[Sim, o editor do blogue sabe que este post é um forte candidato à medalha de ouro na modalidade Faísca Atrasada]
“Infeliz do povo que precisa de heróis”, escreveu certa vez o muito citado e pouco lido Bertolt Brecht. Os Jogos de Pequim já caíram, é claro, no fosso sem fundo do esquecimento, mas ainda há tempo para dizermos duas ou três palavras sobre o fiasco baixo rendimento dos atletas tupiniquins na competição, principalmente porque isso tem tudo a ver com o motivo do nosso fracasso como nação. ***
Sabem o que é preciso para ganharmos medalhas de ouro, prêmios Nobel, Oscar, Grammy, o diabaquatro? Temos que silenciar, urgentemente, Galvão Bueno, Pedro Bial, Faustão, Fátima Bernardes, Tino Marcos e qualquer outra pessoa que use um microfone para exaltar o heroísmo dos brasileiros.
Demitam essa gente, demitam seus chefes, interditem as empresas de comunicação em que trabalham, queimem suas sedes e espalhem sal nas ruínas se preciso, mas, por favor: PAREM DE CONTAR HISTÓRIAS MELOSAS E NOJENTAS PIEGAS SOBRE OS “NOSSOS HERÓIS”.
É sempre a mesma coisa. Fulano é pobre, ninguém o ajuda, ele tem que vender bala de goma no semáforo pra poder treinar, etc, mas se supera e vai a Pequim. Ganhou medalha? Um herói! Não ganhou? Um herói!
Ou então, Fulana não tinha ninguém por ela, era pobre e marginalizada, até que um Amigo da Escola a ensinou uma profissão, e hoje ela consegue sustentar seus sete filhos com o dinheiro das rapaduras que vende. Uma heroína! Um exemplo de superação! E você, já agiu com heroísmo hoje?
Temos que acabar com esse mito, com essa quimera, com essa merda fábula entorpecente do herói, se quisermos melhorar alguma coisa no nosso quadro de medalhas e, principalmente, na nossa sociedade.
Heróis não ganham medalhas (ou ganham raramente), não descobrem a cura do câncer, não constroem uma nação da qual alguém possa se orgulhar.
Durante a Olimpíada, falou-se muito, muitíssimo, mas muito MESMO em Michael Phelps, o atleta mais fodão vencedor da História. Alguém o chamou de herói? Eu não li uma linha, não ouvi sequer um sussurro sobre o heroísmo de Phelps. Sabem por quê? Porque ele não é um herói. É um atleta bem alimentado, bem assessorado, bem treinado e, por isso, bem pago e bem premiado.
Os países que ganham medalhas de ouro, dinheiro, prêmios científicos e menções nos centros de registros de patentes não são os que têm mais heróis, mas sim os que investem pesado em esporte, educação, emprego, saúde, cultura, redução da desigualdade social.
Não é só uma questão de dinheiro; é uma questão de concepção, de visão-de-mundo. Só quando explodirmos o mito podre do “Sou brasileiro e não desisto nunca” é que as pessoas vão cobrar dos governos medidas estruturais eficazes e racionais para acabar com o heroísmo as dificuldades que se colocam entre o nosso povo e o sucesso.
*** E se você é daqueles que vai dizer que não somos um fracasso como nação, você ou não é brasileiro ou tem uma noção de fracasso bem diferente da minha.

Parabéns pelos dois textos: o do Fausto e das Olimpíadas. Há muito tempo aprendi a admirar Fausto em seus cometários diários num canal de televisão que não lembro. Sobre os Jogos Olímpicos, congratulo-me contigo: comungo com tua indignação.
Também não posso deixar de registrar, a bem da verdade, que O ATUAL GOVERNO FEDERAL ( LULA), ESTÁ PROPONDO QUE OS LUCROS DAS NOVAS DESCOBERTAS DE PETRÓLEO SEJAM USADAS PARA MELHORIA NA EDUCAÇÃO E COMBATE À POBREZA. BEM DIFERENTE DE OUTROS QUE SEMPRE PENSARAM, EM PRIMEIRO LUGAR, NA “TAL DE INICIATIVA PRIVADA”. NADA MAIS JUSTO, PORTANTO.
[...] citei o Brecht em outro post, sobre o mito dos heróis olímpicos que não ganham nada, mas agora peço licença ao [...]
Links da semana – 10….
Os heróis de Pequim, do periscópio. Texto escrito após o fim das olimpíadas de Pequim, em 2008. Mostra como o fiasco…