
Os sindicalistas gaúchos são mesmo muito burros. São de uma estupidez tão gritante que conseguem agir estupidamente até quando têm uma ideia genial. Um exemplo disso foi amplamente divulgado ontem: um protesto nada convencional contra a governadora do RS, Yeda Crusius.
Durante vários dias, os cidadãos porto-alegrenses viram provocantes outdoors espalhados pela cidade. Os cartazes continham um rosto desfigurado e a seguinte mensagem: “Dia 12, descubra o a face da destruição no Estado”, ou algo parecido. É desnecessário dizer que tal campanha atiçou a curiosidade dos cidadãos e motivou intensos debates sobre a autoria do protesto e sobre quem seria o “dono” do rosto exibido nos outdoors.
Well, o dia 12 chegou e as suspeitas de muitos foram confirmadas: era uma campanha contra a governadora Yeda Crusius, capitaneada pelo Cpers (sindicato dos professores) e outras entidades sindicais ligadas aos servidores estaduais. E é aqui que eu repito: que gente burra!
Sempre fui um crítico das greves e de manifestações do estilo “Vamos trancar o trânsito”. Sou contrário a esses métodos de reivindicação unicamente porque eles não funcionam mais e, ao invés de angariar simpatizantes para a causa, aumentam a rejeição ao movimento.
O Ivalino vai discordar, mas manifestações a la 68 perderam o sentido, pelo menos no Brasil, e especialmente quando envolvem servidores públicos. Pergunte ao cidadão comum o que ele pensa de funcionários públicos que paralisam serviços essenciais ou que interrompem o fluxo de veículos. Por mais nobre que seja a causa (e ela é), ninguém gosta de ficar em filas, de perder tempo ou de ficar parado no trânsito. Por isso, a população se volta, via de regra, contra os grevistas e não contra o governo.
Defendo formas mais criativas e conscientizadoras de reivindicação. Uma destas possibilidades foi explorada (muito mal) no protesto contra a governadora. A ideia em si é genial: outdoors com teasers, exibidos por vários dias consecutivos, culminando num grande ato em que o sentido da campanha é revelado.
Seria um protesto com consequências muitíssimo benéficas para todos, se os responsáveis pelo movimento não tivessem estragado tudo. Lendo (por exemplo, em comentários nesta matéria) ou ouvindo as reações dos cidadãos à manifestação, percebemos o quão tolos são os organizadores da campanha, que desperdiçaram uma ótima chance de serem vistos e ouvidos.
O que aparece no outdoor?
O rosto de Yeda, acompanhado da frase Esta é a face da destruição do Estado. Este foi um erro crasso. O que diz, de concreto, esta frase? Nada. N-a-d-a. É uma acusação infantil, raivosa e maniqueísta, tão típica dos gaúchos. Algo do tipo “Somos contra a Yeda porque ela é feia, boba e malvada”. Isso é absurdo.
No RS, um Estado profundamente marcado pela polarização, frases do tipo devem ser evitadas ao extremo. Qualquer coisa que dê margem à vitimização do oponente deve ser descartada. Agora, muitíssimos acusam os sindicatos de promover ataques gratuitos, pessoais, ofensivos. Os manifestantes conseguiram transformar em vítima o alvo do seu protesto.
Graças à burrice dos líderes sindicais, as pessoas esqueceram o conteúdo do protesto (bem, os próprios autores da campanha esqueceram), para se concentrar na forma.
O que deveria estar no outdoor?
Todos sabem que não se poderia colocar o rosto de uma única pessoa no cartaz – que os culpados pela “destruição” do RS são muitos. Personalizar a campanha é um desastre para os resultados visados. Ao invés desta acusação raivosa e desta frase-lema que nada diz, por que não expor a pauta de reivindicações nos outdoors, de forma criativa?
Por exemplo, Yeda se orgulha de ter acabado com o déficit do Estado. Por que não explorar isso na campanha? Dizendo, por exemplo, que a governadora conseguiu zerar o déficit fazendo coisas como fechar 105 escolas estaduais. Repetindo: a mulher fechou 105 escolas estaduais. Por que não dizer que os professores estaduais ganham menos de R$ 500 por mês, um dos salários mais baixos do Brasil? Por que não dizer que Yeda fez campanha contra o aumento do piso dos professores e, em seguida, aprovou um aumento de 143% para si mesma, sem contar o aumento dos secretários estaduais?
Por que não dizer à população que os professores são obrigados a aprovar alunos sem condições, só para manter em alta os índices? Por que não dizer que os policiais gaúchos arriscam a vida pelo salário mais baixo do Brasil? Por que não dizer que há batalhões da Brigada Militar que contam com apenas uma viatura para patrulhar vários bairros, e que essa viatura nem sempre funciona?
Outros rostos
Outro problema da personalização do protesto é que… Yeda não é a única culpada. Que outros rostos poderiam aparecer nos outdoors? Que tal os dos governadores anteriores, que pouco ou nada fizeram pelos servidores estaduais? Que tal os rostos dos governadores que quebraram o Estado? Que tal os rostos dos servidores estaduais que ganham super-salários? Ou os rostos dos que desviam recursos públicos impunemente? Que tal os rostos dos idealizadores e apoiadores do Instituto de Previdência do Estado, um saco sem fundo cheíssimo de gaiatos mamando tranquilamente nas gordas tetas governamentais?
Por que não colocar também os rostos de Sarney, Collor, Itamar, FHC e Lula? Eles e suas equipes também são culpados por muitas mazelas da Educação. Lula, por exemplo, se orgulha dos índices educacionais brasileiros, mas os professores sabem que mais da metade dos alunos que saem do Ensino Fundamental são analfabetos funcionais.
O que quero dizer é que a questão da “destruição” do Estado é muito mais ampla do que a guerra pessoal contra Yeda, e não se resolve com acusações infantis do tipo “ela é a culpada por tudo.”
Mais uma vez, nada muda.
Que papelão.