Extremistas do mundo, desuni-vos

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Teve repercussão (até agora, 221 comentários) a publicação, no Youtube, do vídeo “Pollyshop – Kit Left Revolution” – uma paródia daqueles deliciosos comerciais de quinquilharias vendidas por telefone. O produto oferecido é um kit para virar comunista.

Nem preciso dizer que adoro idéias do gênero – tanto de direita quanto de esquerda.

Mas algumas pessoas levaram a coisa toda a sério e iniciaram uma discussão sangrenta. O Flávio Aguilar, por exemplo, assumiu a defesa da esquerda mundial e tornou-se o centro da polêmica, enfrentando praticamente sozinho uma falange de liberais.

Obras desse tipo são uma armadilha. Qualquer que seja a sua opinião sobre elas, você sempre será enquadrado em algum “ismo”. Você será sempre um dos outros.

Tropa de Elite, por exemplo. Quem gostou é fascista, quem não gostou é maconheiro. No caso de Pollyshop – Kit Left Revolution, quem gostou é lacaio do capital espoliativo internacional, quem não gostou é comunista-de-apartamento, e por aí vai. Os chavões são muitos, de ambos os lados.

A moral da história não é que todos os esquerdistas são vagabundos sonhadores ou que todos os direitistas são insensíveis mal-intencionados, mas sim que os seres humanos podem ser uns escrotos, quando deixam de usar aquela coisinha supérflua chamada razão.

Sim, é muito charmoso ser de esquerda. Milhares de jovens de classe média adoram posar de conscientes, defender a socialização da propriedade dos outros, fazer discurso contra tudo enquanto matam aula pra jogar sinuca.

Sim, é muito cômodo ser de direita. Usar “argumentos” darwinistas e supostamente realistas é uma boa pedida para justificar o próprio egoísmo. Transformar indiferença em “pragmatismo” é mais que um mero malabarismo lingüístico (vou sentir saudade do trema). É má-fé.

Agora é a hora em que o Ivalino me pergunta: Eduardo, afinal, de que lado tu estás?

Acho o vídeo perfeito para descrever vários comunistas-de-apartamento que conheci na faculdade e nos botequins da vida (claro que um filme semelhante poderia ser feito para satirizar o outro lado, os egoístas travestidos de pragmáticos).

Se eu participasse do debate no fórum do Youtube, eu não xingaria a mãe do Lênin nem a vó do Bush, como muitos fizeram, mas elencaria duas ou três coisas em que acredito:

- Existe, sim, a luta de classes. Mas não no sentido proposto por Marx. O barbudo achava que os proletários queriam acabar com os patrões por quererem a igualdade entre as gentes. Ledo engano. O que os proletários querem é assumir o lugar dos patrões.

- Não haverá uma revolução comunista no Brasil. E, provavelmente, em nenhum outro lugar. A burguesia aprendeu que é fácil deixar um pobre contente. Basta dar-lhe um celular com câmera e um programa Big Brother para comentar.

- Esse papo de “construa escolas ao invés de presídios” não funciona. Não devemos contrapor repressão x educação. O que precisamos é nos dar conta de que a repressão educa. Uma sociedade com muitas escolas e nenhum presídio acabaria virando um inferno, mais ou menos como o Brasil, onde as escolas não ensinam e os presídios são a Casa da Mãe Joana. Mesmo uma pessoa bem educada precisa obedecer regras e sofrer punições quando ultrapassa os limites.

- Matar aulas para ir beber no bar da Tia Vilma não vai ajudar os necessitados do mundo. E nem melhorar a universidade pública. Se você está revoltado com as injustiças do mundo, estude, progrida no seu emprego,  conquiste uma posição de destaque pra fazer a diferença. As pessoas ouvirão com muito mais atenção o que você tem a dizer se você lhes parecer digno de atenção.

- Se greves ainda servissem para alguma coisa, os professores gaúchos seriam milionários.
Há que se buscar outros instrumentos para atrair a atenção da sociedade para os problemas dos trabalhadores. Instrumentos que façam o cidadão comum dizer “Bah, os professores merecem ser mais valorizados” ao invés de “Esses professores são mesmo uns vagabundos. Se EU fizer greve, sou demitido”.

[o post foi atualizado]

  1. “Acho o vídeo perfeito para descrever vários comunistas-de-apartamento que conheci na faculdade e nos botequins da vida (claro que um filme semelhante poderia ser feito para satirizar o outro lado, os egoístas travestidos de pragmáticos).”

    A idéia pode ser interessante, mas o vídeo ficou muito mal-feito – mesmo em termos de Fabico.

    O que assusta não é o vídeo, e sim a abilolação geral dos comentários a respeito, que foi o que realmente me motivou a ir lá fazer barraco (motivação que já passou…).

    Mas, mudando de assunto, belo texto… E concordo em 99,9% do que falaste (meu deus, o que está acontecendo?)

    Abs

  2. tche, mas tu ta reacionario…
    hehehehe

  3. Caro Eduardo,

    Só para constar: essa postagem em particular está linkada no meu blog.

    Um abraço!

  4. Ivalino Scanagata

    A repressão educa tanto que, a partir de 64, conseguiu eliminar centenas, ou milhares de pessoas,na América Latina…

  5. Eduardo

    Kinch, obrigado pela citação.

    Iva, claro que exageros são ruins em qualquer situação. Não defendo ditaduras; apenas a punição da barbárie.

    Mas imagine que tipo de pessoa tu serias se os teus pais tivessem te permitido tudo. Se nunca te tivessem dito “não”, se nunca tivessem te dado uma chinelada ou duas.

    Achas que os suíços respeitam as leis porque são cordatos e educados? Sim, eles são educado são. Mas por que eles ficaram assim?

    Vai até a Suíça e quebra um terminal de ônibus, pra ver o que te acontece. Pra ver como os policiais serão gentis contigo.

  6. Ivalino Scanagata

    Explicado. Concordo contigo plenamente. Apenas que o termo repressão soa a cheiro de farda e, os brasileiros que viveram isso, só eles sabem o que seja. E, às vezes, tenho de ouvir alguns inbecis dizerem que os militares deveriam voltar.
    Na questão de educação, concordo em tudo contigo. Quanto a mim, não foram nem duas, nem dez chineladas para aprender ( aprender em todos os sentidos). Nem por isso guardo qualquer mágoa de meus pais ou tive de ir ao psicólogo. Por outro lado, acho que nós ( digo a minha geraçao) demos “mole” demais aos nossos e, hoje, os vemos fazer o que querem. Parece que só conhecem a lista dos direitos. ( É isso aí, caro colega. No mais, um excelente 2009 para você e continue a nos brindar com teus textos de qualidade que é tua marca.)

  7. Demétrio Rocha Pereira

    Texto primoroso. Além de tudo o que já foi exposto, o marxismo ortodoxo contemporâneo está defasado. Não há mais como dividir a sociedade entre burgueses e proletários – esses últimos não são mais nem classe para si, nem classe em si. Onde estão os operários? Se Marx estivesse vivo, faria uma leitura de mundo completamente diferente daquela dissecada n’O Capital’, obra fundamentalmente baseada na exploração da força de trabalho pela indústria pesada emergente. Mas quem é, hoje, operário? As próprias greves, dentro de uma mesma categoria, de uma mesma empresa, dividem funcionários entre grevistas e “pelegos”. O capitalismo já deu o seu jeito de abafar as vozes que contra ele se erguiam. Esse sistema é atraente demais, humano demais. A consolidação de uma época hedonista traz contradições como a de pregar o comunismo através do navegador Mozilla Firefox, com a ajuda do Windows Live Messenger, em sites de relacionamento patrocinados pelo Google. Não há oposição que aguente.

  8. Pier

    Ridículo o comentário de alguns analfabetos massa de manobra lullista/petista que aparecem sempre para defender o indefensável: a corja esquerdista do “quanto pior melhor”, lideradas pelo canalha-mor Lulla da Selva, esse filho bastardo da ditadura militar (?) que ajudou a afundar o país na década de 80 para poder chegar ao poder. Só não vê quem não quer. Bom, Eduardo, o que posso dizer é o seguinte: largamãodesertucano e sai de cima do muro!!!! hehehehe.

    Abs.

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