
Até um porco capitalista pode dizer a verdade de vez em quando, para escândalo do Ivalino.
Uma das máximas liberais cujo sentido mais aprecio é “Não existe almoço grátis”. A frase explica perfeitamente um aspecto fundamental da natureza humana: a necessidade que temos de recompensas palpáveis pelo nosso esforço.
Apesar do que apregoam os comunistas de apartamento e os pedabobos nefelibatas pedagogos progressistas, não podemos basear um projeto de nação na boa vontade das pessoas.
Para começarmos a pensar em mudar a sociedade, temos que ser pragmáticos, seguir o bom exemplo de Hobbes e Maquiavel (sim, eles têm um lado bom) e tomar as coisas e as pessoas como são, não como deveriam ser. E as coisas são assim: as pessoas gostam de ser bem pagas, valorizadas e reconhecidas pelo seu trabalho, e é justamente por isso que os melhores cérebros do mercado estão nas empresas/instituições que sabem disso. Também é por isso, entre outros fatores, que a utopia socialista jamais deixará de ser uma utopia.
Isso nos leva a outro conceito liberal odiado pelos soi disant humanistas: a meritocracia. Desde crianças, nossos pais nos premiam quando fazemos as coisas certas e nos punem quando agimos mal. Nas poucas escolas que ainda ensinam alguma coisa, só é aprovado quem aprende. No vestibular, nos concursos públicos, nas seleções sérias de emprego, são escolhidos apenas os que obtêm os melhores resultados.
Na natureza, somente os espécimes mais adaptáveis, mais versáteis, mais astutos e/ou mais fortes conquistam o privilégio de passar seus genes adiante. Pombas, até o Deus dos cristãos é fã da meritocracia: só vão para os céu os que provarem que merecem.
Então, por que raios os comunistas de apartamento e pedagogos demonizam tanto o oferecimento de recompensas?
(Foi uma pergunta retórica. Depois da pausa para pensar, podemos voltar ao post)
Por que mesmo essa logorréia toda? Para compartilhar com meus seis leitores o meu estarrecimento ao ler esta notícia (isso é um link, Ane. Clique nas palavras sublinhadas em azul para ler o texto indicado): Começa a construção de casas da nova Vila Dique.
Como vocês bem sabem, o prefeito de Porto Alegre, José Fogaça, dá prosseguimento à desatrosa política petista, que funciona assim:
1) As vilas clandestinas surgem, ao natural, e tornam-se bolsões de miséria e criminalidade, muitas delas em bairros nobres.
2) Essas “comunidades” (falta muito para serem comunidades de verdade, mas isso é tema para outro post) tornam-se um problema que precisa ser resolvido.
3) A prefeitura, depois de muita conversa fiada, constrói belas e pitorescas casinhas populares, às vezes no mesmo lugar onde antes ficava a vila clandestina.
4) As casas são geralmente dadas (no sentido de doadas, presenteadas, entregues de mão beijada, grátis, de graça) aos moradores da ex-vila clandestina.
5) Dois anos depois, as casas originalmente tão bonitinhas estão depredadas, pichadas, desfiguradas por puxadinhos, algumas foram parar nas mãos de traficantes. Assim, as vilas populares acabam se tornando novamente bolsões de miséria e criminalidade (para ver um exempli gratia, clique aqui)
Dia desses, eu escrevi que preciso voltar para casa do trabalho em um carro da empresa, por causa da insegurança. Tudo porque existe, no trajeto, uma dessas vilas populares: a Vila Lupicínio Rodrigues, encravada no bairro Menino Deus. Os petistas acreditavam que, doando aos pobres belos sobradinhos com paredes de mosaico, suas vidas mudariam para sempre. Fogaça, pelo visto, também acredita.
Quem duvida da ineficácia dessa política, que experimente passar à noite próximo das vilas Planetário, Chapéu do Sol, Cidade de Deus e tantos outros belos exemplos de como não humanizar os menos favorecidos.
Primeiro: não basta dar casa aos pobres. A miséria também é cultural. Minha vizinha, assistente social, conta que já viu pessoas ganharem uma casa com banheiro sem saber usar uma privada. Resultado: um banheiro cheio de merda pelo chão. Também já viu janelas de madeira sendo usadas como lenha. A política habitacional, para funcionar, deve andar der mãos dadas com políticas educacionais, culturais, de emprego.
Segundo: as casas não podem, em hipótese alguma, ser dadas. Que espécie de lição as pessoas tiram disso? Como isso as educa? Assim, elas aprendem que não é preciso lutar pelas coisas, que a esmolagem é um estilo de vida, que basta ocupar um terreno baldio para ganhar uma casa de R$ 34,5 mil. Mesmo que se cobre R$ 5 por mês, ou a prestação de serviços comunitários, algum tipo de contrapartida deve ser exigido.
Vivemos num regime de divisão social de trabalho. Devemos educar as pessoas para a ajuda mútua, para a troca de valores materiais e simbólicos, e uma troca em que apenas um dos lados é beneficiado deixa de ser uma troca.
Eu tenho dois empregos e ainda não consegui comprar o meu apartamento. Isso me faz pegar uma bandeira e exigir que me deem uma casa de graça? Não, porque eu sei que não existe almoço grátis, e também sei que só serei recompensado se fizer por merecer.