos iguais.

Tudo mais é perfumaria e postagem caça-like – o que inclui este texto.

o ministério da dilma: links pra (tentar) entender o que tá acontecendo

Foto: Roberto Stuckert Filho/PR
Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Serão quatro anos interessantes.

Estamos (nós, da esquerda) putos com o novo ministério da Dilma, que favorece o que de pior e mais nojento existe na política nacional. Mas, por outro lado, a presidente está sob artilharia pesada de forças poderosas (o grande capital, seus partidos de aluguel e sua imprensa de estimação, sempre ávida por um osso e um cafuné na barriga) e precisando de uma manobra para acalmar os inimigos e fazê-los acreditar que está tudo bem. “Mantenha seus amigos perto e seus inimigos mais perto“, dizia Don Corleone, mestre de tantos políticos e de tantos empresários e barões da mídia.

O problema (um dos muitos) é que fazer tantas concessões aos inimigos no momento de crise é, como escreveu alguém, queimar a aldeia para salvar a aldeia. Talvez não seja possível enxotá-los do governo quando as coisas acalmarem. Estou sendo otimista com esse “talvez”. Claro que não será possível se livrar desse abraço de figueira.

Enquanto isso, vemos outras forças intestinas se movendo no PT, e que parecem sinalizar quatro anos de teatrinho: Dilma sacrificando-se no papel de bad cop, que janta com o empresariado e com os senhores de escravos rurais enquanto pisa nos ribeirinhos que prometeu defender, e Lula fazendo o papel do nice cop, que busca uma reaproximação com os movimentos sociais e com o coração da periferia ao mesmo tempo em que afaga os velhos amigos dos partidos fisiológicos, dizendo, em tom dramático: “Mas o que essa mulher tá fazendo? Não foi pra isso que eu a ungi, juro!”, de olho na eleição de 2018.

Tenho lido, via redes sociais, diversas análises sobre os impactos dessa nova Esplanada na direção do futuro governo. Há desde esquerdistas indignados com as escolhas até petistas-justificadores acusando de burrice e traição qualquer um que ouse questionar a composição do ministério, pois, para eles, a culpa é toda dos eleitores que escolheram um Congresso tão alheio ao projeto petista. Se é que alguém ainda sabe qual é o projeto petista.

Compartilho abaixo alguns desses links (não endosso tudo que está escrito nos textos, apenas indico vários argumentos para tentar contribuir com o debate). Boa leitura!

> ‘Ah, mas votei na Dilma para o Kassab ser ministro?’, por Lino Bocchini

> Novo ministério: Extra, resta uma ilusão?, por Jean Wyllys

> O Planalto de Kafka, por André Singer

> É a composição do Congresso, estúpido, por Luiz Eduardo Nascimento

> Dilma arrisca numa jogada que nem é de gênio e tampouco uma traição, por Renato Rovai

> Quando Dilma irá acalmar a esquerda?, por Breno Altman

>  Dilma e o ministério do segundo mandato, por Marcos Doniseti Vicente

> Novo ministério de Dilma só mudará, de fato, na área econômica, por Marcelo Moraes

viagem à porto alegre de 2114

[publicado originalmente em 17 de abril de 2014, num blogue que deixou de existir]

Num entardecer de por do sol particularmente lindo, dada a nuvem de poluição de milhares e milhares de carros e ônibus semiparados – como virou praxe no trânsito de Porto Alegre -, uma mistura acidental de gases de escapamento, vapores de churrasquinho de gato e fedor de mijo das calçadas me entra pelas narinas e leva-me ao transe místico. Abro os olhos e descubro que viajei ao futuro. E, como é próprio das epifanias induzidas pelo bodum da cidade, tenho total ciência dos acontecimentos a minha volta.

De repente, me vejo na Porto Alegre de 2114 – é, por coincidência, ano de Copa do Mundo, mas esta não será no Brasil. O torneio deste ano ocorre na Bélgica, e o próximo Mundial, esse sim, será aqui. Porto Alegre está na expectativa de se tornar uma das cidades-sede do certame de 2118, o que dá novo ânimo aos empreiteiros que ainda não concluíram as obras estruturais da Copa de 2014, realizada há exatos cem anos. Os canteiros tinham sido abandonados oficialmente em 2075, mas o anúncio do Mundial motivou novos contratos e a prefeitura promete uma revolução nas estruturas da cidade para meados de 2118.

Andam dizendo que o prefeito, Jotair Peçanha, do PQP, conseguirá a indicação à reeleição, mas isso dependerá, é claro, dos valores dos contratos para as obras da próxima Copa. Há pouco mais de 20 anos, os presidentes das grandes empreiteiras, empresas de transporte e associações comerciais de Porto Alegre cansaram da ineficácia do poder público, que já estava indiretamente em suas mãos, e decidiram apertar um pouco mais as rédeas. Concluíram que gastavam dinheiro demais financiando simultaneamente todas as campanhas e resolveram otimizar o processo. Agora, o candidato a prefeito, que sempre concorre em chapa única, é escolhido em reunião prévia dos empresários – e uma cláusula contratual prevê o seu impeachment caso descumpra o plano de governo costurado pelas empresas. O mesmo ocorre com a nominata da Câmara de Vereadores, embora neste caso seja permitido o registro de até duas candidaturas de partidos de esquerda, para manter as aparências.

Desço do ônibus e ando alguns passos até uma estação de aluguel de carros. Não quero correr o risco de caminhar e ser multado ou preso por um azulzinho. Desde 2062, é proibido se locomover pelas ruas de Porto Alegre a pé ou de bicicleta. E até andar de ônibus não é considerado de bom tom, embora não resulte em sanção. Com a nova lei, o planejamento urbano pôde enfim se libertar das amarras e focar-se exclusivamente nas necessidades dos motoristas. Isso levou a algumas mudanças drásticas na paisagem urbana.

Em 2088, foi concluída a grande obra de drenagem do Lago Guaíba, que precisou ser transformado em estacionamento. Como o trânsito está constantemente congestionado no resto da cidade, muitos motoristas usam o Guaíba também como avenida para ir do Centro Shopping à Zona Sul e vice-versa, uma prática tolerada apesar de proibida. Os azuizinhos fazem vista grossa e não multam os infratores, desde que a locomoção ocorra de carro e não a pé ou de bicicleta. Isso sim não é perdoado.

Chego, enfim, aos arredores do Centro Shopping e estaciono o carro alugado numa vaga do Guaíba. Maior obra da história da cidade, o grande distrito administrativo e comercial é o único lugar de Porto Alegre onde é permitido andar a pé – pelo menos até 2130, quando os empresários esperam concluir a adaptação de todas as lojas e escritórios ao sistema drive-thru. Sua construção foi uma exigência dos cidadãos de bem da Capital, que queriam uma revitalização mais efetiva da área central da cidade desde o Grande Massacre de Estudantes de 2045.

Confinado em uma redoma de vidro climatizada, o antigo Centro Histórico foi totalmente higienizado e restaurado e está registrado no Guinness Book como maior shopping center do mundo – abrangendo uma área que vai do Parque da Redenção à Usina do Gasômetro, das rebarbas do bairro Floresta à Cidade Baixa. Livre dos moradores de rua, vendedores ambulantes e rios de mijo que caracterizavam a área antes da Grande Revitalização, o Centro Shopping agora é frequentado por pessoas de bem nas 24 horas do dia – e a entrada de elementos fichados no Departamento Municipal de Combate à Contestação é estritamente proibida, para evitar depredações.

É por isso que não me deixam entrar. Ao mostrar minha identidade no guichê, ouço do atendente que o meu nome está no banco de dados de contestadores da prefeitura. Retruco que isso não é possível – mal sabe ele que eu sequer existo neste universo de 2114 -, mas ele garante que eu estou fichado no DMCC como “dono de blog com viés de esquerda”. E todos sabem que a entrada de blogueiros de esquerda no Centro Shopping é proibida desde 2100.

É nesse momento que acordo do transe e estou de novo em 2014, de novo preso no trânsito aleijado de uma Porto Alegre suja, paralisada e mal coordenada, com a tristeza de quem não sabe quando tudo isso vai ter fim.

golpe de 64: vamos falar de economia?

[publicado originalmente em 31 de março de 2013, num blogue que deixou de existir]

Hoje é aniversário do golpe de Estado que em 1964 derrubou um governo democraticamente eleito e instaurou uma ditadura civil-militar de mais de 20 anos.

Simpatizantes do golpe sempre o defendem pelo prisma econômico: falam com orgulho do “milagre brasileiro”, do “Brasil-oitava-economia-do-mundo”, da consolidação do parque industrial, da defesa ~nacionalista~ da produção nacional, etc. Inquiridos sobre a violência do regime, os seus defensores ou dizem que foram abusos isolados ou justificam as ações dizendo que foram necessárias devido à “ameaça do comunismo”.

Opositores do golpe sempre o criticam pelo prisma da repressão: falam da censura, das prisões, do AI-5, de tortura e assassinatos de opositores, de infiltrados do Dops nos grupos estudantis e movimentos sociais, etc. Quase nada costuma ser dito sobre a economia. É como se até os críticos da ditadura concordassem que o regime foi um sucesso econômico.

Já eu critico a ditadura civil-militar tanto pela repressão quanto pela economia.

Do ponto de vista da distribuição de renda, o Estado brasileiro foi, de 1964 a 1985 (e depois por mais alguns anos), um verdadeiro Nibor Dooh (expressão de Fausto Wolff): um Robin Hood ao contrário, que tirava dos pobres para dar aos ricos. O Banco do Brasil (via conta-movimento) e os bancos estaduais eram verdadeiros sacos sem fundo, jazidas inexauríveis de recursos para latifundiários e usineiros. Mais tarde, quando surgiram planos anti-inflação nos anos 80 (nos governos Sarney e Collor), os pacotes sempre resultaram numa explosão do consumo de carne e até de produtos como absorventes íntimos pelas classes mais baixas, o que evidencia que na época do “milagre” tais produtos não faziam parte da cesta básica de milhões de pessoas. O milagre era para poucos ungidos.

Do ponto de vista do nacionalismo, a política econômica do governo civil-militar era risível. Que nacionalismo é esse que consistia numa sujeição servil aos interesses econômicos norte-americanos? Mesmo no campo interno, as diversas estatais serviam basicamente para fornecer (às custas de prejuízos deliberados) matéria-prima ridiculamente barata às multinacionais da indústria, engordando os dividendos de matrizes instaladas bem longe da Mãe Gentil. E a repressão dos movimentos operários também impedia uma negociação salarial vantajosa para os trabalhadores.

Por fim, do ponto de vista da concorrência e do desenvolvimento da economia, o fechamento das fronteiras de consumo com as famigeradas “reservas de mercado” levou o país a um atraso tecnológico de décadas. Como escreveu o Verissimo, era mais fácil entrar no Brasil com cocaína do que com um computador. O resultado não foi o desenvolvimento sadio da indústria nacional, mas um déficit que demoramos anos para recuperar, após a abertura do mercado nos anos 90.

E eu não mencionei as obras faraônicas que contribuíram para engordar o endividamento externo e nem que o regime jogou o país num buraco negro inflacionário do qual só saímos depois de uma “década perdida”.

Resta algo a defender do Golpe?

o verdadeiro motivo dos protestos

[publicado originalmente em 15 de junho de 2013, num blogue que deixou de existir]

No fundo, as questões sobre as manifestações contra os gastos excessivos da Copa do Mundo, contra o aumento das tarifas do transporte público, contra a privatização de espaços públicos, as questões sobre o estabelecimento de cotas sociais/raciais nas universidades, os debates sobre as políticas de inclusão social e de transferência de renda podem ser resumidos a uma única pergunta:

– Qual a sua posição sobre a desigualdade social?

Porque é precisamente disso que se trata tudo isso. O Brasil é permeado pela desigualdade social e a raiz de quase todos os nossos problemas como nação está no fato de que fomos, desde o início, lá em 1500, erigindo o nosso país e a nossa sociedade usando como alicerce, como tijolos e como cimento a desigualdade social.

Desde que éramos uma colônia, ficou bem claro que as abundantes riquezas desta terra seriam destinadas a poucos. Primeiro, o território foi dividido entre poucos donos portugueses. As riquezas iam para poucos cofres europeus e os trabalhadores que se faziam necessários – fossem escravos africanos, fossem escravos índios, fossem pequenos profissionais d’além mar aqui estabelecidos – ficavam com o mínimo para garantir sua subsistência.

Os donos da terra mandavam seus filhos estudarem em universidades europeias e assim se inaugurou outra dimensão da nossa desigualdade endêmica: o bacharelismo, o culto ao ‘dotô’, a ideia de que a alta instrução é um privilégio e uma espécie de título de nobreza que dá acesso a um quinhão da riqueza aqui produzida – o que acaba deixando tudo em família, pois o ‘dotô’ veio do mesmo clã que recebeu, por direito divino, a chave do cofre da nação.

Como eram todos muito próximos, todos aparentados, os donos do poder de então (nobres-políticos, militares de alta patente, ‘dotores’ e clérigos), era-lhes muito fácil negociar e ajeitar tudo para garantir os seus interesses. Surgiu assim a nossa cultura de negociata, de clientelismo, de “eu falo com o Fulano e ele resolve pra mim”, de burlar as regras para favorecer os amigos.

Quinhentos anos depois, a situação se mantém quase a mesma. Os governantes, os donos dos meios de produção que financiam as campanhas eleitorais dos governantes, os intelectuais que pensam a nação, os promotores que acusam, os advogados que defendem, os juízes que julgam, os altos funcionários públicos que comandam o funcionamento da máquina estatal vêm quase sempre da mesma casta. Não por acaso, exatamente a casta que administrava as capitanias hereditárias no Brasil-colônia. Com algumas exceções, são quase todos brancos de classes abastadas, filhos de brancos de classes abastadas. E todos eles ajeitam tudo que for necessário para favorecer os amigos.

O dono da empresa de ônibus que recebe a concessão do Estado e presta um serviço de má qualidade, o governante que assina a concessão e depois faz vista grossa ao serviço porco e o dono da empresa de comunicação que condena quem protesta contra essa patifaria são todos oriundos da mesma classe social.

O aumento da tarifa dos ônibus a despeito do serviço de má qualidade, o superfaturamento das obras da Copa, as políticas em prol do modelo rodoviário-petroleiro, os atentados contra os direitos dos trabalhadores, o abocanhamento pelos empresários da isenção de impostos que deveria ser repassada para o consumidor via redução de preços, os discursos contra políticas de inclusão social são todos parte de um único movimento: a tentativa dos donos do país de evitar que mais gente tenha acesso ao dinheiro, ao poder e aos títulos de ‘dotô’. E esse movimento envolve o uso da força.

Os escravos não obedeciam aos senhores por conta própria. Eram domesticados pela chibata. A força sempre foi usada para manter a ordem nas senzalas e nas ruas brasileiras. Tanto a força física, dos canhões e mosquetes e fuzis e cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo, quanto a força econômica, simbólica e institucional: do discurso legitimador da mídia e dos ‘dotores’, do cerceamento dos sindicatos pelo mesmo Getúlio Vargas que fez algumas (importantes) concessões aos trabalhadores, a força do entorpecimento das massas por uma educação sucateada e pelo lixo televisivo.

A força da tropa de choque que bate em manifestantes e a força das mídias que deslegitimam as causas desses manifestantes se coadunam e retroalimentam. Eventualmente, parte da mídia pode ver que a maré da opinião pública está virando e passar a condenar, pontualmente, alguns excessos da repressão policial. Mas a defesa do que constitui o cerne da questão (a sua tentativa de manter as riquezas do país nas mãos de poucos) continuará permeando seu discurso.

As manifestações que ajudaram a derrubar o aumento do preço da passagem em Porto Alegre e as que vêm ocorrendo pelo Brasil afora mostram que estamos num grande momento: primeiro, há a canalização da indignação em forma de protesto; segundo, há um meio (a internet) de disseminação do discurso contestador.

Tomando como exemplo a manifestação de 13/06/2013 em São Paulo, que acompanhei em tempo real pelas redes sociais, fica evidente que o poder legitimador da mídia tradicional está abalado. Em poucas horas, as timelines foram inundadas por centenas de relatos, fotos, vídeos e comentários que mostravam claramente o que estava acontecendo naquelas ruas. Ninguém precisava ligar a TV para saber. Na manhã seguinte, quando os jornais impressos foram às bancas, todo mundo (que use redes sociais) já estava sabendo o que tinha acontecido. A mídia tradicional ainda é muito poderosa, mas há uma ferramenta que pode ser usada para contrapor esse domínio e disseminar um outro discurso, uma outra visão, ou outros discursos e outras visões.
As políticas de inclusão social e de ação afirmativa estão ajudando, paulatinamente, a redistribuir riqueza e acesso ao consumo, à cultura, à instrução. Mais gente está ganhando a sua parte. Os que perdem com isso são os que estavam acostumados a ficar com tudo. Eles não pretendem dividir o bolo sem luta, por isso a importância de vermos claramente que a redução da tarifa de ônibus é uma causa que se liga a diversas outras causas que no fundo são partes de uma única grande causa: a necessidade de acabarmos com a desigualdade.

A desigualdade permeia o Brasil. A corrupção, o caos na educação e na saúde, os problemas estruturais são reflexo desse abismo social. Qual a sua posição em relação a isso? De que lado você está?

P.S.: Sempre aparece alguém pra tentar desmerecer o movimento dizendo que os manifestantes que vão às ruas são apenas jovens de classe média e de classe alta, são filhinhos de papai, são playboys que não pegam ônibus, etc. O que posso dizer é: a causa é justa, a causa é plural, a causa é de todos. ‘Playboy’ que enfrenta a tropa de choque pra defender o fim da desigualdade tem lugar no meu time.

em defesa do dedo no olho

[publicado originalmente em 28 de março de 2013, num blogue que deixou de existir]

E o debate sobre o protesto contra o aumento da passagem que acabou em pancadaria em frente à prefeitura de Porto Alegre enveredou para a discussão da legitimidade da violência física — com uma pitada de crítica à suposta partidarização da manifestação.

É o velho argumento do “não vale dedo no olho”. Para o senso comum, não importa a intenção do movimento: se partiu para as vias de fato, “perdeu a razão”. Se tem bandeira de partido no meio, “perdeu a razão”. Se disse palavrão, “perdeu a razão”. Se bloqueou a rua e me fez esperar uma hora a mais para chegar em casa, “perdeu a razão”. O importante é achar o atalho mais curto para desqualificar os manifestantes e jogá-los no lixo junto com a sua causa.

Resume-se todo o conceito de “violência” à violência física. Ignorando que existe violência simbólica, violência econômica, violência institucional, condena-se, nesse cenário de várias violências, apenas a única forma de violência com que os violentados pelo sistema podem revidar — e alguns leitores dirão que eu, aqui, “perdi a razão” ao usar a expressão “violentados pelo sistema”, um clássico chavão da esquerdalha.

Outro argumento muito repetido ontem foi: “isso não vai baixar o valor da passagem”. É bem provável que realmente não baixe. Mas ficar em silêncio também não baixa, erguer faixa de protesto também não baixa, reclamar nas redes sociais também não baixa. Ontem mesmo, passando de ônibus pela Avenida Protásio Alves, li a seguinte frase pichada em um prédio: “2,70 é roubo!”. Uma pichação contra o aumento de dois anos atrás! Todo ano tem protesto e os aumentos seguem sem justificativa, o Conselho Municipal de Transporte segue funcionando alegremente a despeito de sua representatividade não corresponder à real configuração social de Porto Alegre, o transporte público da cidade continua funcionando sem licitação, as empresas continuam prestando um serviço de qualidade inversamente proporcional ao aumento da tarifa. Então, o que fazer para reverter esse ciclo de VIOLÊNCIA contra o cidadão?

Ninguém em sã consciência espera que a saída seja indolor. Os manifestantes que bloqueiam uma avenida não querem que as pessoas gostem de ficar paradas no trânsito. O objetivo é justamente causar desconforto. Eu também não gosto de ficar trancado no trânsito. Mas, quando isso acontece, a minha raiva não se volta contra os manifestantes, e sim contra os responsáveis pela violência originária que motivou o protesto: seja uma negociação salarial desfavorável aos trabalhadores, seja um aumento de R$ 0,20 no valor de uma passagem que deveria BAIXAR em vez de subir, segundo os cálculos atualizados.

Mas vivemos uma era de individualismo e fatalismo. Um tempo em que quem interfere no meu direito de chegar cedo em casa “perde a razão”, qualquer que seja a sua reivindicação. Um tempo em que ninguém se importa com a privatização ou a degeneração dos espaços públicos, pois, afinal, pra que espaço público se ninguém quer encontrar o Outro na rua e conviver com ele?

Nessa era de individualismo e fatalismo, quem se levanta contra a violência simbólica e econômica “perde a razão”, torna-se o vilão. Esquecemos a História. Esquecemos que muitos dos hoje heróis foram considerados arruaceiros em seu próprio tempo. Não sei o que acontecerá quando a nossa própria era for colocada em perspectiva pelos pósteros. Espero que não entremos para a história como “aqueles bundões do século 21”.

P.S. 1: Ontem, durante as altercações, vi, no Twitter, várias manifestações dizendo que “quebraram tudo e a Brigada Militar não fez nada”. O que queriam que a Brigada fizesse? Entre ver quebrados vidros da prefeitura e cabeças de jovens manifestantes, prefiro que se quebrem os vidros.

P.S. 2: Não estou defendendo agressão física de pessoas. Sou, apesar de tudo, um pacifista e condeno que se espanque, se torture ou se assassine qualquer pessoa, independente do lado em que ela está. Li, via Twitter, que um repórter apanhou. Se isso deveras aconteceu, foi um erro que não consigo defender.

a arte do possível – e do inacreditável

[publicado originalmente em 8 de outubro de 2012, num blogue que deixou de existir]

As eleições municipais deste domingo foram marcadas, em quase todas as cidades, por vitórias de candidatos que dividiram o palaque com apoiadores de um mosaico de bandeiras e ideologias diferentes. O fenômeno é um retrato do momento atual da política no país.

A pluralidade partidária absurda (já temos pelo menos 30 partidos registrados) obriga os governantes a se cercarem de apoiadores para garantir a tal governabilidade, aquela palavra que já virou eufemismo para tantas barbaridades.

As agremiações políticas já nem disfarçam:

— Nobre colega, eu quero me candidatar e preciso do apoio do seu partido, que me dará direito a 50 segundos a mais na TV.

— O que ganharemos se apoiarmos a candidatura de Vossa Excelência?

— Olha, pensei em dar a vocês uma secretaria…

— Qual?

— Que tal a Secretaria de Reintegração dos Sabiás com a Asa Quebrada?

— Nem pensar! O outro candidato já me ofereceu a Secretaria de Obras.

— A Secretaria de Obras por CINQUENTA SEGUNDOS DE TV? Cê tá brincando, né?

— É, tô. Mas não podia ser pelo menos uma secretaria com orçamento maior?

— Que tal a de Educação?

— Hum, é pouco. Não temos só os cinquenta segundos de TV. Certamente vamos reeleger pelo menos dois dos nossos vereadores. Esse apoio na Câmara pode ser fundamental para você. Se você me der a Educação, também vou querer cinquenta cargos de confiança para o meu partido em alguma empresa pública.

— Cinquenta??! Nem pensar. Dou vinte cargos na empresa de coleta de lixo e é pegar ou largar.

— Aceito vinte, mas só se for na empresa de emplacamento de veículos…

— Fechado!

— Me dá um abraço, meu candidato!

(Mais tarde, na foto oficial e na entrevista coletiva, ambos farão caras e bocas para dizer que coligar-se era uma opção natural, dada a comunhão ideológica e programática que os dois partidos sempre demonstraram em sua história conjunta de lutas pela democracia e blá blá blá)

Obviamente, a negociação não acaba aí. Depois que o candidato é eleito, os partidos da sua base nunca esquecerão de sussurrar no seu ouvido o preço do apoio. Às vezes, esse preço é renegociado. Votações polêmicas no Legislativo, por exemplo, podem necessitar de um adicional em dinheiro ou em cargos.

A proximidade das novas eleições sempre indica uma necessidade de rever a estrutura de alianças, já que outros candidatos também podem querer contar com os tais cinquenta segundos a mais na TV — e podem estar dispostos a pagar um preço ainda mais alto pelo apoio.

— Olha, Fulano, não sei se vamos manter a coligação na próxima eleição…

— Mas, Beltrano, eu já te dei mais uma secretaria e dezoito cargos de confiança além daqueles vinte! Já não basta?

— É que o Sicrano me ofereceu o cargo de vice na chapa dele…

— Desculpa, mas não posso dar a vaga de vice pra vocês e deixar o pessoal do PQP, que tem cinco vereadores e uma militância muito maior, sem o cargo.

— Olha, talvez a gente possa resolver isso como resolvemos aquela votação na Câmara mês passado.

— Vai querer em notas de vinte ou de cinquenta?

quero o direito de ser obrigado a votar

[publicado originalmente em 2010, em um blogue que deixou de existir]

O período eleitoral e o pós-eleitoral são sempre as ocasiões em que mais se ouvem manifestações contrárias ou favoráveis à obrigatoriedade do voto.

Creio que, se se fizesse um plebiscito para decidir a questão, os partidários do voto facultativo teriam uma vitória esmagadora nas urnas – e esse seria, muito provavelmente, o último voto de muita gente.

Para o brasileiro médio, votar é uma obrigação das mais chatas, uma imposição autoritária e opressiva que só se cumpre por medo das consequências legais. Isso é, no mínimo, estranho, se levarmos em conta que esse mesmo povo estava, há pouco mais de 20 anos, ocupando ruas e praças para exigir o direito de votar.

É assim que vejo o voto: como um direito, antes de ser um dever. Um direito que nossos antepassados não tiveram, que a geração pré-1989 teve tolhido, um direito que hoje nos é assegurado pela Constituição, mesmo que não saibamos valorizá-lo.

Afinal, por que diabos o voto é obrigatório no Brasil?

Essa história de democracia, como você bem sabe, é invenção dos gregos. Mas a democracia grega era um pouco diferente da nossa. Como disse certa vez o grande Renato Janine Ribeiro, o estado grego era como um barco em que todos remam (pelo menos, todos os cidadãos livres do sexo masculino, o que já é um avanço “evolutivo”). Já o estado brasileiro é um barco com poucos remadores e muitos passageiros. No barco Brasil, onde não se obriga ninguém a remar, o mínimo que se exige dos passageiros é que elejam os remadores.
Isso, não há como discordar, é “para o bem” (no sentido usado pelas nossas mamães) dos próprios passageiros do barco.

Como o cinto de segurança. A obrigatoriedade do uso de cinto de segurança nos automóveis é um absurdo descomunal. É como se criassem uma lei proibindo a ingestão de veneno.

Ora, as pessoas deveriam querer muito, e por conta própria, usar o cinto – que serve, como todo mundo sabe, para protegê-las. A população deveria fazer passeatas, ocupar praças e ruas exigindo o direito de usar cinto de segurança. Mas não. Para que os brasileiros usem cinto, é preciso obrigá-los. É preciso obrigá-los e cobrar multa dos desobedientes, como se criancinhas fossem.

Isso porque a tal democracia, aquela invenção dos gregos, só funciona de verdade quando os cidadãos são conscientes o bastante para saber a importância do seu voto (diga-se de passagem, a própria Filosofia-como-a-conhecemos surgiu, com Sócrates, para educar os jovens para o exercício da cidadania).

Será que tornar o voto facultativo melhoraria os resultados das nossas eleições? Os americanos não são obrigados a votar e elegeram Bush. Duas vezes (ou uma, se o Michael Moore estiver certo na sua contagem).

Será que tornar o voto facultativo melhoraria a compreensão da cidadania pelos boçais que ainda não entenderam o alcance e a necessidade do seu voto? Com certeza, não.

Acredito que o menos pior seja continuar obrigando os passageiros do barco a escolher seus remadores, e fazer o que for preciso para que eles entendam que esse dever é “para o seu bem” – mas que se faça isso de um modo realmente eficaz, e não com essas propagandas excessivamente abstratas e pretensamente artísticas da Justiça Eleitoral, que só são compreendidas por aqueles que menos precisam ser conscientizados.

BONUS TRACKS:

Um dos argumentos usados pelos partidários do voto facultativo é o de que o fim da obrigatoriedade moralizaria os pleitos e reduziria a corrupção. Pois eu digo que o voto facultativo poderia, em se tratando de Brasil, facilitar e incentivar a corrupção.

Os candidatos precisariam de menos votos para se eleger. Isso, para começo de conversa, baixaria os preços do mercado de compra e venda de votos. Além disso, com menos gente votando, ficaria mais fácil para os corruptos fiscalizar os votos dos eleitores que lhes vendessem a alma. Bastaria colocar um jagunço cabo eleitoral em cada seção, anotando o número de votantes (ou até os nomes) e depois conferir a quantidade de votos computados em cada urna.

Petistas também costumam defender o voto facultativo por acharem que a mobilização dos seus militantes e simpatizantes lhes garantiria vitórias esmagadoras nas urnas. Isso poderia não ser bem assim, primeiro porque o entusiasmo pelo PT decaiu muitíssimo depois que se viu que o partido é apenas um PSDB melhorado. Segundo,porque a direita e o centrão não são tão desmobilizados quanto imaginam os esquerdistas. Que o diga o socialista Lionel Jospin, que perdeu a chance de ser presidente da França (onde o voto é facultativo) porque os seus eleitores preferiram curtir um feriadão de sol a comparecer às urnas.
Terceiro, porque sempre cabe a perguntinha: o que é maior, a capacidade de mobilização dos bons ou a verba de campanha dos maus?

Mas o melhor argumento que já ouvi a favor do voto obrigatório foi apresentado por um professor de Ciência Política cujo nome esqueci. Disse ele que temos, num país tão vasto, diversos tipos de voto: o voto consciente, o voto útil, o voto nulo, o voto branco, o voto de protesto, o voto comprado, o voto de gratidão etc. E o sistema que melhor equilibra todos esses tipos de voto é o obrigatório. O voto facultativo desequilibraria a relação entre os eleitores que praticam cada uma dessas modalidades e, com isso, o resultado seria menos fiel ao desejo do conjunto da população.